domingo, 22 de novembro de 2009

Caldo de farinha

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 11/22/09
A velha chocolateira de esmalte
CALDO DE FARINHA, assim se chamava uma beberragem que se tomava quente e em substituição do leite, ao fim do serão, antes do deitar, ou pela manhã, a acompanhar torradas com toucinho cozido sobrado do jantar da véspera. Leite nem sempre havia e quem o trazia era o tio Afonso que, ao fim da tarde, de porta em porta, o ia vendendo aos litros, meios litros e metades de meio litro, consoante o número de filhos e as posses de cada um. A higiene em todo o processo, desde o produtor à distribuição ambulante, era a possível nesse tempo e, daí, a necessidade de ferver o leite. Havia, mesmo, uma espécie de grande púcaro de esmalte, chamado fervedor, para levar o leite ao lume e deixá-lo, aí, levantar fervura.

- Já foi por fora! – Gritava a mãe, arreliada, que, tendo saído da cozinha, onde vigiava a dita fervura, ia, a correr, fazer qualquer coisa e, quando voltava, via o leite em espuma a transbordar e a apagar as brasas de carvão da fornalha (o nosso fogão desse tempo), e a encher o ar do odor a leite queimado. Uma experiência que morreu com a pasteurização industrial deste bem, hoje, felizmente, generalizado.

Não era raro juntarem-se, à nossa porta, o leiteiro, com o seu grande caldeirão de lata e as medidas penduradas numa mão, e o Feliciano das "sobras", que vinha diariamente recolher, porta a porta, os restos de cozinha com que ia engordando um porquito, importante suplemento na sua economia familiar. Nos recipientes, que trazia, destapados, num carrinho de mão, as sobras fediam de azedas e vinham sempre acompanhadas de enxames de moscas que, em menos de um ai, se atiravam aos escorridos de leite nas medidas do tio Afonso e aos pingos que caíssem, ali à porta, nas pedras da calçada. Foi neste quadro e neste tempo que o caldo de farinha fez parte das nossas vidas.

Em água fria, a minha mãe diluía a quantidade necessária de farinha de trigo, da mais fina, isto é, a que fora joeirada na peneira de malha mais apertada. Esta mistura, a fazer de leite, ia ao lume, numa "chocolateira", aromatizada com uma casquinha de limão e uma colherzinha de banha para dar sustento. Antes do caldo levantar fervura, juntava-lhe o açúcar e ia-se mexendo sempre com uma colher de pau até engrossar na medida do pretendido. Em algumas casas acrescentava-se pó de cacau à farinha, preparando assim o chocolate e, daí, o chamarmos chocolateiras às vulgaríssimas cafeteiras. Uma variante muito perfumada deste caldo era preparada com a farinha levemente torrada, o que era conseguido ao lume sobre um tabuleiro de lata, mexendo sempre com a colher para que ficasse uniformemente alourada.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil (XVII)

Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil (XVII)

via Carreira da Índia by Leonel Vicente on 11/16/09

Quem vos fala é Presidente de um país que já foi por ele qualificado como não mais subdesenvolvido mas ainda injusto. É verdade! Essas diferenças sociais, as concentrações de renda, que são mais marcantes ainda no Brasil do que em Portugal, não vão desaparecer, não se vão esboroar apenas pela vontade ou apenas pela denúncia da sua existência. Elas dependerão de uma acção determinada, de uma acção coesa, de uma acção sustentada pela sociedade que se alonga no tempo, que não provoca o milagre da distribuição dos pães, mas que precisa de ter sempre vivo este valor de uma busca de mais igualdade e de melhor distribuição da prosperidade que o mundo hoje é capaz de gerar.

Em mais do que uma oportunidade, ao referir a este tema, eu disse que se no passado nós, brasileiros, podíamos nos escudar na falta de recursos para proporcionar vida melhor a todos, hoje, já não nos é dado mais essa válvula de escape. Hoje, a luta pela democracia, a luta pela igualdade, a luta pelos direitos humanos tornou-se um imperativo moral, porque nós já temos condições de dar os passos. Passos que poderão ser tímidos – e, às vezes, o são; às vezes, implicam uma parada táctica, mas não podem, nunca, perder de vista no horizonte o objectivo final, que é o de transformar esses valores milénio afora, mas quanto antes melhor, em valores que deixem de ser apenas palavras mas que passem a ser modos de viver. É para esse modo de viver justo, melhor e comum que brasileiros e portugueses estamos cada vez mais unidos. E eu não poderia deixar de, embora improvisadamente, diante desta Assembleia que me recebeu de forma tão calorosa, dizer também, de dentro da minha alma, os valores que animam a minha luta.

É com esta nota de confiança que concluo minhas palavras. Confiança em um futuro partilhado, que inclua nossos vizinhos. Confiança no progresso e na justiça social. Confiança na democracia e em nossa capacidade de sermos dela guardiães. Confiança no universalismo lusófono. Confiança no encantamento mútuo que desde Pêro Vaz de Caminha aproxima brasileiros e portugueses.

Muito obrigado.

"As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República", intervenção do Presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 19 a 23

O PLANO CAETANISTA PARA A DECLARAÇÃO UNILATERAL DE INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA E...

