domingo, 16 de maio de 2010

Santo António de Caculo Caenda - Arlindo de Sousa

Santo António de Caculo Caenda - Arlindo de Sousa

via QUITEXE by Quimbanze on 5/15/10

Nos passados dias 2 e 3 do mês corrente, estive em Lamego para ver uma exposição de carros de tracção animal e calcorrear mais uma vez a parte mais antiga da cidade. Nestas andanças incluí por mero acaso o Bairro de Fafel, onde encontrei um pequeno monumento comemorativo com os seguintes dizeres:

"LARGO

de St. ANTONIO de

CACULO CAENDA

Dembos – 1909

Amigos de Fafel – 09/2008"

Como devem calcular, fiquei espantado. Quando cheguei a casa fui à Internet e sobre o assunto encontrei apenas a seguinte informação:

"Amigos de Fafel

Arquivo: Edição de 05-09-2008

6 SETEMBRO-Sábado

IV Encontro Convívio dos Amigos de Fafel, Ponte de Pau e Oliveiras;

11,00 Horas - Homenagem Pública ao Major David Magno com descerramento de uma placa toponímica;

13,00 Horas - Colocação da Placa LARGO STº ANTÓNIO DE CACÚLO CAENDA Dembos – 1909-Amigos de Fafel – 09/2008".

O meu passo seguinte consistiu em procurar o que pudesse sobre o Major David Magno. Todavia encontrei muito pouco. Apenas o seguinte:

"MAGNO, David José Gonçalves (1877-1957)

Oficial do Exército

Nasceu em Lamego a 17 de Agosto de 1877 e morreu em Lisboa a 30 de Setembro de 1957. Seguiu a carreira militar, sendo promovido a alferes em 22 de Dezembro de 1906. Começou por se distinguir em Angola, ao conseguir avançar para o interior e impor a presença portuguesa na região dos Dembos Orientais. Combateu depois em França, durante a Primeira Guerra Mundial, onde por feitos em combate recebeu a cruz de guerra e a cruz de Cristo com palma. A sua acção no CEP não foi, contudo, consensual e isenta de polémica, pelo que pediu para ser julgado pelas acusações de que foi vítima, tendo sido absolvido e visto confirmados os seus serviços como relevantes.
Mais tarde, na sequência da revolta de 3 de Fevereiro de 1927 foi deportado para o Sul de Angola, tendo antes passado pelos Açores e Guiné. Reabilitado foi promovido a major e em 14 de Março de 1932 optou por passar à situação de reserva.
Paralelamente à sua carreira militar exerceu intensa actividade literária, sendo autor de diversas obras, algumas das quais escritas com base na sua experiência de guerra, para além de ter sido membro da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, da Revista Militar e da Comissão de História Militar".

E também o que se segue:

Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia

—Vol. I — Fases, II e III—Pôrto, 1920 e 1921. — Estes dois fascículos

dos Trabalhos da Sociedade de Antropologia conteem, entre outros

artigos cuja índole não interessa em especial à nossa revista, um estudo

do sr. major Leite de Maglahães sôbre etnologia timorense, outro do

sr. capitão David Magno sôbre os Dembos e ainda um do sr. Prof. J.

Pires de Lima sôbre o dente santo de Aboim da Nobrega e a lenda de

S. Frutuoso Abade.(...)

O trabalho do sr. David Magno sbôre a população angolense dos

Dembos é uma detalhada e interessante resenha dos caracteres etnográficos

daquela população, cujas origens o autor averiguou sobre curiosos

documentos dos povos de Caculo-Cahenda.

M. C.

[16983]
A sublevação dos Dembos de 1913 / David J. G. Magno. - Lisboa : Sociedade de Geografia de Lisboa, 1917 (Lisboa : Typographia Universal, 1917. - 71 p.

Título: Revoltas e Campanhas nos Dembos (1872-1919). 47 Anos de Independência às Portas de Luanda.

