sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O «achamento» do Brasil (V)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 23/10/09

O «achamento» de terras da costa ocidental do Brasil, expressão utilizada por Pêro Vaz de Caminha para identificar terras que alguns autores admitem poder corresponder a um encontro de terras procuradas, foi descrito pelo mencionado escrivão na sua famosa carta, que constitui uma autêntica reportagem antropológica sobre os primeiros contactos amistosos dos homens da armada de Pedro Álvares Cabral com os autóctones. Os portugueses viram com a maior estranheza os modos de vida dos tupiniquins que habitavam a região da baía Cabrália formando comunidades semi-sedentárias, nas quais as actividades recolectoras se combinavam com a cultura de raízes de mandioca. Os ameríndios foram então vistos pelos portugueses como seres onde seria possível introduzir a civilização, tal como eles a viam.

A armada de Pedro Álvares Cabral ligou pela primeira vez os quatro continentes, pois partindo e regressando à Europa estabeleceu contactos com a África e o Brasil, antes de atingir a Ásia em 22 de Agosto de 1500.

Os topónimos Terra de Vera Cruz ou Terra de Santa Cruz não se conseguiram impor, pois o nome que veio a prevalecer foi o de Brasil, devido à importância que adquiriu o pau-brasil, cor de brasa, e foi o produto mais importante durante os primeiros tempos da exploração do novo território.

Em 1501-1502 e 1503-1504 duas expedições portuguesas de exploração comandadas por Gonçalo Coelho realizaram o reconhecimento do litoral ocidental do Brasil, a que se poderá acrescentar uma outra expedição em 1502-1503 da responsabilidade de Fernão de Loronha, a qual visava recolher pau-brasil.

Em 1514 foi avistado o rio da Prata.

"Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal", de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 71 e 72

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O «achamento» do Brasil (IV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 22/10/09

Em carta datada de 30 de Julho de 1514, Estêvão Fróis afirmou que o equador era considerado em termos práticos a divisória das zonas de influência entre Portugal e Castela na América, certamente por se ter observado anteriormente que o equador passava próximo da foz do Amazonas, o que era verdade, pois por aí passavam de facto as 370 léguas a ocidente das ilhas de Cabo Verde e por aí aparece traçada a linha divisória no chamado «Mapa de Cantino» de 1502.

A referida afirmação implicava saber que a linha de demarcação estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas passava pela proximidade da foz do rio Amazonas. Ora uma das hipóteses que se tem colocado e a que já aludimos, é a de que a esta região já em 1498 teria sido enviado Duarte Pacheco Pereira, o qual em 1494 havia sido um nos negociadores do Tratado de Tordesilhas podendo sugerir-se a hipótese de ter sido o conhecimento de terras ou indícios de terras brasileiras, o factor que levou a que D. João II exigisse mais 270 léguas para ocidente da linha de demarcação. O que é certo é que quando em 1498 Cristóvão Colombo saiu das ilhas de Cabo Verde para ocidente ele referiu que tal conhecimento teria sido indicado por D. João II quando negociara o referido tratado. Por outro lado, em 1514 EStêvão Fróis afirmou que Portugal «possuía estas terras há vinte anos ou mais e que já João Coelho, o da porta da Cruz, vizinho da cidade de Lisboa», já fora a terras do Norte do Brasil, onde ele havia ido.

Depois da viagem de Cristóvão Colombo de 1498 tem-se discutido se os navegadores castelhanos Vicente Yañes Pinzon e Diego de Lepe teriam chegado em 1500 a terras brasileiras a oriente da foz do rio Amazonas. Trata-se de um assunto bastante nebuloso e controverso, onde é difícil obter certezas, depois de Duarte Leite e Damião Peres terem apresentado abundante argumentação contra tal possibilidade.

"Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal", de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 70 e 71

Guiné 63/74 - P5141: Historiografia da presença portuguesa (24): A Literatur...

