segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Caminhos da Mineralogia - (a modernidade)

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 1/25/10
OS TRABALHOS INOVADORES nos domínios da análise e da sistemática químicas levados a efeito por Lavoisier (1743 – 1794), tragicamente guilhotinado na voragem da Revolução Francesa, contribuíram decisivamente para que a Mineralogia se elevasse acima da ciência empírica que fora até aí. Nas classificações mineralógicas que se seguiram a este alvorecer da química moderna, foram usadas não a natureza dos catiões metálicos constituintes, mas sim os respectivos grupos aniónicos. Da classificação em "minerais de ferro", "minerais de cobre", "minerais de chumbo", etc., passou-se a outra que distingue sulfatos, carbonatos, cloretos, tungstatos, etc.

Do outro lado do Atlântico, seguindo esta nova perspectiva, o mineralogista James Dwight Dana propunha, em 1837, o seu System of Mineralogy, uma classificação abrangente das muitas centenas de espécies então conhecidas que, com algumas achegas que a melhoraram e valorizaram, chegou aos nossos dia e está patente na organização das colecções dos museus e das universidades e escolas de todo o mundo. A utilização dos raios-X no conhecimento da estrutura íntima da matéria cristalina marcou o começo do século XX, provou a existência de redes atómicas na sua constituição e permitiu a ao cristalógrafo alemão, Hugo Strunz, em 1941, melhorar a classificação de Dana, sobrepondo-lhe um critério estrutural, nomeadamente nos silicatos, nos boratos, nos fosfatos. A cristalografia estrutural pôs como que um ponto final à velha cristalografia morfológica, usada no passado como precioso complemento na diagnose das espécie minerais, sendo hoje um domínio importante da física do estado sólido, arrastando consigo o vasto mundo dos minerais.

Há pouco mais de uma vintena de anos surgiu uma nova tendência classificativa dos minerais, essencialmente estrutural, em substituição da velha classificação química. Esta nova via, proposta pelo português José Lima-de-Faria, é uma espécie de extensão, a todo o reino mineral, da classificação estrutural dos silicatos, de Strunz. Se é certo que o progresso científico assenta na criatividade e na não estagnação, não é menos certo que é difícil mudar hábitos mentais e apontá-los para novos rumos. A inovação necessita de tempo. As bases da moderníssima classificação estão lançadas, porém a sua aplicação está ainda longe de ser realidade.

Beldroegas de muitas maneiras

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 1/17/10
É SABIDO, ENTRE FAMILIARES E AMIGOS mais chegados, o meu gosto muito especial pelas beldroegas. Estas ervinhas que «já mataram a fominha a muita gente», como lembrou Monarca Pinheiro, carnudas e aciduladas, são boas nas sopas, nas saladas, no esparregado e, até, em jeito de peixinhos-da-horta. Para além do seu interesse gastronómico tenho com elas uma profunda ligação dos tempos da adolescência. Nesses anos era frequente acampar com o meu irmão Mário e mais dois ou três amigos em locais não muito afastados da cidade, escolhidos em função da facilidade do transporte ou da caminhada a pé, do tempo disponível ou de um qualquer critério de ocasião.

Havia nesse tempo acampamentos promovidos pela extinta Mocidade Portuguesa, a organização fascista para a juventude, paralela ao sistema escolar e obrigatória dos sete aos dezoito anos. Com toda a logística assegurada por militares, tudo nestes acampamentos lembrava a tropa, do comandante do campo ao enfermeiro de serviço permanente e aos magalas cozinheiros que preparavam o rancho diário em velhas cozinhas de campanha, sobrevivências fumegantes da Grande Guerra. Também acampei uma vez como filiado na dita organização, por altura de uma grande concentração nacional, em que se comemorava o feito heróico de Aljubarrota, com missa campal, desfile, fanfarra, bandeiras, provas desportivas, discursos patrióticos e rancho melhorado.

Mas não foram esses acampamentos que me deram a conhecer as beldroegas. Esses ajudaram a moldar o antimilitarismo que me marcou para a vida e muito condicionou a minha postura durante o serviço militar quando, já adulto, o tive de cumprir. Foram os outros, os feitos em liberdade com os meus amigos, percorrendo os campos, parando aqui ou ali, ao sabor dos acasos, da beleza do local ou em função de conhecimentos e amizades que se iam estabelecendo. Tanto podíamos ficar num eucaliptal porque, ao nascer do dia e ao cair da tarde, o aroma libertado nos dava a sensação de estarmos a respirar saúde, como sob um alpendre, junto ao monte de uma qualquer herdade, ou dentro de uma horta, à beira do poço. Viver a natureza e do muito que ela nos dá, com um mínimo de cómodos e utensílios, e em convívio quase constante com os camponeses, fazer campismo, nas condições e no tempo em que nós o fizemos, foi uma escola para a vida. Das Ciências Naturais, às Sociais e Humanas, aí se abriram muitas das portas para o mundo à nossa frente.