Autor: Marracho, António José Machado

Resumo: Em 1872 perante a escassez de meios no terreno, falta de força, falta da autoridade portuguesa, o dembo Caculo Cahenda, revoltou-se. A resposta militar portuguesa foi materializada através do envio de uma coluna comandada pelo Tenente-Coronel Gomes de Almeida. O aparente sucesso militar traz consigo uma paz negociada com a manutenção do Status Quo. Como consequência do fim do conflito, foi assinada uma portaria pelo Ministro dos Negócios da Marinha e Ultramar, na qual foi decretada, a abolição de dízimos dos concelhos, passagens dos rios e dízimos do pescado. No período de 1890 a 1907, os dembos, entraram em conflito com os portugueses três vezes: em Dezembro de 1890, de Janeiro a Março de 1891 e em Fevereiro de 1899. De 1907 a 1919, foram organizadas sete expedições militares: Setembro a Novembro de 1907, de Julho de 1908, de Fevereiro a Março de 1909, de Julho a Setembro de 1913, de Novembro a Dezembro de 1918, de Janeiro a Abril e de Maio a Dezembro de 1919, sem contar com incidentes menores. Os dembos, nunca tiveram o apoio dos seus irmãos do Golungo Alto ou de Ambaca. Abandonados, divididos, caíram em dominó. A impossibilidade de arranjar pólvora, a doença do sono, a abertura de estradas e a cultura do café iriam anular os últimos lutadores pela independência pelo menos até 1961. Na conferência de Berlim de 1884-85, foi decidida a partilha do continente Africano. Alterouse o paradigma de relacionamento entre Europeus e Africanos. Nasceu um direito novo, que validava a efectiva ocupação dos territórios Africanos. Quando Paiva Couceiro assume o Governo da província, decide terminar com a independência dos Dembos. Ordena a constituição da coluna de 1907. A coluna de 1907 fez 39 etapas superiores a 21 quilómetros, sendo a maior de 38, percorrendo enquadrada por graduados cerca de 840 quilómetros. Se adicionarmos as marchas extraordinárias, ela percorreu mais de 1500 quilómetros. Entre 1913 a 1917, a região dos Dembos mantém-se estável. Os poderes locais Africanos decidem o seu destino e toleram a autoridade portuguesa nos seus fortes. Na década de 1920, foi desenhado o mapa de Angola, fruto de uma intensa actividade militar. As campanhas na região dos Dembos enquadram-se neste cenário político-militar com vertentes étnicas e tribais.

Do destaque separativo ou da cisão primordial

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/14/10
o que a verdade do Ser em qualquer forma de existência institui, ou constitui, inalterado permanece na própria alteração
José Marinho

António Quadros no Marão em casa de Teixeira de Pascoaes

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/11/10
"Lá fora, vinhedos, abelhas zumbindo, a serra escalvada, o Marão. Um corpo vivo, o corpo da natureza, Marános, toda aquela terra áspera, rugosa e dura latejando em Deus e para Deus, procura lentíssima de um destino. Percebemos então, nesse momento, percebemos quase sensorialmente como o poeta pudera experimentar uma saudade do divino na energia que fazia pulsar as entranhas da terra, que rasgava as fontes, que fazia correr os riachos pelas faldas da serrania, que explodia as sementes e as conduzia à apoteose da árvore, da flor, do fruto. A mesma saudade que nos prendia à terra e às suas raízes, a mesma saudade que nos atraía para um oculto esplendor. [...] Ali sentado, absortos, esquecidos do nosso eu, foi então que erguemos os olhos e o vimos, aquele quadro assinado por um pintor que julgáramos apenas escritor: Raul Brandão. Era o retrato da natureza viva e mágica que o último romântico, Teixeira de Pascoaes, nos quisera ensinar a sua poesia. Natureza mágica, natureza com alma, natureza com espírito, natureza divina. Mas natureza, também, sofredora, carecente, portadora de um pathos... Na sala havia outros quadros do autor do Húmus. Retratos um pouco rudes, porventura imperfeitos sob o estrito ponto de vista plástico, mas muito próximos da intuição pascoalina de uma natureza saudosa, uma natureza teleonómica, em movimento para a sua própria essência através das formas e das cores que compõem a sua existência."