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MariaNJardim on 11/16/09

O PLANO CAETANISTA PARA A DECLARAÇÃOPLANO UNILATERAL DE INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA E MOÇAMBIQUE. E O" GRANDE TRAIDOR"... l976 - Corria o segundo semestre de 1976. Tínhamos desembarcado no Rio de Janeiro, vindos de Lisboa, no dia 4 de Julho, já adentrado na casa dos 50 e tendo, pela terceira vez na nossa vida, de procurar, sem ajudas, nem capital nos bolsos ou contas bancárias, um novo rumo para a nossa vida. Depois de várias desilusões e falsas ilusões, somente uma mão generosa nos foi estendida, a de José Manuel Pereira da Costa, distinto jornalista e leal amigo, ex-subdiretor do Diário de Luanda que então estava chefiando a redação de um semanário da comunidade portuguesa na cidade de São Paulo e viria a acabar seus dias, anos mais tarde, na capital portuguesa, vitimado por um ataque cardíaco, como diretor do jornal O DIA. Era ele um jornalista de grande mérito que realizara no Estado da Índia, um extraordinário trabalho de reportagem, nos nebulosos dias que precederam e acompanharam a vergonhosa queda daquela antiga possessão portuguesa situada na península hindustânica.
Ao chegarmos ao Rio, não nos ocorrera que ainda poderia estar viva a nossa grande amiga Condessa Pereira Carneiro, Diretora-Presidente do importante JORNAL DO BRASIL, de quem fôramos colaborador e se correspondia assiduamente connôsco, isso porque se tratava de uma anciã que já ultrapassara os oitenta anos de idade e por outro lado, apesar de termos sido colaborador da revista MANCHETE, a convite de Luci Bloch, devendo-se-nos o texto e as legendas do suplemento especial, a cores, PORTUGAL HOJE - ANGOLA 68, para cuja feitura integráramos uma equipa de reportagem de que faziam parte também o pernambucano Luís Câmara Cascudo, então responsável pelas edições internacionais, e Gil Pinheiro, repórter fotográfico, nossa maneira de ser, avessa a protecionismos e nepotismos, não nos moveu a buscar emprego nesta última organização jornalística, ao contrário do que fizera o diretor de um diário de Lourenço Marques (hoje, Maputo) que nela conseguiu colocação. Não foram tempos fáceis para nós, esses que estamos evocando... Pelo contrário. Mas, as duras realidades que enfrentámos em nossos primeiros meses na Diáspora, foram-nos proveitosas, constituíram lições utilitárias que nos habituaram a uma nova "maneira de estar no mundo" (como escreveria... Adriano Moreira).
Pereira da Costa, ao saber da nossa presença em São Paulo (onde tencionávamos demorar apenas alguns dias a fim de continuarmos viagem para Caracas, Venezuela, onde tínhamos, a convite de um compatriota ali residente - que nem conheciamos senão por via epistolar - , lugar como professor num colégio português, para filhos de imigrantes, denominado Colégio Santa Isabel que ignoramos se ainda existe por lá) mesmo sem lhe termos solicitado ajuda, apressou-se a procurar uma solução par o nosso caso. Em São Paulo, um ex-deputado federal brasileiro que tivera seu mandato cassado pela chamada ditadura militar, não pelo que ele dizia ser o motivo mas sim devido ao seu comporatemento social reprovável em Luanda, numa das várias visitas que, a convite do MNE português ali fizera, prometia a angolanos empregos e mordomias que não se concretizavam porque estava apenas namorando as simpatias e votos da numerosa colônia portuguesa, namorando votos para um seu parente próximo. Pessoal angolano não faltava então na capital do Estado de São Paulo (até existia um esboço de associação de angolanos na Diáspora) Habitualmente reuniam, com regularidade, num jantar de confraternização que tinha lugar no restaurante GUARACIABA, na avenida visconde do Rio Branco, pertencente a um ex-major do QSAM, afilhado do ex-GG Rebocho Vaz, que fora acusado de peculato no exército e conseguira, em Luanda, evadir-se do cárcere onde estivera detido, passando a fronteira setentrional angolana e virando (como o digno e honrado tenente-coronel Gilberto Santos e Castro, nosso amigo e conterrâneo angolano, ex-governador do distrito do Kuanza Norte) mercenário no ELNA de Holden Roberto, só o deixando quando aquele foi traiçoeiramente desintegrado com a aperente conivência do exército português, a mando do inescrupuloso filo-comunista Almirante Vermelho, de triste memória, Alto Comissário em Angola, acolitado pelo avermelhado capitão Pez...Co, que era ( a par de mais alguns "capitães dos cravos vermelhos") um " pangaré" de Agostinho Neto e seus "muchachos", antes da partida dos contingentes lusos. Isto só ocorreu depois de desembarcados, de cargueiros com pavilhão não cubano da marinha mercante, sob disfarces civis, em faixas desertas dos litorais de Kabinda e do Kuanza Sul, os contingentes cubanos de mercenários a soldo de Moscou, a fim de assegurarem ao MPLA, com o escandaloso respaldo da JSN e do governo de Lisboa que violou os ACORDOS DO ALVOR, o domínio militar da situação, mediante a destruição dos revoltosos mplaístas de Daniel Chipenda (que, na verdade, derrotara Agostinho Neto na eleição para presidente do MPLA, em Lusaka, mas, devido a uma manobra suja do Lúcio Lara e do Agostinho Neto, não lograra tomar posse do lugar), sediados numa moradia à rua El-Rei D.Diniz, em Luanda, e da delegação da FNLA, na Avenida Brasil, a cargo do vaidoso (e fútil e inútil) hoje "ministro" da CS do JES - Hendrik Val Neto, mulato escuro, então "caninamente" fiel ao presidente da FNLA Holden Roberto ou... José Gilmore, ou Roberto Holden, conforme preferirem, personagem este, sem dúvida, muito chegado ao American Committee on Africa presidido pela sra. Eleanora Roosevelt, viúva do falecido presidente Franklin Delano Roosevelt, cuja ... ONG financiava as actividades (e não só estas...) daquele agrupamento político angolano e, indiscutivelmente, à CIA, segundo apostavam seus detractores.
Esse ex-major, que alugara alguns tractores de sua propriedade aos Instituto do Algodão de Angola anos antes, confidenciou-nos descaradmente, em São Paulo, no seu restaurante, que pudera abrir aquele negócio porque, à partida de Kinshasa, HR lhe mostrara um baú que continha pacotes de notas de 50 e 100 dólares, dizendo-lhe que pegasse o que necessitasse e partisse para o Brasil; se mais tarde a situação viesse a melhorar, ele o chmaria de novo para orientar as actividades militares das suas tropas, então desmanteladas e dispersas.
Como dissemos, generosamente Pereira da Costa quis ajudar-nos em São Paulo, arranjando-nos, na capital paranaense, emprego num jornal de bairros de que era proprietário um simpático - como viríamos a verificar - deputado estadual; para esse efeito encaminhou-nos a Curitiba onde fomos carinhosamente recebido e instalado num bom hotel, gratuitamente, pelo amigo Júlio, do Barracuda de Luanda, que o estava gerenciando. Recusou-se a cobrar-nos pela hospedagem qualquer quantia, nos dois dias que ali passámos. Fôra ele co-proprietário do referido restaurante na ponta da restinga de Luanda, a que impropriamente chamavam de "ilha" (ao que parece, hoje o inesquecível Júlio está estabelecido em Cascais) ; proporcionou-nos uma surpresa, um almoço a três com o brilhante e honestíssimo compatriota euro-africano, distinto angolano e velho amigo (apesar de pertencer ao MPLA-Revolta Activa, dos irmãos Mário e Joaquim Pinto de Andrade (gente, como ele, decente, preparada e que não fôra "pé de musseque"...). Esse almoço seria para nós memorável porque nele, Abílio Ferreira de Lemos (categorizado funcionário do Banco de Angola em Luanda, analista econômico responsável pela feitura dos primorosos e badalados relatórios anuais - e não só - daquele banco central angolano, emissor de moeda, nosso Par na Assembléia Legislativa do Estado de Angola e vice-presidente, a convite do governador-geral, engº agrônomo Fernando Santos e Castro, da Câmara Municipal de Luanda, de que era então presidente, último do "ancien regime", o ex-comandante de Falange da Mocidade Portuguesa e nosso colega de curso superior no ICSP/UTL, Dr José Manuel Marques Palmeirim, atualmente alto funcionário da administração portuguesa, afilhado do ex-Ministro do Interior e ex-Director do Centro de Instrução da Milícia da Mocidade Portuguesa no Batalhão de Caçadores Nº 5, general Arnaldo Schultz,) iria desenvolver-nos uma revelação que apenas, em parte, havia aflorado aos nossos ouvidos porque o nosso amigo e distinto advogado Dr Joaquim Mendes, nosso Par na Assembléia Legislativa, de que era também 1º vice-presidente, com freqüência no exercício da presidência (a qual, por inerência, na efectividade, cabia ao governador-geral), nosso companheiro, outrossim, como presidente da mesa da assembléia geral, nos corpos sociais da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários Luandenses - Cruz Verde, de que éramos presidente da direção, já no-lo havia segredado mas não com o detalhe que Abílio Augusto Ferreira de Lemos, amigo e companheiro de infância de Santos e Castro, também angolano (que connosco e outros, inclusive os irmãos Ferreira de Lemos, Sampaio Nunes, Emílio Leite Velho, Ângelo Vidigal Dias - que viria a ser assassinado em condições muito misteriosas, quando estava detido, nos anos 50, pelo " embrião "da PIDE em Luanda, os irmãos Azancout de Meneses e outros, fundara a Casa dos Estudantes de Angola e a Casa dos Estudantes do Império em Lisboa, da qual foi o primeiro vice-presidente, com Alberto Marques Mano Lemos de Mesquita como presidente, na década de 40) que participara de um "segredo de estado" emanado de Marcelo Caetano, seu idealizador, e somente do conhecimento de meia dúzia dos seus colaboradores mais directos em quem depositava a maior confiança (mas dos quais, um se revelaria clone de JUDAS).
Tratava-se de um plano para proclamação unilateral da independência de Angola, de cujo acto solene nós, que o ignorávamos ao tempo, também participaríamos, como parlamentar angolano, num acto histórico que se realizaria na histórica Fortaleza de MASSANGANO...
Infelizmente, meses depois do nosso encontro na capital do Paraná, o solteirão Abílio Augusto Ferreira de Lemos faleceu subitamente, de ataque cardíaco, no seu posto de trabalho, desempenhando funções de analista econômico numa renomada empresa de Curitiba, para a qual entrara por mérito próprio. Finaram-se no Brasil dois angolanos de rara têmpera: Abílio Augusto Ferreira de Lemos e Artur Lemos Pereira, outro distinto euro-africano que, universitário ao tempo, também foi um dos fundadores da CEA e da CEI, mais tarde combativo e incansável Vereador da Câmara Municipal de Luanda, onde ficaram a dever-se-lhe notáveis realizações culturais (e que o diga o ELOS CLUBE DO BRASIL) e turísticas de grande vulto, acabararm seus dias esquecidos e voluntariamente exilados na nossa Diáspora: o Artur, sempre bem disposto e prazenteiro, em Campinas, Estado de São Paulo, onde vivia sózinho, gerenciando um estabelecimento hoteleiro e uma confeitaria contígua ao mesmo, vitimado também por morte súbita.
Voltaremos ao assunto, para escalpelizar o que aconteceria na Fortaleza de MASSANGANO, às margens do grande rio Kuanza, se, conforme soubemos em Pretória em Agosto ou Setembro de 74 e mais tarde nos foi confirmado por um amigo "böer" bem informado, uma personalidade portuguesa de elevada patente militar, cujo foro íntimo era inequivocamente criptocomunista, e o fôra sempre, subrepticiamente, ao longo de toda a sua carreira, até ao "estrelato", íntimo de Marcelo Caetano, que depositava nessa figura a mais alta confiança, não se tivesse esgueirado, às pressas, acompanhado da esposa, em férias, rumo a Moscou, onde, segundo informações, que nos foram reveladas por uma proeminente figura, já abordada acima, da Intelligence sul-africana, o distinto fito-geneticista e ferrenho partidário do regime "boer" sul-africano, Doutor Harold Müller, o qual há bem poucos anos trabalhava na Bahia, para onde viera proveniente da Costa Rica, onde trabalhara, em melhoramentos de plantas, para uma multinacional francesa, se teria apresentado ao Burô Político do Comité Central do Partido Comunista da URSS, patrão do MPLA, da FRELIMO, do PAIGC e do PCP e PC do B, para denunciar o plano marcelista e sugerir sua colaboração activa visando, a partir de um problema ridículo - o do ingresso de oficiais milicianos "combatentes" no quadro permanente em condições que os já profissionais oriundos da Academia Militar classificavam de prejudiciais aos seus interesses - antecipar, com oportunismo mobilizador, um movimento dos fardados. Seria esse o único leitmotiv para derrubar o regime que impropriamente todos os oponentes carimbavam como ditatorial e fascista: o salazarismo do humilde ex-clérigo de Santa Comba Dão... António de Oliveira Salazar, o ex-padre ditador, que desde 1970 repousava numa campa de cemitério, após 71 anos de trabalhosa existência, em que defendera obsessivamente, sem respaldo brasileiro na maior parte da sua "cruzada" lusófona, a fomação de uma grande comunidade luso-afro-brasileira, mas constituindo um grande espaço político-cultural-econômico-militar estratégico e com domínio do Atlântico Sul, ideía essa que agora está sendo, pelo menos no plano cultural e da cooperação econômica, reerguida, sem que eles o confessem para que não se fale de identidade com o "velho ditador", como bandeira política sobretudo pelas duas mais relevantes figuras do mundo político lusófono. Fanfarronicamente tratam o assunto como "coisa nova", que não o é, pois, além do falecido ditador da Calçada da Ajuda, também o lúcido, genial e impoluto Leopold Sedar Senghor (corruptela da palavra SENHOR, porque ele,o presidente senegalense que chegou a ministro num dos governos de Charles de Gaulle, era de ascendência portuguesa, da Guiné-Bissau... embora aparentemente fosse um melanoderme puro, um negro) defendia essa idéia com entusiasmo esperançoso e serena argumentação. Voltaremos a este assunto em breve, para contar o resto desta história inédita que tem jazido esquecida no fundo do baú lusófono...