Abastecendo-nos nas vendas, colhendo o que nos autorizavam colher ou, mesmo, o que algumas vezes ousávamos apanhar, íamos prolongando ao máximo a nossa permanência no mundo rural. Foi numa destas deambulações em que montámos tenda numa horta fresca e verdejante, ao abrigo de um frondoso salgueiro, que conhecemos bem de perto as beldroegas e as elegemos como prato de todos os dias. Com azeite ou no pingo do toucinho, com grão, com queijo e/ou com ovos, de tomatada, em "sopas de entulho" com massa, arroz ou batata, e tudo o mais que tivéssemos à mão, as beldroegas entraram, forte, na minha vida. A princípio, as pessoas do campo com quem íamos contactando mantinham, face a nós, uma certa reserva, depois aceitavam-nos e até nos achavam graça. "Rapazes da cidade feitos malteses", diziam. Daí para a frente acamaradavam connosco, algumas vezes aos serões, em redor do lume, e não era raro presentearem-nos com algo que traziam de casa, uns ovos, um queijinho, duas cabeças de alho …

- "Baldoregas" é o que aí não falta! – Dizia-nos o tio Inácio, o hortelão da herdade das Cortiçadas. – Isso é praga que alastra por todo o lado, bem bebida que anda junto aos roços da rega. Arranquem-na toda que isso até me faz jeito. Escuso de a mondar. Está a tirar a força ao tomate, ao feijão e a tudo o mais que trago aí.

Tão grandes eram e tão fartas, que bastavam uns quatro ou cinco pés para nos encher a panela e eram tantas que, sem mexer os pés do mesmo sítio, podíamos apanhar um molho do tamanho de uma braçada. E tenras, que até os caules mais grossos se podiam cozinhar.

- Mas então, porque é que vossemecê não as leva para o mercado? – Perguntei, admirado com tamanho desinteresse deste homem por um legume tão saboroso.

- Isso é obra que ninguém compra. Só os porcos pegam nelas e é preciso não terem mais nada. Aí o pessoal mais pobre, sem emprego, é que as apanha para matar a fome à família.

E era assim, de facto, nesses anos de grande pobreza para muitos dos meus conterrâneos. Os tempos mudaram e com eles também os hábitos alimentares. E hoje, pouco mais de seis décadas volvidas sobre este diálogo, quem quiser beldroegas paga-as por bom preço e é preciso ir cedo a um mercado abastecedor.

A versão escrita de João Franco do regicídio de 01 de Fevereiro de1908.

http://historiaaberta.com.sapo.pt/lib/doc023.htm

Fonte: In Franco Castello-Branco, João, Cartas D’El-Rei D. Carlos I a João Franco Castello-Branco seu último Presidente do Conselho, Lisboa, 1924

Cônsul do Sião em Lisboa, testemunha ocular do regicídio [Pinto Basto]

via BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA by Monarquia Lisboa on 1/28/10

O regicídio, eventualmente o mais importante acontecimento da história portuguesa contemporânea pelos efeitos imediatos que produziu e pelas ondas de choque que ainda hoje se repercutem, teve um grande impacto na corte siamesa, que foi colhida de espanto e requereu de imediato aos seus embaixadores e cônsules na Europa detalhada informação sobre a tragédia. Da consulta da abundante correspondência diplomática a que tenho acedido, o processo respeitante ao assassinato do Rei D. Carlos e do Príncipe Luís Filipe parece corroborar as conhecidas versões, mas também abrir novas pistas para a compreensão dos factos ocorridos no fim de tarde daquele dia ameno de inverno de 1 de Fevereiro de 1908.