Um duelo entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão

Um duelo entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão

via A Matéria do Tempo by Fernando Ribeiro on 5/11/10
Praça 9 de Abril, vulgo Jardim da Arca d'Água, na cidade do Porto. Quando o duelo ocorreu neste local, em 4 de fevereiro de 1866, o jardim ainda não existia (Foto: Nuno Carvalho)

«(...) Em 1865, depois de uma viagem a São Miguel, Antero [de Quental] regressa a Coimbra. Em Setembro desse ano, [António Feliciano de] Castilho escreve ao editor António Maria Pereira uma carta, que será publicada como posfácio do Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas. Nela, o velho poeta discute poemas de Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro, ironizando particularmente sobre as Odes Modernas e sobre dois poemas de Epopeia da Humanidade, de Teófilo Braga. Antero resolve descer à liça e contestar ao seu velho mestre o direito de se arvorar em árbitro das letras nacionais - faz publicar uma carta-aberta a Castilho, Bom-senso e Bom-gosto, onde, exaltadamente, se insurge contra o desdém de Castilho relativamente à nova geração de poetas. E desencadeia-se a que é talvez a mais famosa polémica literária portuguesa, conhecida por Questão Coimbrã ou Questão do Bom Senso e Bom Gosto (...)

No início de 1866, Ramalho Ortigão sai em defesa de Castilho com o folheto A Literatura de Hoje. Acusa Antero de cobardia, pois este invocara como argumentos a velhice e a cegueira do poeta: [Escreve Antero] O caso era cómico e não trágico. Ramalho Ortigão escreveu insolências bastante indignas a meu respeito num folheto a propósito da sempiterna questão Castilho. Eu vim ao Porto para lhe dar porrada. Encontrei, porém, o Camilo [Castelo Branco] o qual me disse que adivinhava o motivo da viagem e que antes das vias de facto, ele iria falar com o homem para ele dar satisfação. Aceitei. A explicação, porém, do dito homem pareceu-me insuficiente e dispunha-me a correr as eventualidades da bofetada quando me veio dizer o Camilo que o homem se louvava em C.J.Vieira e Antero Albano com plenos poderes de decidir a coisa e que fizesse eu o mesmo em dois amigos meus; na certeza de que uns e outros seriam considerados padrinhos de um duelo (!) no caso de se não entenderem a bem... Que can-can!

No duelo, em 4 de Fevereiro, logo no primeiro assalto, Antero fere Ramalho num braço. A luta termina, as honras estão lavadas. Os dois escritores reconciliam-se. Diz Camilo: Em 1866 na belicosa cidade do Porto, defrontaram-se de espada nua dois escritores portugueses de muitas excelências literárias e grande pundonor. Correu algum sangue. Deu-se por entretida a curiosidade pública e satisfeita a honra convencional dos combatentes. Alguns dias volvidos ia eu de passeio na estrada de Braga e levava comigo a honrosa companhia de um cavalheiro que lustra entre os mais grados das províncias do Norte. No sítio da Mãe-de-Água apontei a direcção de um plano encoberto pelos pinhais e disse ao meu companheiro: Foi ali que há dias a «Crítica Portuguesa» esgrimiu com o «Ideal Alemão»! (...)»

Carlos Loures, in Antero de Quental, Vidas Lusófonas

sábado, 15 de maio de 2010

Homilia de Sua Santidade Bento XVI em Lisboa

via Nacional-Cristianismo by NC on 5/12/10

HOMILIA DO SANTO PADRE NA MISSA DO TERREIRO DO PAÇO
LISBOA, 11 DE MAIO DE 2010


Queridos Irmãos e Irmãs, Jovens amigos!

