domingo, 10 de janeiro de 2010

Dois irmãos muito diferentes

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 1/10/10
(Este é um texto concebido ao estilo de um conto juvenil mas que visa também os crescidos interessados nas matérias nele versadas)

ERA UMA VEZ UM APRENDIZ de vidraceiro chamado Domingos. O seu trabalho de todos os dias, como voluntário, naquelas férias de verão, entre os 11º e 12º anos, era aprender a arte de cortar vidro para vidraças de janelas, quadros com gravuras e tudo o mais que precisasse daquela operação. Dos restos que iam ficando, tinha autorização para cortar pequenos rectângulos para molduras que ele próprio fazia, num jeito de brincadeira, para grande satisfação do patrão, que as vendia a bom preço. A um canto da grande mesa de trabalho, muito plana e lisa, forrada a feltro, onde se esquadravam e cortavam as grandes chapas, além da régua e da fita métrica, estava sempre o riscador, uma espécie de caneta em latão, polida do uso, terminada numa ponta de diamante com que riscava o vidro, o que permitia o corte certeiro. Bem seguro atrás da orelha, e numa imitação do mestre, o Domingos trazia agora, também ele, o lápis muito afiado, com que tomava nota das encomendas, fazia contas ou escrevinhava apontamentos próprios da sua aprendizagem. Só o tirava em casa, findo o trabalho, para voltar a pô-lo, na manhã seguinte, ao sair. Fazer o percurso a pé, de ida e volta, de lápis na orelha, era uma maneira de mostrar ao mundo que era alguém que já trabalhava.

Um belo dia, à hora de ir almoçar, fora do que era o seu costume, o rapaz tirou o lápis da orelha, colocou-o sobre a mesa de trabalho, mesmo ao lado do riscador, e saiu, fechando a porta atrás de si. Foi no silêncio da oficina deserta, que a ponta de diamante, dirigindo-se ao bico do lápis, começou por dizer:

- Até que enfim que te tenho aqui ao pé. Há que tempos que te vejo lá em cima, na orelha do rapaz, sem poder falar contigo.

- É verdade. – Concordou a ponta do lápis. – Os objectos, como nós, só podem falar quando não há ninguém por perto. É por isso que as pessoas nem sonham que nós falamos uns com os outros.

Ao retomar a conversa, a ponta do riscador, com o seu ar de importância, apresentou-se.

- O meu nome é diamante. Nasci há muitos milhões de anos, lá bem no interior da Terra, a mais de 200 quilómetros de profundidade, onde a pressão é cerca de 60 000 vezes superior à que temos aqui à superfície, e a temperatura ultrapassa os 1600 ºC. Sou o mineral mais duro que se conhece, sou quase exclusivamente feito de carbono, o mesmo elemento do vulgaríssimo carvão. Praticamente, nada me destrói. Só o fogo, mas é preciso que a atmosfera seja bem rica em oxigénio e a temperatura atinja valores muito elevados, superiores a 800ºC. Tenho também o meu calcanhar de Aquiles, a que os estudiosos chamam clivagem perfeita.

- E o que é que isso quer dizer? Perguntou a ponta do lápis, curiosa.

- Quer dizer que em algumas direcções da minha rede cristalina, os átomos ligam-se por forças mais fracas, o que faz com que eu me parta facilmente segundo essas direcções. Portanto, se me derem uma pancada com a orientação correcta, lá me separo eu em dois bocados. Mas, tirando esta minha fragilidade, sou indestrutível. O meu nome, que vem do grego antigo, adamans, quer dizer isso mesmo. Sou incorruptível, como dizem os mais eruditos.

- É curioso que eu também sou um mineral mas não tão velho como tu. Sofro do mesmo mal e até mais do que tu. Se me baterem ou apertarem, desfaço-me toda. – Interrompeu a ponta do lápis. – Também sou quase exclusivamente feita de carbono, chamo-me grafite e não sou mesmo nada dura. Pelo contrário, sou quase tão macia como a manteiga, a ponto de ser usada como lubrificante. Também venho do interior da Terra, embora de menor profundidade. Dado o facto de eu ser assim tão escura, quase preta, e de a minha dureza ser muito baixa, desde há muito que me usam para escrever e desenhar sobre o papel. É por isso que me baptizaram de grafite, tendo por base a raiz grega, graph, que traduz a ideia de escrever. É essa tua fragilidade, a que chamas clivagem, que, em mim, é um dom que me torna importante. É, precisamente, por eu me separar tão facilmente por esses planos de fraqueza que me torno útil na escrita e no desenho, pois vão ficando no papel esses meus minúsculos bocadinhos, registando o traço.