Guiné 63/74 - P5141: Historiografia da presença portuguesa (24): A Literatura Colonial Guineense (Leopoldo Amado) (I): Introdução

via Luís Graça & Camaradas da Guiné de Carlos Vinhal em 22/10/09
1. Dizia-nos Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), em mensagem do dia 1 de Outubro de 2009:

Luís e Carlos,
Para mim, este livro é uma inteira revelação. Nem o Leopoldo Amado o menciona no seu importantíssimo ensaio "A literatura colonial guineense". Tenho muito orgulho em passar esta informação para dentro da nossa caserna.

Um abraço do Mário

Esta mensagem e respectivo anexo deu origem ao poste 5069* que começava assim:

A Guiné e o 1.º Prémio da literatura colonial, 1936
por Beja Santos

É curioso como o título "África, da vida e do amor da selva" consta de toda a bibliografia elementar da história da Guiné e nunca foi me foi possível encontrar a obra nas principais bibliotecas. Na verdade, o autor mencionado é sempre João Silva e agora, quando finalmente encontrei o livro, o nome que consta é João Augusto. Trata-se de uma obra a vários títulos singular, pode perfeitamente emparceirar, pelo grau de importância, com "Mariazinha em África", de Fernanda de Castro, e "Auá", de Fausto Duarte, duas obras pioneiras na literatura colonial guineense. Não consegui encontrar quaisquer referências a João Augusto que, conforme se pode ler no livro "África, da vida e do amor da selva" viveu bastantes anos na Guiné (e pelo menos durante seis anos foi caçador). O que ainda aguça mais a curiosidade é querer descobrir o que ali fez João Augusto (Silva) e como estabeleceu uma relação tão profunda com a Guiné e o seu povo. Um desafio para todos nós, em Portugal e na Guiné. [...]


2. Em 7 de Outubro recebemos de Carlos Schwarz (Pepito), que é Eng.º Agrónomo, dirigente da AD - Acção para o Desenvolvimento, e membro da nossa Tabanca Grande, uma mensagem que deu origem ao poste 5084**, de onde salientamos:

Luís,
Vi hoje a observação do Beja Santos com a descoberta do João Augusto Silva. Fartei-me de rir com o facto, uma vez que ele é meu tio e deixou marca na sua passagem por cá. Tinha um sentido de humor fabuloso e eu tinha uma adoração especial por ele, até porque era muito parecido com o irmão mais novo, o meu pai. Tinha uma imaginação prodigiosa. [...]


3. No dia 17 de Outubro de 2009, recebemos do nosso Tertuliano Leopoldo Amado (Doutor em História Contemporânea pela Universidade Clássica de Lisboa, Faculdade Letras de Lisboa), sob a temática Guerra Colonial da Guiné versus Luta de libertação Nacional, 1961 – 1974) esta mensagem:

Caro Beja Santos,
É verdade que não mencionei este livro no pequeno trabalho que escrevi (e partilhei convosco) sobre a literatura de guerra colonial sobre a Guiné. Mas conheço a obra desde os idos anos de oitenta (talvez 1985) pela mão do meu então mestre da cadeira de História da Cultura Portuguesa da FLL, Prof. João Medina, que na altura deu-me emprestado o livro sem me informar que era do pai.

Lembro-me que li de um só fôlego esse livro que achei maravilhoso e só foi então que o meu mestre (eterno mestre, diga-se de passagem!) deu-me a conhecer que o autor era seu pai. Aliás, foi também o Prof. Medina que me proporcionou a leitura de Auá, de Fausto Duarte e Babel Negra, de Landerset Simões, obras que me serviram de base à pesquisa e posterior elaboração de um extenso artigo sobre a Literatura Colonial Guineense, publicado primeiro na extinta Revista do ICALP (Instituto de Cultura e Língua Portuguesa) e depois em Bissau (revisto e aumentado), na Revista Soronda, do INEP.

Nessas publicações, obviamente, foi referenciado o livro de João Augusto Silva (vide anexo).