«Ide fazer discípulos de todas as nações, […] ensinai-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei. E Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Estas palavras de Cristo ressuscitado revestem-se de um significado particular nesta cidade de Lisboa, donde partiram em grande número gerações e gerações de cristãos – bispos, sacerdotes, consagrados e leigos, homens e mulheres, jovens e menos jovens –, obedecendo ao apelo do Senhor e armados simplesmente com esta certeza que lhes deixou: «Eu estou sempre convosco». Glorioso é o lugar conquistado por Portugal entre as nações pelo serviço prestado à dilatação da fé: nas cinco partes do mundo, há Igrejas locais que tiveram origem na missionação portuguesa.
Nos tempos passados, a vossa saída em demanda de outros povos não impediu nem destruiu os vínculos com o que éreis e acreditáveis, mas, com sabedoria cristã, pudestes transplantar experiências e particularidades abrindo-vos ao contributo dos outros para serdes vós próprios, em aparente debilidade que é força. Hoje, participando na edificação da Comunidade Europeia, levai o contributo da vossa identidade cultural e religiosa. De facto, Jesus Cristo, assim como Se uniu aos discípulos a caminho de Emaús, assim também caminha connosco segundo a sua promessa: «Estou sempre convosco, até ao fim dos tempos». Apesar de ser diferente da dos Apóstolos, temos também nós uma verdadeira e pessoal experiência da presença do Senhor ressuscitado. A distância dos séculos é superada e o Ressuscitado oferece-Se vivo e operante, por nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio vivo da Tradição eclesial, Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre nós e dá-nos a Verdade, dá-nos a luz que nos faz viver e encontrar a estrada para o futuro.

Presente na sua Palavra, na assembleia do Povo de Deus com os seus Pastores e, de modo eminente, no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, Jesus está connosco aqui. Saúdo o Senhor Cardeal-Patriarca de Lisboa, a quem agradeço as calorosas palavras que me dirigiu, no início da celebração, em nome da sua comunidade que me acolhe e que abraço nos seus quase dois milhões de filhos e filhas; a todos vós aqui presentes – amados Irmãos no episcopado e no sacerdócio, prezadas mulheres e homens consagrados e leigos comprometidos, queridas famílias e jovens, baptizados e catecúmenos – dirijo a minha saudação fraterna e amiga, que estendo a quantos estão unidos connosco através da rádio e da televisão.
Sentidamente agradeço a presença do Senhor Presidente da República e demais Autoridades, com menção particular do Presidente da Câmara de Lisboa que teve a amabilidade de honrar-me com a entrega das chaves da cidade.
Lisboa amiga, porto e abrigo de tantas esperanças que te confiava quem partia e pretendia quem te visitava, gostava hoje de usar as chaves que me entregas para alicerçar as tuas esperanças humanas na Esperança divina. Na leitura há pouco proclamada da Epístola de São Pedro, ouvimos dizer: «Eu vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa. E quem nela acreditar não será confundido». E o Apóstolo explica: «Aproximai-vos do Senhor. Ele é a pedra viva, rejeitada, é certo, pelos homens, mas aos olhos de Deus escolhida e preciosa» (1 Pd 2, 6.4).
Irmãos e irmãs, quem acreditar em Jesus não será confundido: é Palavra de Deus, que não Se engana
nem pode enganar. Palavra confirmada por uma «multidão que ninguém pode contar e provém de todas as nações, tribos, povos e línguas», e que o autor do Apocalipse viu vestida de «túnicas brancas e com palmas na mão» (Ap 7, 9). Nesta multidão incontável, não estão apenas os Santos Veríssimo, Máxima e Júlia, aqui martirizados na perseguição de Diocleciano, ou São Vicente, diácono e mártir, padroeiro principal do Patriarcado; Santo António e São João de Brito que daqui partiram para semear a boa semente de Deus noutras terras e gentes, ou São Nuno de Santa Maria que, há pouco mais de um ano, inscrevi no livro dos Santos. Mas é formada pelos «servos do nosso Deus» de todos os tempos e lugares, em cuja fronte foi traçado o sinal da cruz com «o sinete de marcar do Deus vivo» (Ap 7, 2): o Espírito Santo. Trata-se do rito inicial cumprido sobre cada um de nós no sacramento do Baptismo, pelo qual a Igreja dá à luz os «santos».
Sabemos que não lhe faltam filhos insubmissos e até rebeldes, mas é nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda. Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. Fixando os seus Santos, esta Igreja local concluiu justamente que a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política. Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?
Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. Assim há um vasto esforço capilar a fazer para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da esperança que o anima (cf. 1 Pd 3, 15): só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além.
Queridos Irmãos e jovens amigos, Cristo está sempre connosco e caminha sempre com a sua Igreja, acompanha-a e guarda-a, como Ele nos disse: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Nunca duvideis da sua presença! Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele, comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê-Lo nos pobres. Vivei a vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da sua presença e da sua amizade gratuita, generosa, fiel até à morte de cruz. Testemunhai a alegria desta sua presença forte e suave a todos, a começar pelos da vossa idade. Dizei-lhes que é belo ser amigo de Jesus e que vale a pena segui-Lo. Com o vosso entusiasmo, mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura.
Buscai diariamente a protecção de Maria, a Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela, a Toda Santa, ajudar-vos-á a ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo.

