sexta-feira, 30 de abril de 2010

O 25 DE ABRIL NO TEMPO DA HISTÓRIA

O 25 DE ABRIL NO TEMPO DA HISTÓRIA

via F. VIEIRA DE SÁ by LG on 4/24/10
«O tempo da história é lento, mas a verdade chega sempre. Essa é a utopia. A revolução não é um anátema. O parto é revolução e, na Natureza, não se faz sem dor.
Todo o envolvimento que rodeou o 25 de Abril faz-me recordar um pouco a revolução de 1383-85, salvaguardando o longo lapso de tempo que separa ambas as revoluções: causas profundas que as definiram; estruturas sociais existentes à época; modus faciendi da traição que teve lugar em ambas; efeitos da contra-revolução.»

Ler mais em F. Vieira de Sá, Viagem ao Correr da Pena, pp. 24-25

NAQUELES IDOS DE NOVA LISBOA DA DÉCADA DE 40

NAQUELES IDOS DE NOVA LISBOA DA DÉCADA DE 40

via MUKANDAS do Monte Estoril by Irdea on 4/29/10

Campo de futebol do Sporting Clube do Huambo actualmente

OS BAILES DE FIM DE ANO

NO SPORTING CLUBE DO HUAMBO(*)

Numa cidade onde as sessões de cinema no Ruacaná, os piqueniques na barragem do Cuando e os desafios de futebol constituíam os únicos entretenimentos públicos, a comemoração da passagem do ano era ansio-samente esperada. O Sporting, o Ferrovia e o Atlético competiam entre si na realização do baile mais animado. Ainda Dezembro ia em meio, já cada uma das agremiações anunciava no Rádio Clube do Huambo e na Voz do Planalto o acontecimento, aceitando inscrições para o efeito.

Talvez por simpatia clubista, ou por hábito adquirido, ou porque achava mesmo que não podia escolher melhor, Jota-Jota participava sempre nos reveillons do Sporting. Tinha razões para isso: a música não era aí, como se dizia, «de pick-up», mas executada por uma orquestra ao vivo, encarrapitada num estrado erguido à pressa e que tocava até de madrugada. Os passo-dobles, os tangos, as rumbas, as valsas não pro-vinham mais de discos estafados e defeituosos, mas do piano, do saxofone, do trompete, do acordeão, que atroavam o ar com as notas de cada peça. Havia lá comparações!...

As famílias tomavam a seu cargo a confecção dos comes-e-bebes para a ceia. Com o empenho que não regateavam nunca, preparavam com antecedência as toalhas, os guardanapos, os talheres, uma ou duas jarras para encher de flores e decorar as mesas.

Não querendo fazer má figura junto de amigos e conhecidos, Dona Maria Albertina esmerava-se nessa tarefa. Particularmente empenhada, lançava-se ao trabalho de véspera, logo na manhã do dia 30, quando punha o avental na cintura e se enfiava na cozinha.

O cozinheiro Gunga franzia a testa e não gostava nada de ter a patroa tão perto de si durante aquelas horas. Numa roda viva, andava de um lado para o outro, sem conseguir dar conta de tantas ordens e repri-mendas («Aca!, muita chatice e compricação!...»).

— Põe mais lenha no fogão! De que estás à espera? Anda lá, não durmas!

Gunga obedecia sem um protesto. Punha a lenha no fogão, mas logo a seguir, à voz da «sinhora», descascava e cortava a cebola para os refogados, batia os ovos e a farinha para as massas, misturava com as mãos enormes o azeite, o sal, o alho e a pimenta para o tempero das carnes, espevitava o lume com o aba­no de palha entrançada.

De faces rosadas pelo calor que andava no ar, Dona Maria Albertina seguia escrupulosamente a lista que elaborara uns dias antes: peru e leitão assados, pastéis de bacalhau e empadas de galinha, duas ou três sobremesas, pratinhos de leite-creme e arroz doce. Para beber à meia-noite, pedira ao marido para comprar numa mercearia da Baixa duas garrafas de espumoso («Da 'Raposeira', só da 'Raposeira', o mais caro, mas o melhor!»), porque a data era importante e devia ser dignamente festejada.