Nós, os da minha espécie, – retomou o diamante – somos, no geral, quase incolores. Mas há diamantes de quase todas as cores e, até, pretos - acrescentou. - Somos todos muito apreciados pelo excepcional brilho que temos. Tão especial que lhe foi dado o nome de adamantino. Temos também, depois de facetados e polidos, uma dispersão da luz e uma cintilação únicas entre os minerais! Ninguém nos fica indiferente! Eu, como não era assim muito branquinho nem muito transparente, não fui parar à bancada do lapidador, não tendo sido usado para fazer jóias. Mas, dada a minha grande dureza, viram-me utilidade na indústria, e aqui estou!

Seguro da sua importância, o diamante não parava de falar das qualidades que a mãe Natureza lhe dera.

- Duros, indestrutíveis e com este brilho, muito valorizado pela lapidação, há muito que somos tratados como pedras preciosas, ao lado das esmeraldas, das safiras e dos rubis. Temos grande procura como uma das gemas de maior cotação no mercado e lapidam-nos desde o século XIV.

- De facto – anuiu a grafite, – eu pertenço a uma espécie mais humilde mas muito trabalhadora. Não ando nas coroas e tiaras de reis e rainhas nem nos colares e anéis das estrelas de cinema, mas tenho muita utilidade em importantes indústrias, como são as do aço, dos refractários, dos lubrificantes, das baterias eléctricas e a dos lápis, claro. – Respirou fundo, como que a tomar folgo, e continuou. - Ficas agora a saber que as minas dos lápis de escrever são feitas com grafite. Do bico do lápis já saíram grandes obras de arte no desenho e na escrita. Olha, os desenhos originais de, Leonardo Da Vinci ou os de Picasso são tão valiosos que, em leilão, rivalizam com os melhores diamantes! A lápis, muitos arquitectos como Vitúrbio, Le Corbousier, Oscar Nimeyer ou o português Eugénio dos Santos, esboçaram projectos de grandes obras que fizeram história. Olha, - disse por fim – ficas também a saber que ainda hoje na América, os alunos, nas escolas, e os adultos, no seu trabalho, preferem o lápis à caneta.

- Alto aí! – Interpôs a ponta do riscador. - É verdade que alimentamos a vaidade dos poderosos e ricaços, mas também é certo que evitamos a fome em países como a Namíbia e o Botswana. É verdade que temos sido causa de guerras, roubos e grandes crimes contra inocentes, mas nem te passa pela cabeça a importância dos diamantes na indústria, em especial, na de equipamentos de corte e perfuração e de abrasivos. Não há nada, desde o aço à pedra mais dura, que nós não consigamos cortar, perfurar ou desgastar. São as serras diamantadas, as cabeças das sondas que procuram as águas subterrâneas ou o petróleo, são as lixas especiais e muitas outras moderníssimas aplicações.

Entusiasmado com esta também sua utilidade entendeu acrescentar: - A nossa importância é tal neste sector da sociedade moderna, que a extracção de diamantes naturais não chega para as necessidades do consumo. Há, pois, que produzi-los industrialmente, o que já se faz desde meados do século passado. Até te digo que hoje em dia, a produção de diamantes artificiais ou sintéticos ultrapassa, de longe, a sua exploração na natureza. E já somos produzidos para outros fins, tirando partido de outras propriedades que temos. O nosso muito baixo coeficiente de expansão térmica e elevadíssima condutividade térmica faz-nos ideais como dissipadores de calor em sistemas computorizados de alta performance; se formos tratados com boro, tornamo-nos semicondutores e isso coloca-nos numa posição privilegiada para os novos chips informáticos. E mais: já nos fazem em placas transparentes com alguns milímetros de espessura que são ideais para janelas em diversas indústrias, desde a aeroespacial à investigação de ponta em física.