Aqui vai, para ti, Luís Graça, João Tunes, Carlos Vinhal, Pedro Fiso, Pepito, Santiago, Mário Dias e ainda todos os outros camaradas da Tabanca Grande - que vêm esforçando para que a memória simplesmente não se apague - um singelo mas grande abraço de saudades.
Leopoldo Amado


A Literatura colonial guineense - Parte I (1)
por Leopoldo Amado

Uma tentativa de análise histórico-cultural da Literatura Colonial Guineense, da sua evolução diacrónica e sociológica que desembocou nesta cumplicidade cultural de que hoje somos portadores.


Introdução

Remonta ao século XIX o surgimento massivo da Literatura Colonial Portuguesa, não obstante podermos recuar até ao século XVII para situar alguma literatura que, ocasionalmente, se produziu no contexto do Império Colonial Português (2) . Todavia, foi essencialmente na década de 20 do século XIX, após a independência do Brasil, que este género literário ganhou corpus devido essencialmente à política colonial portuguesa de então que, no intuito de substituir a importância económica do Brasil, delineou todo um plano de emigração massiva de colonos portugueses para territórios africanos, com particular incidência para Angola.

Repare-se que na época, como aliás em todo o processo de colonização da Guiné, as preocupações da política colonial eram secundárias em relação, por exemplo, a Angola ou Moçambique. O facto de a política de fomento colonial não ter assumido proporções consideráveis na Guiné, justifica a quase inexistência de uma produção literária no século XIX, assim como nos períodos que lhe antecedem. A associar a isso, ocorre que em termos da definição dos objectivos económico-coloniais da altura, a ocupação da Guiné Portuguesa era justificada mais por questões de prestígio, às quais se juntavam, obviamente, preocupações estritamente comerciais. Consequentemente, os anais da altura põem a descoberto uma sociedade deletéria de degredados e personas non gratas a que não era alheio o sentimento de abandono a que estava votada a Guiné, agravado ainda pelo cenário constante das guerras de pacificação, ou melhor, da resistência africana.

Num momento em que as Literaturas Africanas de expressão portuguesa começam a se afirmar em paralelo com outras literaturas, não só por um processo de redimensionamento cultural que lhe subjaz, mas também pela descolonização literária em curso, pareceu-nos oportuno chamar a atenção para a existência de uma Literatura Colonial produzida na Guiné, ou melhor, de inspiração guineense. Por isso, e por se tratar – ao que sabemos – de uma das primeiras tentativas do género, com todos os riscos que acarreta, vai pois o nosso pedido de indulgência para que este modesto estudo seja tomado como notas a lápis, conquanto possa contribuir para despoletar o interesse de estudos por temáticas como esta com serenidade isenta de ressentimentos reminiscentes ou, ainda, com a naturalidade histórica resultante da convivência intercultural de séculos. Foi apesar disso, e por isso mesmo, que intitulámos este estudo de Literatura Colonial Guineense.

Do ponto de vista metodológico, não nos detivemos tanto em apresentar uma definição da Literatura Colonial que sabemos ser – e com razão – controversa, carecendo de debate conceitual e epistemológico dado o reduzido número de trabalhos publicados sobre o assunto (3).

Por isso, procurámos não utilizar unicamente o critério literário na selecção de fontes, recorrendo também a textos de natureza etnográfica, etnológica, antropológica e, ainda aos contos da tradição oral fixados através da escrita. Para colmatar a ausência definicional da Literatura Colonial, procuraremos ao longo de todo este estudo anunciar, explícita ou tacitamente, a configuração daqueles elementos que encerram um conjunto de valores que cremos essenciais à definição caracteriológica do que eufemísticamente (ainda) se designa por Literatura Colonial.