Carlos Mário Alexandrino da Silva

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

São Carlos

São Carlos

via A Biblioteca de Jacinto by MCA on 11/16/09
A pretexto da actual e frutuosa colaboração entre a Biblioteca Nacional de Portugal e o Teatro Nacional de São Carlos, ocorreu-me procurar o que teria o nosso Eça dito a propósito do teatro nacional. Referências não faltam, naturalmente, mas seleccionei este texto, saído nas Farpas, em Dezembro de 1871. Nem sempre o Eça é actual - felizmente!!! - e as coisas melhoraram infinitamente. A discussão, porém, continua actual; e é delicioso observar alguns traços da nossa mentalidade que permanecem como se estivessem inscritos no nosso código genético.
Desafio os visitantes da biblioteca de Jacinto a descobrirem as semelhanças e as diferenças. E a opinar, pois claro!

«O teatro em Portugal vai acabando. Por dois motivos. Primeiramente pelo abaixamento geral do espírito e da inteligência entre nós: e depois pelas condições industriais e económicas dos teatros.
«Esta verdade ressalta dos próprios cartazes. O Ginásio, o Príncipe Real, a Rua dos Condes, dão comédias traduzidas dos velhos repertórios estrangeiros, ou dramalhões alinhavados exclusivamente para a estulta plebe (como diziam nossos avós), complicados de incêndios, naufrágios, desabamentos, maravilhas baratas de velho cartão, entre cenários desbotados. - Somente acontece que as comédias estrangeiras, concebidas para a fina interpretação de actores educados, encontram aqui uma interpretação grosseira e falta de ofício - e não podem interessar: e os dramalhões, que vivem apenas dos esplendores da decoração, encontrando aqui telas roídas da humidade, fatos de paninho remendado, um papelão apodrecido, uma miséria que os apaga e os apelintra - não podem atrair. Portanto estes teatros arrastam uma vida difícil.

«A Trindade encetou a ópera cómica. Mas naturalmente, com a legítima urgência do ganho, começou pelos melhores autores da escola francesa - Offenbach, Hervé,Lecoq, etc. Fatigou este repertório galante, espremeu a quantidade de libras que ele continha - e, como as óperas cómicas não se parecem com as ostras, que quanto mais se procuram mais abundam, sucede que a Trindade está nas condições de um preso que devorou a sua ração. A Trindade não tem que dar a um público enfastiado que pede música acessível, e facilmente gorjeada. Precisa recorrer a zarzuelas que não oferecem a cintilação alegre da verve francesa, se apresentam com ambições de arte italiana, e descontentam. Além disso o repertório estrangeiro é feito pelas boas vozes, educadas, criadas nos conservatórios, formadas pelo gosto e pela tradição dos teatros especiais. De sorte que a Trindade necessita escolher operetas que possam facilmente atravessar as estreitas gargantas nacionais; e no vasto repertório estrangeiro tem de preferir as operetas fáceis, as "de meia garganta", as operetas constipadas. Fica assim reduzido o número a cinco ou seis imbróglios espanhóis, debilmente instrumentados, a que a Trindade se vai amparando como a muletas provisórias. Opera cómica nacional, essa, não a temos; o nosso cérebro é impotente para a criação musical; a raça ficou esgotada com o esforço violento que fez inventando o lundum da Figueira. As nossas óperas são os hinos. Ora a Trindade não poderia fazer facilmente representar o hino da Carta. A Carta, bem basta que a suportemos em código, não devemos sofrê-la em couplet. Seria tão impudico como sapateá-la em danças. E verdade que não pareceria estranhável que a Carta passasse a ser uma ópera cómica, num país em que as instituições são tiradas do Barba Azul e da Grã-Duquesa.

«D. Maria é a jangada da Medusa da arte nacional. Aí sobrenadam, num esforço heróico, os restos da velha geração artista. Actores de vontade e de talento, um director excelente - lutam com a escassez da literatura, com a inércia do público, com as dificuldades económicas. E verdadeiramente uma jangada - admirável pelo esforço, incompleta pela organização: boa para lutar, imperfeita para navegar.

«S. Carlos, esse, chilreia.

«Esta decadência deplorável tem causas diferentes:
«A primeira é a própria literatura dramática. Os escritores retraíram-se inteiramente do teatro. Não por o ganho ser diminuto, como se diz, porque no jornal e no livro o ganho não seduz com cintilações de montes de ouro. A principal razão está no feitio da nossa inteligência. O Português não tem génio dramático, nunca o teve, mesmo entre as passadas gerações literárias, hoje clássicas. A nossa literatura de teatro toda se reduz ao Frei Luís de Sousa. De resto, possuímos dois tipos de dramas, que constantemente se reproduzem: o drama sentimental e bem escrito, de belas imagens, ode dialogada, em que unia personagem lança frases soberbamente floridas, o outro retruca em períodos sonoros e melódicos - e a acção torna-se assim um tiroteio de prosas ajanotadas: o drama de efeito, com o que se chama finais de acto, lances bruscos, um embuçado que aparece, uma mãe que se revela:
«— Ah! Céus! E ele! Matei meu filho! Oh!