- Também nós! – Contrapôs a ponta do lápis. – É muito mais a grafite produzida artificialmente do que a que se extrai como minério por esse mundo fora.

- Deixa-me dizer-te mais uma coisa. – Interrompeu a ponta de diamante. – Há uns anos a esta parte já se fazem diamantes sintéticos em muitas cores e com tamanho e qualidade suficientes para serem usados em joalharia.

- Mas eu - atalhou a grafite - não te esqueças nunca disso, eu tenho tudo o que é preciso para me transformar em diamante, mas não estou nada interessada nisso. Posso, perfeitamente, ser a fonte do carbono utilizada na síntese do diamante, a altas pressões e altas temperaturas, e só de pensar nisso fico com arrepios! Mas o que é facto é que saio de lá como se fosse tua irmã gémea.

- Bem vistas as coisas, – disse o diamante, - nós pertencemos à mesma família.

- Para já, temos a mesma composição química. Ambos somos feitos de carbono. – Anuiu a grafite que continuou, explicando. - As grandes diferenças entre nós só têm a ver com a profundidade a que fomos gerados. Eu sei isto – continuou – porque um dia, o Domingos me deixou em cima da mesa onde costuma estudar, ao lado de um livro de Geologia, aberto precisamente na página onde se falava de nós. É apenas a forma e a energia com que se ligam os átomos de carbonos que nos distingue.

- Eu também sei – interrompeu o diamante, não querendo ficar atrás desta sua parente tão chegada. – Lá na mina, na província do Cabo, perto de Kimberley, na África do Sul, onde me apanharam, havia um engenheiro que gostava de explicar tudo isso a quem quer que estivesse por perto. Foi aí que aprendi que, antes de ser diamante, fui, talvez, um simples carvão fóssil que, em conjunto com outras rochas da crosta terrestre, fui arrastado para níveis muito profundos de uma zona do interior da Terra a que se dá o nome de manto. Foi aí que fiquei transformado naquilo que sou. Estava eu muito sossegado, anichado numa rocha chamada eclogito, quando, passados mais alguns milhões de anos, lá vim eu cá para cima numa viagem super-rápida. Percebi, então, que estava a ser arrastado pela lava de um vulcão. Nem tive tempo para me adaptar ao novo clima. Acostumado àquele forno imenso e sob grande pressão, vejo-me, agora à temperatura e à pressão normais â superfície da Terra. Depois de tanta aventura, eu bem gostava de ter sido lapidado e colocado num anel de noivado, ao lado de uma pérola, - desabafou, num doce suspiro - mas quando dei por mim ia num grande vapor, a caminho da Irlanda, de onde parti para França, o país da fábrica onde fui cravado nesta espécie de caneta de metal amarelo, tão polidinha, do uso, que mais parece feita de ouro.

Pois olha, - retorquiu a grafite. - A minha história não é muito distinta dessa. A única diferença foi eu não ter sido arrastada lá para tão fundo, como tu foste. Não cheguei a descer abaixo da crosta, tão fundo como tu desceste e é só por isso que não sou um diamante. Mas insisto em afirmar que tenho muito orgulho naquilo que sou e faço.

Nesta fase do diálogo ente as duas pontas de carbono, abriu-se a porta da oficina. Apanhadas de surpresa, calaram-se imediatamente como se a conversa tivesse cristalizado ali. O Domingos dirigiu-se à grande mesa e os seus olhos brilharam, satisfeitos, ao ver o lápis que julgara ter perdido. Pegou nele e, num gesto automático, colocou-o atrás da orelha.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

