quarta-feira, 28 de abril de 2010

A imortalidade está a duas décadas de distância?

via Um Homem das Cidades by Diogo on 4/27/10
Livro publicado por Raymond Kurzweil em 2005

THE SINGULARITY IS NEAR
When Humans Transcend Biology


A SINGULARIDADE ESTÁ PRÓXIMA
Quando os humanos transcendem a Biologia

Raymond Kurzweil

Ray Kurzweil é autor de "The age of intelligent machines", que ganhou o Association of American Publishers' Award de melhor livro de informática de 1990. Ganhou o Dickson Prize, o principal prêmio científico da universidade Carnegie Mellon, em 1994. O Massachusetts Institute of Technology elegeu-o inventor do ano em 1988. Em 2004, em co-autoria com o médico Terry Grossman, lançou o livro "A medicina da imortalidade" — um abrangente programa de longevidade que inclui orientação nutricional, avanços da medicina e tecnologia de ponta, que em pouco tempo se tornou sucesso de vendas. O seu site www.kurzweilai.net é uma referência em nanotecnologia, contendo informações atualizadas semanalmente sobre as mais recentes e avançadas pesquisas na área.

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Excerto de uma entrevista com Raymond Kurzweil sobre a miscigenação entre o homem e a máquina. [Tradução minha]

Entrevistador: Qual será o impacto destes desenvolvimentos?

Ray Kurzweil: Um aumento radical da esperança de vida, para começar.

Entrevistador: Parece interessante, e como será isso possível?

Ray Kurzweil: No meu livro, refiro três grandes revoluções sobrepostas a que dei o nome de "GNR", que significa Genética, Nanotecnologia e Robótica. Cada uma delas propicia um aumento dramático da longevidade humana, entre outros impactos significativos. Nós estamos neste momento na primeira fase da revolução genética – também chamada biotecnologia. A biotecnologia oferece os meios para alterar os genes: não apenas bebés programados mas natalidades programadas. Seremos igualmente capazes de rejuvenescer todos os tecidos e órgãos do nosso corpo transformando as células da pele em versões jovens de qualquer outro tipo de célula. Neste momento, novos desenvolvimentos fármacos têm como objectivo o combate de etapas importantes da arteriosclerose (a causa das doenças de coração), a formação de tumores cancerígenos, e os processos metabólicos que estão na base das doenças mais importantes e do processo de envelhecimento. A revolução biotecnológica já está na sua fase inicial e atingirá o seu pico na segunda década deste século (2010-2020), um ponto a partir do qual seremos capazes de ultrapassar a maior parte das doenças e retardar dramaticamente o processo de envelhecimento.

Seguir-se-á a revolução da nanotecnologia, que atingirá a sua maturidade durante os anos vinte (2020s). Com a nanotecnologia, seremos capazes de ir além dos limites da biologia, e substituir o nosso actual "corpo humano versão 1.0" com um substancial aperfeiçoamento versão 2.0 fornecendo um aumento radical dos anos de vida.


Entrevistador: E como poderá ser isso possível?

Ray Kurzweil: O segredo da nanotecnologia são os "nanobots", que são robots do tamanho de células sanguíneas que podem viajar pela corrente sanguínea destruindo os elementos patogénicos (causadores de doenças), removendo detritos, corrigindo os erros do DNA, e revertendo o processo de envelhecimento.


Entrevistador: Corpo humano versão 2.0?

Ray Kurzweil: Encontramo-nos já nas fases iniciais de multiplicar e substituir cada um dos nossos órgãos, e mesmo porções do nosso cérebro com implantes neuronais, os mais recentes dos quais permitem aos doentes fazer o download de novo software exterior aos seus corpos para os seus implantes neuronais. No meu livro descrevo a forma pela qual cada um dos nossos órgãos será em última análise substituído. Por exemplo, nanobots podem colocar na nossa corrente sanguínea um conjunto óptimo de todos os nutrientes, hormonas, e outras substâncias de que temos necessidade, assim como remover toxinas e dejectos. O tracto intestinal poderá ficar reservado para os prazeres da culinária em vez da monótona função biológica de fornecer nutrientes. No fim de contas, de certo modo já separámos a comunicação e os prazeres do sexo da sua função biológica.


