quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Comentário a Cazombo
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
TOQUE A INIMIGO...!

In "Capitães do Vento", Roma-editora.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Tempo de Natal em Barrancos
– Neste trabalho, – apontou, depois de me retribuir o cumprimento – no capítulo referente a Barrancos, estão citadas várias jazidas de ftanitos com Monograptus. Passe o Natal com a família lá em Évora e depois meta-se a caminho. Localize as que puder e faça umas boas colheitas. Temos cá exemplares do centro e do norte do país, mas do sul, só temos isto, – concluiu -, passando-me para a mão um fragmento de rocha cinzenta, muito dura e compacta, exibindo os ditos fósseis.
– Vais para Barrancos? Já amanhã? – Admirou-se o Chico, o meu irmão mais velho, que viera do Brasil passar o Natal com a família. – Mas isso é lá no "cu do mundo". Já lá estive durante uma tournée que fiz aqui no Alentejo com o Igrejas Caeiro. É gente boa. Falam uma espécie de espanhol que dá gosto ouvir.
– Tenho de ir. – Justifiquei resignado. Faltara-me a coragem para resistir ao capricho do catedrático e ali estava eu, forçado a deixar a família, agora reunida após anos de ausência de dois irmãos, o Chico e o Marecas.
Cheguei a Barrancos na última das três carreiras que tive de utilizar. A aproximação à vila fazia-se por um percurso tortuoso, num terreno profundamente abarrancado, realidade paisagística de que lhe resultou o nome. No largo da Igreja, um ventinho gélido brincava com as cinzas deixadas pelo grande lume - a imensa e tradicional fogueira da noite de Natal - a lembrarem o que fora a alegria e o convívio em louvor do Menino Jesus. Era noite quando bati à porta da pensão. Sopa e dois pratos faziam o jantar, servido numa sala grande, mal iluminada e fria, com porta para um corredor que levava à cozinha. Aqui, uma enorme chaminé com lume de chão e enchidos frescos ao fumeiro dava ao ambiente um conforto e um aroma a fazerem desta divisão da casa o lugar mais apetecido. Não longe da lareira, uma camilha envolta numa saia até aos pés, servia de mesa tanto de comer como para cumprir os trabalhos escolares da única filha. Pai, mãe e filha, avô e avó viviam e conviviam o tempo todo ali, num bem-estar que contrastava com o desconforto da sala de jantar destinada aos hóspedes.
Depois de uma sopa rala e sem graça nem sabor, o primeiro prato, à falta de peixe, constou de ovos mexidos com linguiça, seguido de um bife sobre o frito, uma ementa cuidada, pensada a condizer com o hóspede vindo de Lisboa e, ainda por cima, da Universidade. Nesse serão já não saí. Recolhi ao quarto, lajeado com placas de xisto a ressumarem água. O tecto, bem alto, limitava-se a um forro de caniço imediatamente por baixo das telhas. Um desconforto que não melhorava do lado de dentro dos lençóis de linho, húmidos e frios, carregados de mantas que só com o peso disfarçavam a falta de agasalho. Lavatório no quarto e espelhinho na parede diziam-me que, na manhã seguinte, a toilette se faria ali. Uma higiene cumprida a medo com as pontas dos dedos a trazerem a água aos olhos.
– Bom dia! Dormiu bem?! – Acolheu-me a avó, de roda do borralho, logo que me sentiu assomar. – Entre, entre. Venha para aqui, que está mais aconchegado. Já lhe preparo o cafezinho.
Pegou então num punhado de gravetos, chegou-os ao grande toro de azinho fumegante, a chiar baixinho, e começou a avivá-lo soprando por um longo canudo de ferro estrangulado na ponta. Às primeiras labaredas arrumou-lhe a cafeteira de barro queimada do uso.
– Este madeiro foi o da noite de Natal – disse – Era bem grande. Tive cá os outros filhos e os netos todos. Olhe aí para o presépio que eles fizeram. O avô trouxe-lhes o musgo e o barro e eles é que fizeram a bonecada toda.
