domingo, 18 de abril de 2010

A eterna perseguição ao Judeu

A eterna perseguição ao Judeu

via Um Homem das Cidades by Diogo on 4/17/10
O professor Jesse H. Holmes, escrevendo no "The American Hebrew", expressou o seguinte:

"É pouco provável que seja acidental que o antagonismo direccionado contra os judeus seja encontrado em qualquer parte do mundo onde judeus e não judeus fazem parte de uma sociedade. E, como os judeus são o elemento comum da situação, parece provável que a causa desse antagonismo sejam os judeus e não a enorme quantidade de grupos que sentem esse antagonismo."

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Bernard Lazare (1865-1903)

No seu livro, «L'antisémitisme son histoire et ses causes» [O anti-semitismo, a sua história e as suas causas], publicado em 1894, o conhecido autor judaico, Bernard Lazare, afirmou o seguinte sobre as expulsões dos judeus:

"Se esta hostilidade, mesmo aversão, tivesse sido dirigida contra os judeus durante um certo período e num determinado país, seria fácil esclarecer as causas da sua cólera, mas esta raça [judaica] tem sido, pelo contrário, um objecto de ódio de todos os povos entre os quais se estabeleceu. Portanto, visto que os inimigos dos judeus pertencem às mais diversas raças, vivem em países tão distantes uns dos outros; são regidos por leis tão diversas, governados por princípios opostos, por não partilharem sequer a mesma moral, ou costumes, por possuírem temperamentos diferentes que não lhes permitem julgar as coisas da mesma forma, a causa comum do anti-semitismo deve, por isso, ter residido sempre em Israel [judaísmo] e não naqueles que lutaram contra Israel [judaísmo]."

sábado, 17 de abril de 2010

João Alves das Neves sobre António Quadros

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 3/23/10
"[...] o que mais me aproximou de António Quadros foi o seu fervor pelos mil e um aspectos da Cultura Portuguesa. com relevo para as relações entre os 8 paises de idioma comum, perfeitamente caracterizados nos seus artigos e livros. É claro que um dos nossos temas ´preferidos foi a obra de Fernando Pessoa, mas os seus comentários sobre o diálogo cultural luso-brasileiro despertaram-me o maior interesse.
Em 1988, coordenamos na Academia Paulista de Letras, em São Paulo, o I Encontro de Estudos Pessoanos, do qual participaram destacados ensaístas brasileiros e portugueses, assinalando, entre outros, João Gaspar Simões, Teresa Rita Lopes e António Quadros, conforme ilustra a revista cultural Comunidades de Língua Portuguesa (agora, com 22 volumes publicados!). Foi no decurso desse diálogo lusíada que da admiração intelectual passamos à amizade. [...]"
João Alves das Neves
continue a ler aqui.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

SUPORTES MATERIAIS DA CIVILIZAÇÃO

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 4/11/10
COM EXCEPÇÃO dos poucos minerais resultantes da actividade de alguns seres vivos, como são, por exemplo, a calcite e o quartzo de muitas rochas sedimentares, a imensa maioria teve origem muito antes da aparição da vida sobre a Terra. Formados durante a diferenciação do planeta e alguns, ainda mais velhos, do tempo do nascimento do Sistema Solar, há 4570 milhões de anos, os minerais já aqui estavam, como que à nossa espera. Coube ao génio humano o mérito de os descobrir e de lhes dar utilidade.

Se recuarmos aos primórdios da Humanidade, vemos os nossos antepassados em busca do sílex, um material quase exclusivamente formado por quartzo microcristalino. Muito duro e fácil de lascar, na obtenção de pontas e arestas cortantes, esta rocha constituiu uma das primeiras matérias-primas minerais com que estes nossos avós "fabricaram" machados, facas, pontas de seta e outros utensílios que marcaram o começo das civilizações. Vemo-los ainda recolher o ocre vermelho (hematite), o ocre amarelo (limonite) e outros minerais corados que usaram nas pinturas rupestres que nos deixaram em Lascaux e Altamira. Vamos observá-los a minerar o ouro, o cobre (na calcopirite) e o estanho (na cassiterite) que souberam caldear em bronze. Observamo-los, depois, a produzir ferro a partir dos seus óxidos naturais, como a hematite e a magnetite. Vemo-los a utilizar a argila na feitura de cerâmicas e, mais tarde ainda, a transformar a areia de quartzo em vidro. De então para cá, os minerais fazem parte da vida do Homem, na escolha dos locais onde se instalaram, no artesanato e, mais tarde, na indústria, no comércio e, até, na guerra.