Trinta e seis horas após o crime, o Príncipe Devawongse Varoprakan, irmão do rei Chulalongkorn do Sião e Ministro dos Estrangeiros siamês, foi informado em Banguecoque da gravidade da situação portuguesa. O telegrama vinha de Paris e fora enviado pelo embaixador siamês em Paris, Príncipe Charon. Informava laconicamente que o Rei de Portugal fora alvo de atentado e que não sobrevivera. Sugeria o Príncipe Charon que o Rei Chulalongkorn fosse informado com a máxima urgência e que fosse enviado telegrama de condolências à Rainha Dª. Amélia, à Rainha Mãe [Maria Pia] e ao novo Rei D. Manuel. Na manhã seguinte, o Cônsul Geral de Portugal em Banguecoque informava o MNE siamês da ascensão ao trono do Infante D. Manuel, pedindo às autoridades siamesas que proclamassem luto em memória do Rei falecido. O titular dos Estrangeiros siamês respondeu ainda nessa tarde ao representante português junto da corte, informando-o que o Rei Chulalongkorn fora acometido de grande pesar pelas terríveis novas. No dia 14 de Fevereiro, num longo e detalhado relatório, o Príncipe Charon dava conta ao monarca siamês dos acontecimentos. O então cônsul siamês em Lisboa, Pinto Basto, era amigo pessoal do Rei D. Carlos e fora testemunha presencial do atentado, pelo que a informação transmitida por Charon provinha de fonte absolutamente fidedigna e com acesso a altas instâncias do Estado e da corte portugueses. O Príncipe Charon, ao saber do regicidio, apanhara de imediato o Sud-Express e chegara a Lisboa ainda se faziam preparativos para as solenes exéquias. Pinto Basto lavrou o seu testemunho. Desse, avultam os seguintes elementos, que estimamos importantes:

1. Pinto Basto encontrava-se a cerca de 35 metros do landau que transportava a família real. 2. Ao iniciar-se o tiroteio, Pinto Basto correu em direcção ao centro do tiroteio e verificou que a polícia atirava em todas as direcções, tendo escapado por pouco ao fogo dos agentes, que pareciam desnorteados e incapazes de seleccionar alvos. 3. Pinto Basto participou na caçada aos regicidas e agarrou um deles, entregando-o à polícia que inexplicavelmente o abateu no próprio local. 4. Pinto Basto entrou no Arsenal e ajudou a retirar os corpos do Rei e do Príncipe Real. Verificou que o Rei se encontrava morto, pois recebera fatal disparo na medula. O Príncipe Luís Filipe agonizava e não resistiu por muitos minutos aos ferimentos recebidos. Quanto às causas do regicídio, Pinto Basto esclarecia: 1. O Atentado não fora obra de anarquistas, mas decorrera de um vasto complot de revolucionários profissionais, bem organizados, muito bem adestrados e dotados de armamento de grande precisão. 2. A finalidade do atentado era a de matar por atacado toda a família real, bem como o Presidente do Governo. 3. Depois de desenvolver os seus pontos de vista muito críticos a respeito de João Franco, Pinto Basto não deixava de tecer elogios às reformas que o chefe do governo desenvolvia, bem como destacar as qualidades de serviço e honestidade que sempre evidenciara. 4. Os assassinos eram portugueses e alguns destes parece terem sido contratados para executar o crime. O número de criminosos envolvidos seria muito superior ao dos terroristas abatidos pela polícia. Pinto Basto afirma que ao longo de todo o trajecto havia atiradores de atalaia - todos envergando capas ou longas samarras - e que ninguém parece ter-lhes prestado atenção. Chulalongkorn recebeu e leu o longo relatório e informou posteriormente o seu MNE que ficara muito abalado e perplexo com tudo o que lera. O Sião e Portugal iniciavam um longo afastamento que só seria emendado em finais da década de 1930.

Miguel Castelo Branco, publicado aqui e aqui

sábado, 30 de janeiro de 2010

O FIM DA LIVRARIA BUCHHOLZ

O FIM DA LIVRARIA BUCHHOLZ

via Justino Pinto de Andrade by Justino on 1/5/10
1. O encerramento, por falência, da Livraria Buchholz, entristeceu-me. Conheci a Buchholz e frequentei-a. Sempre que regressei a Lisboa, visitei-a. Fi-lo, às vezes mesmo, pelo simples prazer de a percorrer. É que eu sempre gostei de livrarias, de livros, mesmo até sentir o prazer de apreciar as suas estantes e prateleiras.

2. Em Luanda, nesta Luanda de agora, não posso dar vazão ao meu prazer pelas livrarias, por várias razões: porque elas existem em número exíguo; porque as poucos que existem, nem sempre possuem o conforto que gosto de desfrutar; porque estacionar o meu carro em local próximo e seguro é já uma miragem.

3. No período colonial, em Luanda, havia não só livrarias consagradas, mas, igualmente, livreiros consagrados. Em muitos casos, os livreiros eram nossos cúmplices. Alguns desses livreiros tiveram um papel importante na minha tomada de consciência e no meu enriquecimento cultural. Houve livreiros que nos guardavam livros declaradamente proibidos, ou que tornavam suspeito quem os lesse. Tínhamos a Lello, o Centro do Livro Brasileiro, a Argente Santos, a Minerva, quer a da Baixa, quer a do São Paulo.