Sentado à camilha, com as pernas passadas para dentro da grossa saia e com a braseira aos pés, tomei café de mistura, bem quente, a acompanhar torradas de pão caseiro, feitas ali, umas atrás das outras, no brasido do chão. Que delícia e que saudades! Até a margarina me sabia à melhor das manteigas. Encorajado por aquela abertura à intimidade da cozinha, desabafei: – Está-se muito melhor aqui do que na sala de jantar. E não seria também mais prático eu comer o mesmo que come a família? – Acrescentei afoito.
– Vossemecê é que sabe. – Respondeu-me com naturalidade. – A gente acha que a casa de jantar é mais apropriada para os hóspedes. Ficam mais à vontade, e nós também. – Sorriu. – Só lá comemos nos dias da festa, menos na noite do Menino, que é passada aqui ao pé do lenho. Hoje vou fazer chispe com repolho, mogango e feijão encarnado. Se gostar, logo à noite come com a gente. E ainda aí tenho esta carne frita que sobrou das migas do almoço de ontem. – Acrescentou, mostrando-me uma tigela de fogo quase rasa de banha encarnada, através da qual se percebia estarem ali mergulhados os pedaços de carne de porco magra e entremeada. – É temperada com alho e massa de pimentão. Sabe o que é? Assim não se estraga. Logo aqueço-lhe um pouco e vai ver como é bom. Quer mais uma pinguinha de café? Coma mais estas torradinhas, agora que estão quentinhas.
Falando deste e de outros Natais, a avó fazia-me companhia. Falou da ceia, do galo que matara, dos ganhotes e borrachos, da "fona" dos netos entre a casa e o grande lume, da missa da meia-noite e do pessoal cantando e tocando zambomba.
Com esta entrada no seio da família foi-se o frio, até o da noite, pois ali ao pé do lume até sabia bem prolongar o serão recheado de histórias e contos. Quando, por fim, recolhia ao quarto, levava comigo o calor das brasas e o da convivência, regalos que, aliados à fadiga de um dia inteiro a subir e a descer barrancos, cabeços e vales, de imediato me viravam a página para o dia seguinte.
Como foi hábito nesses escassos dias por terras barranquenhas e porque, na ocasião, a noite caía muito cedo, frequentei, nos fins de tarde, antes do jantar, a Sociedade, a mais selecta das duas situadas no largo da igreja, em frente uma da outra. Foi o Mário Escoval que ali me introduziu, permitindo-me conviver com os mais notáveis da vila. Como eu, a estudar em Évora, uma boa dúzia de anos atrás, esse meu amigo, era então um entre as forças vivas locais, a par de outros lavradores, do autarca, do comandante da guarda, do professor e do padre Agostinho.
- O que é que bebes? Cerveja?
- Cerveja, não. Só no Verão e com muito calor. Mas se é preciso justificar o direito à cadeira, que seja um café em copo, bem quente e com um "cheirinho". Sempre dá para aquecer as mãos e a alma.
Não era fácil explicar aos meus companheiros de ocasião qual era o meu trabalho, todo o dia no campo, com um saco, um martelo, uma bússola, um mapa do exército e um caderno de campo. Ainda por cima em terras raianas. Logo no primeiro dia, por duas ou mais vezes, tivera a sensação de estar a ser seguido, facto que relatei ao sargento da GNR, já o Mário havia feito as apresentações.
– Fui eu que ordenei a um dos meus homens para ver o que é que um estranho andava ali a tramar – respondeu em tom profissional o representante da autoridade.
– E o que é que ele viu? – Inquiri, interessado em dar continuidade à conserva.
– Viu-o apanhar pedras em tudo o que era sítio, mirá-las por todos os lados, guardar umas e deitar fora outras. Viu-o olhar para o mapa ou para a bússola, escrever umas coisas e pouco mais.
– É esse o nosso ofício. – Aproveitei para explicar. – Apanhamos pedras estudamo-las e desse estudo procuramos conhecer a história da Terra. Desta vez ando à procura de uns fósseis, ou seja, de vestígios de animais que provam que aqui foi mar há uns quatrocentos e trinta milhões de anos.
