terça-feira, 13 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (XI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 13/10/09

Um outro Jesuíta que, um pouco posteriormente, se ocupou do Brasil, foi o Padre Fernão Cardim, terceiro Provincial da Companhia nessa região. É Autor de três tratados, Do Clima e terra do Brasil e de algumas cousas notaveis que se achão assi na terra como no mar, Do Principio e Origem dos Indios do Brasil e Narrativa Epistolar, posteriormente reunidos num só volume, Tratados da terra e gente do Brasil. [...]

As que para nós têm mais interesse são esta e a Narrativa Epistolar.

Apesar dos seus tão falados costumes de matar os contrários e comer carne humana, os Índios aparecem nestas obras a uma luz bastante favorável. Em primeiro lugar é elogiada a sua liberalidade [...]

Posição já muito diferente quanto aos Índios tem o Padre Simão de Vasconcelos. Refere-se aos mesmos factos que Cardim, mas dá maior relevo aos desfavoráveis. Se reconhece que «são liberaes, engenhosos, magnanimos, e davidosos», também diz que «vivem a maneira de feras selvagens montanhesas; nem seguem fé, nem lei, nem rei, pela qual razão faltam na sua lingua F. L. R.».

[...]

Importa agora salientar que os testemunhos destas figuras principais que apontamos não se encontram isolados, mas sim enquadrados num conjunto. Há dezenas de outros Jesuítas que, trabalhando no Brasil e escrevendo para a Europa, nos deixaram indicações que vêm confirmar o que Nóbrega, Anchieta, Cardim e Simão de Vasconcelos disseram. Essas cartas, assim como algumas destes Autores que citámos, publicadas em várias colectâneas como Cartas Jesuíticas, Novas Cartas Jesuíticas e Cartas Avulsas, foram agora reunidas numa só obra, Monumenta Brasiliae, por Serafim Leite, S. J..

As referências destas cartas aos Índios do Brasil são pouco extensas.

Mostram-se uns Autores desfavoráveis aos indígenas, outros favoráveis, mas nada acrescentam ao que disseram aqueles cujas obras analisámos. Têm, no entanto, o interesse de, em conjunto, confirmarem toralmente os factos apontados pelos Autores a quem dedicámos particular referência.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 51 a 54

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (X)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 12/10/09

Ao Padre Manuel da Nóbrega sucedeu, como Provincial da Companhia no Brasil, o Padre José de Anchieta, seu digno continuador na acção de converter «estes pobres Índios que tão tiranizados estão do demónio».

Pede continuamente para a Metrópole o envio de mais Padres e Irmãos, tendo visto igualmente o grande alcance dos colonizadores leigos, quando conscientes das suas responsabilidades.

Vai entretanto falando das condições da terra e do modo de vida dos seus habitantes. Na Informação do Brasil e suas Capitanias, depois de se referir às Capitanias e ao seu carácter histórico-geográfico, assim como aos colonizadores, governadores, bispos e jesuítas de cada uma delas, ocupa-se dos costumes dos Brasis. É curioso o texto em que narra a honra que tinham de matar grande número de «contrários»:

«Naturalmente são inclinados a matar, mas não são crueis: porque ordinariamente nenhum tormento dão aos inimigos, porque se os não matam no conflito da guerra, depois tratam-os muito bem, e contentam-se com lhes quebrar a cabeça com um pau, que é morte muito fácil, porque às vezes os matam de uma pancada ou ao menos com ela perdem logo os sentidos. Se de alguma crueldade usam, ainda que raramente, é com exemplo de Portugueses e Franceses».

Não deixa de ser interessante este comentário, que coloca os Índios num plano superior aos Europeus, mesmo naquilo que viria a constituir um dos principais, senão o principal obstáculo ao tema do «bom selvagem»; facilmente se concebe o gosto que sentiriam alguns escritores do século XVIII ao ler um texto deste género.

Um pouco mais abaixo diz ainda:

«O que mais espanta aos Índios e os faz fugir dos Portugueses, e por consequência das Igrejas, são as tiranias que com eles usam, obrigando-os a servir toda a sua vida como escravos, apartando mulheres de maridos, pais de filhos, ferrando-os, vendendo-os, etc., e se algum, usando de sua liberdade, se vai para as igrejas de seus parentes que são cristãos, não o consentem lá estar, de onde muitas vezes os Indios, por não tornarem aos seu poder, fogem pelos matos, e quando mais não podem, antes se vão dar a comer aos seus contrarios».