4. Herdámos do nosso pai e da nossa mãe o hábito da leitura e o respeito pelos livros. Qualquer um deles possuía os seus próprios livros. Por isso, fui assíduo utilizador dos livros da Biblioteca da Câmara e também da Biblioteca do Liceu Salvador Correia, onde estudei. Mantive esse estilo de vida, enquanto vivi em Lisboa. Daí o meu carinho especial pela Buchholz.

5. A Buchholz teve sempre frequentadores de referência. Por norma, eram homens e mulheres da sociedade portuguesa: políticos, gente de cultura, académicos, também gente ligada a profissões liberais. Foi também muito requisitada por estudantes do ensino superior. Antes de frequentar a Buchholz, eu já ouvira falar dela como uma livraria de referência. Tinha, pois, um enorme simbolismo.

6. A Livraria Buchholz não estava muito exposta. Estava recatada, quase sobre a esquina da Rua Duque de Palmela, na Baixa da cidade. Era emblemática. Dentro da Buchholz respirava-se conforto e serenidade. Um ponto de encontro seguro. Depois, procurava-se um outro local para trocar um bom dedo de conversa, geralmente nos seus arredores. Ou então, caminhava-se num qualquer dos sentidos da Avenida dos Restauradores. Fiz isso algumas vezes.

7. Quando alguém me perguntasse onde nos poderíamos encontrar, em função do interlocutor e da conversa, eu escolhia o local. Se fosse alguém com os mesmos interesses intelectuais e científicos que eu, a resposta era quase inevitável: "Na Buchholz, na Duque de Palmela. Depois, logo se vê para onde vamos!"

8. Foi na Buchholz que estive com o Mário Pinto de Andrade, no nosso derradeiro encontro, poucos dias antes da sua morte. Eu, o Mário, o Vicente. Coube ao Mário escolher o local. Afinal, a Buchholz também exercia sobre ele um forte poder atractivo. Inclusive, o Mário era conhecido, e até mesmo amigo de algumas das suas empregadas. Registei, por exemplo, a excitação de uma delas, sua amiga de longa data, quando nos reconheceu como parentes. Também ficámos amigos, até hoje. Revelou a mim e ao Vicente que um dia esteve tentada a seguir o Mário, a ir trabalhar com ele, quando ocupou o cargo de Ministro da Informação e Cultura na Guiné-Bissau, no governo do também já falecido Luís Cabral. São memórias que perduram, que o tempo não apaga… Elas dão um sentido melancólico à vida, emprestado-lhe um singular significado.

9. Uma das características marcantes no Mário era a modéstia. Por isso, levou-nos a almoçar num restaurante relativamente simples, de classe média. O restaurante era ali mesmo junto da Buchholz – ficava do outro lado da rua. Comemos e falámos de muita coisa. Naturalmente, falámos de cultura, da família, de política. Trocámos informações. Esse meu último encontro com o Mário foi quase uma conspiração. Foi um encontro de velhos camaradas de trincheira política. Gente que partilhou cumplicidades.

10. Do ponto de vista anímico, o Mário estava bem, e parecia determinado a retomar o percurso político. Disse-nos que era a altura de fazermos de novo alguma coisa em conjunto. Assim, contribuiríamos, mais uma vez, para a pluralidade de ideias. Urgia, pois, criar um novo espaço democrático, retomar o perfil do MPLA original, reagrupar a gente sã que nele existia. O Mário queria a nossa opinião, queria saber se isso ainda tinha viabilidade, no novo contexto.

11. Aí estava novamente o Mário a convocar-nos, naquele que seria o seu derradeiro esforço. Traçámos projectos de intervenção. Parecia que, por dentro daquele corpo frágil, reemergia o espírito do leão. Por isso, senti uma tremenda comoção por vê-lo ali, firme, determinado, entusiasta, depois de ter feito tudo o que fez na vida… Ainda com vontade de retomar o percurso da nossa terra.

12. Voltámos à Buchholz para nos despedirmos das suas amigas. Seguimos, então, em busca de uma farmácia, porque o Mário sentia-se ligeiramente apoquentado. Era, aparentemente, um simples mal-estar que, disse-nos, estar a sentir desde que regressara de uma recente viagem de pesquisa nos Estados Unidos, onde estivera a investigar, para fundamentar os seus próximos trabalhos. Que o Embaixador de Angola, Manuel Pedro Pacavira, o convidara a almoçar em sua casa. Que, depois desse almoço, nunca mais se sentira bem. Era aquele mal-estar persistente… Que comprara também um computador portátil, pequeno, barato, mas muito prático, etc. Estávamos, pois, a caminho da farmácia, ali próximo, na subida da Bramcamp. Nós os três: eu, o Mário, o Vicente. Duas gerações separadas por cerca de 20 anos. Mas duas gerações unidas na causa. Para além do sangue…

13. Ainda tivemos um pouco de tempo para dar uma saltada até à Feira do Livro de Lisboa, no Parque Eduardo VII. Depois, o último adeus ao Mário. Até hoje…

14. Passados dias, o seu estado de saúde agravou-se. Foi hospitalizado no Egas Moniz, em Lisboa. Posteriormente, transferido para um hospital de Londres. E aí faleceu, dois ou três dias antes de fazer 62 anos de idade. Tudo isso aconteceu em Agosto de 1990. Para mim, este último encontro deu mais simbolismo à Livraria Buchholz.