Ana Isabel resolveu nesse ano ajudar a mãe. Cada vez mais apaixonada por Sebastião, já com o casamento marcado para breve, estava particu-larmente empenhada em que tudo corresse bem.

***

As mesas eram postas durante a tarde. Com mais ou menos gosto, as senhoras distribuíam sobre as toalhas bordadas o que tinham trazido de casa: as travessas dos salgados, os pratos das sobremesas, as tacinhas dos frutos secos vindos de Portugal (os pinhões, as avelãs, as ameixas, os figos e as nozes). O cheiro compósito de tanta iguaria reunida começava de imediato a tomar conta do ar.

O baile não principiava antes das dez horas, quando a orquestra subia para o estrado. Avisando que a música vinha aí, o baterista batia repeti-damente com as baquetas nos tambores, zurzia três ou quatro vezes os pratos, deixando depois que os companheiros arrancassem em conjunto a composição de abertura. Poucos pares resistiam a esse apelo: de mãos dadas, iam até à pista de dança; com mais ou menos jeito, rodopiavam então conforme o ritmo.

Jota-Jota não disfarçava o seu contentamento. Numa ocorrência tão especial, tinha ali consigo todos aqueles que amava, e agora também Sebastião, seu genro daí a meses, que lhe dava continuamente provas de ser o marido apropriado para a filha. Que precisava mais ou poderia desejar para se sentir completamente feliz?

Dona Maria Albertina é que não se conformara ainda com aquele casamento. Insistia: como é que uma rapariga tão prendada, bela e inte-ligente se deixava arrastar assim pela paixão? Que teimosia!...

Tão feliz como o pai, Ana Isabel estava linda nessa noite. Não era só o vestido verde de seda que brilhava colado ao corpo, mas também o cabelo louro, os olhos azuis, os dentes cor de pérola, a pele coberta de sardas, toda ela radiante da cabeça aos pés.

Disposta a não ficar sentada na cadeira um minuto sequer, fitou Se-bastião com ternura:

— Vamos?...

Levantou-se, estendeu o braço e insistiu:

— Vamos?...

Queria dançar, dançar, não importava o quê: ser levada nos braços fortes do seu par, que a apertava contra o peito e lhe segredava galanteios ao ouvido.

Acompanhado pelo acordeão e o violino, o solista da orquestra cantava então um tango de Carlos Gardel. De mãos metidas nos bolsos das calças, esgalgava a cabeça de fuinha para o microfone, fechava os olhos romanticamente, estropiando a letra num espanhol carregado de sotaque:

«Su boca que besa

Borra la tristeza

Calma la amargura...»

Como dissera já a propósito dos passo-dobles, das rumbas e das valsas; como dissera antes a propósito de tudo o que dançara, Ana Isabel obser-vou:

— Adoro um tango!

Parecendo ter escutado o comentário, o solista esmerou-se na voz:

«Su boca que besa

Borra la tristeza

Calma la amargura...»

Ana Isabel repetiu:

— Adoro!, adoro!, adoro!

Perguntou:

— E tu?

Sebastião baixou a cabeça e respondeu que sim; em tom meloso, acres-centou:

— Adoro sempre aquilo que danço contigo!

Como um eco do que ouvira, imitou:

— Adoro!, adoro!, adoro!

Pouco antes da meia-noite, a orquestra parou de tocar. O Presidente do Clube subiu ao estrado e lembrou que 1946 se aproximava. À maneira de um discurso («Minhas senhoras e meus senhores!»), desejou a todos os presentes um Ano Novo cheio de paz e prosperidades.

Olhou fixamente para o relógio de pulso:

— Atenção!, atenção!

Principiou a contagem regressiva:

— Cinco, quatro, três, dois, um!

Estouraram nas mesas as garrafas de champanhe, atravessaram o salão gritos e assobios, acenderam-se e apagaram-se no tecto as lâmpadas da iluminação, e a orquestra, toda de pé, atacou uma marcha militar.

Andando de um lado para o outro, de taças cheias nas mãos, as famí-lias cumprimentavam-se efusivamente. Não escondiam a sua alegria e trocavam entre si as saudações da praxe. Aos beijos e abraços, ninguém conseguia resistir àquela euforia contagiante.