– Diga-me cá, - salientou o professor. – E como é que aqui foi mar e hoje é tudo terra em seco? E como é que se sabe que foi, assim, há tanto tempo?
- Bom, tudo isso tem a sua explicação, mas leva tempo.
– Foi o Dilúvio, – meteu-se na conversa o Padre Agostinho, até aí calado, mas particularmente atento.
– Bem, retorqui-lhe - escolhendo as palavras. – Essa é uma história que nos põe num outro campo que nada tem a ver com o nosso trabalho. Uma história que dava pano para mangas. – Rematei, sorrindo-lhe.
– Venha para cá no Verão, por altura das festas, – atalhou o eclesiástico – vai ver que gosta. Depois fica aí uns dias connosco para falarmos destas coisas. Tertúlia já nós temos. O Zé Adrião diz que tem lá no monte um peixe petrificado, metido no xisto. O Mário já foi ver e diz que parece mesmo um peixe, assim, grande – e abriu os braços, ao jeito dos pescadores desportivos quando falam das suas proezas. - Temos de ir vê-lo.
Só ao terceiro dia da minha estada em Barrancos localizei a tão desejada camada com fósseis de Monograptus. Após duas jornadas de insucesso, ocorreu-me pedir ajuda a um pastor com quem já me havia cruzado. Depois de umas palavras de circunstância e de umas festas ao cão, que logo me reconheceu e se aproximou a abanar vigorosamente a cauda, tirei do saco a dita amostra de ftanito bem embrulhada em jornal.
– Vossemecê já viu por aqui pedra como esta, com estes risquinhos? – Perguntei, passando-lhe para a mão o exemplar que trouxera de Lisboa.
– Já vi, sim senhor. – Respondeu, satisfeito, com o ar de quem sabia do que estava a falar. – Uns são direitos, outros enroladinhos. Têm assim um denteado como a folha da serra de rodear.
– É isso mesmo. E onde é que os posso encontrar? – Prossegui, animado pela resposta.
– Há aí vários sítios com esta pedra. - Disse, olhando-a atentamente – É muito diferente do resto. É mais dura e não abre nem deixa meter a folha da navalha, como o xisto. Umas são mais claras e outras mais escuras, como esta. Que eu me lembre, assim de repente, aparece ali para o Calvário. Também as há nas Boticas, em Noudar e ao pé da capela de São Ginés – nomes que foi pronunciado, pausadamente, à medida que os ia tirando da memória dos muitos sítios daquele que era o seu mundo. – Mas há mais. Olhe, ali atrás daquele cerro. Está a ver? – E apontou com o cajado. – Na Cerca das Almas, também se apanha obra desta. Há um caminho que passa no alto, - continuou – na direcção de quem vai para a vila. Em lá chegando, vossemecê vê logo um barranco fundo à sua mão direita. É aí, na descida, que há pedra igual a esta, cheínha destas coisas.
Abri o mapa e orientei-o. Lá estava a Cerca das Almas, a uns três quilómetros dali. Marquei o local que me pareceu corresponder à descrição do pastor, dei-lhe os bons dias, fiz mais umas festas ao rafeiro e pus-me a caminho. Era meio-dia quando cheguei ao ponto assinalado, dominado por enorme expectativa e pelo receio de mais uma tentativa falhada. Mas não. A camada fossilífera estava finalmente ali, a meus pés. A cada golpe de martelo a rocha abria-se-me nas mãos, repleta dos tão procurados Monograptus. Sentei-me a comer o farnel que sempre levava por almoço e passei o resto da tarde a partir ftanito e a enrolar em jornais todos os fragmentos que contivessem os ditos fósseis, posto o que regressei à vila, ajoujado ao peso da preciosa carga.
No fim dessa tarde foi a festa na Sociedade. Festejava-se a despedida, mas também o achado pelo qual já todos ansiavam e que, naturalmente, todos desejavam observar de perto. Desembrulharam-se as amostras e cada um viu o que quis e comentou ou perguntou o que lhe apeteceu.