15. Foi na Buchholz também que tomei conhecimento da vontade do Presidente da República, Eduardo dos Santos, de dotar o seu gabinete de livros de economia, penso que para servir de material de consulta para os seus assessores e colaboradores. Foi um seu assessor na época, meu ex-aluno na Universidade, que foi à Buchholz comprar livros, por especial recomendação de Eduardo dos Santos, segundo me disse. Fiquei satisfeito. Era bom que assessores de Eduardo dos Santos tivessem um mais fácil acesso aos livros, para melhor o ajudarem no entendimento da complexidade da matéria económica. Eis, pois, mais outro motivo para o simbolismo da Buchholz.

16. Priorizei sempre essa Livraria para me municiar de livros. Foi também lá que, de uma assentada, comprei os primeiros 15 livros de Direito para a minha filha Katila, quando ela ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa. Fiz-lhe, então, a recomendação de que deveria constituir a sua própria biblioteca. Que deveria cuidar dela, como se de um filho se tratasse. Ela ouviu-me e assim faz.

17. Para mim, a Livraria Buchholz é memória. Ela deixa saudades, marca um pouco o meu percurso intelectual e científico, tal como a Lello, o Centro do Livro Brasileiro, a Biblioteca da Câmara de Luanda.

18. A Buchholz não resistiu às incidências da crise mundial que abalou muitos bolsos e descomandou muitas contas. Por isso, ela faliu. No confronto inevitável entre as receitas e os encargos, perderam as receitas, e sobressaíram os encargos. Muitos clientes deixaram de poder honrar os seus compromissos. Desaparece, assim, a Buchholz, deixando uma fila enorme de credores e uma dívida de 1,3 milhões de euros.

19. Foi esse, pois, o destino de um dos emblemas da Lisboa Científica e Cultural, uma marca que ajudou a formar gerações. Não só gerações de portugueses mas, igualmente, gerações de angolanos e, seguramente, de outras nacionalidades.

20. Quando eu regressar a Lisboa, vou sentir a sua falta. Sei que o seu espaço vai continuar a ser uma Livraria da Coimbra Editora. Se mantiver o velho perfil, terei apenas que me habituar à sua nova denominação. Se não, terei que "emigrar" para um outro espaço da cidade, em busca do conforto espiritual que a Buchholz me transmitia.

21. Seguramente, daqui a muitos anos, talvez ela já não seja lembrada com este sentimento de perda. Afinal, a minha geração, e também as outras gerações passarão, tal como passou a geração do Mário Pinto de Andrade.

MORREU CODÉ DI DONA

via Justino Pinto de Andrade by Justino on 1/13/10
1. Em cerca de três meses, a música e a cultura cabo-verdianas perderam dois grandes vultos: Manuel d'Novas e Codé di Dona.

2. Manuel d'Novas era um renomado poeta e compositor, e faleceu aos 28 de Setembro último, aos 71 anos, no Hospital Baptista de Sousa, na Ilha de São Vicente. Segundo se disse, a sua morte adveio das sequelas de um AVC (Acidente Vascular Cerebral) que o atingira há três anos, em Portugal.

3. Manuel d'Novas foi dos mais privilegiados compositores de mornas e coladeiras. Nasceu na Ilha de Santo Antão, tendo feito, porém, quase toda a sua vida no Mindelo, a capital da Ilha de São Vicente, que o adoptou como um filho. Foi autor de algumas das mais belas músicas interpretadas por Cesária Évora ou por Bana. Nunca me canso de ouvir, por exemplo, "Apocalipse", "Cumpade Ciznone", "Lamento d'um Emigrante", "Nôs Morna".

4. Pensar em Manuel d'Novas faz-me também retornar às letras e às músicas de B. Leza, como "Eclipse", "Noite de Mindelo", ou mesmo "Lua Nha Testemunha", esta, um autêntico hino. E porque não as composições de Eugénio Tavares?

5. Dizem os estudiosos da música cabo-verdiana que a morna nasceu na Ilha da Boavista, passando depois para as restantes ilhas do Arquipélago, "adaptando-se e tomando a feição psíquica de cada povo", como escreveu Eugénio Tavares.