«Acresce a isto a farsa com os velhos motivos de pilhéria lusitana, o empurrão, o tombo, a matrona bulhenta, o general de barrete de dormir, etc. E é tudo! Sentimentos, caracteres solidamente desenhados, costumes bem postos em relevo, tipos finamente analisados, estudos sociais concretizados numa acção, a natureza, a realidade, a observação da vida - isso encontra-se ainda menos num drama do que numa corrida de touros.

«Outra causa de decadência: o público. O público vai ao teatro passar a noite. O teatro entre nós não é uma curiosidade de espírito, é um ócio de sociedade. O lisboeta, em lugar de salões, que não há - toma uma cadeira de plateia, que se vende. Põe a melhor gravata, as senhoras penteiam-se, e é uma sala, uma soirée, um raout, ou mais nacionalmente uma assembleia. Com esta grande vantagem sobre um salão: - não se conversa. Conversar para o Português constitui uma dificuldade, um transe: é o Cabo das Tormentas dos modernos Lusíadas. Conversar, entreter, mover o alado e fino batalhão das ideias, todo o português imagina que esta maravilha só se pode dar nos romances de franco. Daí vem para o português elegante o hábito de se encostar nas salas, à ombreira da porta, com aspecto fatal. Conversar! os homens tremem e as senhoras empalidecem. No teatro há a vantagem de que se pode mostrar a toilette, namorar, passar a noite - e não se conversa. Em Portugal ninguém recebe e ninguém é recebido, porque não há dinheiro, não há sociabilidade, e antes de tudo preferimos o doce egoísmo aferrolhado e trancado do cada um em sua casa. O teatro é a substituição barata do salão. Salão calado - e comprado no bilheteiro. De resto o teatro favorece o namoro, que é o entretenimento querido do português e da portuguesa correlativa. De facto o teatro é o centro do namoro nacional. O que se passa pois no palco torna-se secundário. Requer-se apenas uma certa moralidade física: - que se não dêem beliscões nas ingénuas. A moral do drama, da acção, dos sentimentos não se percebe ou não se exige. Um beijo que estala sobressalta, um adultério que se idealiza encanta. Uma das condições é que as actrizes se vistam bem, com modas novas, para que nos camarotes as senhoras observem, discutam as rendas, as sedas, as jóias e as toilettes. Um director de teatro não é pois escrupuloso com o seu espectáculo: alguém bem vestido que fale e dê um pretexto para a luz do lustre - é o que basta. Sobretudo aos domingos. Então o mundo comercial e burguês, que repousa e se diverte, enche a sala. Se se der Hamlet, vai, se se der Manuel Mendes Enxúndia, vai. Não é a beleza do espectáculo que o chama - é o tédio da casa que o repele.

«Outro motivo de decadência: os actores. Os actores em geral são maus, com excepção de 4 ou 5 individualidades inteligentes e estudiosas que progridem. São maus - não tanto por incapacidade própria, como pelas condições do seu destino. Eles desgraçadamente em Portugal não pertencem a uma arte, pertencem a um ofício. Que hão-de fazer? - Não têm estudos, nem escola, nem incentivo, nem ordenados, nem público. São actores como outros são empregados públicos; recitam prosa à luz do gás, num palco, como outros expedem ofícios numa sala abafada. Questão de ganhar um ordenado, de se sustentar, de se vestir! A arte, o estudo entram aqui numa proporção ínfima. O artista que, pelo precário estado da sua arte, tem de pensar em comer (quando não é extraordinariamente dotado, porque então a necessidade retempera-lhe a habilidade), torna-se fatalmente um homem de ofício que necessita ganhar; em tal caso o pintor ilustra almanaques, o escultor faz jarras de porcelana, o poeta redige notícias, o actor atabalhoa papéis. Os nossos grandes actores, Santos, Rosa, além da sua organização artística, formaram-se quando o teatro normal (pelo seu regulamento) os punha ao abrigo da luta da vida, e lhes dava os grandes vagares do estudo. No meio da oscilação das empresas, das quebras de companhias, da dispersão dos centros dramáticos - o artista não pode ter os nobres vagares necessários à cultura artística. As dificuldades da vida embaraçam as preocupações da inteligência.

«Outro motivo da decadência dos teatros: a pobreza geral. Não há dinheiro. Lisboa é uma terra de empregados públicos. A carestia da vida, os altos alugueres, o preço do fato, uma certa necessidade de representação que domina a gente de Lisboa, tudo isto deixa a bolsa cansada, incapaz de teatros. O teatro é caro. Uma noite de teatro pode levar a uma família 3$000 réis de camarote, 1$500 de luvas, 1$500 de carruagem no Inverno - ao todo 6$000 réis. 6$000 é a quinta parte de muitos rendimentos mensais - da pluralidade dos rendimentos. Por consequência a afluência aos teatros é pequena. Naturalmente, com a sala deserta, o cofre do teatro não se enche. Daí dívidas, complicações, e falências.

«Tal é o perfil do estado geral dos nossos teatros, a largos traços.

«Perante esta situação ocorre naturalmente esta pergunta: qual é a atitude do Estado, respectivamente aos teatros?
«É esta:
«O Governo não dá nada aos teatros nacionais;
«E dá 25 contos a S. Carlos!
«Ora que o Governo nos responda: - "É o Governo obrigado a auxiliar e a subsidiar a arte teatral?"
«— Não. - Então para que dá subsídio a S. Carlos?
«— É. - Então para que deixa sem subsídio o teatro nacional?

«Se o Governo entende que deve abandonar à indústria, à iniciativa particular, à concorrência, à espontânea acção das vocações, a arte dramática - para que faz uma excepção ao teatro italiano, protegendo-o?
«Se o Governo entende que deve auxiliar a arte teatral, como um elemento poderoso de civilização e de cultura moral - então para que faz uma excepção ao teatro português, desamparando-o?
«Que o Governo pois se decida:
«Ou se declara indiferente e desinteressado em questões de teatro - e então fecha igualmente os seus cofres aos galãs e aos tenores;
«Ou se declara responsável pelo desenvolvimento deste progresso intelectual - e então dá um subsídio ao teatro nacional.
«Nós não temos opinião. Compreendemos igualmente o Governo protegendo o teatro com subsídios, ou o Governo deixando o teatro à iniciativa industrial e literária.
«O que condenamos, e toda a pessoa sensata o condenará connosco, é que, com uma lógica torpemente offenbáquica, o Governo diga:
«— Eu nada tenho com a arte teatral, e por consequência dou 25 contos ao teatro italiano.
«Ou diga:
«— Eu sou o protector da arte teatral, e por consequência pretendo que o teatro nacional se feche de penúria.
«Ora a verdade é esta:
«O teatro nacional é uma necessidade inteligente e moral - e o teatro italiano é uma inutilidade sentimental e luxuosa.

«Quais seriam as vantagens de um teatro normal?
«O teatro normal seria a criação de uma literatura dramática, isto é, o enriquecimento do nosso património intelectual - educação permanente no presente, elemento histórico para o futuro. Porque o drama hoje, como toda a obra de arte, tem dois alcances: pelos sentimentos, ideias, costumes, instituições contemporâneas que estuda e critica, é no seu tempo uma lição para o critério - e no futuro um documento para a história.
«O teatro normal seria a fundação de uma escola de actores, como a Comédia Francesa, fortemente educada, conservando uma tradição, formando discípulos, centro vital das artes teatrais.
«O teatro normal seria o deperecimento providencial das pequenas comédias eróticas, que constituem a aguardente moral das pessoas que não vão à taberna; das mágicas que não passam de um mau acompanhamento da digestão e de uma escola de embrutecimento; dos dramas sentimentais que servem para excitar os sentidos da bur-guesia casada, e formam uma espécie de comunicação cómoda com o vício sem se descer de um camarote! Seria um constante apelo da atenção às coisas do espírito; a subtracção de uma população ociosa e enfastiada às casas de jogo e aos lupanares clássicos; uma influência perdurável, penetrante e subtil nos costumes; uma forte educação pela imaginação; enfim um elemento sadio na nossa vida, insubstituível e indispensável, porque prende com o que uma cidade tem de mais definitivo e de mais determinante - a sua inteligência e a sua moral.
«O teatro normal não seria um regalo exclusivo de Lisboa; faria participar todo o País no desenvolvimento da sua arte. Os actores formados aqui iriam constituir pequenos e bons conjuntos teatrais na província; e em certos meses a companhia-modelo visitaria Porto, Braga, Coimbra, Viseu, as principais cidades, levando ao público o encanto do seu repertório superior e aos artistas os exemplos da sua arte perfeita.
«Isto seria, a largos traços, o teatro normal.