Em bicos de pés, já sem qualquer relutância, Dona Maria Albertina beijou pela primeira vez o futuro genro:

— Felicidades! Muitas felicidades!

Ele comoveu-se e agradeceu:

— Obrigado! Obrigado!

__________

(*)Inácio Rebelo de Andrade

in Na Babugem do Êxodo (romance), Nova Vega, Lisboa, 2005 (Colecção «Palavra Africana) (versão revista pelo autor).

liquidação nacional

liquidação nacional

via portugal contemporâneo by noreply@blogger.com (Pedro Arroja) on 4/21/10
"O movimento de integração europeia que muitos na Europa defendem e, fora dela, outros parecem acalentar, ainda se envolve de alguma obscuridade. Esse vago pensamento começa a revestir, aqui e além, formas jurídicas conhecidas, como a de federação ou confederação.
Não consegui ainda descortinar os motivos que impelem alguns a aceitar, senão a bendizer, esta sorte de liquidação nacional."
(Salazar, 19 de Janeiro de 1956, in António Trabulo (ed.), O Diário de Salazar, Lisboa: Parceria A.M. Pereira, 9ª Edição, pp. 193-94)

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A imortalidade está a duas décadas de distância?

via Um Homem das Cidades by Diogo on 4/27/10
Livro publicado por Raymond Kurzweil em 2005

THE SINGULARITY IS NEAR
When Humans Transcend Biology


A SINGULARIDADE ESTÁ PRÓXIMA
Quando os humanos transcendem a Biologia

Raymond Kurzweil

Ray Kurzweil é autor de "The age of intelligent machines", que ganhou o Association of American Publishers' Award de melhor livro de informática de 1990. Ganhou o Dickson Prize, o principal prêmio científico da universidade Carnegie Mellon, em 1994. O Massachusetts Institute of Technology elegeu-o inventor do ano em 1988. Em 2004, em co-autoria com o médico Terry Grossman, lançou o livro "A medicina da imortalidade" — um abrangente programa de longevidade que inclui orientação nutricional, avanços da medicina e tecnologia de ponta, que em pouco tempo se tornou sucesso de vendas. O seu site www.kurzweilai.net é uma referência em nanotecnologia, contendo informações atualizadas semanalmente sobre as mais recentes e avançadas pesquisas na área.

*************************
Excerto de uma entrevista com Raymond Kurzweil sobre a miscigenação entre o homem e a máquina. [Tradução minha]

Entrevistador: Qual será o impacto destes desenvolvimentos?

Ray Kurzweil: Um aumento radical da esperança de vida, para começar.

Entrevistador: Parece interessante, e como será isso possível?

Ray Kurzweil: No meu livro, refiro três grandes revoluções sobrepostas a que dei o nome de "GNR", que significa Genética, Nanotecnologia e Robótica. Cada uma delas propicia um aumento dramático da longevidade humana, entre outros impactos significativos. Nós estamos neste momento na primeira fase da revolução genética – também chamada biotecnologia. A biotecnologia oferece os meios para alterar os genes: não apenas bebés programados mas natalidades programadas. Seremos igualmente capazes de rejuvenescer todos os tecidos e órgãos do nosso corpo transformando as células da pele em versões jovens de qualquer outro tipo de célula. Neste momento, novos desenvolvimentos fármacos têm como objectivo o combate de etapas importantes da arteriosclerose (a causa das doenças de coração), a formação de tumores cancerígenos, e os processos metabólicos que estão na base das doenças mais importantes e do processo de envelhecimento. A revolução biotecnológica já está na sua fase inicial e atingirá o seu pico na segunda década deste século (2010-2020), um ponto a partir do qual seremos capazes de ultrapassar a maior parte das doenças e retardar dramaticamente o processo de envelhecimento.

Seguir-se-á a revolução da nanotecnologia, que atingirá a sua maturidade durante os anos vinte (2020s). Com a nanotecnologia, seremos capazes de ir além dos limites da biologia, e substituir o nosso actual "corpo humano versão 1.0" com um substancial aperfeiçoamento versão 2.0 fornecendo um aumento radical dos anos de vida.


Entrevistador: E como poderá ser isso possível?