- Vai já amanhã embora? Na carreira das sete e meia? – Perguntou-me por fim um dos presentes que, de seguida, gritou para o empregado, ao fundo da sala – Juzé Manué, bei acá i trázi maih uma jarra di binhú i uma pihca de catalão assadu.
Missão cumprida, podia regressar ao seio da família. E ainda faltavam dois dias para o Ano Bom. Na bagagem trouxe comigo um talego de chita cheio de lembranças dos meus amigos barranquenhos, uma preciosidade que entreguei à minha mãe.
– Isto faz um jeitão – comentou ela, no seu estilo de experiente e hábil gestora da economia familiar. – Mas que bem que cheiram os enchidos! E este pão, que coisa linda! E estes queijos e estas azeitonas! Louvado seja o Menino!
In "COM POEJOS E OUTRAS ERVAS". Âncora Editora, 2004. Lisboa.
domingo, 27 de dezembro de 2009
Quatro décadas: da mudança à incerteza - Intervenção na Academia das Ciência...
Quatro décadas: da mudança à incerteza - Intervenção na Academia das Ciências de Lisboa
À margem da Europa, o país vivia um relativo isolamento. Virado para o Atlântico e para África, onde possuía o último e imenso império colonial, os seus contactos com os países vizinhos eram reduzidos. Para as autoridades políticas, o isolamento era uma virtude. A tradição nacional, que valorizava o catolicismo e a ruralidade, era defendida e cultivada. A memória de um passado glorioso era o substituto de um futuro incerto. O oceano, fonte de memórias antigas, abria o país ao mundo. Mas a fronteira terrestre separava-o, mais do que aproximava, do único e grande vizinho, com o qual as relações não eram, quase nunca tinham sido, próximas, boas e amistosas. O Ultramar era o horizonte. Poderoso na ideologia e na retórica, mas afastado na geografia e na economia. A versão oficial proclamava uma sociedade multirracial, da Europa à Ásia. Mas, na verdade, a sociedade portuguesa era uma das mais homogéneas de todas as europeias. Os seus traços característicos punham em evidência uma grande unidade cultural, religiosa e étnica. Uma só língua dava forma a esta homogeneidade. Nas ruas das cidades, era raro, muito raro, cruzar um africano, um asiático ou qualquer outro estrangeiro. Além de tudo isto, o regime autoritário reforçava a ausência de pluralidade na sociedade portuguesa. (...)
Texto integral [aqui]
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
Da Língua Portuguesa
António Telmo, "Da Língua Portuguesa", Espiral nº4/5, p.58
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
O Complexo de Culpa dos Colonizadores
O Complexo de Culpa dos Colonizadores
A esses povos o colonizador levou antes de mais nada a paz e a segurança. Foram os colonizadores quem pôs fim ás guerras tribais e ao tráfico da escravatura – que fora durante séculos negócio corrente entre os chefes nativos e os negreiros e um direito normal do guerreiro vitorioso. Levaram aos povos autóctones o conhecimento de novas culturas, de sentido universalista, que os alçavam à consciência de membros da grande familia humana e de filhos do mesmo Deus. Organizaram o estudo e a luta contra as doenças, abriram hospitais, sanatórios, lazaretos, consultórios, laboratórios de análises, ordenaram o ensino da medicina e enfermagem, multiplicaram as campanhas de desparasitação, quininização, rastreio da tuberculose, combate aos agentes patogénicos. É de notar, no combate à mosca tzé-tzé, causa da doença do sono, a actividade dos médicos portugueses, que praticamente erradicaram esta doença dos nossos territórios. Generalizaram o ensino primário, abriram escolas técnicas e secundárias, universidades e institutos superiores de investigação. Os nossos institutos de investigação veterinária e agricola em Angola, por exemplo, eram organismos de categoria intenacional.