[...]

Podemos considerar Manuel da Nóbrega como antecessor de Anchieta, devido ao seu Diálogo. Os autos do segundo são, no entanto, bastante diferentes deste. São em verso, não se limitam a pôr em cena duas personagens e, sendo muito menos conceituosos, prestavam-se a uma acção mais imediata. Aliás, só com Anchieta estas composições se fixaram definitivamente.

De todos esses autos, grande número perdeu-se e outros chegaram até nós anónimos. Quanto ao Padre José de Anchieta, sabe-se que é autor do Auto de S. Lourenço, Na festa do Natal, Na Visitação de Santa Isabel, Na Vila de Vitória, publicados em edição crítica com traduções dos fragmentos em tupí, por Maria de Lourdes de Paula Martins.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 48 a 50

domingo, 11 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (IX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 09/10/09

O que notamos já nestes textos é uma atitude diferente daquela dos primeiros exploradores e viajantes.

O interesse pela conversão do gentio, já manifestado por Caminha, torna-se aqui o ponto fundamental, a constante de pensamento do Padre Manuel da Nóbrega.

Os costumes dos indígenas interessam portanto não já apenas em si mesmos, como curiosidade, mas na medida em que se opõem à religião católica, e é sobretudo na intenção de fazer conhecer aos membros da Companhia, que se encontravam na Europa, as dificuldades do seu ministério, que Nóbrega os descreve. De princípio entusiasma-se com a facilidade com que aceitam tudo o que lhes ensinam –

«Ho Irmão Vicente Rijo insina ha doctrina aos minimos cada dia, tambem tem escola de ler e escrever; parece-me bom modo este para trazer os Indios desta terra, hos quais tem grande desejos de aprender e, perguntados se querem, mostram grandes desejos. Desta maneira ir-lhes-ey insinando as orações e doctrinando-os na fé até serem habiles para o baptismo. Todos estes que tratam connosco, dizem que querem ser como nós».

- mas em breve reconhece que, se acatam facilmente os ensinamentos que lhes ministram, nem por isso abandonam os seus costumes e são igualmente crédulos para com tudo o que lhes queiram dizer.

Apesar de todas as contrariedades, Manuel de Nóbrega não perde a coragem. Está bem firme na crença de que é possível a conversão dos Índios, e essa convicção reflecte-se precisamente no Diálogo sobre a Conversão do Gentio (1556-1557), um dos documentos mais interessantes desta época.

O diálogo trava-se, hipoteticamente, entre os irmãos Gonçalo Alvarez e Mateus Nogueira. Censuram primeiro a antropofagia dos Índios, a sua falta de governo (rei) e de religião; mas pior do que tudo é serem inconstantes. [...]

Em resumo: chegou-se, em primeiro lugar, à conclusão de que os Índios são homens como todos os outros, possuidores de uma alma e, portanto, capazes de se converterem. E se esses selvagens são tão «bestiais» enquanto os europeus são «políticos e avissados», isso depende única e simplesmente das condições em que foram criados. São, portanto, na sua essência, iguais a todos os outros homens, deles diferindo apenas por circunstâncias exteriores.

No que respeita ao caso particular da sua conversão, pesando as vantagens e desvantagens que possuem em relação aos Europeus, chega-se à conclusão de que são no fundo mais fáceis de converter do que os civilizados.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 44 a 48

sábado, 10 de outubro de 2009

António de Oliveira Salazar. Humberto Delgado

via universidade de Gil Gonçalves em 10/10/09

Fernando Correia da Silva. Quem controla os cadernos eleitorais e as mesas de voto ainda somos nós. "Daqui não saímos, nem a tiros, nem a votos".

Se fossem apenas operários e escreventes a rosnar, com essa gentinha podia eu... O pior é que já começam a surgir brechas na União Nacional e no Estado.

http://www.vidaslusofonas.pt/salazar.htm

Henrique Galvão, que foi dos meus, descambou de vez para o "reviralho". Começou por alinhar com o Quintão Meireles e agora, ao lado do Cunha Leal (aquele do Cerejeira de antigamente), rosna que há compadrio dos grandes grupos financeiros com muitas das autoridades civis do meu regime. A Censura corta mas sei que, no fundo, têm razão; o dinheiro não tem cheiro, por baixo do pano impossível é deter o seu fluxo.