Entrevistador: E a terceira revolução?

Ray Kurzweil: A revolução robótica, que na realidade se refere à "poderosa" Inteligência Artificial, ou seja, a inteligência artificial ao nível humano, de que falámos anteriormente. Teremos tanto o hardware como o software para recrear a inteligência humana lá pelo fim dos anos vinte (2020s). Seremos capazes de aperfeiçoar estes métodos e aproveitar a velocidade, a capacidade de memória e a aptidão de partilha de conhecimento destas máquinas.

Por fim, seremos capazes de examinar todos os detalhes importantes dos nossos cérebros, usando milhares de milhões de nanobots nos capilares. Poderemos então guardar essa informação. Utilizando a nanotecnologia, podemos recrear o nosso cérebro, melhor ainda, criar fisicamente uma representação dele num substrato computacional mais capaz.



Entrevistador: Isso significa o quê?

Ray Kurzweil: Os nossos cérebros biológicos utilizam sinais químicos que transmitem informação a poucas centenas de metros por segundo. A electrónica é já milhões de vezes mais rápida do que isto. No meu livro, demonstrei como em 25 cm cúbicos de um circuito de nanotubos seria cem milhões de vezes mais poderoso que um cérebro humano. Portanto temos meios mais poderosos para criar fisicamente representações da nossa inteligência do que as velocidades extremamente lentas das nossas conexões interneunorais.


Entrevistador: Portanto, vamos substituir os nossos cérebros biológicos por circuitos electrónicos.

Ray Kurzweil: Eu vislumbro este começo com nanobots nos nossos corpos e nos nossos cérebros. Os nanobots mantêm-nos saudáveis, proporcionam imersão total na realidade virtual desde o interior do nosso sistema nervoso, oferecem comunicação directa cérebro a cérebro pela Internet, e expandem enormemente a inteligência humana. Mas não se esqueçam que a inteligência não biológica está a duplicar a sua capacidade todos os anos, enquanto a nossa inteligência biológica tem a sua capacidade praticamente fixa. À medida que nos aproximamos dos anos trinta (2030s), a parte não biológica da nossa inteligência predominará.


Entrevistador: A tecnologia mais próxima de maior longevidade, contudo, é biotecnológica, não é verdade?

Ray Kurzweil: Haverá uma sobreposição das revoluções G, N e R (Genética, Nanotecnologia e Robótica), mas basicamente é isso.


Entrevistador: Então diga-me mais sobre a forma como a genética e a biotecnologia vão evoluir.

Ray Kurzweil: À medida que vamos aprendendo sobre os processos de informação que estão por trás da biologia, estamos a desenvolver formas de os controlar para controlar as doenças, o envelhecimento e aumentar o potencial humano. Uma abordagem poderosa é começar pela infra-estrutura da informação biológica: o genoma. Com a tecnologia dos genes, estamos à beira de ser capazes de controlar a forma como os genes funcionam. Possuímos agora uma nova e poderosa ferramenta chamada interferência RNA (RNAi), que é capaz de desligar certos genes. Bloqueia o mensageiro RNA de genes específicos, evitando que criem certas proteínas. Como as doenças virais, o cancro, e muitas outras doenças usam produtos do gene (proteínas ou RNA) em alturas críticas do seu ciclo de vida, isto promete ser uma tecnologia revolucionária. Um gene que gostaríamos de desligar é o gene receptor de insulina de gordura, que dá ordens às células gordas para guardarem todas as calorias. Quando esse gene é bloqueado nos ratos, esses ratos comem muito mas mantêm-se magros e saudáveis, e, em regra, vivem 20% mais tempo. Novos métodos de acrescentar novos genes, chamada terapia genética, estão também a surgir que ultrapassaram problemas anteriores de colocação precisa de nova informação genética. Uma companhia com a qual estou envolvido, a United Therapeutics, tratou com sucesso a hipertensão pulmonar em animais usando uma nova forma de terapia dos genes e foi agora aprovada para testes em humanos.


Entrevistador: Portanto, vamos basicamente reprogramar o nosso DNA.