Muitos minerais assumem formas cristalinas, cores e brilhos que lhes conferem enorme beleza, sendo alvo de grande interesse por parte de museus e coleccionadores. Um tal interesse, desenvolvido, sobretudo, a partir do século XVIII, tem vindo, nas últimas décadas, a assegurar uma actividade especializada de oferta e procura, à escala mundial, que chegou ao nosso país em 1989, com a primeira Feira de Minerais, Gemas e Fósseis, realizada no Museu Nacional de História Natural, a caminho da sua 24ª edição.

Entre as mais de 3500 espécies minerais conhecidas, umas são curiosidades com interesse científico, outras são comuns, abundantes e até banais na nossa relação diária com a Natureza. Entre elas, algumas têm hoje grande valor económico como matérias-primas essenciais à sociedade. São os minérios de ferro, de cobre, de alumínio, de tungsténio (volfrâmio), de enxofre, de arsénio, entre os muitos que exploramos. Desde o machado de sílex das civilizações mais primitivas, às modernas tecnologias, o Homem não deixou de procurar, conhecer, explorar e utilizar os minerais. É dos minerais que se extraem os metais e se fabricam numerosos tipos de ligas metálicas. Metais e ligas metálicas estão nas nossas casas, nos talheres, no filamento das lâmpadas e nos cabos eléctricos, no frigorífico, no fogão, no forno de microondas, no rádio, no telefone e na televisão, no computador e no automóvel, nas ferramentas, nas agulhas de coser, na joalharia, etc., etc.

Outros produtos essenciais à civilização têm nos minerais a única fonte. Basta que citemos a cal, o cimento e o gesso, as cantarias, as calçadas e as britas, os vidros, as faianças e as porcelanas, sem esquecer o cloreto de sódio, o ácido sulfúrico, os boratos, os fosfatos e os nitratos. Nos minerais assentam ainda indústrias como as do papel, dos plásticos e das borrachas, das tintas, dos fertilizantes, dos detergentes e sabões, dos medicamentos e dos cosméticos. Pode, pois, afirmar-se, sem receio de faltar à verdade, que os minerais constituem as matérias-primas basilares da civilização, desde a Pré-história aos dias de hoje.

terça-feira, 13 de abril de 2010

O Estado Tradicional

via Legião Vertical by LEGIÃO VERTICAL on 4/11/10
O Estado tradicional é orgânico, não totalitário. É diferenciado e articulado e admite zonas de autonomia parcial. Coordena e faz participar na unidade superior forças a que reconhece liberdade. Precisamente porque é forte, não tem necessidade de recorrer à centralização mecânica: esta só é reclamada se tem de controlar uma massa informe e atómica de indivíduos e de vontades, o que, entretanto, faz com que a desordem não possa ser verdadeiramente eliminada mas contida provisoriamente. Segundo a feliz expressão de Walter Heinrich, o Estado autêntico é omnia potens, não omnia facens, isto é, detém no centro um poder absoluto que pode e deve fazer valer sem entraves em caso de necessidade ou de decisões últimas e que vai além do fetichismo do chamado "Estado de direito". Não intervém em tudo, não impõe a vida de caserna (no sentido negativo) nem conformismo nivelador em lugar de reconhecimento livre e lealdade, como não procede a intervenções impertinentes e imbecis do domínio público ou estatal no domínio privado. A imagem tradicional corresponde à gravitação natural de sectores e unidades parciais em redor de um centro que governa sem constrangimentos, que actua por prestígio, de uma autoridade que certamente pode recorrer à força, mas da qual se abstém o mais possível. A prova da força efectiva do Estado é dada pela margem concedida à descentralização parcial e racional. A ingerência sistemática do Estado não pode ser um princípio, a não ser que se trate de socialismo de Estado tecnocrático e materialista.
Por contraste, a missão essencial do Estado autêntico é criar um determinado clima geral, em certo sentido imaterial, como foi próprio a todos os regimes da época precedente. É a condição necessária para que tal sistema, onde a liberdade é sempre o factor fundamental, tome forma de modo praticamente espontâneo e funcione de maneira justa, com um mínimo de intervenções rectificadoras.