EÇA E A GUERRA DO AFEGANISTÃO

EÇA E A GUERRA DO AFEGANISTÃO

via DA TAILÂNDIA COM AMOR E HUMOR by Jose Martins on 1/7/10
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*Assunto:* EÇA E A GUERRA DO AFEGANISTÃO, em 1880
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Eça de Queiroz foi um observador arguto da guerra do Afeganistão, não a do Obama, mas a dos ingleses im
periais do sec. XIX, e sobre ela escreveu páginas implacáveis que talvez os nossos governantes, já que os estrangeiros não sabem português, tivessem interesse e proveito em ler e meditar. Aí vão elas (escritas em 1880). Extracto do livro *"CARTAS DE INGLATERRA"*.
*A guerra do Afeganistão vista por Eça de Queiroz*
"Os ingleses estão experimentando, no seu atribulado império da Índia, a verdade desse humorístico lugar comum do sec. XVIII: 'A História é uma velhota que se repete sem cessar'.
O Fado e a Providência, ou a Entidade qualquer que lá de cima dirigiu os episódios da campanha do Afeganistão em 1847, está fazendo simplesmente uma cópia servil, revelando assim uma imaginação exausta.
Em 1847 os ingleses, "por uma Razão de Estado, uma necessidade de fronteiras científicas, a segurança do império, uma barreira ao domínio russo da Ásia..." e outras coisas vagas que os políticos da Índia rosnam sombriamente, retorcendo os bigodes - invadem o Afeganistão, e aí vão
aniquilando tribos seculares, desmantelando vilas, assolando searas e vinhas: apossam-se, por fim, da santa cidade de Cabul; sacodem do serralho um velho emir apavorado; colocam lá outro de raça mais submissa, que já trazem preparado nas bagagens, com escravas e tapetes; e, logo que os correspondentes dos jornais têm telegrafado a vitória, o exército, acampado à beira dos arroios e nos vergéis de Cabul, desaperta o correame, e fuma o cachimbo da paz...
Assim é exactamente em 1880.
No nosso tempo, precisamente como em 1847, chefes enérgicos, Messias indígenas, vão percorrendo o território, e com os grandes nomes de "Pátria" e de "Religião", pregam a guerra santa: as tribos reúnem-se, as famílias feudais correm com os seus troços de cavalaria, príncipes rivais juntam-se no ódio hereditário contra o estrangeiro, o "homem vermelho", e em pouco tempo é tudo um rebrilhar de fogos de acampamento nos altos das serranias, dominando os desfiladeiros que são o caminho, a estrada da Índia...
E quando por ali aparecer, enfim, o grosso do exército inglês, à volta de Cabul, atravancado de artilharia, escoando-se espessamente, por entre as gargantas das serras, no leito seco das torrentes, com as suas longas caravanas de camelos, aquela massa bárbara rola-lhe em cima e aniquila-o. Foi assim em 1847, é assim em 1880.
Então os restos debandados do exército refugiam-se nalguma das cidades da fronteira, que ora é Ghasnat ora Kandahar: os afegãos correm, põem o cerco, cerco lento, cerco de vagares orientais: o general sitiado, que nessas guerras asiáticas pode sempre comunicar, telegrafa para o viso-rei da Índia, reclamando com furor "reforços, chá e açúcar"!
(Isto é textual; foi o general Roberts que soltou há dias este grito de gulodice britânica; o inglês, sem chá, bate-se frouxamente). Então o governo da Índia, gastando milhões de libras, como quem gasta água, manda a toda a pressa fardos disformes de chá reparador, brancas colinas de açúcar, e dez ou quinze mil homens. De Inglaterra partem esses negros e monstruosos transportes de guerra, arcas de Noé a vapor, levando acampamentos, rebanhos de cavalos, parques de artilharia, toda uma invasão temerosa...
Foi assim em 1847, assim é em 1880.
Esta hoste desembarca no Industão, junta-se a outras colunas de tropa índia, e é dirigida dia e noite sobre a fronteira em expressos a quarenta milhas por hora; daí começa uma marcha assoladora, com cinquenta mil camelos de bagagens, telégrafos, máquinas hidráulicas, e uma cavalgada eloquente de correspondentes de jornais. Uma manhã avista-se Kandahar ou Ghasnat;- e num momento, é aniquilado, disperso no pó da planície o pobre exército afegão com as suas cimitarras de melodrama e as suas veneráveis colubrinas do modelo das que outrora fizeram fogo em Diu. Ghasnat está livre! Kandahar está livre!