«O teatro de S. Carlos o que é? o que faz? Não aumenta decerto o nosso património literário. Faz apenas a popularização da velha escola italiana de música sensualista, arte de que nada resulta para o País, senão alguns duetos que as donzelas beliscam ao piano, ou que os sinos tilintam ao levantar da hóstia! Que educação se tira da Traviata expirante, ou do imbecil Trovador que corre a salvá-la?
«O teatro de S. Carlos não forma bons actores nacionais. Bem ao contrário! É uma fábrica de reputações para os artistas estrangeiros. Gastamos dinheiro, nós! para que o Sr. Fulanini vá ganhar mais dinheiro para Sampetersburgo ou para Covent Garden, ele!
«O teatro de S. Carlos não constitui um elemento de civilização, mas de decadência. Se alguma coisa debilita o carácter e enfraquece o espírito - é a influência da música italiana, sentimental, amorosa, langorosa, mórbida. Uma ópera é um lupanar. Cada dueto, cada alegro, uma excitação erótica. Imagine-se uma menina ouvindo durante um ano aquela ladainha de sensualidades que se chama - Lúcia, Norma, Traviata, Maria de Rohan, Favorita, Baile de Máscaras, etc.? O adultério idealizado, o amor como a coisa superior e única da existência, o dever considerado burguês, a honestidade mal portée; e toda aquela moral suspirada, gemida, arrastada na dilacerante agonia da rabeca, assobiada irritantemente na flauta, modulada aereamente na harpa, soluçada de um soluço inteiro pelo demónio invisível que habita o violoncelo, tornada acre e triunfante nos instrumentos de metal, roncada no rabecão; e sobre esta massa de voluptuosidade instrumentada, as adúlteras, os galãs, os amorosos, todo um mundo melodioso e devasso, que geme, arqueia os braços, se torce nos êxtases da paixão, entra pelas portas das alcovas, semeia tudo de beijos, e morre de amor, romanescamente, numa ária dolente! Ah! nós não somos bárbaros. Estimamos a música. Meyerbeer, Gluck, Mozart, Beethoven, são verdadeiros pensadores. Mas S. Carlos canta-os? De modo nenhum, a não ser de dois em dois anos Meyerbeer a fugir e a fingir. De resto Donizetti, Bellini, todos os sensualistas! Ora aqueles, respeitamo-los como ideias que cantam - estes detestamo-los como erotismos que arrulham.
«O teatro de S. Carlos não dá participação a todo o País da sua arte. Bem ao contrário, é um teatro exclusivo, de um público limitado, escolhido, sempre igual. O País paga para que este público goze. Para que nós tenhamos árias, comem os lavradores sardinhas!

«Enfim, nem criação de uma arte, nem formação de artistas, nem elemento de civilização, nem interesse geral do País.
«Para que serve S. Carlos? É um luxo, dirão. Sim, compreendemos... Mas é ao menos, realmente, S. Carlos um teatro elegante, um centro belo e fino de vida rica?
«Ah! por Deus, não! Começa logo pela mise-en-scène. Fora algumas belas telas de Rambois e Cinnati, cada vez mais raras, que mise-en-scène! Tome-se para exemplo o D. Carlos: fatos remendados torpemente, bastidores roídos da traça, uma velha mesa carunchosa onde o tirano se apoia... Os coristas agrupados a um canto, na escassez do seu número, elas com os braços nus mal lavados, eles com as botas enlameadas, soltam, num gesto dormente, uma voz por onde têm passado todas as pateadas desde 1836 - o que lhe fez perder a frescura. Nos camarotes, o veludo dos parapeitos, aos farrapos, deixa sair uma clina fétida: o papel está esgaçado, as fechaduras quebradas. Uma iluminação funerária entenebrece a sala; os velhos dourados sujos têm o aspecto melancólico de adornos de capelas antigas; os brancos rivalizam com rostos de carvoeiros. Os corredores, com os tapetes comidos dos ratos, fofos de pó, uma luz soturna e abafada, lembram o cárcere, o portal de casa de jogo. Na superior, cadeiras de palhinha áspera raspam como uma navalha de barba o pano das casacas; e o chão tem tanto asseio que os frequentadores, antes de saírem para a rua, limpam os pés nos capachos por compaixão com os varredores. Na geral bancos estreitos, como de réus, ouriçam a sua palhinha quase podre. No peristilo escuro há lama. As senhoras esperam, ao pé dos municipais formados, o chegar dos trens, expostas a um vento frio que toma aquelas paragens piores que a serra da Estrela!
«Tudo aquilo é pequeno, provinciano, plebeu, e pelintra!
«Não queremos acusar a empresa, não! Companhia comercial, está na lógica da sua acção. E ao mesmo tempo esforça-se, é evidente, por mostrar aqui as belas vozes, as ricas organizações musicais. Além disso ela não é culpada de que o teatro nacional pereça de penúria; nem é culpada de que a música seja, na civilização de um País, uma inutilidade sentimental. Também não construiu o teatro: recebeu-o assim do Governo; não tem obrigação de o pintar, nem de o forrar, nem de o dourar, nem de o tapetar. Como companhia comercial o seu único dever imprescritível, perante o júri comercial - é não falir.
«Outro tanto não sucede ao Governo. Esse, no seu saco, não reúne uma única razão para subsidiar S. Carlos. Nem há ali um elemento de civilização, nem um centro de arte nacional, nem uma escola de artistas, nem um aproveitamento geral do País!
«Não é também um centro de luxo, um orgulho de capital rica, uma maravilha da vida amplamente gozada. É um velho chique pelintra. E o Governo dá-lhe vinte e cinco contos - para o continuar a ser.
«Diz-se que o Governo tem uma razão suprema para sustentar S. Carlos: - é que S. Carlos Constitui uma distracção para a corte e para a diplomacia.
«Quanto à corte... A corte sente a necessidade impreterível de se distrair? Excelentemente! Que pague e subsidie S. Carlos; que o ilumine, o forre, o tapete à sua custa; que dê por cada camarote 20$000 réis por noite, por cada stalle 4$000 réis; que o frequente com ardor, que durma lá, e que seja feliz. Ora que o País pague, não, corte respeitada e amada, não! Que eu, ele, nós, vós, eles, deitemos no erário dinheiro para tu te divertires, não, corte reluzente e maravilhosa! Perdoa, mas, como diria Cipião, não possuirás, ingrata, as nossas placas de 500 réis. A preocupação do País não é precisamente evitar que a corte boceje. Vinte e cinco contos anuais é prodigioso - para que a corte tenha onde passar a noite! Que a corte se distraia a si mesma. E o que faz cada um. A corte pode muito bem entreter a sua noite jogando as damas, ou lendo o Panorama. A corte ainda não leu o Panorama? Ah! pois aí está. Não imagina que fonte de distracções! A corte quer teatro? Que vá ao Salitre! Passa-se muito bem, a 1$500 cada camarote. A corte pode ali gozar a sua soirée regaladinha, e ir depois tomar sossegadamente o seu chá. De resto se a corte se distrai à nossa custa - então devemos intervir nos seus divertimentos. Se temos de pagar a iluminação, os cantores, as rabecas - que nos seja dado o direito de dispor e regularizar os seus prazeres. O poder moderador não poderá mais ir a S. Carlos sem pedir licença à opinião pública. E a opinião pública ficará no seu legítimo direito de responder: "Não senhor, o poderzinho moderador fica hoje em casa: ontem o poder foi ao teatro, hoje vai estudar a sua política: e nada de choramigar, senão ferramo-lo no quarto escuro!"
«E quanto à diplomacia, não nos parece que o País tenha obrigação de a distrair. Os seus governos e os seus reis que a distraiam! Os srs. diplomatas que comprem soldadinhos de chumbo, ou que frequentem o Martinho! De resto a diplomacia é bem audaciosa em pretender divertir-se! Intenta ela estabelecer uma excepção insultuosa aos costumes nacionais? Aqui ninguém se diverte! Suas Ex.as estão extremamente enganados; vieram talvez para Portugal por equívoco! Tudo, entre nós, é grave. Quem vem para aqui é para a bela melancolia! Nós não gostamos de nos rir. Somos, de profissão, tétricos! Havíamos de nos rir, não era mau, e tanta tristeza por essa história atrás, e o pobre D. Sebastião nas areias de África, e o infame domínio de Castela, e outros lutos tão amargurados!... Nós trazemos na alma os crepes da nossa história. Dia e noite soluçamos, à beira do Tejo. A Lusitânia não é lugar de troça. Se VV. Exª' se querem divertir e rir, tenham a bondade de ir para Mabille - ou pelo menos para Badajoz!