O colonialismo fez leis de trabalho e de previdência social, estudou os melhores métodos de cultura das terras e da criação de gado, aproveitou fontes de energia, instalou industrias, construiu portos maritimos, rasgou estradas, caminhos de ferro e pistas de aeroportos, edificou cidades, estabeleceu ligações terrestres, maritimas e aéreas, com todo o mundo. Não têm as nações colonizadoras em Àfrica, dum modo geral, razões para se sentirem culpadas do que por lá fizeram. Porque, a par de erros cometidos – e alguns desmedidamente avolumados pelos facciosismos da propaganda – há toda uma obra de trabalho, de progresso, de promoção social, que os africanos mais tarde hão-de lembrar reconhecidos e que para os europeus será sempre motivo de orgulho e não de complexo de culpa, injusto e absurdo. Pode dizer-se que até nalguns erros a obra dos colonizadores ficou. Tal o caso dos limites das novas nações africanas. Foram talhadas com fronteiras artificiais, no arbitrio dos acordos entre as potências europeias. Muitas separaram grupos étnicos que ficaram divididos por dois paises novos, parte num, parte noutro. Pois apesar disso é de supor que os novos estados fiquem com as fronteiras convencionadas pelos colonizadores e dentro delas desenvolvam, progridam e façam a sua História.
Conta-se que, depois do 25 de Abril, um diplomata do Leste europeu visitou Lourenço Marques. Acompanhou-o ali um dos dirigentes da FRELIMO apontou indignado para as palhotas:
-Isto é uma herança do colonialismo!
O diplomata do Leste sorriu e comentou:
-Isto aqui é África. A herança do colonialismo está ali.
E apontava para os altos prédios que se erguiam imponentes a umas centenas de metros...
Fonte: Barradas de Oliveira – Quando os Cravos Murcham
domingo, 20 de dezembro de 2009
OS BÓERES NO PLANALTO DA HUÍLA
Os bóeres são descendentes dos colonos holandeses que se fixaram no Sul da África, nos meados do século XVII, e dos huguenotes franceses fugidos às guerras religiosas da Europa, que se lhes juntaram, vinte e cinco anos depois.
Criaram raízes na terra. Pretendiam ficar. No entanto, quase século e meio antes da eclosão dos movimentos nacionalistas africanos, já a História os colhera na sua rede. Em 1815, a Holanda viu-se forçada a ceder a Colónia do Cabo à Inglaterra.
Fartos dos ingleses, a partir de 1835 os bóeres começaram a emigrar para Norte. Foi a grande marcha, o Trek. Fundaram sucessivamente o Estado Livre de Orange, o Natal e a República do Transvaal. Os britânicos não lhes deram sossego e obrigaram-nos a lutar pela liberdade. Os africânderes, como também eram chamados, bateram-se bem, mas foram vencidos.
Em 1876 terminou a guerra do Transvaal.
Seiscentas famílias bóeres penetraram no deserto do Calaari, procurando novo local para se instalarem, longe da bandeira inglesa. Viajaram em grandes caravanas que se organizavam, nas paragens, em posições defensivas. Os carrões bóeres eram parecidos com que se vêem nos filmes de cobóis. A estrutura dos veículos era simples: uma caixa grande de madeira assentava em dois eixos. As rodas de trás, maiores, eram fixas. As dianteiras, um pouco mais pequenas, giravam à vontade do condutor. Um bom sistema de travagem tornava seguras as descidas íngremes. O tecto, de lona esticado sobre arcadas de madeira, isolava o interior da chuva e, até certo ponto, do calor, do pó e dos mosquitos. Havia muitas peças móveis que se adaptavam às necessidades. As arcas de arrumação serviam também de assentos. Eram puxados por seis a oito bois, por vezes por mais.
Ao longo do Trek, os bóeres passaram fome e sede. Sofreram com a seca e com as febres, nas estações das chuvas. Perderam gente, gado e haveres e foram dispersando.
Uns tantos desistiram e voltaram para trás. Outros prosseguiram até ao Sul de Angola e percorreram as margens dos grandes rios Cubango e Cunene. Acabaram por estabelecer contactos com as autoridades portuguesas e obtiveram do Governo de Lisboa a concessão de três mil hectares de terra para se instalarem.
Vale a pena citar uma cláusula do contrato estabelecido entre os representantes do nosso governo e os líderes da comunidade bóer: Terreno cultivado pelo gentio é propriedade deles e não pode ser dado aos colonos que, portanto, não podem tirar-lhes o mesmo. O documento assinado garantia também, aos que chegavam, total liberdade de culto religioso.