Ray Kurzweil: O segredo da nanotecnologia são os "nanobots", que são robots do tamanho de células sanguíneas que podem viajar pela corrente sanguínea destruindo os elementos patogénicos (causadores de doenças), removendo detritos, corrigindo os erros do DNA, e revertendo o processo de envelhecimento.


Entrevistador: Corpo humano versão 2.0?

Ray Kurzweil: Encontramo-nos já nas fases iniciais de multiplicar e substituir cada um dos nossos órgãos, e mesmo porções do nosso cérebro com implantes neuronais, os mais recentes dos quais permitem aos doentes fazer o download de novo software exterior aos seus corpos para os seus implantes neuronais. No meu livro descrevo a forma pela qual cada um dos nossos órgãos será em última análise substituído. Por exemplo, nanobots podem colocar na nossa corrente sanguínea um conjunto óptimo de todos os nutrientes, hormonas, e outras substâncias de que temos necessidade, assim como remover toxinas e dejectos. O tracto intestinal poderá ficar reservado para os prazeres da culinária em vez da monótona função biológica de fornecer nutrientes. No fim de contas, de certo modo já separámos a comunicação e os prazeres do sexo da sua função biológica.


Entrevistador: E a terceira revolução?

Ray Kurzweil: A revolução robótica, que na realidade se refere à "poderosa" Inteligência Artificial, ou seja, a inteligência artificial ao nível humano, de que falámos anteriormente. Teremos tanto o hardware como o software para recrear a inteligência humana lá pelo fim dos anos vinte (2020s). Seremos capazes de aperfeiçoar estes métodos e aproveitar a velocidade, a capacidade de memória e a aptidão de partilha de conhecimento destas máquinas.

Por fim, seremos capazes de examinar todos os detalhes importantes dos nossos cérebros, usando milhares de milhões de nanobots nos capilares. Poderemos então guardar essa informação. Utilizando a nanotecnologia, podemos recrear o nosso cérebro, melhor ainda, criar fisicamente uma representação dele num substrato computacional mais capaz.



Entrevistador: Isso significa o quê?

Ray Kurzweil: Os nossos cérebros biológicos utilizam sinais químicos que transmitem informação a poucas centenas de metros por segundo. A electrónica é já milhões de vezes mais rápida do que isto. No meu livro, demonstrei como em 25 cm cúbicos de um circuito de nanotubos seria cem milhões de vezes mais poderoso que um cérebro humano. Portanto temos meios mais poderosos para criar fisicamente representações da nossa inteligência do que as velocidades extremamente lentas das nossas conexões interneunorais.


Entrevistador: Portanto, vamos substituir os nossos cérebros biológicos por circuitos electrónicos.

Ray Kurzweil: Eu vislumbro este começo com nanobots nos nossos corpos e nos nossos cérebros. Os nanobots mantêm-nos saudáveis, proporcionam imersão total na realidade virtual desde o interior do nosso sistema nervoso, oferecem comunicação directa cérebro a cérebro pela Internet, e expandem enormemente a inteligência humana. Mas não se esqueçam que a inteligência não biológica está a duplicar a sua capacidade todos os anos, enquanto a nossa inteligência biológica tem a sua capacidade praticamente fixa. À medida que nos aproximamos dos anos trinta (2030s), a parte não biológica da nossa inteligência predominará.


Entrevistador: A tecnologia mais próxima de maior longevidade, contudo, é biotecnológica, não é verdade?

Ray Kurzweil: Haverá uma sobreposição das revoluções G, N e R (Genética, Nanotecnologia e Robótica), mas basicamente é isso.


Entrevistador: Então diga-me mais sobre a forma como a genética e a biotecnologia vão evoluir.