Como quer que seja, optámos por não nos coibirmos à problematização de algumas considerações conceituais que se prendem com a Literatura Colonial: anteriormente denominada Literatura Ultramarina e mais tarde Literaturas Africanas, a Literatura Colonial, por este facto, revelava-se sincrética nos conceitos a ela ligados. A consciência de que este género literário situado em África mas que nem por isso era africano, levou a que se combatesse tanto a ex pressão Literatura Ultramarina como a de Literatura Africana. Esta por razões que interrogam a sua africanidade, e aquela porque era notória a imagem lírica que os autores transportavam da sua terra. Começou-se então a vislumbrar uma nova definição e, consequentemente, a prática literária-colonial adquiriu uma nova dinâmica de conteúdo Nos anos trinta deste século já não era fácil a aceitação de revelações de turismo intelectual, assim como de sensações estranhas e exóticas.

Ao exotismo passou-se a contrapor a necessidade de avaliar o nível de adaptação dos colonos e ainda o seu relacionamento com o colonizado, numa perspectiva de redefinição conceitual que apontava para a necessidade de privilegiar o estudo da alma primitiva, secundando os conhecimentos técnicos, a sociologia e a antropologia. Isto porque, segundo Robert Cornevin, "os autores coloniais não são metropolitanos de passagem que ficaram ligados à mãe pátria, eles optaram pela colónia e é já não da Europa mas da colónia, que eles presenciam o evoluir dos acontecimentos…" (4) . Posto isto, resta referir que a designação Literatura Colonial possui conotações político-ideológicas que tendem a sobrepor-se à sua axiologia literária-cultural em termos conceptuais. A título de exemplo, autores coloniais como Castro Soromenho (Angola) e Fausto Duarte (Guiné) puderam transpor em certa medida, os parâmetros que a designação impunha para vislumbrarem a busca de uma identidade nacional (5).

E porque houve autores coloniais que avançaram e/ou recuaram relativamente ao contexto histórico-cultural da sua época, resta-nos esperar que o debate conceitual e epistemológico que se avizinha possa aclarar com novas luzes a problemática da Literatura Colonial. Do nosso ponto de vista, temos sempre presente que o que mais interessa de momento é encarar de modo problemático o estudo da Literatura Colonial, convencidos de que só em certo sentido a literatura é objecto historiavel: na exacta medida em que se prende à História das ideias, à História de uma sociedade ou de grupos sociais, à História (biográfica) dos autores ou ainda na medida em que as leituras da obra literária se vão sucedendo no tempo, condicionadas por diferentes conjunturas socioculturais e mutuamente se influenciando. Aliás, concordamos com Tzevetan Todorov quando afirma que "o texto escreve-se através do seu autor mais do que é escrito por ele" (6). Só assim se compreende, cremos nós, o simplismo estéril e lacónico com que, por agora, ousamos definir a Literatura Colonial: obras de carácter literário e afins que se produziram no contexto colonial.

O que pretendemos é proceder a uma tentativa de análise histórico-cultural da Literatura Colonial Guineense, da sua evolução diacrónica e sociológica, que desembocou nesta cumplicidade cultural de que hoje somos portadores. Em seguida procuraremos interrogar as razões porque a Literatura Colonial da Guiné teve um percurso e uma evolução algo diferente em relação às congéneres de Angola, Moçambique e mesmo de São Tomé e Príncipe. Outro objectivo deste estudo prende-se com a preocupação de tentar delimitar ou discernir, tanto quanto possível, as intersecções de ruptura e/ou continuidade entre a Literatura Colonial e a Nacional, no caso guineense. Porém, uma preocupação pedagógica nos move: a de lançar dados e elementos de reflexão sobre a nova Literatura, a nacional, na perspectiva de uma descolonização literária em curso – se assim se pode dizer –, que terá de deitar os olhos ao passado para melhor enquadrar o presente literário.