Ray Kurzweil: É uma boa forma de o dizer, mas é apenas uma abordagem alargada. Outra importante linha de acção é desenvolver novamente as nossas próprias células, tecidos, e até órgãos inteiros, e introduzi-los nos nossos corpos sem cirurgia. Um dos maiores benefícios desta técnica de "clonagem terapêutica" é que seremos capazes de criar estes novos tecidos e órgãos de versões das nossas células que também já foram tornadas mais jovens – o campo emergente da medicina do rejuvenescimento. Por exemplo, poderemos ser capazes de criar novas células do coração a partir de células da sua pele e introduzi-las no seu sistema através da corrente sanguínea. Com o passar do tempo, as suas células do coração são substituídas pelas novas células, e o resultado é um "jovem" coração rejuvenescido com o seu próprio DNA.

A descoberta de drogas já foi uma questão de encontrar substâncias que produziam alguns efeitos benéficos sem efeitos colaterais excessivos. Este processo era semelhante à descoberta das ferramentas pelos primeiros seres humanos, que estava limitado a encontrar rochas e utensílios que pudessem ser úteis para vários fins. Hoje, estamos a aprender as séries exactas de reacções químicas que estão na base tanto das doenças como dos processos de envelhecimento, e seremos capazes de fabricar drogas para levar a cabo missões precisas a nível molecular. O raio de acção e a escala deste trabalho é vasto. Mas aperfeiçoar a nossa biologia só nos trará até aqui. A realidade é que a biologia nunca será capaz de estar ao nível do que seremos capazes de projectar, agora que estamos a ganhar uma compreensão profunda dos princípios da operação da biologia.


Entrevistador: Não é a natureza mais eficiente?

Ray Kurzweil: De forma nenhuma. As nossa conexões interneuronais calcula cerca de 200 transacções por segundo, cerca de um milhão de vezes mais devagar que a electrónica. Tomando outro exemplo, o teórico da nanotecnologia, Rob Freitas, tem um projecto conceptual para nanobots que substituem as células vermelhas do nosso sangue. Uma análise conservadora mostra que se substituirmos 10 por cento das células vermelhas do nosso sangue com os "respirocytes" de Freitas, podemo-nos sentar no fundo da piscina durante quatro horas sem respirar.


Entrevistador: Se as pessoas deixarem de morrer, isso não conduzirá a uma sobrepopulação?

Ray Kurzweil: Um erro comum que as pessoas cometem quando pensam no futuro é antever uma enorme mudança do mundo de hoje, tal como um prolongamento radical do tempo de vida, como se tudo o resto não fosse mudar. As revoluções da "GNR" - Genética, Nanotecnologia e Robótica – resultarão noutras transformações que abordam essa questão. Por exemplo, a nanotecnologia permitir-nos-á criar virtualmente e qualquer produto físico a partir da informação e de matérias-primas muito baratas, conduzindo a uma radical criação de riqueza. Teremos os meios para encontrar os materiais necessários para qualquer número concebível de seres humanos. A nanotecnologia também fornecerá os meios tratar de destruições ambientais causadas por estágios anteriores de industrialização.

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Vídeo gravado de Raymond Kurzweil em 2005

(É possível escolher as legendas em português brasileiro em "View Subtitles")

Lembrando-se dos 500 anos da conquista de Goa

via Folhas de História by História - Mestra da Vida on 4/28/10
Entrevista com Deccan Herald (Bangalore, India) http://www.deccanherald.com/content/66330/xavier-aware-brutality-inquisition.html

terça-feira, 27 de abril de 2010

António Quadros, O Escritor e a sociedade

António Quadros, O Escritor e a sociedade

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 4/24/10
"Fora da solidão da criação o escritor não existe como escritor, é um homem social. (...) mas é quando ele está só que estabelece a maior comunicação com o maior número de pessoas. Porque a solidão criativa é de certo modo um diálogo com os outros, enquanto, por outro lado, pode parecer paradoxal (...) a vida pública do escritor é quando há menos diálogo com os outros (…) é um acidente, é qualquer coisa artificial e um pouco superficial. Não é aí que ele se realiza. É quando está só que o escritor comunica com os outros e digamos mais do que isso, comunica com o Universo." António Quadros (O Escritor e a sociedade, RTP, 1983)