«Perdoem estas longas páginas. A questão dos teatros tem uma importância pública. O Governo comete o contra-senso de subsidiar um teatro estrangeiro que é de luxo, e deixa ao abandono o teatro nacional que é de necessidade. O luxo que se sustente pelo luxo. S. Carlos sem subsídio que eleve os seus preços. Camarotes a três ou quatro libras, cadeiras a libra. Se ninguém quiser, que se feche S. Carlos. São algumas árias de menos num palco, e alguma economia mais nas famílias. O teatro nacional que tenha um subsídio, se torne uma escola, um centro de arte, um elemento de cultura. Só isto é o senso, a verdade e a dignidade.»
(QUEIRÓS, Eça de - As farpas. Dezembro de 1871. p. 48)

Obtido em wikipedia e conferido com a edição original


Géricault, Théodore, 1791-1824 - A jangada da Medusa, 1819

Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil (XVI)

Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil (XVI)

via Carreira da Índia by Leonel Vicente on 11/15/09

O transcurso dos 500 anos ocorre sob a presidência portuguesa da União Europeia. Não há de ser uma coincidência fortuita. Já fiz saber ao Primeiro-Ministro Guterres que Portugal pode contar com o Brasil para a consecução da meta que lhe é cara de impulsionar a associação entre a União Europeia e o Mercosul. Os benefícios serão vultosos, de lado a lado. Mantemos a firme expectativa de um acesso mais desimpedido ao mercado agrícola europeu. O retorno para a Europa virá nos ganhos de escala para seus investimentos, agora que o Mercosul se fortalece com a associação do Chile e da Bolívia e os vínculos crescentes com a Comunidade Andina. Estejam certos que a América do Sul logo constituirá uma região integrada e economicamente coesa. Será cada vez mais um espaço de paz, democracia e prosperidade. A União Europeia é parceira privilegiada nesse processo, como bem o deseja Portugal.

Há, portanto, caminhos coincidentes, caminhos comuns nessa busca. E, como Presidente do Brasil, no momento em que celebramos com muita emoção as nossas identidades, no momento em que o Brasil, de certa forma, incorpora, como se seus fossem, os heróis portugueses e que até simbolicamente o Brasil associa o seu passado ao passado de Portugal – e não me refiro apenas à manifestação dos homens de Estado, dos homens públicos, dos homens políticos, mas as manifestações espontâneas da cultura popular brasileira –, eu não poderia deixar de dizer também que, nesse mundo que se avizinha, em que podemos trabalhar juntos com essa mesma vocação de universalismo, bem compreendidas as nossas particularidades, a nossa cultura e as nossas expressões nacionais, ainda há um outro valor forte que há-de orientar as nossas acções nas nossas sociedades. Talvez me referisse, então, a um valor tão antigo quanto o valor da liberdade e da democracia, mas talvez mais difícil de realizar, que é o valor da igualdade.

"As Comemorações dos 500 Anos do Achamento do Brasil na Assembleia da República", intervenção do Presidente da República Federativa do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, na sessão solene de boas-vindas ao Presidente da República do Brasil, 8 de Março de 2000, edição da Assembleia da República, 2000, pp. 19 a 23

domingo, 15 de novembro de 2009

UM RETRATO DO QUOTIDIANO EM DILI NOS ANOS TRINTA

via DA TAILÂNDIA COM AMOR E HUMOR by Jose Martins on 11/15/09-

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De facto nunca tinha ouvido falar no Capitão Armando Pinto Correia.
Porém dado à visita, recentemente, do Bispo Belo à Madeira, procurei na minha biblioteca particular, a obra "Postais Antigos & Outras Memórias de TIMOR", de João Loureiro, patrocinada pela Fundação Macau e procurar informação, relativa, ao oficial do Exército Português que desempenhou funções de administrador de Concelho em Timor Leste, na década trinta do século passado. Transcrevo um trecho do seu livro "Timor de lés a lés" que viria a ser publicado em 1944. Econtro na prosa de Pinto Correia, a subtileza e onde nada ao seu olhar de observador lhe escapa. De um momento para outro Pinto Correia coloca-me em Moçambique, onde eu vivi na década de sessenta e onde por lá, passado, 30 anos tudo era muito parecido ao que relata em Timor. Vamos encontrar no transcrito abaixo o caricato e o humor que só Pinto Correia lhe soube dar o tom que a todos agrada ler.
José Martins
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Assim o Capitão Armando Pinto Correia viu Timos:

"Dilly é sombria e parrana como qualquer burgo de província. Não há cafés, não há jornais, não há teatros. De manhã faz-se a vida de repartição. Às sete horas, os chefes-de-serviço desenterram-se dos mosquiteiros, tomam banho, saboreiam o pequeno almoço e, entre as oito e as noves, trocado o pijama pelas calças brancas e o casaco fechado "à holandesa", fazem sair os seus automóveis baratos e descem de Lahane. As esposas, dentro das suas batas matinais, vêm à varanda despedir-se. E enquanto elas ficam, bocejando, estendidas em cadeiras de viagem ou ralhando com os criados, os chefes seguem, levantando poeira pelas ruas sombreadas de gondões centenários, recebendo no trajecto as saudações dos transeuntoes: indígenas que tiram da cabeça o lenço enrolado e se curvam, de mão estendida, à laiua de quem pede a bênção.
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A pressa é pouca. Um objecto a comprar, pergunta sobre os câmbios, negócios de florins. Mais adiante é a garagem de um colonial crónico: é o club da terra. Toca a amesendar-se um pouco e beber um whisky. Enquanto na casa ao lado, uma descacadeira de arroz vais despelando o neli, os "luminares da aldeia" trituram e desfazem reputações.
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À tarde, após o costume ritual da sesta, a que poucos são refractários, o funcionários de 1ª. classe troca de novo o pijama pela quinzena branca, engomada até à rigidez, põe ou manda pôr o automóvel em marcha e deserta de casa.
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As habitações, obscurecidas pelas largas varandas circulares, são insuportáveis para qualquer trabalho cerebral. Os quintais magros de espaço, a rua muito à beira e as construções debruçadas umas sobre as outras ladeira arriba: tão próximas, que dentro delas não há intimidade, não há conforto, não há isolamento, e o corpo, entorpecido da sesta e da torreira, enervado pela melancolia da tarde, precisa de uma viração tonoficante de ar, que só uma corrida de carro desloca.
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São cinco horas. É preciso falar em surdina, quando o silêncio de Lahane se rompe com o ranger das alavancas e o rosnar das buzinas, o trepidar dos motores. Os senhores oficias e chefes de serviço saiem a passeio com as famílias em trajes leves, eles e elas.
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As mulheres decotadas, braços à vela, gaforina ao vento; eles, de gola aberta, desportivos, derreados sobre os coxins, as pernas distendidas numa preguiça, esboçando conversas, que o calor não deixa prosseguir. Hás adeuzinhos, acenos e irónicas gracinhas para os retardatários que ainda se espreguiçam nas varandas ou nelas recebem, ali mesmo e em cadeira de rota, algumas dessas visitas de cerimónia, que é praxe fazer-se – eles de gravata e colarinho postiço: elas de chapelinho, a desabafar o seu horror por esta vida de vermes, insípida...
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Eles aí vão, a caminho de Dilly, amodorrados nos assentos do carro, sequiosos de fresco, espalhando poeira sobre os indígenas que passam e se afastam para as margens da estrada amarela, descobrindo-se ou fazendo continência, ante as ilustres senhorias.
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Presos consertam as estradas, sob as vistas sorridentes do velho capataz branco, de cachimbo entre os dentes.
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No funco da ladeira, termina o vale de Lahane, e os carros curveteiam para a esquerda, atravessam uma ponte de betão, com grande bolas, atiram-se a toda a brida, ruidosos, pela anenida do Bispo Medeiros, sombreada de sumaúmeiros e aberta entre palmares do Montalvão e do Mascarenhas.
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...Estamos em começos de Novembro, fim da época seca, prefácio do período das chuvas. A terra sopra calor por todos os seus poros. Em Dilly a atmosfera é irrespirável. Ao longo da rua dos Árabes, à porta das suas lojecas, os chinas espapaçam-se nos degraus das varandas, todos em camisola, os pés fora dos tamancos, abanando-se com ventarolas.
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À porta de uma delas, descarrega-se um camion cheio de fardos de café- Troncos nus, luzentes de suor, um magote de indígenas passa dobrado sob os sacos. Além é o quartel de artilharia. Um ladim fardado de caqui passeia lentamente, a arma ao ombro, enquanto num banco, junto à porta, três soldados europeus, de gola desapertada cor de cidra, jazem em silêncio, com ar fulminado, quebrando a sua imobilidade para coçarem a mordedura de um mosquito ou expulsarem um enxame de formigas de asas que volteiam no ar. Em cabelo naufragados em automóveis, os funcionários que desceram de Lahane fazem a via sacra pelas ruas de Dilly, à procura de fresco. No Grémio dos Sargentos, graduados em camisa, mangas arregaçadas, ensaiam carabolas preguiçosas, enquanto na varanda, um grupo tece longas macarenas sobre o preço da vida, as rendas das casas e exiguidade dos prés.
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Lojas e habitações particulares abrem todas as suas portas e janelas sobre a ruas apertadas. Cada casa é um forno.
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Na rua dos Árabes demoram-se as senhoras em compras nas lojas de Joesoef e do Wanhdomal, um árabe e um indiano, enquanto os homens fugindo ao calor ficam à porta, palrando e olhando quem passa, por sob a nave dos gondões centenários, cujas folhas se imobilizaram...
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O espectáculo é sempre o mesmo, exótico, pitoresco. Lojas de aspecto sujo,, tectos baixos, paredes manchadas do roçar de gerações de indígenas. Tabuletas de madeira com caracteres vermelhos em fundo. Valetas onde a água dormita. Chinas em pijama enforquilhados, em bicicletas, vagueiam diante das suas patrícias, que se encostam às portas, de calças pretas, muito largas, o cabelo à rapaz e muito enfarinhadas de pó de arroz. Algumas dão de mamar a bambinos com cara de luas cheias.
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Timoras muito enroladas nas suas vestes claras, arrastando chinelas vistosas, em passinhos curtos, travados pela saia pequena roda, derriçam com marinheiros do vapor "Dilly" – descalços e impecáveis, na sua farda branca. Os alunos da escola china caminham, a um de fundo, maleta dependurada ao ombro. Árabes de olhos profundos, graves e de barbicha à Cristo passam lentos, pesados, silenciosos, sob os cofiós vermelhos, cinzentos brancos, que nunca tiram o toutiço – a caminho da praia, onde se irão pôr de cócoras, voltados para Meca, para a oração do sol posto. Indígenas com barretes, outros de palhinha, alguns arrastando porcos à sirga, uns com peixes salgado e ainda outros com hortaliça do Remexido.
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Passam recrutas, impedidos, enfermeiros, guarda-fios, amanuenses e aspirantes aduaneiros... Mestiças namoradeiras, demoram-se a mirar, com olhos sonhadores, a casa do china fotógrafo. Um coronel médico europeu, de óculos, à porta do May Chong, fala com o proprietário sobre a melhor maneira de tranderir as suas patacas em florins. A loja Wadhomall é a tentação das damas.
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Queima-perfumes, jarras, frascos de essências caras, sabões, lanternas e feitiços pendem do tecto. No balcão e nas estantes, cortes de seda, tapetes, tam-tans, quimonos, pijamas, chinelas brocadas, colchas bordadas, biombos, mantões, popelines, camisas e rendas.
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O espertalhão, sorridente, trocando mãozadas, enriquece dia a dia, mas queixando-se sempre, num português mascavado: - Eu ser pobre indiano, senhora, dar sorte a mim, não faz negócio.
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É um ladino, que às vezes, em momentos de bom humor, se alguma freguesa consegue arrancar-lhe por menos preço alguma daquelas bugigangas em que ele ganha 400% lhe diz: "Deixe lá, você assim é que vai para o céu", o patife sai-se com um riso escarninho: "Senhora, comerciante não poder ir para o céu, porque comerciante todo malandro, todo roubar!"...
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...Pequenos funcionários, indígenas e indianos, em cabelo, curvam a espinha em cumprimentos. Alguns passeiam de braço dado, passos lentos, com mestiças vestidas à europeia, desgraciosamente, canelas descarnadas sob saias curtas, rostos de ceroulas tristes, a tomar fresco.
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...Há uns quintais de funcionários, balizados de palapas ou pedras soltas, e, antes do jardim, canhões de ferro entre um cercado de correntes, com as armas de Portugal. A esses canhões amarram corcoras. Mais além. Na loja do china, três marinheiros europeus ,discutem com ruído as últimas novidades da Metrópole remota.
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A noite aproxima-se. Um funcionário arrima-se a um canto da alfândega. Em frente dos gondões imóveis, cobertos de pirilampos, ergue-se uma voz de cana rachada, rouca, gritando espaçadamente:
- Toqué! Toque! Toqué!
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Dilly pacata, subitamente imerge em plena treva, picada aqui e ali por um candeeiro de aldeia e alguns reflexos de lojas ainda abertas.
Os carros recolhem a Lahana. São oito horas e as ruas já está quase desertas. Soldados da polícia, de espingarda ao ombro, mantas coloridas sobre os troncos friorentos, fazem a ronda, aqui e além. As mais das ruas ermas.
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Sobre as pontes ainda há uns derradeiros chineses e árabes acalmados, continuando a procurar no caneiro dos coliões a fresca brisa que vem do mar. Soldados europeus com nonas ao lado e garotelhos pela mão, marcham silenciosos, estugando o passo a caminho de casa.
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Um cabito recém-chegado da Europa, barrete à orça, passa e repassa com ares de poeta-lírico, esfaimado de amor, junto de uma casa onde se toca piano. Duas indianas magricelas, debruçadas nos peitoris, de grandes trunfas à garçonne, cochicham, com risinhos comovidos. A névoa fumegada por pântanos e coilões torna a descer sobre a cidade.
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Faz um calor de estufa e começa a cair uma cacimba miúda, que amolece a gente. Na rua dos Árabes, casas de sargentos e pequenos funcionários exibem as portas escancaradas, donde vêm notas fanhosas de gramofones, moendo fox-trots, desopilantes de figadeiras coloniais.
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Lá dentro, nos quartos estreitos e baixoa, abafa-se de calor que a irradiação dos candeeiros de gasolina aumentou. Homens em pijamas e mulheres em bata, lavados de suor, mordidos de mosquitos e rodeados de formigas de asas – espapaçam-se em cadeiras, mudos, fulminados, as pernas abertas numa lazeira irresistível .
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No Grémio dos Sargentos, na Colmera, quatro praças em mangas de camisa, jogam pacatamente ao bilhar, enquanto o servente Timor cabeceia à porta e ilude o sono, a mirar o travejamento da varanda onde crescem, nalguns vãos, arremedos de flores. Lagartixas e toques espreitam e perseguem enxames dde baratas voadoares"

P.S. Transcrito do livro "Timor de lés a lés", do Capitão Armamdo Pinto Correia. O texto foi extraído a obra "Postais Antigos & Outras Memórias de TIMOR" de João Loureiro, 1999 e patrocinado pela Fundação Macau.
Recomendamos um clique no endereço a seguir onde obterão mais informação sobre o Capitão Armando Pinto Correia.

sábado, 14 de novembro de 2009

Explicação sucinta do Estado social socialista.

Explicação sucinta do Estado social socialista

via Um Jardim no Deserto on 11/13/09

(Tradução/resumo)

Há quatro maneiras de gastar dinheiro:

1ª. Pode gastar o seu dinheiro consigo próprio. Quando faz isso toma muita atenção às suas escolhas e tenta tirar o máximo partido do seu dinheiro.

2ª. Pode também gastar o seu dinheiro com outra pessoa. Como, por exemplo, quando compra uma prenda de aniversário para alguém. Então, terá menos cuidado na escolha e mais com o custo.