- Julius Evola, "O Fascismo vista da Direita"

segunda-feira, 12 de abril de 2010

António Lobo Antunes e a sua guerra em Angola

Esteve dois anos na guerra colonial cujo absurdo haveria de retratar em Os Cus de Judas. Ao regressar de Angola, António Lobo Antunes não era o mesmo homem. Em Lisboa tinha deixado a mulher (com quem havia casado pouco antes de partir) e uma filha que ainda não conhecia. Trazia também a certeza de que pretendia desistir da cirurgia e antes preferir uma especialidade médica que lhe permitisse escrever. Acabou por escolher psiquiatria, à qual foi buscar as técnicas de análise que, depois, utilizou para dissecar o País.

Agora (2003), aos 61 anos , regressa ao território que sempre marcou a sua ficção. Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, o volume de 554 páginas que as Publicações Dom Quixote acabam de lançar, era para falar das seitas religiosas mas acabou por tornar-se um romance sobre o tráfico (o de diamantes e o de influências), sobre o percurso de três homens (Seabra, Miguéis e Morais) que partem de Portugal para a terá devastada pelas guerras (a colonial e a civil) e pela cupidez humana. Em entrevista à Visão, o escritor desfia – como nunca o havia feito – as suas memórias de África. As do inferno e as do paraíso.

Boa Tarde às Coisas Aqui em Baixo é o livro do ajuste de contas com Angola?

Não tenho contas a acertar com ninguém. Estou em paz com os outros. O que sinto é que não vou ter tempo para fazer os livros que gostaria de escrever. Como Mozart que, nas margens do Requiem, escrevia «Não vou ter tempo»...

E uma espécie de catarse?

Também não sinto que tenha de me libertar de alguma coisa. Angola nunca saiu de dentro de mim. Ocupa um lugar muito profundo, mais até do que eu imagino ou penso. Vejo Angola como um paraíso perdido. Lembro-me da terra, dos cheiros, das cores, dos horizontes, de toda aquela sensualidade. Como, aliás, também acontece em relação à Beira Alta, onde agora vou cada vez mais. É uma espécie de regresso à infância onde fui tão feliz. Quando passo Carregal do Sal sinto logo o cheiro da Beira Alta. Dá-me uma certa paz interior.

Como é possível ter uma imagem de paraíso de algo que foi um inferno?

Mas tudo aquilo que envolvia a guerra era de uma beleza imensa. É curioso porque, afinal, foi um tempo doloroso.

De que maneira é que um romance sobre seitas religiosas se transforma num romance que tem o tráfico de diamantes como pano de fundo?

O outro romance começava em Angola e era para acabar com a casa destruída que aparece logo no princípio deste. Pensei que o livro pedia muito mais do que aquilo. Porque é que havia de estar a tocar uma gaita-de-beiços se podia estar a tocar um piano sem fim?

Esta é a imagem que tem da Angola pós-independência?

Enquanto escrevia o livro, interroguei-me várias vezes se não iria arranjar problemas.

Em que sentido?

Com a riqueza de Angola, não acredito que tenham desaparecido todos esses europeus e africanos que ainda hoje tentam explorar aquela terra. No livro também está presente a minha indignação em relação a todo esse neocolonialismo. Como é que se fazem determinadas coisas em nome da democracia e da amizade? Eu não queria entrar muito por aqui... Já deve ter reparado que sou sempre muito cauteloso. Por vezes tenho imensa vontade de escrever para a Visão sobre esse processo da Casa Pia, mas não me atrevo a fazê-lo porque as pessoas não teriam possibilidade de me responder.

A pergunta é para o psiquiatra...

... esse, coitado, já não existe.

Ainda deve saber umas coisas...

... poucas.

Arrisco, mesmo assim, a pergunta para ele: a questão da guerra está resolvida em si?

O psiquiatra? A questão da guerra? Não pode chamar-se àquilo uma guerra. Morria-se sem se ver ninguém. As minas, não se via quem as punha e, nas emboscadas, era tudo muito rápido. Uma guerra pressupõe um adversário e ali, ele era completamente invisível.

Não havia combates?

No sentido clássico do termo, não. Para fazerem sentido, as emboscadas não podiam demorar muito. Uns minutos e desapareciam. Depois, havia as populações, que me fascinavam.

Esse foi, de algum modo, o lado bom da guerra?

Sim, esse contacto foi decisivo para mim. Aprendi muito com aqueles povos, através da sua relação com a vida e com a morte. Apercebi-me também que o tempo africano – que é elástico, indefinido – podia servir-me para me mover melhor no espaço do romance.