António Quadros sobre Fernando Pessoa

António Quadros sobre Fernando Pessoa

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 4/22/10
"[...] Os citados críticos franceses, [Patrice Delbourg, Jean-Pierre Thibaudat, etc.] deslumbrados pelos sinais mais exteriores e espectaculares da personalidade literária de Fernando Pessoa, insistiram sobretudo nos aspecto inovadores e modernistas da sua obra, na questão intrigante dos heterónimos ou na inteligência prodigiosa de todos os seus escritos. Se ficássemos por aqui, no entanto, pouco avançaríamos no conhecimento da poética pessoana. É que se Pessoa foi um inovador, foi também um expressor de princípios e arquétipos que transcendem as categorias do tempo; se foi um moderno e um modernista, foi também um incansável pesquisador e assuntor do tradicional, do secreto, do mítico, do enigmático, do que se perdeu ou esqueceu e contudo está vivo, porque é talvez perene na cultura portuguesa e universal mais profunda; se, com a invenção dos heterónimos, exprimiu como ninguém a cisão psicológica e espiritual da alma humana, através do drama da sua própria alma, conflitualmente dividida em estratos sobrepostos, ao mesmo tempo nunca deixou de perseguir o nódulo interior ou o princípio de unidade, orientador da reconvergência possível, como telos ou fim último da gesta humana neste mundo de geração e de corrupção; e se a sua fulgurante inteligência analítica dá por vezes impressão de sofística ou dialéctica (tal a facilidade com que manipula os conceitos mais difíceis) há sempre nela, ao mesmo tempo, uma sinceridade, uma autenticidade, um pathos de sofrimento, de angústia e também de incansável determinação próxima da santidade intelectual, que dá grandeza heróica à sua obra, vista no seu conjunto como uma peregrinação sofrida e mantida para o absoluto ou mesmo para o divino, no paradigma fáustico, mas ultrapassando-o em momentos excepcionais de conhecimento merecido e alcançado. [...]"
António Quadros
Obra Poética de Fernando Pessoa, Poesia - I, (1902-1929),
int. e org. de António Quadros, Publicações Europa-América

A Guidinha também escreveu sobre o 25 de Abril

via A Matéria do Tempo by Fernando Ribeiro on 4/25/10

O CHEFE DO MEU PAI ERA UM DEMOCRATA E NINGUÉM SABIA...