Também oficiais formados na América pela NATO, entre eles o Humberto Delgado (outro que foi sempre dos meus), começam a morder o Santos Costa, o meu sempre fiel Ministro da Guerra. Dizem que o aparelho militar português é arcaico e é urgente renovar as Forças Armadas, também a sociedade portuguesa. E até o Craveiro Lopes, o meu Presidente da República, parece que lhes dá ouvidos... O Craveiro não pode ser candidato à reeleição, e tenho dito! Saudades do velho Carmona...

Até o Marcelo Caetano (que foi o meu Comissário da Mocidade Portuguesa, e o meu Ministro das Colónias, e o meu presidente da Câmara Corporativa e é o meu Ministro da Presidência desde 1955) faz conluio com os seus ex-alunos que já ocupam lugares cimeiros nas grandes empresas. Parecem todos apostados em renovar o regime, mas por dentro. Não me atacam frontalmente, tentam é dissolver-me. Quererão fazer hoje comigo, o que ontem eu fiz com o Rolão Preto? Enganam-se, sou um osso muito mais duro de roer...

Tudo muda e é-me difícil travar a mudança. Eu queria que muitas e muitas famílias portuguesas lavrassem as terras da nossa África, nisso investi. Assim fiz na Cela e em Matala, em Angola. Assim fiz no vale do Limpopo, em Moçambique. Até grandes barragens eu mandei construir, a de Cambambe em Angola e a de Cabora-Bassa em Moçambique. Porém, selvagens ignorantes, que se diziam donos da terra, passaram a hostilizar as famílias portuguesas. Muitas, talvez a maior parte, acabaram por desertar para as cidades. Assim desandam as colónias... A Guiné, hoje, é mais uma colónia da CUF do que uma colónia de Portugal. O mal é estar eu aqui tão longe. Viajar não me apetece, de Lisboa a Santa Comba já me cansa, quanto mais a Bissau, Luanda ou Lourenço Marques... Tivesse eu o dom da ubiquidade e tudo seria diferente.

Tenho sonhado muito com a Christine Garnier, não sei porquê. Ou talvez saiba, é esta minha ânsia de interregno, a minha loira e decidida francesinha, jornalista que em 1951 veio para me entrevistar e acabou por me aquecer a cama e a alma... Para fugirmos à mal-encarada vigilância da Maria, até fomos para Santa Comba passar férias. Também porque a minha governanta, muito sovina, só lhe dava carapaus grelhados, umas vezes com batatas, outras com arroz de grelos...

Estou cansado, saudades tenho do antigamente. Estou preso às ideias do passado, sinto vontade de me ir embora, não me dou com a nova mentalidade, isto é só para safados.

No horizonte não vejo mais o barquinho. Terá sido engolido pelas ondas?

DELGADO

Volto a sentar-me e a cadeira quase se desmonta. Vou mandar arranjá-la. Não substituí-la, que eu nada desperdiço, tudo aproveito.

Os ingleses, finalmente, parecem apoiar o meu regime, embora aconselhem que o liberalize. Em 1957 mandam a rainha Isabel II a visitar-nos. Ela trata com excessiva deferência o Craveiro Lopes. Bem entendo os ingleses, papas e bolos para enganar os tolos... Mas não, já disse que não, o Craveiro não! Recuso a infinita gama de cinzentos, essa é armadilha do Diabo. Para mim é branco ou preto, o Bem ou o Mal. O meu candidato é o Almirante Américo Tomás, dócil e bronco, não quero viver em sobressaltos.

Tocado pelos americanos, Humberto Delgado passa a ser o candidato da Oposição. É o próprio General Coca Cola, mas até os comunistas acabam por apoiá-lo. É desassombrado, é o mais novo general das Forças Armadas portuguesas, coragem física e irreverência não lhe faltam. Declara que, se for eleito, obviamente me demite. Tem até o desplante de frisar o obviamente. Apesar da PIDE, das cargas da GNR e da PSP, em nome da Liberdade arrasta multidões atrás de si. Já lhe chamam o General Sem Medo. Desde o Porto até Lisboa, desde o Alentejo até ao Minho. E os arruaceiros parecem não ter medo das forças da ordem, respondem à pedrada, subversão.

É sismo, é terramoto, rompeu-se um dique e a Nação pode vir a ficar submersa.