Hurrah!
Faz-se imediatamente disto uma canção patriótica; e a façanha é por toda a Inglaterra popularizada numa estampa, em que se vê o general libertador e o general sitiado apertando-se a mão com veemência, no primeiro plano, entre cavalos empinados e granadeiros belos como Apolos, que expiram em atitude nobre! Foi assim em 1847; há-de ser assim em 1880.
No entanto, em desfiladeiro e monte, milhares de homens que, ou defendiam a pátria ou morriam pela "fronteira científica", lá ficam, pasto de corvos - o que não é, no Afeganistão, uma respeitável imagem de retórica: aí, são os corvos que nas cidades fazem a limpeza das ruas, comendo as imundices, e em campos de batalha purificam o ar, devorando os restos das derrotas.
E de tanto sangue, tanta agonia, tanto luto, que resta por fim? Uma canção patriótica, uma estampa idiota nas salas de jantar, mais tarde uma linha de prosa numa página de crónica...
Consoladora filosofia das guerras!
No entanto, a Inglaterra goza por algum tempo a "grande vitória do Afeganistão" - com a certeza de ter de recomeçar, daqui a dez anos ou quinze anos; porque nem pode conquistar e anexar um vasto reino, que é grande como a França, nem pode consentir, colados à sua ilharga, uns poucos de milhões de homens fanáticos, batalhadores e hostis.
A "política" portanto é debilitá-los periodicamente, com uma invasão arruinadora. São as fortes necessidades dum grande império.
Antes possuir apenas um quintalejo, com uma vaca para o leite e dois pés de alface para as merendas de verão..."
*Foi assim em 1847, foi assim em 1880. É assim em 2009. Alguém será capaz de traduzir estas páginas para Obama? O problema é outro: será que ele ou qualquer americano "controlado", entenderá o texto?*

QUERER É PODER
António d'Almeida

Comunistas e socialistas. Anos 60 e também 70

via Caminhos da Memória by Raimundo Narciso on 1/7/10
(Clicar para ler) Acabara de me fazer "amigo" do Jaime Mendes no Facebook. Já éramos amigos desde os anos 60, década que ganhou fama de mágica por causa dos Beatles, do movimento Hippie, da luta contra a guerra no Vietnam, da ida de Iuri Gagarine ao espaço e Neil Armstrong à Lua, do Maio de 68, [...]

Nem menos: retratado por um Mestre

via Caminhos da Memória by João Tunes on 1/5/10
Conheci um grande artista quando ainda estava circunscrito a um cubículo comercial que lhe aperreava o talento. Refiro-me a um dos grandes fotógrafos portugueses tardiamente revelado e que, ainda depois, derramou talento como camara man no cinema e na televisão: Augusto Cabrita (1923-1993). Quando miúdo, vivendo no Barreiro, volta e meia tinha de ir tirar as [...]

NESSES ANOS RECUADOS DE 1957

NESSES ANOS RECUADOS DE 1957

via MUKANDAS do Monte Estoril by Irdea on 1/7/10

APRENDER A LER E A ESCREVER NO ANDULO(*)

Em 1957, o Andulo perdera bastante da incipiência inicial. Continuava uma vila de dimensão e importância reduzidas, mas crescera, desdobrando-se numa avenida principal e em algumas ruas adjacentes, que eram ladeadas agora, não apenas por estabelecimentos comerciais, mas também por mora-dias particulares e edifícios públicos. Uma igreja, uma escola, um clube de futebol, um hotel, um parque infantil e dois ou três jardins, bastavam só por si para encher de orgulho os seus habitantes.

Os que haviam acompanhado de perto esse desenvolvimento, gente que vinha do tempo da fundação, comentavam o facto com algum exagero:

— Isto parece já uma cidade!

Entusiasmavam-se:

— Cresce de ano para ano e há-de ir longe!...

Exageravam realmente, mas a verdade, a verdade é que a vila de 1920 e o Andulo de trinta e sete anos depois eram bem diferentes. Se o burgo seria ou não promovido a cidade, se teria ou não um futuro promissor à frente, para recorrer às palavras dos fundadores, isso era algo de há muito desejado, mas ainda por confirmar.