Ora cá estou eu outra vez a contar as coisas que se passam lá em minha casa e no bairro da Graça em que vivo sim porque eu vivo no bairro da Graça e tenho muita honra nisso porque não há nada para uma mulher como ser Graciosa pois como toda a gente sabe houve um 25 de Abril e cá em casa esse 25 de Abril foi bestial para começar o meu pai só soube que era 25 de Abril mais tarde lá por volta das onze que é quando ele lá no trabalho acaba de ler o jornal e liga o rádio de maneira que já uma data de pessoas sabia que era vinte e cinco de Abril e ainda lá no trabalho estava a ler no Diário de Notícias que o presidente Américo Tomaz tinha ido visitar um salão de antiguidades cá por mim o que me espanta é que o tivessem levado para um regimento porque o podiam ter deixado no tal salão de antiguidades para ele não estranhar o ambiente mas adiante que o que interessa é o que aconteceu ao meu pai pois como eu ia dizendo tinha ele acabado de ler essa interessante notícia das antiguidades se andarem a visitar umas às outras e uma outra do deputado Ferreira da Silva do Porto coitadinho ter pedido acções de repressão contra a situação anárquica que visava gerar o descontentamento e mais não sei o quê e vai ouviu na rádio que era vinte e cinco de Abril e ficou a suar a suar a suar diz ele que ficou a suar tanto que se lhe colou o dito à cadeira sem saber o que havia de fazer mas lá conseguiu descolá-lo e foi até ao gabinete do chefe que estava naquele momento a redigir uma ordem a dizer que lixava quem faltasse no dia 1 de Maio e disse-lhe que a rádio estava a dizer que havia um movimento das Forças Armadas para derrubar o regime o homem ficou branco e disse que era mentira e que se o meu pai continuasse a espalhar boatos que lhe fazia um processo disciplinar e mais não sei o quê e que era proibido ouvir rádio durante as horas de trabalho e vai o meu pai voltou para a secretária mas ainda ouviu o chefe ligar um transistor que ele esconde numa gaveta quando alguém lhe entra no gabinete e daí a dois minutos o chefe chegou-se ao pé dele e pediu-lhe para ir à rua ver se ouvia qualquer coisa e o meu pai foi e ouviu olá se ouviu e viu olá se viu diz ele que viu uma data de carros de assalto ao Largo do Carmo e que voltou a correr e disse ao chefe o que tinha visto o chefe ainda ficou mais branco e mandou-o para o escritório porque queria fazer umas chamadas confidenciais e vai daí a bocado entrou todo pimpão no escritório e disse que tinha tido conhecimento de ter havido um movimento de revolucionários ingénuos mas que já estavam todos na cadeia e que se o meu pai voltasse a sair outra vez durante as horas de expediente para ir ouvir boatos no Largo do Carmo que tinha de informar a DGS e o meu pai ficou com o dito outra vez colado à cadeira mas foi colagem de pouca dura porque daí a bocado o chefe entrou outra vez branco como a cal da parede e disse ao meu pai para ir outra vez à rua ouvir o que se passava e o meu pai foi olá se foi e viu tanta coisa que esteve para não voltar ao escritório mas como é pai de família etc. etc. voltou e disse o que tinha visto e vai o chefe entrou no escritório e disse que sempre tinha respeitado as ideias políticas de cada um e que deixava sair quem quisesse mas quando toda a gente se ia raspar alguns até já iam na escada entrou um senhor qualquer falou com o chefe um minuto e ele outra vez branco como a cal da parede chegou ao patamar da escada e desatou a berrar que ninguém saía que dava à D. G. S. os nomes de quem saísse que não queria simpatizantes com revolucionários que ia instaurar processos disciplinares a toda a gente e que o meu pai por ter saído duas vezes do escritório ia parar a Caxias tão certo dois e dois serem quatro e estava quase a fuzilar o meu pai e os colegas quando entrou uma data de gente a berrar e a dizer que os que estavam no Carmo se tinham rendido e que o general Spínola tinha ganho e o chefe começou a dar vivas ao general Spínola à democracia ao povo à Pátria só não deu à leitaria da esquina porque não se lembrou sim porque até ao 25 de Abril o miúdo da leitaria estava proibido de entrar lá por o dono da leitaria ter dito uma vez que as guerras de África eram uma infâmia de maneira que se o chefe naquele momento se tivesse lembrado também tinha dado um vivazito ao dono da leitaria vai depois todos se foram embora e quando voltaram no dia seguinte o chefe deu um grande abraço ao meu pai e explicou a todos que se na véspera tinha dito que não admitia na repartição simpatizantes com revolucionários era só porque se a revolução falhasse queria ser ele sozinho a assumir as responsabilidades porque ele era um democrata desde sempre enfim o que eu queria saber era como ele conseguiu manter o segredo tanto tempo e ainda há quem diga que os portugueses não sabem guardar segredos.

Guidinha (Luís de Sttau Monteiro), in A MOSCA, 11 de Maio de 1974

domingo, 25 de abril de 2010

Entrevista a O Diabo [02-03-2010]

Entrevista a O Diabo [02-03-2010]

via Império, Nação, Revolução by Riccardo Marchi on 3/27/10
Houve quem achasse excessivamente dura a recensão crítica publicada por 'O Diabo' ao seu livro "Império Nação Revolução", recentemente apresentado ao público…

Antes de mais, agradeço a atenção que 'O Diabo' prestou à obra, mas gostava de sublinhar, ao lado de algumas verdades, falsidades desnecessárias. É, sem dúvida, verdadeira a existência de erros linguísticos no texto, cuja responsabilidade é só e exclusivamente minha e das minhas lacunas na língua portuguesa, a começar pelo "inaceitável serrar fileiras", que nem sequer foi um lapso freudiano. Também é verdadeira a presença de "erros factuais": são os perigos do ofício de historiador, por muito rigor que se use. Os amigos que me ajudaram com os seus testemunhos já me alertaram para isso, mas também referiram a irrelevância dos erros na economia da obra. Não me resta mais que considerá-los uma boa oportunidade para futuros trabalhos "revisionistas"… sempre bem aceites quando rigorosos.