Nunca teve oportunidade de regressar a Angola?

Oportunidade há sempre. Acho é que, se voltasse, não saía de lá. Gostava de ter u passaporte angolano, teria muito orgulho nisso. Não quero dizer que me sinta menos português, gosto cada vez mais de ser daqui, sinto-me muito bem no meu país.

Mas porque é que gostava de ter passaporte angolano?

Afectivamente, estou muito ligado àquela terra e àquelas pessoas.

Isso não é um contra-senso? No fundo, lutou contra a independência angolana...

Bom, eu fazia parte de um exército...

Que dependia de um governo que era contra a independência das colónias.

É verdade. Isto não pretende ser uma justificação, mas, naquela época, a gente tinha a sensação de que a ditadura era eterna. Ou se ia à guerra (como o Partido Comunista, que mandava os seus militantes ir à guerra) ou, então, ia fazer-se a revolução para os cafés de Paris. E, a certa altura, reparei que a maior parte das pessoas que emigrava fazia-o quando sabia que ia. Porque tinham medo. Aquilo metia medo. No entanto, as minhas razões não tinham nada a ver com estas. Não fui nem por valentia nem por ideais políticos. Ernesto Melo Antunes, o meu capitão, dizia que a revolução se fazia por dentro. A mim, contudo, a revolução não me dizia grande coisa... Sempre tive uma vida protegida, passei ao lado de todos os movimentos contra a ditadura; por cobardia, provavelmente.

Era um privilegiado.

Claro que sim. Nessa altura, de um modo geral, os rapazes que iam para as faculdades eram privilegiados. Mas não foi só por isso que a política – e até o próprio movimento estudantil – me passou ao lado. Eu nem às aulas ia, passei a faculdade a escrever e a jogar xadrez. Vivia completamente centrado sobre mim mesmo. Talvez esteja grato a Angola porque foi lá que aprendi a existência dos outros. Até então o meu mundo era ptolemaico. Na guerra, senti pela primeira vez uma camaradagem real, que ainda hoje se mantém.

Ainda se vêem?

Sim, de vez em quando. Nesse momento percebi que eu não era o centro do mundo.

Mantinha um diário?

Não, nunca fiz diários. Mas é curioso que, durante todo o tempo que estive em África, li e escrevi muito. À noite, enquanto escrevia os meus romances, tinha a sensação de estar em Lisboa porque havia um soldado que imitava os pregões dos ardinas.

Lembra-se do dia em que foi mobilizado?

Eu já sabia que ia, só não sabia era quando. Fiz a segunda parte da recruta no Hospital da Estrela e, depois, fui colocado no de Tomar. Estive lá uns meses e, um dia, o director chamou-me e disse-me que eu tinha que me apresentar em Santa Margarida. Só soube que ia para Angola já no barco.

Foi lá que conheceu Ernesto Melo Antunes?

Só vou encontrar o batalhão com que fui em Santa Margarida uns meses antes de embarcar, a 6 de Janeiro de 1971.

E para onde foi?

Fui para as Terras do Fim do Mundo, na fronteira com a Zâmbia, no saliente do Cazombo. Chagámos lá e, pendurada no arame farpado, estava uma tabuleta que dizia «Lisboa, 10 mil quilómetros. Moscovo, 13 mil». O leste angolano não correspondia nada à ideia que fazemos de África. É arenoso, com pouca vegetação e, de noite, fazia muito frio.

Não havia o que habitualmente se chama mato?

Havia, mas parecia sempre igual. Outra das coisas que me espantava era a capacidade que os nossos guias tinham em orientar-se. Havia um que lhe bastava pôr a orelha contra o chão para pressentir uma coluna ainda a quilómetros de distância. Outro, via mosquitos na outra banda e, aos domingos, punha uns óculos graduadíssimos. E nós, miúdos de 20 anos, não entendendo o significado simbólico do acto, fazíamos troça. Não percebíamos que aquela maneira de ser correspondia a uma cultura milenar. Vínhamos com toda uma carga de coisas europeias...

O médico recém-licenciado também descobriu outras «ciências»?