Fonte

quinta-feira, 13 de maio de 2010

DINOSSAURO versus DINOSSÁURIO


via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 5/9/10
"Aramosaurus", na Pedreira do Galinha, Fátima
(escultura do Arqº. Martins Barata)
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SEM SER MEU PROPÓSITO, os dinossáurios entraram na minha vida, tarde, mas em força, potenciados por uma série de acasos ocorridos ao longo dos anos em que assumi a direcção do Museu Nacional de História Natural. As descobertas de importantes jazidas com pegadas de dinossáurios no território nacional e as lutas cívicas em que me envolvi pela sua salvaguarda e valorização foram as causas desta minha relação com os grandes bichos.

A partir dessa altura confrontei-me com duas expressões ou duas grafias para o mesmo tipo de animais, durante muito tempo tidos como seres do passado e hoje renascidos, na medida em que os zoológos e os palentólogos consideram as aves como a sua continuação no tempo presente. Os dinossáurios não desapareceram todos. A sua memória está hoje no nosso quotidiano, nos museus e no cinema, onde atraem multidões; estão na televisão, nos livros de divulgação e na banda desenhada; estão nos peluches e em muitos dos brinquedos; estão na nossa imaginação e, ainda, bem reais, voando no céu, cantando no galho de um jacarandá, correndo pelos campos ou vegetando aos milhões, prisioneiros dos desumanizados aviários da sociedade de consumo.

A utilização do seu nome é hoje, como nunca, uma presença no nosso dia a dia, umas vezes sob a forma dinossáurio, outras sob a forma dinossauro.

Têm razão os filólogos, como José Pedro Machado, no «Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa» ou Cândido de Figueiredo, no «Dicionário da Língua Portuguesa», quando usam a grafia dinossauro, retirando-a do grego deinos (terrível, medonho) e sauros (lagarto, réptil), pois que de filologia quem sabe são os estudiosos da dita. Têm igualmente razão os naturalistas, quando, na taxonomia e na nomenclatura zoológica e paleontológica dizem, e escrevem dinossáurio. Com efeito, quando em 1841, Richard Owen, professor de anatomia comparada e primeiro director do Museu de História Natural de Londres, criou o termo cientifico Dinosauria, pretendeu aludir ao facto de as grandes ossadas, então recém-descobertas, terem características reptilianas, como se de enormes e aterradores lagartos se tratassem e, daí, os elementos gregos de composição erudita, supracitados. Dinossáurio é a grafia usada na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e no Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa do clássico António de Morais.