3ª. Pode ainda gastar o dinheiro de outra pessoa consigo mesmo. E, se assim fizer, então seguramente terá um excelente almoço!

4ª. Finalmente, pode gastar o dinheiro de outra pessoa com outras pessoas. E, se for esse o caso, não se preocupará com o que gasta nem com o que compra.

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*Depois de amanhã, 16 de Novembro de 2009, terão passado exactamente três anos sobre a data do seu falecimento.

O vídeo e o seu resumo escrito (em inglês) foram encontrados aqui.

M172 - Portugal homenageia os “comandos” guineenses (fuzilados) que combater...

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by PrincesadoNamibe on 11/13/09
1 -No monumento aos Combatentes do Ultramar
Portugal homenageia os "comandos" guineenses (fuzilados) que combateram no Exército Português

(…) Mas se nós, portugueses (…) nos defendemos com unhas e dentes contra uma agressão injusta e abominável, então passaremos a praticar uma política de genocídio, o que faz pôr os cabelos em pé aos próprios calvos deste mundo dementado. As coisas que se dizem sem resquícios de pudor intelectual e moral. (…)

Cunha Leal, in "A Gadanha da Morte" (1961)

Em boa hora e depois do grande esforço feito pela Associação de Comandos, ao longo de vários anos, a Liga dos Combatentes, zeladora da manutenção e conservação com dignidade, do património que é o Monumento dos Combatentes do Ultramar e do Museu do Combatente existente no Forte anexo, prestou, em nome de Portugal, a homenagem aos 53 militares "Comando" da Guiné, que foram clandestinamente fuzilados pelo PAIGC, "apenas" por se terem combatido com valor e honra, no Exército Português. Os nomes destes militares foram agora colocados nas paredes daquele Forte do Bom Sucesso, à semelhança do que já sucedera como o do Ten-Coronel Maggiolo Gouveia, fuzilado com seus companheiros de infortúnio pela FRETILIN, na antevéspera do Natal de 1975, nos arredores de Aileu/Timor.

Como considero ter havido umaa quota-parte de contribuição no esforço despendido, ao publicar em 1987, o livro "Guerra, Paz e Fuzilamentos dos Guerreiros; Guiné 1970-1980" (2007), quero agradecer aos dirigentes da Liga dos Combatentes, na pessoa do General Chito Rodrigues, o facto de terem considerado estes insignes militares (20 oficiais, 29 sargentos e 4 soldados) como representantes dos milhares (segundo o General António de Spínola) de guineenses igualmente fuzilados e enterrados em valas comuns pelo então novo governo da Guiné-Bissau. Tal aconteceu a outros militares dos três Ramos das Forças Armadas, milícias, autoridades gentílicas, cipaios, etc., que o General Nino Vieira, no jornal oficial do PAIGC, na sequência do golpe de Estado em que tomou conta do poder em Bissau, em 1980, considerou serem 500, enterrados em valas comuns de 35 a 38 pessoas.

A este propósito, considero que já devia ser tempo das actuais autoridades da Guiné-Bissau assumirem a suas responsabilidades históricas em relação a tais acontecimentos, antes de pedirem a ajuda humanitária ou a cooperação com Portugal. É que tal foi praticado, sem as vítimas serem julgadas nem ouvidas de acordo com os mais elementares dos Direitos do Homem. Na minha perspectiva ocorreu um autêntico genocídio.

Não quero deixar de destacar aqui e agora o grande militar que foi o meu amigo Coronel José Pais, falecido devido às sequelas dos ferimentos em combate na Guiné e que me exigiu a denúncia (em livro) do sucedido, antes de nos deixar em 2006; foi um oficial que sempre se empenhou em causas nobres de defesa dos desprotegidos e das vítimas das injustiças praticadas em Portugal e nos territórios ultramarinos.

Um genocídio em Angola e um massacre em Moçambique…

Assim como estes vergonhosos acontecimentos ocorreram durante alguns anos desde 1974, quando o PAIGC funcionava sob o "patrocínio" da então URSS (União Soviética), o genocídio que tinha caído inesperadamente sobre a populações brancas e nativas do Norte de Angola, em Março de 1961, segundo vários investigadores, terá sido apoiado pelos EUA, aquando da presidência de John Kennedy.

Nessa altura, em quatro dias de terrorismo fanático, foram levados a efeito assassínios de cerca de 7.200 pessoas (1.200 brancos), com tortura prévia, violações de mulheres e crianças e muitas mutilações de cadáveres.

Recordo que normalmente os escritores e jornalistas portugueses imbuídos de uma cultura de esquerda apenas costumam salientar alguns esporádicos massacres, durante a Guerra do Ultramar - infelizmente à semelhança do que tem ocorrido em qualquer guerra ao longo dos tempos -, como o foi o de Wiriyamu, em Dezembro de 1972. Sobre este caso, uma comissão da ONU (com países então adversos de Portugal), que não chegou a ir a Moçambique, veio dizer, em 1974, que tinha sido 400 o número de mortos. Marcelo Caetano afirmara anteriormente que era menos de um quarto desse quantitativo e eu, em 1994, depois de investigar sobre o assunto, concluí ser um número inferior a metade dos indicados (entre 154 e 188). Face ao descrito se pode avaliar a perspectiva com que se fazem análises sobre alguns acontecimentos conforme o posicionamento político ou os interesses de cada grupo, movimento de libertação ou país.

Voltando à Guiné…

Cunha Leal (1888-1970), um político que vinha do tempo da Iª República, e foi sempre um elemento activo contra o regime do Estado Novo, afirmava a propósito das declarações de Amílcar Cabral ao "Le Monde", de 14-6-1961 e transcrito no seu mencionado livro ("Gadanha da Morte"):

(…) Como se acaba de ver, mais uma vez, vem a talhe de foice a impertinente e inconcebível tese de que nós, os portugueses, é que estamos a desencadear uma guerra de extermínio contra os povos africanos. Homens armados com equipamentos vindos de países comunistas, atacam inesperadamente, matam e esquartejam os colonizadores brancos, gabando-se ainda por cima, das suas sinistras façanhas, como o fizeram a um correspondente do "Le Monde". Isto – repito – é para o sr. Amílcar Cabral, para os seu colegas de gang e – o que é mais lamentável – para um grande sector do chamado mundo civilizado, uma operação legítima, senão humanitária. Mas se nós, os portugueses (…) nos defendemos com unhas e dentes contra uma agressão injusta e abominável, então passarem os a praticar uma política de genocídio, o que faz pôr os cabelos em pé até aos próprios calvos deste mundo dementado. As coisas que se dizem sem resquícios de pudor intelectual e moral!"

Curiosamente este estilo de posicionamento do então líder do PAIGC, Amílcar Cabral, continuou a prosperar no decorrer de toda a Guerra do Ultramar, nas designadas elites da oposição ao regime e na propaganda e manipulação da opinião pública mundial contra Portugal.

E a onda chegou até Paris, onde Mário Soares ficou imbuído do designado "espírito descolonizador", também transmitido pelos seus amigos dos movimentos de libertação; deste modo, quando chegou a hora de descolonizar no pós-25 de Abril, desconhecendo o que na realidade ocorria nos territórios, avançou para a entrega imediata das nossas possessões africanas. Mário Soares por um lado e Melo Antunes por outro, apressaram-se a fazer a descolonização, antes designada por exemplar e que este oficial, pouco tempo antes de falecer, já a apelidava de trágica. Quero ainda recordar o grande abraço de Soares a Machel, em Lusaka, quando ainda morriam militares portugueses em operações de combate em Moçambique.

Enfim, a história isenta deste período ainda está por fazer. Espero que todos os bons portugueses, actores e observadores dos eventos, que ainda estão vivos, possam colaborar neste desiderato.

Mais uma vez endereço as minhas felicitações à Associação de Comandos por ter lutado para que os nomes dos "seus" comandos guineenses tenham sido inscritos no Memorial dos Combatentes.

Igualmente, em meu nome, dos seus familiares e dos "comandos" guineenses exilados em Portugal, renovo os meus agradecimentos públicos à Liga dos Combatentes por ter salientado os nomes destes valorosos militares, que foram clandestinamente fuzilados "apenas" por terem combatido com coragem e tenacidade (muitos ao longo de uma década), no Exército Português.

Coronel Ref. Manuel Bernardo
8-11-2009