Sob o aspecto médico eram culturas muito mais avançadas que as nossas. Não havia cáries, por exemplo. E lavavam os dentes com um pau... Doutro ponto de vista, a organização social era perfeita, não havia conflitos sociais e as decisões eram tomadas em assembleias muito complicadas. Uma vez, numa aldeia, estiveram uma tarde inteira para deliberar se me davam um galo. Eram muito sábios e, sentindo o absurdo daquela situação fugiam para norte. Nós queimávamos as aldeias com desfolhantes e com tudo isso de que é proibido falar. Eu vi napalm. O marechal Costa Gomes, que era meu comandante-chefe, dizia que não existia napalm. Nós tínhamos napalm e bombardeávamos com napalm. Esta é a verdade. E quem disser o contrário está a mentir.

No terreno dizia-se que o regime estava a definhar?

Não, não se tinha a noção porque não tínhamos notícias nenhumas. O nosso batalhão, composto por três companhias de combate, cobria um território com a mesma extensão de Portugal Continental do Mondego ao Algarve. Naquela altura, o MPLA estava a entrar pela Zâmbia com o objectivo de cercar o planalto central. Era, portanto, uma zona tremenda. E era suposto nós servirmos de tampão. Mas como é que três companhias e combate – ou seja, 450 homens – podem patrulhar uma zona tão grande? Era impossível.

Discutia-se política?

Não, não se discutia política. Nem era possível discutir. Nunca assisti a cenas como as de Manoel de Oliveira no qual os militares vão nos Unimogs a discutir a legitimidade da guerra. A partir do momento em que morreu o primeiro rapaz, até o Melo Antunes (que era um homem muito politizado, que discordava da guerra) deixou de falar nisso. Nesse momento disse «Vamos vingar o Ferreira». O primeiro morto desencadeia uma raiva enorme. Ninguém queria ir para o mato, ninguém queria matar ninguém. Não aquele país, olhávamos para o céu, não conhecíamos as estrelas. Nada daquilo nos fazia lembrar Portugal. Absolutamente nada. Estávamos ali, não havia nada à volta. Só havia a casa do chefe do posto em ruínas onde eu dormia. Portanto, que vontade tinha eu de combater? O quê? Quem?

Estavam apenas preocupados em chegar ao dia seguinte?

Eu queria voltar vivo. Tínhamos sido treinados para a guerra, mas o objectivo era acumular o maior número de pontos possíveis para irmos para um sítio com menos guerra. Um prisioneiro tantos pontos, uma arma apreendida tantos pontos e, ao fim de não sei quantos pontos, mudávamos de lugar. Nunca ouvi – entre oficiais ou soldados – uma única palavra contra o a favor da guerra. A gente queria era sair dali. O mais depressa possível. Não queria falar da crueldade e da violência porque, no meio das atrocidades, também havia uma grande generosidade. Os nossos soldados ganhavam uma miséria e estavam sempre na aflição de saber como é que estavam as suas famílias em Portugal. As notícias que chegavam eram poucas, o correio só vinha uma vez por semana...

Que atrocidades não conseguiu esquecer?

Coisas horríveis. Havia uma delegação da PIDE junto à sede do batalhão e eu assisti a dois ou três interrogatórios. Nunca vi o exército fazer tais coisas. Lembro-me de um soba me dizer «O Sr. PIDE manda mais que o Senhor Governador». A PIDE era, de facto, o terror dos civis. Noutro dia, fizeram-se uns prisioneiros e, como era preciso comunicar à polícia, veio um PIDE de helicóptero. Quando chegou, a primeira coisa que fez foi dar um pontapé na barriga de uma mulher grávida. O Melo Antunes puxou da pistola e apontou-a ao PIDE. Nem imagina os problemas que ele teve por causa disso... Estávamos ali, mas de vez em quando vinham uns do «ar condicionado» para dizer como é que devíamos fazer a guerra. Recebiam o mesmo subsídio e apareciam de camuflado novinho em folha. E nós de camuflado todo desbotado...

Tudo isso é político...

Eram ordens militares. E não vinham embrulhadas em qualquer consideração do género «Estamos a defender Portugal». Não me recordo de um comandante, um general, um coronel ou um brigadeiro me falar da pátria. Não me lembro de alguma vez ter ouvido um discurso patriótico que advogasse a civilização contra o comunismo ateu.

A morte torna-se mesmo uma rotina na guerra?

Fazia sempre sofrer muito. Uma vez levei para o meu quarto um rapaz que tinha morrido numa emboscada. Não quis que o tirassem de lá. Estava só a dormir. A morte de um camarada era uma coisa horrível. E mesmo os feridos, que nunca mais voltávamos a ver. Quando havia amputações, eu fazia o penso ao coto, vinha um helicóptero e levava-os.