Em Janeiro de 1881, oitenta famílias bóeres vieram estabelecer-se nas terras altas da Humpata. Além do gado de tracção traziam rebanhos soltos. Eram também caçadores. Jacobus Botha chefiava o grupo. Era o patriarca, à maneira bíblica: chefe religioso, político e militar, experimentado em guerras e sofrimento. Vira mesmo um dos seus criados ser devorado por um crocodilo, quando atravessava o rio Cunene, agarrado à cauda dum cavalo.
Os bóeres chegaram e construíram um canal de irrigação de seis quilómetros de comprimento, com uma levada de água para cada casal.
Nessa época, estavam fixados naquela área apenas dois portugueses. Artur de Paiva, jovem alferes, serviu como intérprete de língua inglesa e ficou a comandar o destacamento militar que se estabeleceu no local. Casou com uma das filhas de Jacobus Botha. Boa parte do sucesso de Artur de Paiva nas campanhas de ocupação do Sul de Angola ficaria a dever-se à ajuda prestada pelos cavaleiros bóeres.
Em 1883, foram enviadas para a Humpata seis famílias da falhada colónia Júlio de Vilhena, em Pungo Andongo. No ano seguinte, fixou-se na região um grupo de colonos madeirenses.
Os africânderes não gostaram da companhia. Acharam os novos vizinhos atrasados. Multiplicaram-se pequenos conflitos, resultantes da delimitação das propriedades e da distribuição da água de rega. Muitos bóeres venderam os seus terrenos e mudaram-se para a Palanca, a sete quilómetros de distância. Passados poucos anos, mais famílias abandonaram a Humpata e foram à procura de outras terras nos distritos do Huambo e do Bié. Uns tantos ficaram.
Existia, no papel, o Esquadrão Irregular de Cavalaria da Humpata, composto por praças de Caçadores 4. Em 1891, apenas três soldados sabiam montar. Quando eram necessários cavaleiros, contratavam-se bóeres. Traziam armas e montada, eram destemidos e conheciam o terreno. Faziam-se pagar bem.
Os bóeres ao serviço de Artur de Paiva raramente terão ultrapassado a meia centena. Foram determinantes na ocupação de Cassinga e na expedição ao Bié, em 1890, após o suicídio do sertanejo Serpa Pinto. Foi então aprisionado o soba Dunduma e estabelecido o domínio português na região. Algum tempo depois, os cavaleiros contratados colaboraram na campanha do Humbe, após o massacre do pelotão comandado pelo tenente Conde de Almoster.
A segunda guerra dos bóeres, travada com a Grã-Bretanha entre 1898 e 1902 não parece ter influenciado a situação dos africânderes residentes na região.
Em 1927 a África do Sul, pretendendo contrariar a influência eleitoral alemã na árida Damaralândia, desenvolveu uma campanha destinada convencer os bóeres fixados no Planalto da Huíla a regressarem à terra mãe. A iniciativa teve êxito. Em 1928, quase todos os bóeres se mudaram para o território do Sudoeste Africano. Foi um novo Trek.
Quatro famílias apenas ficaram na Humpata. As outras, uma a uma, carregaram novamente os seus carrões. Carrão após carrão rolou terra abaixo pela bem conhecida carreteira que conduz ao vale do Cunene, perto do Chitado. Na margem esquerda do rio, ao avistarem a bandeira sul-africana, reuniram-se todos para cantarem hinos de acção de graças. A pequena colónia constituída por 270 pessoas de raça branca que tinha viajado para o Norte até à Humpata em 1880 cresceu muito, contando agora perto de 2.000 almas.
Referências:
Estermann, Charles, Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro). Instituto de Investigação Científica Tropical, Lisboa, 1983.
Gama, António, Uma história de vida. Blogue Memórias e Raízes, 2009.
Trabulo, António, Os Colonos. Esfera do Caos, Lisboa, 2007.
Fotografias: colecção do autor.
Uma maneira de ser