Insignes estudiosos na paleontologia destes animais nacionais e estrangeiros (escrevendo em português) usam desde sempre a grafia dinossáurio. Entre eles destacam-se Jacinto Pedro Gomes, em finais do século XIX, Georges Zbyszewski e Carlos Teixeira, a meados do século XX e, pelos seus continuadores. Dinossáurio é ainda a versão utilizada pelos nossos vizinhos espanhóis, tanto pelos cultores da ciência como pelos defensores da língua.

Se existem, como parecem existir, razões linguísticas para preferir o termo dinossauro, não é menos verdade que há regras da nomenclatura científica a respeitar e, então, prevalece o termo dinossáurio.

Entre muitos que dizem e escrevem dinossauro, são certamente muito poucos os que o fazem por razões de erudição filológica. A razão do uso desta versão está, sobretudo relacionada com a forma mais imediata da tradução do inglês ou do francês, em qualquer destas línguas dinosaur.

Além disso, quer escrevendo, quer falando, dinossáurio representa um esforço maior. A grafia que os naturalistas preferem tem mais um i e mais um acento agudo no a. A articulação da palavra exige um esforço maior ao colocarmos um i antes do o final. Não devemos esquecer que os dicionários não têm força de lei, até porque os delitos não constam do código penal, e quem faz a língua é quem a usa.

Atento a estas duas realidades, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, editado em 2001, aceita as duas versões. Assim, que cada um diga e escreva como quiser, mas que fique sabendo que o termo defendido pelos filólogos não é mais legítimo do que aquele que usam os naturalistas.
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(In "FORA DE PORTAS - Memórias e Reflexões", Âncora Editora, Lisboa, 2008)

sábado, 8 de maio de 2010

Lá vai o português

Lá vai o português

via Caminhos da Memória by Maria Manuela Cruzeiro on 4/27/10
«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa. Lá vai o português… lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem [...]