Cerro fileiras para salvar a Pátria. Santos Costa põe a tropa de prevenção e os "craveiristas" acovardam-se, não respingam. Na campanha eleitoral de 1949 um dos meus dissera "daqui não saímos, nem a tiros, nem a votos". Não o digo mas penso o mesmo. Quem controla os cadernos eleitorais e as mesas de voto ainda somos nós e em 1958 quem ganha as eleições para a Presidência da República é o Almirante Américo Tomás, obviamente. Não posso deixar de rir...

No rescaldo, um dignitário da Igreja, D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, atreve-se a contestar a minha autoridade. O Cerejeira desterra-o para Roma, mas já vai tarde, fez grandes estragos nas relações entre a Igreja e o Estado.

http://www.vidaslusofonas.pt/salazar.htm
Imagem: http://4.bp.blogspot.com/

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 08/10/09

Escrevendo sobre o Brasil contemporaneamente aos exploradores e viajantes, há aqueles que nele se estabeleceram procurando civilizá-lo.

Dentre esses colonizadores, apenas os Jesuítas nos deixaram documentos sobre o Índio, pois às relações de carácter oficial interessavam apenas os problemas de organização externa. Os Jesuítas, procurando cristianizar os indígenas, ocupavam-se do Índio como pessoa, como homem capaz de um comportamento moral. Apressavam-se em seguida a dar conta dos seus trabalhos, dos seus progressos e dificuldades, aos restantes membros da Companhia, e assim nos deixaram numerosos textos cheios de interesse.

É em 1549, no dia 1 de Fevereiro, que os primeiros Jesuítas partem para o Brasil; são seis, e entre eles vai, como superior, o Padre Manuel da Nóbrega que, não só pela colaboração que prestou ao Governo Geral do Brasil, como pela firme resolução de trabalhar intensamente na conversão dos Índios, tanto relevo veio a ter entre os primeiros colonizadores. Se, contudo, a organização civil do Brasil sempre o interessou, tocava-lhe muito mais de perto a sorte dos Índios.

Diz Serafim Leite que, para além do interesse manifestado pelo modo de vida dos selvagens, aos Padres importava acima de tudo determinar a medida em que esses Índios poderiam ser cristianizados e civilizados.

É, na verdade, este, o objectivo de Manuel da Nóbrega, assim como de todos os outros membros da Companhia. Quanto ao aspecto sob o qual via os Índios, diz o Padre Manuel da Nóbrega em carta a Martin de Azpilcueta Navarro, depois de se referir às boas qualidades da terra, no que respeita ao seu clima e produção:

«Mas é muito de espantar ter dado (o Criador) tão boa terra tanto tempo a gente tão inculta, e que tão pouco o conhece, porque nenhum deus tem certo e qualquer que lhe dizem crêem. Regem-se por inclinação, a qual sempre prona est ad malum, e apetite sensual, gente absque consilio et sine prudentia. Têm muitas mulheres enquanto se contentam delas e elas deles, sem entre eles ser vituperado».

E, depois de ter falado do hábito que têm de comer os «contrários» que ficam prisioneiros de guerra, conclui:

«E nestas duas coisas, scilicet , em ter muitas mulheres e matar os seus contrarios, consiste toda a sua honra e esta é a sua felicidade e desejo, o qual tudo herdaram do primeiro e segundo homem e aprenderam daquele qui ab initio mundi homicida est».

Na Informação das terras do Brasil (Aos Padres e Irmãos da Companhia) refere-se às manhas dos feiticeiros, à facilidade com que nelas acreditam, à forma como tratam os mortos e, de novo, à maneira de matar os «contrários» aprisionados em guerra. Não são, no entanto, apenas os defeitos que contam. Têm também qualidades: possuem um certo sentido de família, são valentes e generosos.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 42 e 43

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 07/10/09

Nenhuma das obras de que até aqui nos ocupámos tem, no entanto, o interesse das de Pero de Magalhães Gândavo, Autor de uma Historia da Província de Santa Cruz e do Tratado das Terras do Brasil no qual se contem informações das cousas que há nestas partes (1.ª ed. 1576).

Na primeira destas obras, depois de uma descrição da terra, das povoações, mantimentos, frutos, aves, peixes e outros animias, encontramos um capítulo sobre um monstro marinho, que tem o interesse de nos revelar que, na verdade, havia quem acreditasse afincadamente na existência desses seres estranhos e cruéis que povoavam paragens desconhecidas [...].