Ray Kurzweil: À medida que vamos aprendendo sobre os processos de informação que estão por trás da biologia, estamos a desenvolver formas de os controlar para controlar as doenças, o envelhecimento e aumentar o potencial humano. Uma abordagem poderosa é começar pela infra-estrutura da informação biológica: o genoma. Com a tecnologia dos genes, estamos à beira de ser capazes de controlar a forma como os genes funcionam. Possuímos agora uma nova e poderosa ferramenta chamada interferência RNA (RNAi), que é capaz de desligar certos genes. Bloqueia o mensageiro RNA de genes específicos, evitando que criem certas proteínas. Como as doenças virais, o cancro, e muitas outras doenças usam produtos do gene (proteínas ou RNA) em alturas críticas do seu ciclo de vida, isto promete ser uma tecnologia revolucionária. Um gene que gostaríamos de desligar é o gene receptor de insulina de gordura, que dá ordens às células gordas para guardarem todas as calorias. Quando esse gene é bloqueado nos ratos, esses ratos comem muito mas mantêm-se magros e saudáveis, e, em regra, vivem 20% mais tempo. Novos métodos de acrescentar novos genes, chamada terapia genética, estão também a surgir que ultrapassaram problemas anteriores de colocação precisa de nova informação genética. Uma companhia com a qual estou envolvido, a United Therapeutics, tratou com sucesso a hipertensão pulmonar em animais usando uma nova forma de terapia dos genes e foi agora aprovada para testes em humanos.


Entrevistador: Portanto, vamos basicamente reprogramar o nosso DNA.

Ray Kurzweil: É uma boa forma de o dizer, mas é apenas uma abordagem alargada. Outra importante linha de acção é desenvolver novamente as nossas próprias células, tecidos, e até órgãos inteiros, e introduzi-los nos nossos corpos sem cirurgia. Um dos maiores benefícios desta técnica de "clonagem terapêutica" é que seremos capazes de criar estes novos tecidos e órgãos de versões das nossas células que também já foram tornadas mais jovens – o campo emergente da medicina do rejuvenescimento. Por exemplo, poderemos ser capazes de criar novas células do coração a partir de células da sua pele e introduzi-las no seu sistema através da corrente sanguínea. Com o passar do tempo, as suas células do coração são substituídas pelas novas células, e o resultado é um "jovem" coração rejuvenescido com o seu próprio DNA.

A descoberta de drogas já foi uma questão de encontrar substâncias que produziam alguns efeitos benéficos sem efeitos colaterais excessivos. Este processo era semelhante à descoberta das ferramentas pelos primeiros seres humanos, que estava limitado a encontrar rochas e utensílios que pudessem ser úteis para vários fins. Hoje, estamos a aprender as séries exactas de reacções químicas que estão na base tanto das doenças como dos processos de envelhecimento, e seremos capazes de fabricar drogas para levar a cabo missões precisas a nível molecular. O raio de acção e a escala deste trabalho é vasto. Mas aperfeiçoar a nossa biologia só nos trará até aqui. A realidade é que a biologia nunca será capaz de estar ao nível do que seremos capazes de projectar, agora que estamos a ganhar uma compreensão profunda dos princípios da operação da biologia.


Entrevistador: Não é a natureza mais eficiente?

Ray Kurzweil: De forma nenhuma. As nossa conexões interneuronais calcula cerca de 200 transacções por segundo, cerca de um milhão de vezes mais devagar que a electrónica. Tomando outro exemplo, o teórico da nanotecnologia, Rob Freitas, tem um projecto conceptual para nanobots que substituem as células vermelhas do nosso sangue. Uma análise conservadora mostra que se substituirmos 10 por cento das células vermelhas do nosso sangue com os "respirocytes" de Freitas, podemo-nos sentar no fundo da piscina durante quatro horas sem respirar.


Entrevistador: Se as pessoas deixarem de morrer, isso não conduzirá a uma sobrepopulação?

Ray Kurzweil: Um erro comum que as pessoas cometem quando pensam no futuro é antever uma enorme mudança do mundo de hoje, tal como um prolongamento radical do tempo de vida, como se tudo o resto não fosse mudar. As revoluções da "GNR" - Genética, Nanotecnologia e Robótica – resultarão noutras transformações que abordam essa questão. Por exemplo, a nanotecnologia permitir-nos-á criar virtualmente e qualquer produto físico a partir da informação e de matérias-primas muito baratas, conduzindo a uma radical criação de riqueza. Teremos os meios para encontrar os materiais necessários para qualquer número concebível de seres humanos. A nanotecnologia também fornecerá os meios tratar de destruições ambientais causadas por estágios anteriores de industrialização.