E quanto às críticas mais opinativas?

O meu crítico lamenta a falta de "uma boa introdução sobre o pensamento nacionalista português do século XX". Esta foi uma escolha metodológica minha. Optei por me concentrar exclusivamente no nacionalismo radical do pós-guerra. O tema, de facto, só por si, oferece pano para mangas para uma investigação que ao ser definida como "superficial" parece-me, no mínimo, pouco generoso, visto o estado da arte em que se encontravam tais estudos. Opinável é também definir o trabalho como "uma monumental maçada cronológica". Cada leitor, como é óbvio, tem a sua sensibilidade. Certo é que um trabalho de história sobre um período ainda inexplorado não pode eximir-se de uma minuciosa contextualização e colocação temporal dos eventos. Quanto ao facto de o livro resultar "sem alma e sem chama", posso apenas dizer que eu não sou um romancista, nem um poeta, nem um apologista e que não vivi, nem sequer de longe, os factos narrados, para poder sentir as suas almas e chamas. Para isso servem as obras de memórias, que, pelos vistos, os detentores de almas e chamas deste "tema empolgante" nunca se preocuparam em legar às gerações vindouras. A mim, coube-me apenas relatar as ocorrências, da maneira mais científica possível.

Mas é na parte factual que parecem surgir mais dúvidas…

Sim. O crítico afirma ter eu "enveredado por um estudo cómodo", com base apenas no material impresso (publicações dos movimentos). É falso. A análise necessária e exaustiva das publicações dos movimentos da direita revolucionária é apenas uma das fontes utilizadas. A reconstrução historiográfica baseia-se, principalmente, nas várias entrevistas realizadas com 25 destacados militantes e dirigentes da direita revolucionária da altura; nos 8 arquivos particulares pertencentes a líderes dos movimentos; nas centenas de pastas (com alguns milhares de documentos) guardadas nos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo (Salazar, PIDE, Censura, Marcello Caetano, Legião Portuguesa, Ministério da Administração Interna). Tudo rigorosamente registado em notas de rodapé.

A crítica questionava também a opção de fundo de ter iniciado o estudo em 1959...

Esse "mistério" poderia ter sido resolvido com uma sua investigação, esta sim bastante "cómoda", na internet ou, ainda mais "cómoda", na bibliografia do livro (página 414). Teria descoberto que, ao mesmo tempo que "Império, Nação, Revolução", publiquei o livro "Folhas Ultras" (Edição do Instituto de Ciências Sociais) que cobre o período 1939-1950, dedicado a Alfredo Pimenta, ao grupo de 'A Nação' e também ao grupo da 'Mensagem' (Caetano Beirão, Amândio César, António José de Brito). Quanto às "frequentes remissões para trabalhos de autores esquerdistas", deixe-me dizer, em primeiro lugar, que o "rotulismo" é-me indigesto tanto quando provém de certa cultura antifascista, como de qualquer outra cultura política. Dito isto, as "frequentes remissões" denunciadas, reduzem-se a… duas, em 400 páginas, nomeadamente nas notas de rodapé n.º 1 da página 14 e n.º 2 da página 387. Demasiada esquerda num livro sobre as direitas?

O seu trabalho de investigação sobre os movimentos de Direita em Portugal é, de alguma forma, pioneiro. Porque acha que os investigadores portugueses não se têm dedicado a este campo de estudos?