São também cheias de interesse as notas que nos deixa sobre os costumes dos selvagens. Depois de os descrever fisicamente, diz que são desagradecidos, desumanos, cruéis, vingativos e excessivamente crédulos. Fala, como todos os outros exploradores e viajantes, da ausência da Fé, de Lei e de Rei entre os indígenas, simbolizada pela falta de F. L. R. no seu alfabeto [...]

A posição de Gândavo é, apesar disso e no seu conjunto, bastante desfavorável aos Índios. Na segunda das suas obras a que nos referimos, ao ocupar-se dos Índios Aimorés – encontraremos daqui em diante distinções entre os Índios das várias tribos – diz:

«Vivem entre os matos como brutos animais (…). Finalmente, não tem rosto direito a ninguém, senão à traição fazem a sua».

E, depois de, entre outros factos, falar das suas lutas, da poligamia, do costume que tinham de comer carne humana e, mais demoradamente, do seu aspecto exterior, acrescenta:

«Outras muitas bestialidades usam estes Índios, que aqui não escrevo».

[...]

Na verdade, em todos os textos que até agora estudámos, cremos que, como primeira característica comum a todos eles, se nota o facto de o Índio ser visto por uma forma parcelar e, portanto, muito exterior e muito imediata, nos aspectos que mais rapidamente ressaltam de um primeiro contacto.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 38 a 41

terça-feira, 6 de outubro de 2009

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VI)

“O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII” (VI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 06/10/09

O primeiro dentre todos os escritores a referir-se ao Índio Americano foi o próprio Cristóvão Colombo, nas suas cartas, já atrás mencionadas.

Em notações rápidas e objectivas, apresenta-nos os selvagens como extremamente desinteressados e preocupa-se em informar-nos de que não achou entre eles os homens monstruosos de que se falava.

Se às suas palavras se atribuiu um alcance maior do que possuíam, isto não é já da sua responsabilidade.

Não há aqui preocupações metafísicas, de saber se o homem é ou não naturalmente bom, nem políticas e sociais, de saber se é ou não superior ao homem civilizado da Europa. Há, apenas, narração de factos.

Será esta também a atitude dos viajantes portugueses que escreveram sobre o Brasil.

Um dos primeiros documentos que sobre ele possuímos é a carta de Pero Vaz de Caminha, cronista da armada de Pedro Álvares Cabral: veio a tornar-se muito conhecida, tendo sido publicada pela primeira vez por Ayres Casal em Corografia Brasílica, vertida para francês por Ferdinand Denis e para alemão por Olfers.

[...]

É escusado encarecer o encanto deste texto, na simplicidade e na admiração com que está escrito. O seu realismo trai uma testemunha ocular. Sente-se que Pero Vaz de Caminha ficou impressionado com o que observou e que procura transmitir-nos essa mesma impressão.

[...]

Contemporânea desta carta é a conhecida Relação do Piloto Anónimo, de quem apenas se sabe que pertencia à Armada de Pedro Álvares Cabral. Este piloto faz do Índio uma descrição muito mais exterior, se assim se pode dizer, do que Pero Vaz de Caminha. Quando a ele se refere, limita-se a dizer que andavam nus, como traziam o cabelo e a barba, como se pintavam e as pedras e ossos com que enefeitavam os lábios.

[...]

Incluiremos no conjunto destes textos – devido à forma por que se ocupa do Índio – o Roteiro da viagem da cidade do Pará e toda a sua capitania até aos confins do Rio Negro, que se encontra sem data, anónimo e manuscrito na Biblioteca da Academia de Lisboa. Nela faz o seu Autor descrições pormenorizadas da terra, dos animais e plantas, e, evidentemente, dos costumes dos Índios, das suas guerras, da maneira que têm de caçar, embora sempre de uma forma objectiva e exterior, como todos os que o precederam.

"O Índio do Brasil na Literatura Portuguesa dos Séculos XVI, XVII e XVIII", de Maria da Conceição Osório Dias Gonçalves, Separata de BRASILIA, vol. XI, Coimbra, 1961, pp. 35 a 38

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A propósito do 5 de Outubro: memórias de um dos seus heróis

A propósito do 5 de Outubro: memórias de um dos seus heróis

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 04/10/09
(Clique para aumentar. O Almirante Cabeçadas está ao centro.) Um texto de Helena Cabeçadas (*) Com o aproximar do centenário da implantação da República dei por mim a tentar compreender e a pensar num dos seus principais protagonistas e reconhecido herói, a quem estou ligada por laços familiares e afectivos muito fortes, o Almirante Mendes Cabeçadas, meu [...]