Tal como os outros pais no princípio de cada ano lectivo, Abel foi de lis-ta na mão ao «A. Gouveia L.da», onde encomendou um livro de leitura, uma tabuada, uma lousa, cadernos de linhas, lápis de carvão e de cores, uma bor-racha, uma caneta de aparo, um tinteiro, tudo o que o filho precisaria para entrar na escola.

Vindo de Silva Porto como de costume, o material chegou uma semana mais tarde, e Ernesto ficou então a saber que com isso (com «essas coisas», como o pai referiu) iria começar a aprender a ser homem.

Abel pegou no livro de leitura, abriu numa página ao acaso e observou:

— É aqui que aprenderás a ler.

Depois nos cadernos de linhas:

— E aqui a escrever, a apurar a letra, a não dar erros.

Por fim na tabuada:

— E aqui a fazer contas.

Pôs o livro, os cadernos e a tabuada uns por cima dos outros, concluindo:

— Aproveita o dinheiro que gastei, puxa por essa cabeça e vê lá se estudas.

Perguntou:

— Percebeste?

Ernesto baixou a cabeça, mostrando que percebera, e alguns dias mais tarde, de sacola de serapilheira ao ombro, com todo o material lá dentro, subiu para a carrinha, sentou-se ao lado de Sapalo Jeremias e foi para a escola.

Repetiria essa viagem muitas e muitas vezes ao longo dos quatro anos seguintes, em que passaria da 1ª para a 2ª, da 2ª para a 3ª, da 3ª para a 4ª Classe. Exceptuando os sábados e os domingos, bem como os períodos de férias, repetiria esse trajecto todos os dias, mas nunca tão emocionado como nessa manhã.

Ia nervoso, tentado imaginar o que iria encontrar. E sobretudo defrontar.

O que encontrou e defrontou de facto foi um edifício que parecia enorme, com varandas nas traseiras, onde as professoras Alda Morais e Luísa Amaral, cada uma na sua sala, leccionavam turmas de trinta a quarenta alunos.

Sapalo Jeremias parou a carrinha, apontou o edifício e disse:

— Pode descer. É para ali que tem de ir, é a sua escola.

Ernesto obedeceu e foi.

Em frente da secretária de madeira maciça, com um mata-borrão verde por cima coberto por um vidro grosso, a professora Luísa Amaral ia con-vidando:

— Entrem, meninos, entrem, façam favor.

Era uma mulher de estatura mediana, cabelos castanhos curtos, ar austero como convinha ao magistério. De vara de bambu na mão, parecia estar com pressa:

— Entrem, entrem e fechem a porta.

Ernesto sentou-se na carteira, pôs a sacola de serapilheira sobre o tampo, olhou demoradamente à volta: primeiro para o quadro-preto, depois para as janelas que davam para a rua, por fim para os colegas que tinha ao lado, também eles incapazes de esconder o seu nervosismo e o seu receio.

Sempre de pé em frente da secretária, Luísa Amaral insistia:

— Entrem, meninos, entrem.

__________

(*)Inácio Rebelo de Andrade

in O Pecado Maior de Abel (romance), Edições Colibri, Lisboa, 2009

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Colónias (As) portuguesas perante a guerra

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MariaNJardim on 1/5/10
1915-01-03 Versão para impressão
Colónias (As) portuguesas perante a guerra
"É do Sr. Lisboa de Lima, último ministro das Colónias, o artigo que se segue e que, com a devida vénia, transcrevemos da Revista Colonial: «As colónias portuguesas, ao declarar-se a guerra europeia que sem dúvida as afectaria, senão na integridade de seus territórios e na sua ordem interna, ao menos na situação económica e financeira de todas elas, estavam em vésperas de ver efectivada a sua autonomia administrativa e financeira que as leis de 15 de Agosto de 1914 lhes outorgaram e pelas quais as colónias de longa data ansiavam, como a mais segura garantia das suas propriedades e desenvolvimento.

Se não fora a guerra europeia, seria hoje um facto o empréstimo de 8 000 contos para Angola, como primeira parte do grande empréstimo dos 40 000 contos; e à utilização criteriosa daqueles 8 000 contos seguir-se-ia sem dúvida o complemento do plano de fomento.