Posto que os interesses de investigação têm muito a ver com o foro interior de cada investigador, na minha opinião são duas as razões principais que concorreram a alhear a atenção dos cientistas deste campo de estudos. A primeira tem a ver com a relativa proximidade cronológica do regime autoritário que causa ainda uma reductio ad unum de tudo o que é direitas ou nacionalismos à figura de Salazar. Isso esbate a policromia de uma área rica em pensamento político e história dos movimentos e prejudica o seu interesse. A segunda tem a ver com a auto-exclusão, no regime democrático, das direitas e dos nacionalismos do debate das ideias. Tiradas algumas excepções (por exemplo "Futuro Presente" nos anos 80), esta área temeu as contaminações, recusou-se a enxertar as suas raízes com os novos desafios da modernidade e renunciou a produzir novas sínteses. Acabou, assim, por contentar-se em sobreviver no limbo dos "êxules em pátria", importando amiúde ideias simples cunhadas no estrangeiro para o combate partidário (por sua essência pouco útil à elaboração de princípios com peso). Esta retirada da batalha das ideias contribuiu em afastar os investigadores da procura das raízes profundas desta área. Dito isto, eu não me preocuparia muito com a quantidade de investigações dedicadas ao tema, mas sim com a sua qualidade, muito mais importante para abrir trilhos seguros.

Consultou inúmeros arquivos, particulares e públicos. Ficou surpreendido com a quantidade ou a qualidade dos documentos que teve ao seu dispor?

Fiquei mais surpreendido com a descontinuidade dos documentos, que denota como as direitas radicais do segundo pós-guerra, apesar de sempre presentes, nunca conseguiram (ou nunca procuraram) um projecto orgânico de longa duração. Tratou-se de experiências isoladas, pontuais, amiúde com boa qualidade intelectual, mas efémeras e, por isso, pouco frutíferas do ponto de vista do legado a deixar. Este limite parece-me reproduzir-se também no período democrático.

Encontrou disponibilidade para depor por parte dos muitos participantes nos movimentos de Direita no período de que se ocupa?

Disponibilidade incondicional por parte de muitos, uma certa reticencia por parte de alguns, recusa total de colaboração por parte de poucos, felizmente.

Algumas das pessoas que participaram nesses movimentos encontram-se hoje inseridas na sociedade democrática, e algumas ocupam mesmo cargos de relevo na vida política e social. Sentiu que isso as inibiu de falarem abertamente sobre o seu passado?

Creio que as inibições deveram-se mais ao facto de eu ser estrangeiro. Isso gerou o preconceito, não totalmente injustificado, que dificilmente poderia ter compreendido as razões profundas da militância deles de há 40 anos. Mas devo dizer que também as figuras actualmente com cargos de relevo, foram, no que decidiram contar-me, bastante sinceras, honestas e até orgulhosas das lutas que travaram nos seus 20 anos. Isso não lhes impediu de rever algumas posições e criticar certos limites ínsitos no radicalismo de então, graças à distância cronológica e aos respectivos percursos de maturação intelectual. Gostei dos depoimentos deles e fiquei com a vontade de os interrogar mais a fundo, ultrapassando finalmente as omissões iniciais. Como historiador, e como homem, teria ficado muito mais decepcionado em ouvir uma ladainha de arrependimentos, justificações, mea culpa. Não foi o caso, com nenhum deles.

Sabemos que em breve inaugurará um 'site' sobre o tema na Internet. Tenciona continuar a dedicar-se à investigação e à publicação no âmbito da Direita portuguesa?

Sim, o site disponibilizará na internet a documentação original que recolhi no decurso das minhas investigações e tenciona ser um instrumento de trabalho para os futuros investigadores e apaixonados da matéria. Em relação às minhas actuais investigações, dedico-me agora à história das direitas radicais na transição democrática, entre 25 de Abril de 1974 e, sensivelmente, o princípio da década de 80. A este respeito gostava de aproveitar a colaboração de "O Diabo" para lançar uma "operação memória", convidando todos os leitores que participaram directamente naqueles eventos em contactar-me ( riccardo.marchi@ics.ul.pt ) para deixar o seu testemunho ou disponibilizar-me o acesso aos seus arquivos particulares. Na minha profissão, "memento" é de facto um imperativo, visto que a reconstrução histórica, assim como a história em si, é sempre uma obra comunitária.

Jaime Nogueira Pinto no "i" [29 Dezembro 2009]

Jaime Nogueira Pinto no "i" [29 Dezembro 2009]

via Império, Nação, Revolução by Riccardo Marchi on 3/27/10
"Como nós fomos..."