(Observação do Editor: Por ser muito extenso, este trabalho vai ser publicado em três partes, correspondentes a outros tantos postes)
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5069: Historiografia da presença portuguesa (22): África, da Vida e do Amor na Selva, Edições Momentos, 1936 (Beja Santos)

(**) Vd. poste de 9 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5084: O mundo é pequeno e o nosso blogue... é grande (17): João Augusto Silva é meu tio (Pepito)

Vd. último poste da série de 18 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5127: Historiografia da presença portuguesa (23): Aquela Guiné dos anos 50 (Beja Santos)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O «achamento» do Brasil (III)

O «achamento» do Brasil (III)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 21/10/09

Apesar da determinação das longitudes nos séculos XV a XVII ser obtida por estima, o seu cálculo não levava normalmente a erros excessivos, pelo que muitos autores têm admitido que Pedro Álvares Cabral ordenou intencionalmente um desvio para ocidente, com o objectivo de conhecer uma terra de que poderia ter informações de natureza muito imprecisa ou por querer saber se para ocidente haveria alguma terra no âmbito da demarcação do Tratado de Tordesilhas. A tese da intencionalidade do desvio da armada para ocidente tem a seu favor, entre outros argumentos, a informação registada na carta que Mestre João Farras escreveu a D. Manuel de Porto Seguro no dia 1 de Maio de 1500, na qual recomendava ao rei que visse a situação do sítio de onde escrevia num mapa que tinha Pêro Vaz da Cunha, o Bisagudo, e se deduz ser posterior a 1482, ainda que ele fosse incompleto, pois não indicava se aquela terra era habitada. Seria de estranhar que Mestre João estivesse a remeter o rei para uma das ilhas míticas que nessa altura ainda se registavam nos mapas. Devemos observar, contudo, que o eventual conhecimento dessa terra não se encontrava registado na carta padrão do Armazém da Guiné, pois se ela lá estivesse indicada Mestre João Farras não teria de evocar aquele mapa na posse de um particular.

Pedro Álvares Cabral não conhecia a terra situada na região de Porto Seguro onde desembarcou, mas poderia ter recebido instruções no sentido de que, no decorrer da sua navegação, durante a qual necessitava de se afastar para ocidente, forçasse o rumo nessa direcção para verificar se ali poderia haver terras, de que já haveria indicações, nomeadamente no mapa-mundi de Pêro Vaz Bisagudo. Não se pode excluir a possibilidade de haver informações, recolhidas desde, pelo menos, 1493 o período das negociações que levaram a deslocar mais 270 léguas para ocidente a linha divisória acordada no Tratado de Tordesilhas, no âmbito das quais se abarcava o território brasileiro. Como também já referimos, a zona correspondente à foz do Amazonas poderia ter sido já explorada por Duarte Pacheco Pereira em 1498, de acordo com as afirmações que nesse sentido ele faz no seu Esmeraldo de Situ Orbis, e vão ao encontro de indicações expressas pelos Reis Católicos em 1493 e por Cristóvão Colombo em 1498. Quando neste último ano o genovês foi ao arquipélago de Cabo Verde, de onde rumou para ocidente, tinha como objectivo identificar terras que suspeitava serem do conhecimento de D. João II quando este negociou o Tratado de Tordesilhas, tendo sido então que ele descobriu a Venezuela.

"Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal", de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 69 e 70

terça-feira, 20 de outubro de 2009

O «achamento» do Brasil (II)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 20/10/09

Um segundo grupo de navios tinha por destino Sofala. Um deles era comandado por Bartolomeu Dias, talvez uma caravela redonda, que se afundou entre o Brasil e o cabo da Boa Esperança. O outro, uma nau ou caravela, capitaneada por Diogo Dias, afastou-se da armada no Atlântico Sul, tendo acabado por explorar o litoral da África Oriental.

A armada partiu do Restelo a 9 de Março de 1500 e a viagem correu normalmente até às proximidades das ilhas de Cabo Verde, sem que houvesse necessidade de aí se proceder a reabastecimento. A armada passou junto da ilha de São Nicolau e rumou depois para ocidente, de forma a apanhar a sul do equador os ventos favoráveis (alisados de sueste), os quais lhe permitiriam atingir o cabo da Boa Esperança, dando assim uma volta idêntica à já traçada por Vasco da Gama. Pouco depois de deixar as águas do arquipélago de Cabo Verde o navio de Vasco de Ataíde perdeu-se misteriosamente, talvez por ter algum rombo, metido água e afundado, sem que nenhum dos testemunhos presenciais da viagem tenha assinalado qualquer anomalia da navegação por essa ocasião.