quinta-feira, 6 de maio de 2010

António Guerra - 15 de Março de 1961

via ANTÓNIO GUERRA - INFÂNCIA NO QUITEXE by Quimbanze on 4/10/10
Chamo-me António Manuel Pereira Guerra, filho de Abílio Augusto Guerra e de Maria Helena Borges Pereira Guerra, nasci no Quitexe a 20 de Junho de 1950, em casa de Celestino Guerra, e estas são algumas das minhas memórias, na altura do ataque com 10 anos.
Neste pequeno relato, irei contar a minha vivência sobre o 15 de Março de 1961, sem juízo de valores ou ideologias políticas. Sobre isso já se escreveu demais e, com o passar do tempo, infelizmente foram-se perdendo muitas das pessoas que viveram na pele essa data, e poderiam testemunhar a sua vivência trágica.
Este pequeno contributo, não tem de forma nenhuma a pretensão de ser mais um relato dos acontecimentos de 15 de Março de 1961, mas deverá apenas ser entendido como uma pequena participação, para que este blog sobre a nossa terra não caia no esquecimento e possa assim crescer com o contributo de todos os que um dia passaram pelo Quitexe.
No final de 1960, tinha eu 10 anos, já qualquer coisa de anormal se fazia sentir, pois as festas familiares (Natal e passagem de ano) não foram como nos anos anteriores. As reuniões de família decorriam sempre com as armas em presença.
Por relato dos meus pais, o chefe de posto do Quitexe, na altura (Nascimento Rodrigues), procurou no dia 14 de Março de 1961 o meu pai e o sr. Jaime Rei, pedindo-lhes que o acompanhassem no dia seguinte para os lados do Zalala, pois tinham fazenda para aqueles lados e iriam efectuar contactos com os trabalhadores das diversas fazendas dessa região pedindo-lhes que, caso aparecessem elementos estranhos ou suspeitos, os prendessem e mandassem recado ao posto do Quitexe. A minha mãe bem pediu ao meu pai que não fosse, mas de nada lhe valeu (pressentimentos de mulheres).
No dia 15 de Março, o meu pai tinha saído cedo com o administrador, o Sr. Jaime Rei e dois cipaios do posto. No Quitexe estavam a passar férias a minha irmã (que estudava em Luanda no Colégio das Freiras), e em casa do meu tio Augusto, onde também viviam os meus avós (António Inocêncio Pereira e Joaquina Pereira), estavam as minhas primas Milu e Juju, filhas do meu tio Celestino e tia Maria (que na altura estavam em Luanda).
Eu levantei-me cedo, como era hábito, e fui a casa do tio Augusto encontrar-me com a Milu e Juju, para as desafiar para irmos brincar. Como elas ainda estavam a matabichar, esperei por lá um pouco.
A minha mãe encontrava-se em frente da nossa casa, a curta distância da casa do tio Augusto, a podar umas roseiras de um canteiro de flores. A minha irmã ainda dormia.
Contou depois a minha mãe, que quando soaram as badaladas das oito horas, no sino da administração, que era o sinal para os comerciantes abrirem as portas das lojas, se gerou um certo burburinho na rua de cima. Era, afinal, também o sinal para começar o ataque ao Quitexe. Uns dias antes tinham fugido uns presos da prisão do posto e na perseguição que se seguiu, houve bastante algazarra, pelo que a minha mãe não deu importância ao barulho que ouviu, pensando tratar-se outra vez de uma fuga da prisão. Foi nesse instante que um elemento que estava na esquina da nossa casa, empunhou uma catana dirigindo-se a ela de arma no ar com a intenção de a matar. Ela começou a fugir em direcção a casa do seu irmão Augusto, aos gritos de socorro.
Foi nesse instante que nós ouvimos os gritos da minha mãe e nos apercebemos da gravidade da situação. De imediato o tio Augusto agarrou a espingarda .22 long, ordenou-nos que nos escondêssemos e que só poderíamos sair quando ele nos fosse buscar. Desatou a correr em direcção à irmã que, entretanto, já tinha tombado junto ao cruzamento para a rua da Igreja (esta cena marcante, foi vista por nós, da porta de casa do tio Augusto). Os meus avós que também tinham saído em socorro da minha mãe, tombaram também. A minha avó tombou na varanda da casa dos meus pais e já a vi morta quando acabou o ataque. O meu avô foi ferido com uma catanada na nuca, foi connosco para o Uíge, e veio a falecer 5 dias depois no hospital de Luanda.
Algum tempo depois chegou o tio Augusto que nos veio buscar, já com outra arma uma caçadeira, que ele tinha ido buscar à arrecadação do posto, onde estavam algumas armas apreendidas, pois a .22 long tinha encravado ao primeiro disparo (salvou-se graças a uma pequena pistola 6,35 que andava sempre com ele no bolso das calças).