Como é que vê, hoje, as diferenças entre a guerra que conheceu e estas guerras cirúrgicas?

Não conheço estas, só conheci aquela. Mas a guerra é sempre um momento absurdo porque ninguém ganha. Isto foi o que, de mais claro, trouxe da guerra. Na guerra não há vencedores. Todos – militares, famílias, populações – são vencidos. E os militares são os que menos culpa têm porque se limitam a fazer aquilo que o poder político pretende. Sob este aspecto, o exército português sempre foi muito disciplinado. O Melo Antunes, por exemplo, impunha uma disciplina completamente feroz que eu não compreendia. Ele contrapunha que aquela era a maneira de termos menos baixas. Obrigava-nos, entre outras coisas, a pôr gravata para jantar, na areia...

A disciplina passava por aí?

Também, o que não o impedia depois de jogar vólei com os soldados. Estes, de resto, eram muito bem treinados. Quando uma coluna foi atacada, o alferes teve medo e escondeu-se debaixo de um cepo. O pelotão ficou uma presa fácil porque todos estavam à espera que aquilo funcionasse.

O medo era encarado como um sinal de fragilidade?

Borrar-se de medo? Cagar-se de medo? Tudo isto é real, não são figuras de retórica. Ele tinha as calças do camuflado encharcadas de merda. Casos destes, no entanto, não havia muitos. Todos tínhamos medo, mas os nossos soldados eram de facto extraordinários. Não eram como os americanos que estavam lá no Vietname e, de dois em dois meses, tiravam uma semana de férias. Em Angola nunca vi ninguém negar-se a ir para a mata. Quando o rapaz que tinha sido sorteado para conduzir o rebenta-minas – a viatura, como então dizíamos que ia à frente – vinha despedir-se de mim, fazia-o sem quaisquer dramatismos. Ao princípio ainda marcávamos os dias no calendário, mas a partir de certa altura a vida já não tinha grande valor. Uma das cruzes de guerra que tivemos foi o apontador de metralhadora, já ferido no pescoço, ter continuado a disparar para salvar os que estavam cá em baixo. Havia um espírito de corpo muito intenso. Lá, éramos todos a mesma coisa. Estou a conseguir falar disto sem falar do horror...

Ainda sonha com a guerra?

Às vezes tenho um pesadelo tremendo. Sonho que me estão a chamar para voltar para África. Tento explicar que já fui, argumentam que tenho que ir. E o sonho acaba aqui. Nunca sonhei com tiros ou com morteiradas. No meio daquilo tudo havia muito humor. Havia um homem, o Bichezas, que cuidava do morteiro que estava ao pé da messe. Tínhamos mais medo dele do que do MPLA porque o Bichezas disparava com o morteiro na vertical. Aquilo subia...e toda a gente fugia. Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo, havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques.

Parava a guerra?

Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto ou do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?

Não vou pôr isso na entrevista...

Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?

Fonte: Revista Visão - entrevista de Sara Belo Luís - 27.11.2003

sexta-feira, 9 de abril de 2010

SAL-GEMA

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 4/4/10
A PALAVRA sal foi-nos deixada pelos romanos (sal, salis), que tanto a empregavam para designar o produto material extraído por evaporação da água do mar, como para aludir, em sentido figurado, à vivacidade, à finura cáustica, ao espírito picante, ao bom gosto, à inteligência. E foi assim, com estes dois sentidos, que sal entrou na nossa linguagem quotidiana, da menos à mais erudita. Tal não aconteceu com o termo equivalente halós, dos gregos, cuja passagem pela Península, muito anterior, não teve nem a duração nem a importância da ocupação romana. Apenas no jargão científico e tecnológico dispomos de vocábulos construídos com base no étimo grego. Diz-se que um solo é halomórfico quando salgado, que um organismo é halofílico quando suporta bem a presença de sal e designa-se por halogenetos o conjunto dos minerais salinos, entre os quais a halite, o mineral essencial do sal-gema.

Em química, sal é um composto resultante da interacção de um ácido com uma base, ou da acção de um ácido sobre um metal. Cloretos, sulfatos, iodetos, fosfatos, etc. são sais. Porém, todos eles necessitam de um qualificativo que os distinga dos restantes, como são, por exemplo, o sal amargo (cloreto de magnésio), o sal de fósforo (fosfato de sódio e amónia) e muitos outros. Só o cloreto de sódio dispensa esse cuidado, bastando-lhe a palavra sal dita ou escrita isoladamente. É este o constituinte quer do sal marinho, ou sal de cozinha, produzido em salinas (marinhas) à beira-mar, quer do sal-gema, extraído das entranhas da Terra.