Como as esquerdas radicais, vivemos intensamente os combates políticos da nossa época. Pensamos e lutamos por ideias de justiça social.

"Império, Nação, Revolução. As Direitas Radicais Portuguesas no Fim do Estado Novo (1945-1974)", de Riccardo Marchi, abre uma janela sobre uma terra quase incógnita da nossa historia próxima. Marchi nasceu em Pádua, em 1974. E por isso é um alien nesta paisagem, que vem olhar e contar. Mas trouxe cânones analíticos que faltam à intelectualidade indígena, que, seguindo a vulgata antifascista, arrumou indiscriminadamente todas estas "direitas" em "fascistas", "reaccionários", "extrema-direita" – os "maus" ou "vilões" da história.
A hegemonia política da esquerda há trinta e cinco anos faz com que as categorias políticas de esquerda e extrema-esquerda sejam estudadas e debatidas com algum rigor. Mas persiste a amálgama conceptual na área da direita, que, salvo raras excepções, ainda é contada pela esquerda.
Dai o mérito do livro de Marchi, que, além de estabelecer as distinções requeridas, procurou conhecer o pensamento, o sentimento, a história desta área. A galáxia aqui contada teve revistas, jornais, editoras – Tempo Presente, Combate, Via Latina, O Ataque, Política, Cidadela; teve movimentos de juventude – como o Jovem Portugal nacional-revolucionário, fundado pelo Zarco Moniz Ferreira; ou a FEN – Frente dos Estudantes Nacionalistas – mais salazarista; teve clubes de pensamento e reflexão, e até um grupo de teatro – A Oficina. Teve escritores, académicos, intelectuais, jornalistas, militantes, estudantes, combatentes; fez panfletos, furou greves, resistiu nas faculdades da década de 1965-74 à hegemonia de controlo do movimento associativo. E foi, em 1974-75, de onde veio a única resistência à descolonização.
Conheço bem esta história; fiz parte dela. Dos que lá estivemos, uns voltaram à politica depois de 1976, como o Francisco Lucas Pires e o José Miguel Júdice, outros continuaram no combate cultural, outros desistiram, alguns morreram.
Nestes movimentos estiveram conservadores, tradicionalistas, monárquicos, salazaristas, nacionalistas-revolucionários, fascistas. A trilogia nação, império, revolução pode servir-lhe de denominador: a nação e o império – e a ideia de transformar o império em nação – foram símbolos e valores de todos e estiveram na origem da vinda da maioria para a acção política. Já a revolução foi atributo dos que então se distanciaram do Estado Novo e buscaram inspirações em movimentos do passado, como o fascismo revolucionário de 1920 ou o falangismo de José António. Era a sua terceira via.
Éramos assim. Como as esquerdas radicais, vivemos intensamente os combates políticos da nossa época e, bem longe dos estereótipos de senhoritos reaccionários ou de caceteiros do regime, pensamos e lutamos por ideias de integração nacional e justiça social. Que hoje podem parecer utópicos, mas na época nos surgiram como a alternativa ao que estava e àquilo que vinha.

Jaime Nogueira Pinto
Professor universitário

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Carta de Ghandi a Hitler

via Hipnozz by Mário Rui Santos on 4/6/10
"Caro amigo,

Alguns amigos me incentivaram a escrever-lhe em nome da humanidade. Mas tenho resistido aos seus pedidos, porque me parecia que uma carta minha para si seria uma impertinência. No entanto, algo me diz que não tenho que calcular mas que tenho que fazer o meu apelo, valha ele o que valer.

É muito claro que você é hoje a única pessoa no mundo que pode impedir uma guerra que poderia reduzir a humanidade ao estado selvagem. Terá você de pagar esse preço por um objectivo tão valioso quanto este lhe parece ser? Quererá escutar este apelo de alguém que tem evitado deliberadamente o método da guerra, com considerável sucesso?
De qualquer forma conto com o seu perdão se cometi um erro em lhe ter escrito.
O seu amigo sincero
M.K.Ghandi
23 de Julho de 1939"

Foto e trad.: Mário Rui Santos