6. Sobre a morna, Eugénio Tavares disse ainda mais: "Na Boavista, a morna não se elevou na linha sentimental; antes, planou baixo, rebuscando os ridículos de cada drama de amor, cantando o perfil caricatural de cada episódio grotesco, ironizando fracassos amorosos, sublimando a comédia gentílica das Moias (naufrágios de navios tão frequentes nas costas da ilha), tudo no estilo leve e arrebitado que afeiçoa a vida despreocupada do povo boavisense, o mais alegre, e o mais amorável de entre as gentes do Arquipélago. Música elegante psicatada de sorrisos finos e harmonias ligeiras. Na Ilha Brava em que os homens casam com o mar, como no poema de Pierre Loti, a dulcíssima estância da saudade, mercê da vida aventureira e trágica do seu povo, a morna fixou os olhos no mar e no espaço azul, e adquiriu essa linha sentimental, essa doçura harmoniosa que caracteriza as canções bravenses. Elevou-se de riso e pranto, e finou, amorosamente, pelo portuguesíssimo diapasão da saudade." Oh, meu Deus, quão poética é esta prosa de Eugénio Tavares…

7. Desde pequeno, tive o ensejo de ouvir canções de Eugénio Tavares. Muito em especial, e com um tremendo enlevo, eu ouvia "A Canção ao Mar – O Mar Eterno", de que destaco aqui as primeiras estrofes:

"Oh mar eterno sem fundo sem fim
Oh mar das túrbidas vagas, oh! mar
De ti e das bocas do mundo a mim
Só me vem dores e pragas, oh mar

Que mal te fiz, oh mar
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar
Quebrando as ondas tuas
De encontro às rochas nuas

Suspende a zanga um momento e
escuta
A voz do meu sentimento na luta
Que o amor ascende em meu peito
desfeito
De tanto amar e penar, oh mar"

Na minha infância, a minha mãe, Maria Luzia, filha de um cabo-verdiano de origem judaica, natural de Santo Antão, cantava esta música, quase em pranto. Era para nós quase uma cantiga de ninar. Esse e outros poemas marcaram-me o sentimento e despertaram a minha curiosidade para a leitura dos livros de Baltazar Lopes, Manuel Lopes, Aurélio Gonçalves, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira e outros vates da cultura do Arquipélago.

8. A Morna, tida como o género musical mais representativo do povo cabo-verdiano, foi, por isso, um objecto do mais aprofundado estudo. A Coladeira, mais ritmada que a morna, em alguns casos, tida mesmo como uma aceleração da morna, é hoje também uma fiel companheira das noites cabo-verdianas. Ao longo do tempo, a coladeira foi sofrendo múltiplas influências, quer vindas do outro lado do Atlântico, quer mesmo idas do nosso próprio continente.

9. Coube agora a vez a Codé di Dona, falecido no dia 5 de Janeiro, no principal hospital da cidade da Praia, o Hospital Agostinho Neto. O texto do seu obituário dizia apenas que foi vítima de "doença prolongada".

10. Quando leio ou escuto a expressão "doença prolongada" ganho inteira liberdade para imaginar qualquer maleita, da mais conhecida e corriqueira até à mais sombria e enigmática. Porém, do que li e, depois, percebi, provavelmente Codé di Dona tenha sido mais uma vítima da muito temida doença pulmonar – a tuberculose. Seja essa, seja outra doença, afinal, o que mais importa é que, no dia 5 de Janeiro, Cabo Verde perdeu um dos seus mais emblemáticos compositores. Codé di Dona foi justamente consagrado como Rei do Funaná.

11. O Funaná é um género musical e uma dança nascidos no interior da Ilha de Santiago, a ilha mais africana das dez ilhas que compõem o Arquipélago de Cabo Verde. Com a adaptação de novos instrumentos musicais electrónicos que se juntaram à gaita (o acordeão) e ao ferrinho, o Funaná ganhou espaço não somente na capital, mas, igualmente, nas outras ilhas.

12. Daí, seguramente, o sentimento colectivo de perda que invadiu todo o Arquipélago de Cabo Verde, quando se anunciou a passagem para a eternidade desse grande músico e compositor, Codé di Dona. É assim que se tece o tempo e se compõe a história, umas vezes com felizes entradas, outras com tristes saídas…