A halite ocorre em pequenos cubos, transparentes e incolores. Pode, no entanto, apresentar-se cinzenta, amarelada ou avermelhada, devido à presença de impurezas, como matéria orgânica e óxidos de ferro.

São conhecidas ocorrências de sal-gema em todos os tempos, dos mais antigos aos mais modernos, em todos os continentes. Amplamente explorado, é considerado uma entre as mais importantes matérias-primas que alimentam a moderna indústria química, a par do petróleo e do enxofre. Considerado o georrecurso de mais longo e variado uso pela Humanidade, o sal-gema determinou a localização de núcleos populacionais no interior dos continentes, onde dificilmente chegava o sal marinho. Salzburgo, na Áustria, é disso um exemplo.

Em Portugal, o sal-gema surge na base do Jurássico em ocorrências que testemunham a existência de um cordão de lagunas litorais formadas há cerca de 200 milhões de anos, sob um clima quente e muito seco. São particularmente importantes as explorações de Torres Vedras e de Loulé. A primeira, em Matacães, realiza-se dissolvendo o sal por injecção de água no corpo salino, sendo a salmoura (água + sal) recolhida e enviada, por pipeline, até às instalações fabris na Póvoa de Santa Iria, através de um percurso de mais de cinquenta quilómetros. Em Loulé, o sal é explorado "a seco", em mina subterrânea. Com vários quilómetros de galerias, amplas e desprovidas de humidade, a mais de 230m de profundidade, esta mina oferece óptimas condições ambientais aos asmáticos que ali buscam alívio. Loulé tem reservas para milhares de anos de laboração e o sal, que ali se extrai, é dirigido à indústria química de Estarreja.

Na Fonte da Bica, em Rio Maior, há poços de água salgada abertos em terrenos ricos em sal-gema. Esta água é lançada em tanques (talhos) e aí evaporada, precipitando o sal, num processo que vem desde tempos imemoriais. A repartição desta salmoura pelos salineiros locais obedece a um regime tradicional, escrupulosamente respeitado, conhecido desde o século XII.

Entre nós, a exploração de sal-gema está muito aquém das nossas disponibilidades nesta matéria-prima. Tal é devido à grande qualidade do sal produzido nas nossas marinhas e também à importação deste produto ditada pelas regras do mercado internacional.

SEDIMENTOLOGIA E ROCHAS SEDIMENTARES

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 3/28/10
A SEDIMENTOLOGIA, como a definiu H. A. Wadell, em 1932, é o estudo científico dos sedimentos, quer dos depositados e litificados, quer dos que se encontram em deposição temporária, quer ainda dos que se mantêm em trânsito. Como disciplina especializada, a Sedimentologia teve início na década de 40 do século passado, afirmando-se como uma das mais importantes das Ciências da Terra, desenvolvendo tecnologias e metodologias adequadas ao estudo das rochas sedimentares, desde a sua génese (sedimentogénese) e eventuais transformações (diagénese), à respectiva localização no espaço e no tempo, em estreita associação com a Paleontologia, a Estratigrafia e a Geocronologia e, ainda, à sua utilização como georrecursos.

"A Sedimentologia justifica-se pelo leque de aplicações práticas em que pode ser envolvida", escreveu, em 2003, o Prof. Soares de Carvalho, da Universidade do Minho. Para nos darmos conta da oportunidade desta afirmação basta pensar no interesse posto na prospecção, exploração e usos industriais dos combustíveis fósseis, dos calcários, das areias e argilas, do sal-gema e, ainda, nas suas aplicações em hidrogeologia, geologia do ambiente, geologia de engenharia e em problemas inerentes ao ordenamento do território.
Sedimentologia é, pois, outra maneira de dizer Petrologia Sedimentar, expressão que se não deve confundir com Petrografia Sedimentar, uma vez que petrografia é o estudo das rochas, visando a sua descrição, identificação e classificação, e petrologia, mais abrangente, é a ciência das rochas, na sua globalidade, incluindo a interpretação dos processos genéticos.