Por motivos naturais, ligados ao regime de ventos e correntes marítimas em meados de Abril, ou por ordem do capitão-mor, a armada deslocou-se para uma longitude mais ocidental do que aquela que tinha sido atingida por Vasco da Gama e da que seria seguida depois pelos navios que faziam a Carreira da Índia. O desvio foi de tal forma grande que no dia 22 de Abril de 1500 os portugueses avistaram aquele que foi baptizado como Monte Pascoal, situado numa terra que Pedro Álvares Cabral denominou Terra de Vera Cruz e D. Manuel preferiu antes chamar Terra de Santa Cruz. Era o Brasil!

"Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal", de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 68 e 69

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

"Descida aos Infernos"

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 18/10/09
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SEMPRE QUE UMA ROCHA da superfície terrestre, em equilíbrio com as condições ambientais (temperatura, pressão atmosférica relativamente baixas), se afunda na crosta, como se descesse aos infernos, os seus minerais ficam instáveis face aos consequentes aumentos da pressão e da temperatura, dando origem a outros, compatíveis com os novos ambientes. Neste processo, a rocha em causa, seja ela de que tipo for, sofre uma transformação a que os geólogos chamam metamorfismo (do grego meta, transformação, e morphe, forma) e passa a ser considerada como rocha metamórfica. Porém, se essa descida atingir zonas onde a temperatura ultrapasse os 800º C, condição que determina a fusão, ainda que parcial, da rocha, entra-se no domínio do magmatismo.

Por definição, o metamorfismo implica que as transformações tenham lugar no estado sólido, representando um dos estádios do ciclo geoquímico da litosfera. É, ainda, o processo geológico com maior expressão na crosta continental. Trata-se, neste caso, de um processo que afecta não um local mas uma região mais ou menos vasta e, assim, referido por metamorfismo regional. Intimamente relacionado com o enrugamento das cadeias de montanhas (orogénese), tem como factores principais: o calor interno, em aumento com a profundidade; a pressão própria do interior da crosta, ou pressão litostática, também ela crescendo com a profundidade (por exemplo, a 35km de profundidade, a pressão litostática atinge as 10 000 atmosferas) e a pressão orientada, própria das faixas orogénicas, onde dominam os esforços tangenciais compressivos característicos das fronteiras de placas em aproximação. A estes dois tipos de pressão associam-se outros, não menos importantes, devidos à presença de água, dióxido de carbono e outros fluidos circulantes. O metamorfismo regional é, pois, tanto mais intenso quanto maior for a profundidade a que se processe. Fala-se, assim, de graus de metamorfismo. Por exemplo, o xisto representa um grau muito baixo, actuante sobre uma rocha argilosa; o gnaisse, pelo contrário, testemunha um grau muito elevado, sobre aquela mesma rocha.

Para além das transformações de alguns dos minerais das rochas afectadas, o metamorfismo determina modificações nas respectivas texturas. As rochas laminadas, as xistentas ou as fibrosas testemunham as pressões orientadas a que estiveram sujeitas. Trata-se de um processo extremamente lento, à escala geológica, com durações na ordem das dezenas de milhões de anos. Em acção no seio dos grandes orógenos actuais e activos, como os Alpes, os Andes ou as Montanhas Rochosas, os seus efeitos estão ainda, na maior parte, ocultos no coração das respectivas montanhas. Pelo contrário, nas cadeias montanhosas do passado, em especial nas mais antigas, a erosão, actuante ao longo de centenas de milhões de anos, acabou por arrasá-las, pondo a descoberto as suas entranhas de rochas metamórficas de vários tipos, bem como de granitos e outras rochas magmáticas, testemunhando a existência de magmatismo.

Muito comum e bem conhecido da generalidade das populações do interior norte e sul, o xisto representa um estádio, ainda muito incipiente, de metamorfismo de uma rocha sedimentar essencialmente argilosa (a profundidade relativamente pequena, 5 a 10km). A ardósia ou lousa, que a minha geração e a dos os nossos pais e avós usaram para escrever as primeiras letras, representa um estádio ligeiramente mais acentuado de aumento de pressão e temperatura.