Portanto, mesmo apesar de deixarem a desejar as condições económicas de Angola ao serem decretadas as leis de 15 de Agosto, aquela província em poucos anos estaria, como as demais colónias portuguesas, em situação de usar com toda a liberdade a sua autonomia, emancipada da tutela que a obrigavam, perante a metrópole, os forçados subsídios de que até agora tem carecido.

O reflexo da guerra europeia nas condições económicas e financeiras de todas as colónias, veio, pois, surpreendê-las nas vésperas de uma situação em que elas punham todas as suas esperanças, pela garantia que lhes dava de uma vida nova de trabalho e de inegável desenvolvimento. Não depende do esforço individual de ninguém, nem até do esforço de todos os portugueses, que a situação anormal que para as nossas colónias criou, termine em prazo curto. Depende, porém, e muito, de todos nós, de dirigentes e de dirigidos, que os efeitos dessa guerra se façam sentir o menos possível em todas as colónias e especialmente naquelas que pela sua vizinhança de colónias pertencentes as nações beligerantes, mais expostas estão a ser mais profundamente atingidas pelos efeitos da guerra.»"


Fonte:
LIMA, Lisboa de, "As Colónias portuguesas perante a guerra" in O Jornal do Comércio e das Colónias, n.º 18 270, de 3 de Janeiro de 1915, p.2.

Caminhos da Mineralogia (o século XVIII)

Caminhos da Mineralogia (o século XVIII)

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 1/3/10
O FIM DA PRÁTICA ALQUIMISTA sobre os minerais que a curiosidade dos naturalistas ia descobrindo, coincide com as primeiras classificações mineralógicas, então referidas por sistemas mineralógicos ou, simplesmente, sistemas, com base em critérios químicos surgidos ao longo do século XVIII. Entre os vários sistemas propostos nesta época, por diversos autores (Cronstedt, Vallerio, Lineu), sobressai o do sueco Torbern Olof Bergman, do qual foi feita uma tradução para português, em 1799, por Andrade Machado.

Durante este século e numa frutuosa parceria com a química inorgânica, acentuam-se os progressos na mineralogia a par de uma nova disciplina sua complementar – a cristalografia. Foi principal protagonista desta fase galopante do conhecimento dos minerais e dos cristais o eclesiástico francês, René-Just Haüy (1743 - 1822). No seu Tratado de Mineralogia, este professor da Faculdade de Ciências e do Museu Nacional de História Natural de Paris descreveu mais de uma centena de espécies minerais e inovou o estudo dos respectivos cristais por via geométrica e matemática, dando nascimento à chamada cristalografia morfológica. Ao definir a espécie mineral, em simultâneo, pelas suas características químicas e cristalográficas, o Abade Haüy é considerado o fundador da mineralogia como ciência exacta.

Na mesma época, na Alemanha, Abrahan Gottlob Werner (1750 – 1817), descreveu numerosas espécies minerais, defendendo que estas se caracterizam pelas suas propriedades físicas associadas às respectivas composições químicas. Entre os discípulos mais notados deste que foi professor da Academia de Minas de Feiberga, encontra-se o luso-descendente, mineralogista e geólogo José Bonifácio de Andrada e Silva (1763 – 1838). Naturalista de formação, ensinou na Universidade de Coimbra e teve papel importante nas áreas da prospecção e exploração mineiras em Portugal. Mais conhecido como político, Andrada e Silva deixa o seu nome ligado à independência do Brasil. Como mineralogista deve-se-lhe a descoberta de novos minerais. A variedade de granada conhecida por andradite, foi assim chamada, em sua homenagem, pelo grande mineralogista americano, James Dwight Dana.

Publicado no «DN» de 26 Dez 09

domingo, 3 de janeiro de 2010

Vinda de H. Delgado para dirigir o Movimento de Beja

via Caminhos da Memória by Caminhos da Memória on 1/2/10
(Fundação Mário Soares) Bem a propósito do 48º aniversário do Golpe de Beja (ontem), este texto de JHS e os excertos do documento agora divulgados. Um texto de José Hipólito dos Santos (*) Há dias, remexendo em velhos papéis guardados no fundo dum armário, saltou aos meus olhos um conjunto de folhas agrafadas tendo como título "Viagem Secreta [...]