Terrae adquae Solis filiae, expressão latina que quer dizer "as filhas da Terra e do Sol", é uma maneira alegórica de referir as rochas sedimentares. Na mesma alegoria, pode dizer-se que, fecundada pela radiação solar, indutora dos processos geodinâmicos e biológicos próprios da sua capa externa, a mãe Terra dá nascimento às rochas sedimentares, outra categoria das suas criações. As rochas sedimentares trazem consigo não só as marcas dos seus progenitores, mas também as das condições ambientais em que foram geradas e, muitas delas, ainda, a data do seu nascimento.

As rochas sedimentares no seu todo, desde as mais recentes, incoesas e móveis (como as areias) às mais antigas, compactadas e consolidadas, são consequência de um conjunto de condições próprias e originais da superfície do nosso Planeta. São elas: 1) uma atmosfera oxidante (a partir de uma certa altura) e, em grande parte, húmida, particularmente agressiva para os minerais das rochas aflorantes; 2) uma hidrosfera que promove não só a alteração química das rochas, mas também a erosão, o transporte e a deposição dos sedimentos; 3) a distância a que se encontra do Sol, permitindo-lhe o fluxo de energia radiante necessária e suficiente aos processos inerentes à sua formação e que também lhe assegura a Vida nos mais variados ambientes da sua superfície.

Sem atmosfera, hidrosfera e biosfera não se teriam formado os sedimentos e as rochas sedimentares que, por todo o lado, nos rodeiam. Na ausência destas geosferas, a superfície terrestre estaria, à semelhança da Lua, reduzida a uma capa de rególito, isto é, de poeiras e fragmentos rochosos resultantes dos impactes meteoríticos ocorridos ao longo de milhares de milhões de anos. Face a esta realidade, a Sedimentologia não pode deixar de ser entendida como uma disciplina fundamental no âmbito das ciências geológicas.

As rochas sedimentares representam um conjunto particular de produtos naturais gerados na parte mais externa da crosta terrestre e, portanto, nas condições de pressão e temperatura próprias da superfície, ocupando uma posição bem delimitada no ciclo das rochas. Consumindo, sobretudo, energia solar, a sedimentogénese é aceite como uma das expressões da geodinâmica externa, a par da erosão do relevo, da formação dos solos e do aparecimento e manutenção da Vida. Geradas na interface da litosfera com as atmosfera, hidrosfera e biosfera, as rochas sedimentares são essencialmente constituídas por um, dois ou três dos seguintes componentes fundamentais: 1) terrígenos, herdados por via detrítica de outras rochas preexistentes; 2) quimiogénicos, resultantes da precipitação de substâncias dissolvidas nas águas; e 3) biogénicos, quer edificados por alguns organismos em vida, quer acumulados detriticamente a partir de restos esqueléticos, após a morte dos respectivos seres.

Se, em termos de volume, as rochas sedimentares representam apenas 5% do volume da crosta terrestre (contra 95% das rochas ígneas e metamórficas), tal é devido ao conceito implícito no respectivo qualificativo. Porém, tendo em conta que a grande maioria das rochas metamórficas como xistos, metagrauvaques, mármores, quartzitos e outras, são materiais litológicos transformados a partir de rochas sedimentares preexistentes, aquela cifra aumenta substancialmente. Aumenta ainda mais se nos lembrarmos que a maior parte dos granitos e rochas afins resultaram da fusão parcial (anatexia) de rochas sedimentares e metamórficas. Em termos de área exposta, as rochas sedimentares perfazem cerca de 75% das terras emersas e cobrem a maior parte dos fundos marinhos, embora neste domínio a sua espessura seja ínfima, se comparada aos milhares de metros das acumulações integradas na arquitectura da crosta continental, isto é, nos continentes, incluindo as margens continentais submersas.

(In: "Geologia Sedimentar", Volume II, Âncora Editora, 2005)

sábado, 3 de abril de 2010

A Santa Inquisição vista por Alfredo Pimenta

via Nacional-Cristianismo by NC on 3/9/10


"Os historiadores folhetinescos por um lado e os energúmenos da história por outro, criaram à Inquisição católica uma fama terrível, convencendo o pobre público ignorante e irreflectido de que, por obra dela, o Espírito viveu aferrolhado e encadeado, não podendo expandir-se… E, todavia, nada mais falso. A ciência foi livre. Livre foi a erudição. Livre a especulação filosófica. Livre foi a arte. O que não foi livre foi o denegrir da fé, o corromper a teologia, o envenenar as almas, semeando nelas erros e maldades" (Alfredo Pimenta).