Estádios progressivamente mais avançados desta mesma sequência ocorridos a maior profundidade geram, no mesmo sentido, xistos luzentes, micaxistos e gnaisses (30 a 35km de profundidade). Se a temperatura continuar a aumentar, estas rochas fundem total ou parcialmente, dando origem a granitos.

No metamorfismo regional, toda e qualquer rocha é transformada ou reciclada. Por seu turno, o calcário dá origem ao mármore. Neste caso, o calcário perde os vestígios dos fósseis que habitualmente encerra e sofre recristalização total, aspectos bem visíveis a olho nu.

Podemos dizer, em resumo, que uma mesma rocha, qualquer que ela seja, sujeita a metamorfismo, pode dar origem a diferentes tipos de rochas metamórficas, tudo dependendo da sua natureza, do campo de tensões regional e da profundidade a que mergulhou no interior da crosta.

O «achamento» do Brasil (I)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 19/10/09

Em 1500 D. Manuel nomeou Pedro Álvares Cabral como capitão-mor da segunda armada que enviou para a Índia. Era constituída por treze navios nos quais embarcaram o escol da pilotagem portuguesa da época e uns 1200 a 1500 homens.

Sobre a constituição da armada as dúvidas que subsistem centram-se sobretudo no problema de saber quantas caravelas poderiam fazer parte da armada, pois a maioria dos navios eram naus equipadas com velas de pano redondo. Quanto aos destinos dos navios, eles iam com duas missões diferentes. A maioria ia para a Índia, sendo nove pertencentes ao rei e dois a particulares. De seguida apresentamos os nomes dos capitães de cada navio e as características de cada um.

Nos navios do rei seguiam: Pedro Álvares Cabral, na nau capitânia; Sancho de Tovar era o sota-capitão e ia na nau El-Rei, com cerca de 360 tonéis; Simão de Miranda de Azevedo; Aires Gomes da Silva ia numa nau que se afundou entre o Brasil e o cabo da Boa Esperança; Simão de Pina era capitão de uma nau que também se afundou entre o Brasil e o cabo da Boa Esperança; Vasco de Ataíde ia na nau que se afundou depois de deixar o arquipélago de Cabo Verde; Nicolau Coelho; Pedro de Ataíde capitaneava uma nau ou caravela redonda de nome São Pedro, de 70 tonéis; Gaspar de Lemos ia numa nau ou naveta com reforço de mantimentos, a qual regressou a Portugal depois da escala no Brasil, indo talvez destinada a esse fim ou a ser abandonada.

Um dos capitães das duas naus de armadores particulares era Nuno Leitão da Cunha, na Nossa Senhora da Anunciada, com cerca de 167 tonéis, que pertencia à parceria de D. Álvaro de Bragança com os banqueiros-mercadores Bartolomeu Marchioni, Girolamo Sernigi e António Salvago. O outro capitão era Luís Pires que ia na nau pertencente à parceria de D. Diogo da Silva de Meneses (1.º conde de Portalegre) e mercadores, que foi outro dos navios que se afundou entre o Brasil e o cabo da Boa Esperança.

"Breve História dos Descobrimentos e Expansão de Portugal", de José Manuel Garcia, Editorial Presença, 1999, pp. 67 e 68

sábado, 17 de outubro de 2009

Dundo, memória (anti) colonial

via Entre as brumas da memória de Joana Lopes em 17/10/09
(N.B, - Este texto foi escrito pelo meu amigo Jorge Martins que mo enviou para publicação neste blogue. Que fique como incentivo para que não percam o filme de Diana Andringa, que eu só verei na próxima 6ª feira.)Começou o doclisboa 2009. Folheando o programa, encontramos, como de costume, muitos motivos para fazer uma aliciante calendarização de visionamentos até ao dia 25. E, para quem acha