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O monárquico sem anel de armas e sem voz enrolada

monárquico sem anel de armas e sem voz enrolada

via COMBUSTÕES by Combustões on 1/23/10
João Camossa (1925-2007) era um homem extravagante. Dele se dizia, com o escarninho da malévola estupidez - daquela que olha aos sapatos, à gravata e aos trapos para emitir certificado de respeitabilidade - que parecia um deserdado, um homem da rua, enfiado no seu sobretudo de grossa lã 365 dias por ano, a hirsuta barba amarela queimada pelo tabaco, o monte de papéis e livros de alfarrabista sob o braço. O mundo está cheio de medíocres, de homens e mulheres proclamados normais e gente de bem que nunca acrescentaram um grama à fatalidade da biologia do nascer, do alimentar-se e do morrer. A mediania apagada, ansiosa por fugir à sanção do olhar repressor, desejosa de gregarismo, olha para estes estranhos dissidentes com medo, por neles julgar ver a solidão, a exclusão e a pobreza aterradoras. Para pessoas que se esgotam em jogos sociais, no parece-bem, na moralzinha bem apresentada das palavras [e sobretudo da intolerância], João Camossa era um incómodo.


Contudo, quem dele se abeirasse e o ouvisse discorrer sobre as suas paixões - a História, a doutrina portuguesa, a tradição, o património literário e o património monumental, a olissipografia - quedava-se mudo, não se atrevendo cortar o fio do raciocínio informado, a profundidade da reflexão, o brilho das metáforas, o provocador das associações que ia entretecendo. Camossa não mandava calar nem levantava a voz, mas as conversas em que participava depressa se transformavam em monólogos.


Tive a honra de o conhecer em 1982, quando, presidente da JM (Juventude Monárquica) desenvolvi com o meu irmão Nuno, o João Portugal, o André Folque Ferreira e o Eduardo Rosa Silva a primeira grande experiência de activismo monárquico no Portugal pós-25. Ao contrário de muitos dirigentes do PPM, barricados nas inibições que a sua condição de aliados menores da AD aconselhava e ansiosos em agradar aos desertos mentais da tecnocracia iletrada, João Camossa viu naquela centena de rapazes e raparigas de vinte anos a grande esperança do ideal monárquico. Na altura, lembro-me, chamaram-nos tudo e até a processos disciplinares, com audições formais e depoimentos recorreram. O nosso crime ? Falar em monarquia, cobrir as paredes de Lisboa com cartazes monárquicos, exibir a azul-e-branca, vencer sucessivas eleições nos liceus de Lisboa, participar nos comícios da AD com centenas de jovens estridentes que quase deixavam à margem as poderosas JC e JSD. Confesso que cometemos erros, mas esses erros, produto da imaturidade, deviam ter sido interpretados como erros do crescimento e não punidos com a severidade desses castelos de papel que são os estatutos. É a velha tara jurídica das direitas portuguesas !


Ora, voltando a Camossa, ele era demasiado lúcido para cobrir o que quer que fosse com o manto da poesia. Era um radical pessimista antropológico mas dava-se às pessoas. Lembro-me que desfiava a imensa bagagem literária e escolhia, precisamente, as obras mais sombrias sobre os homens, as suas parvoíces e maldade, as intolerâncias graníticas, as teimosias e crueldade. Um dia trouxe-me Os Vulcões de Lama, o último romance de Camilo e disse: "Miguel, leve-o e sorva-o até à última página". O homem que se apresentava como Anarco-Miguelista conhecia demasiado a história e os homens para sobre eles esperar grande coisa. Noutra circunstância, Camossa entrou na sede do PPM, então na Rua da Escola Politécnica. Vinha radiante, trazendo na mão o jornal Rex, orgão informativo da Juventude Monárquica. Eu havia escrito o editorial que era, confesso sem remorso, uma chuva de Orgãos de Estaline em palavras. Camossa disse-me: "se vocês pudessem, amanhã teríamos a bandeira hasteada na Praça do Município". Foram precisos vinte e tal anos para que o sentido da nossa militância fosse compreendida. No fundo, as pessoas não mudam. Eu sou, sem tirar, aquilo que era há vinte anos e tenho a supina alegria de ver que o mundo mudou e que hoje, aquilo de que fomos acusados é moeda corrente. Estávamos, pois, vinte anos adiantados sobre o tempo.

No próximo dia 26 de Janeiro, merecidamente, o Centro Nacional de Cultura vai prestar homenagem a esse amigo. Camossa foi presidente do CNC, como poderia ter sido mais, muito mais, se os monárquicos de anel e voz enrolada não olhassem aos sapatos, à gravata e aos trapos antes de olharem para os homens. Está por fazer a antologia dos seus muitos escritos dispersos por revistas, jornais e boletins. Talvez se faça, finalmente, justiça a João Camossa, o grande incompreendido.