*************************
Vídeo gravado de Raymond Kurzweil em 2005

(É possível escolher as legendas em português brasileiro em "View Subtitles")

Lembrando-se dos 500 anos da conquista de Goa

via Folhas de História by História - Mestra da Vida on 4/28/10
Entrevista com Deccan Herald (Bangalore, India) http://www.deccanherald.com/content/66330/xavier-aware-brutality-inquisition.html

terça-feira, 27 de abril de 2010

António Quadros, O Escritor e a sociedade

António Quadros, O Escritor e a sociedade

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 4/24/10
"Fora da solidão da criação o escritor não existe como escritor, é um homem social. (...) mas é quando ele está só que estabelece a maior comunicação com o maior número de pessoas. Porque a solidão criativa é de certo modo um diálogo com os outros, enquanto, por outro lado, pode parecer paradoxal (...) a vida pública do escritor é quando há menos diálogo com os outros (…) é um acidente, é qualquer coisa artificial e um pouco superficial. Não é aí que ele se realiza. É quando está só que o escritor comunica com os outros e digamos mais do que isso, comunica com o Universo." António Quadros (O Escritor e a sociedade, RTP, 1983)

António Quadros sobre Fernando Pessoa

António Quadros sobre Fernando Pessoa

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 4/22/10
"[...] Os citados críticos franceses, [Patrice Delbourg, Jean-Pierre Thibaudat, etc.] deslumbrados pelos sinais mais exteriores e espectaculares da personalidade literária de Fernando Pessoa, insistiram sobretudo nos aspecto inovadores e modernistas da sua obra, na questão intrigante dos heterónimos ou na inteligência prodigiosa de todos os seus escritos. Se ficássemos por aqui, no entanto, pouco avançaríamos no conhecimento da poética pessoana. É que se Pessoa foi um inovador, foi também um expressor de princípios e arquétipos que transcendem as categorias do tempo; se foi um moderno e um modernista, foi também um incansável pesquisador e assuntor do tradicional, do secreto, do mítico, do enigmático, do que se perdeu ou esqueceu e contudo está vivo, porque é talvez perene na cultura portuguesa e universal mais profunda; se, com a invenção dos heterónimos, exprimiu como ninguém a cisão psicológica e espiritual da alma humana, através do drama da sua própria alma, conflitualmente dividida em estratos sobrepostos, ao mesmo tempo nunca deixou de perseguir o nódulo interior ou o princípio de unidade, orientador da reconvergência possível, como telos ou fim último da gesta humana neste mundo de geração e de corrupção; e se a sua fulgurante inteligência analítica dá por vezes impressão de sofística ou dialéctica (tal a facilidade com que manipula os conceitos mais difíceis) há sempre nela, ao mesmo tempo, uma sinceridade, uma autenticidade, um pathos de sofrimento, de angústia e também de incansável determinação próxima da santidade intelectual, que dá grandeza heróica à sua obra, vista no seu conjunto como uma peregrinação sofrida e mantida para o absoluto ou mesmo para o divino, no paradigma fáustico, mas ultrapassando-o em momentos excepcionais de conhecimento merecido e alcançado. [...]"
António Quadros
Obra Poética de Fernando Pessoa, Poesia - I, (1902-1929),
int. e org. de António Quadros, Publicações Europa-América

A Guidinha também escreveu sobre o 25 de Abril

via A Matéria do Tempo by Fernando Ribeiro on 4/25/10

O CHEFE DO MEU PAI ERA UM DEMOCRATA E NINGUÉM SABIA...