"Foi em tudo a antítese da vulgaridade. Inteligente e profundo, muito original-o que não quer dizer que fosse irrealista nem muito menos ingénuo- no modo como via o presente e como preconizava o futuro. Desconcertante, ousado e por vezes genial nas intervenções públicas, escapando a toda e qualquer disciplina, muito anárquico na doutrina, e no modo de vida. Sem embargo, era naturalmente sociável e um bom companheiro. Político à maneira antiga, da política como jogo- entretenimento supremo da existência e como luta pura por ideais, avesso ao poder, que entendia que corrompia. Foi um devotado adepto da Monarquia, cujo ideal serviu fielmente por toda a vida. Associava, no seu ideário, restos de integralismo lusitano ao seu característico anarquismo comunalista e à sua sólida opção democrática, pugnando indefectivelmente pela liberdade e pelos direitos da pessoa humana. Com a ironia permanente à flor da pele, frequentemente sarcástico, céptico em muita coisa, mas amando sempre a sua portugalidade."

D. Duarte de Bragança (2007)

Está na moda dizer mal da democracia

via BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA by João Mattos e Silva on 1/15/10

Infelizmente, muitos dos ataques à democracia encontram fundamento exclusivo na chamada crítica realista; ou seja, nos factos, nos comportamentos e na etiologia das enfermidades de que esta forma de governo padece. Salta à evidência que as democracias são pouco expeditas, lentas, muitas vezes inoperantes, amiúde convivem com a impreparação e o amadorismo, a fulanização e o trepadorismo de gente absolutamente falha de escrúpulos. A democracia, dizem os seus inimigos inteligentes, é um insulto à desigualdade constitutiva das sociedades, é um absurdo pois impede a governação longa e avisada, tem de se render ao apetite das massas e da irracionalidade, é errática, tende a ser confiscada por demagogos e satisfaz-se com a maioria numérica. Lembram os cépticos da democracia que a esta é, em Aristóteles - nesses terríveis libelos anti-democráticos que são os livros III e VII da Política - a degenerescência da Politeia, tal como a oligarquia o é da aristocracia e a tirania da monarquia. A tradição anti-democrática tem uma história longa que se confunde com o mais profundo pensamento filosófico. Na Ética a Nicómano predica-se a justiça como finalidade da política. Se a democracia vive derrancada na busca do benefício para cada um, é, ipso facto, irreconciliável com o bem-comum da Cidade.
Contudo, se forma alguma de governo cumpre as exigências do Estagirita, essa é, contraditoriamente, a democracia. Satisfaz-nos plenamente a abordagem negativa.
- É em democracia que os cidadãos não são privados de cidadania;
- É em democracia que as constituições não são mudadas ao sabor do interesse de quem governa;
- É em democracia que o direito prevalece;
- É em democracia que a liberdade e a auto-determinação florescem;
- É em democracia que a felicidade é negociada e alcançada pelo bebate.
A democracia deve, necessariamente, ser limitada, vigiada e fiscalizada, pois a democracia transporta a pulsão totalitária a que Talmon se referia para escândalo dos democratas nas suas Origins of Totalitarian Democracy. Essa democracia messiânica, fundada na crença, comporta-se como uma tirania [benigna], mas não deixa de ser uma tirania. Ora, pelo conselho da história, verifica-se que a única forma bem sucedida de limitação dos abusos e excessos da democracia se radica na aceitação do convívio da democracia com um poder não democrático - isto é, não eleito - mas que lhe lembra aquilo que não é passível de revisão. Isto sempre aconteceu. As mono-arquias nunca existiram, senão na forma degenerada de tirania. As monarquias sempre foram abertas à participação, à representação, à oposição e não houve monarquia pré-moderna que não se submetesse ao voto, à fiscalização e às sansões legal como real.
Hoje, as monarquias ditas constitucionais (constitucionais sempre o foram na forma das constituições históricas que lembravam os limites e as obrigações do Rei) lembram ao transitório aquilo que é permanente. A democracia representa o homem; a monarquia representa a sociedade, a história, a memória que determina e alimenta a vontade dos homens viverem juntos em sociedade. A democracia exprime a volubilidade, o passageiro, o contingente; ou seja, é absolutamente humana e alimenta-se do sonho peregrino da justiça e igualdade para todos. A democracia é um admirável exercício de determinação e só há cidadãos onde estes podem, em concorrência, falar, escrever, opinar, criticar, eleger e legislar. A democracia é ruptura permanente e deve ser, sempre, disjuntiva, como as políticas o devem ser para o Estado não se afundar no ritualismo.
Por seu turno, a monarquia é um contrato longo de estabilidade, o anteparo da Política, o inculcador de comportamentos conjuntivos. Só quem ainda não compreendeu a força moral tremeda que a monarquia insufla na democracia continua a perseverar no erro trágico de a considerar inimiga da soberania popular.

Miguel Castelo Branco em COMBUSTÕES

http://combustoes.blogspot.com/