Ora cá estou eu outra vez a contar as coisas que se passam lá em minha casa e no bairro da Graça em que vivo sim porque eu vivo no bairro da Graça e tenho muita honra nisso porque não há nada para uma mulher como ser Graciosa pois como toda a gente sabe houve um 25 de Abril e cá em casa esse 25 de Abril foi bestial para começar o meu pai só soube que era 25 de Abril mais tarde lá por volta das onze que é quando ele lá no trabalho acaba de ler o jornal e liga o rádio de maneira que já uma data de pessoas sabia que era vinte e cinco de Abril e ainda lá no trabalho estava a ler no Diário de Notícias que o presidente Américo Tomaz tinha ido visitar um salão de antiguidades cá por mim o que me espanta é que o tivessem levado para um regimento porque o podiam ter deixado no tal salão de antiguidades para ele não estranhar o ambiente mas adiante que o que interessa é o que aconteceu ao meu pai pois como eu ia dizendo tinha ele acabado de ler essa interessante notícia das antiguidades se andarem a visitar umas às outras e uma outra do deputado Ferreira da Silva do Porto coitadinho ter pedido acções de repressão contra a situação anárquica que visava gerar o descontentamento e mais não sei o quê e vai ouviu na rádio que era vinte e cinco de Abril e ficou a suar a suar a suar diz ele que ficou a suar tanto que se lhe colou o dito à cadeira sem saber o que havia de fazer mas lá conseguiu descolá-lo e foi até ao gabinete do chefe que estava naquele momento a redigir uma ordem a dizer que lixava quem faltasse no dia 1 de Maio e disse-lhe que a rádio estava a dizer que havia um movimento das Forças Armadas para derrubar o regime o homem ficou branco e disse que era mentira e que se o meu pai continuasse a espalhar boatos que lhe fazia um processo disciplinar e mais não sei o quê e que era proibido ouvir rádio durante as horas de trabalho e vai o meu pai voltou para a secretária mas ainda ouviu o chefe ligar um transistor que ele esconde numa gaveta quando alguém lhe entra no gabinete e daí a dois minutos o chefe chegou-se ao pé dele e pediu-lhe para ir à rua ver se ouvia qualquer coisa e o meu pai foi e ouviu olá se ouviu e viu olá se viu diz ele que viu uma data de carros de assalto ao Largo do Carmo e que voltou a correr e disse ao chefe o que tinha visto o chefe ainda ficou mais branco e mandou-o para o escritório porque queria fazer umas chamadas confidenciais e vai daí a bocado entrou todo pimpão no escritório e disse que tinha tido conhecimento de ter havido um movimento de revolucionários ingénuos mas que já estavam todos na cadeia e que se o meu pai voltasse a sair outra vez durante as horas de expediente para ir ouvir boatos no Largo do Carmo que tinha de informar a DGS e o meu pai ficou com o dito outra vez colado à cadeira mas foi colagem de pouca dura porque daí a bocado o chefe entrou outra vez branco como a cal da parede e disse ao meu pai para ir outra vez à rua ouvir o que se passava e o meu pai foi olá se foi e viu tanta coisa que esteve para não voltar ao escritório mas como é pai de família etc. etc. voltou e disse o que tinha visto e vai o chefe entrou no escritório e disse que sempre tinha respeitado as ideias políticas de cada um e que deixava sair quem quisesse mas quando toda a gente se ia raspar alguns até já iam na escada entrou um senhor qualquer falou com o chefe um minuto e ele outra vez branco como a cal da parede chegou ao patamar da escada e desatou a berrar que ninguém saía que dava à D. G. S. os nomes de quem saísse que não queria simpatizantes com revolucionários que ia instaurar processos disciplinares a toda a gente e que o meu pai por ter saído duas vezes do escritório ia parar a Caxias tão certo dois e dois serem quatro e estava quase a fuzilar o meu pai e os colegas quando entrou uma data de gente a berrar e a dizer que os que estavam no Carmo se tinham rendido e que o general Spínola tinha ganho e o chefe começou a dar vivas ao general Spínola à democracia ao povo à Pátria só não deu à leitaria da esquina porque não se lembrou sim porque até ao 25 de Abril o miúdo da leitaria estava proibido de entrar lá por o dono da leitaria ter dito uma vez que as guerras de África eram uma infâmia de maneira que se o chefe naquele momento se tivesse lembrado também tinha dado um vivazito ao dono da leitaria vai depois todos se foram embora e quando voltaram no dia seguinte o chefe deu um grande abraço ao meu pai e explicou a todos que se na véspera tinha dito que não admitia na repartição simpatizantes com revolucionários era só porque se a revolução falhasse queria ser ele sozinho a assumir as responsabilidades porque ele era um democrata desde sempre enfim o que eu queria saber era como ele conseguiu manter o segredo tanto tempo e ainda há quem diga que os portugueses não sabem guardar segredos.

Guidinha (Luís de Sttau Monteiro), in A MOSCA, 11 de Maio de 1974