Em frente da minha casa, estavam o Sr. José Coelho Guerreiro e a esposa (D. Felismina), com a filha bebé a Maria Helena, a minha mãe com 11 catanadas (8 nas costas, 2 nos braços e uma no rosto, tendo o nariz ficado preso pelo lábio superior), a minha irmã e o meu avô que foi colocado num colchão na carroçaria da carrinha do Sr. José Guerreiro, e com o tio Augusto de pé na carroçaria a fazer protecção, seguimos para o Uíge. O filho mais velho do sr. José Guerreiro (José Cebola Guerreiro de sete anos), tinha ficado degolado à entrada da loja dos pais na rua de cima. Na cabine da carrinha de apenas 3 lugares, seguia o Sr. José a conduzir (ferido), a esposa (ferida) e filha, a minha mãe, a minha irmã, as minhas duas primas e eu.
Fotografia da minha Mãe Helena Guerra, sendo visível a cicratiz que lhe atravessava o rosto. A catanada fragilizou-lhe, também o osso do maxilar
A minha mãe segurava o nariz, que apenas estava preso pelo lábio superior, com um roupão turco que ficou ensopado em sangue, bem assim como todos nós, pois iam na cabine três pessoas feridas.
A viagem até ao Uíge decorreu sem incidentes e ao chegarmos ao Hospital, já lá estava o Dr. Almeida Santos (Dr. Talambanza como era conhecido) à espera, tendo sido a primeira pessoa a socorrer a minha mãe, aplicando-lhe logo uma injecção à entrada do Hospital.
Quando o meu pai chegou ao Quitexe, já se tinha dado o ataque e já nós tínhamos seguido para o Uíge. Como houve mobilização geral, nenhum homem mais foi autorizado a abandonar o Quitexe. Ficou 15 dias sem saber de nós, e nós sem sabermos dele.
Entretanto, no Uíge, o tio Augusto levou-nos para uma sala no hospital e deixou-me de guarda às espingardas encostadas a um canto da sala, enquanto ele procurava saber dos feridos. Ao hospital chegavam cada vez mais pessoas, quer feridos, quer pessoas que iam saber de amigos e de notícias.
Uma senhora que morava próximo do hospital, levou a minha irmã e as minhas primas para casa dela, onde puderam trocar de roupa que entretanto lhes arranjaram, pois nós saímos do Quitexe só com a roupa que trazíamos vestida. Próximo do meio dia, o tio Augusto levou-me a casa dessa senhora, onde troquei de roupa (as nossas estavam todas cheias de sangue) e almoçámos.
Logo a seguir ao almoço, o tio Augusto foi-nos buscar e levou-nos para o aeroporto do Uíge, onde aguardámos a chegada de um avião (Dakota) da DTA, vindo de Luanda para levar os feridos e ao qual foram retirados alguns bancos para receber as macas. Aguardámos a chegada do avião, sózinhos e sem qualquer protecção militar. Quando o avião aterrou, foram embarcados os feridos do Quitexe e lembro-me de ter visto a D. Felismina, Sr. José Guerreiro e filha, a minha mãe, o meu avô, a Geninha e a prima Beatriz, o Tio Augusto, a minha irmã, e as minhas primas. Mais pessoas embarcaram, pois o avião ia cheio, mas não me recordo de quem eram.
Ao chegarmos a Luanda, não fomos desembarcados para o terminal do aeroporto como seria normal, mas fomos metidos todos em ambulâncias que nos levaram para o hospital Maria Pia, onde ficaram internados os feridos. O tio Augusto, as minhas primas, a minha irmã e eu, podemos juntar-nos ao tio Celestino, que estava em Luanda e tinha seguido as ambulâncias desde o aeroporto e aguardava por nós.
O tio Celestino levou-nos para o hotel Europa, onde ele se encontrava hospedado e fomos mandados subir imediatamente para os quartos, não tendo sido permitido a ninguém falar fosse com quem fosse.
À porta do hotel encontravam-se bastantes pessoas, mas só o meu tio Celestino ficou para trás, e creio ter sido nessa altura que ele falou com o autor do livro Sangue no Capim (Horácio Caio), que faz uma alusão muito rápida sobre as pessoas com que o meu tio estaria preocupado (Tio Jaime e família, família Rocha, etc.). Ao tio Augusto que infelizmente viveu na primeira pessoa o ataque ao Quitexe e que para mim foi o nosso salvador, não foi permitido que falasse com ninguém (não entendemos porquê). Mais tarde, e à medida que se ia falando mais sobre estes acontecimentos, começámos a perceber uma certa manipulação por parte do poder que tentara encobrir os ataques.
Entretanto, uma senhora amiga, esposa de um caixeiro viajante, que aparecia pelo Quitexe e por vezes ficava em nossa casa, viu o nome da minha mãe, num jornal diário na lista dos feridos, foi visitá-la ao hospital e mandou um telegrama para o meu pai, dando-lhe conta que a família se encontrava viva em Luanda.
Na primeira oportunidade que o meu pai teve de pedir uma licença ao exército para ir a Luanda ver a família, fê-lo e nunca mais regressou ao Quitexe.
As nossas casas foram entretanto alugadas ao exército, tendo permanecido assim até ao 25 de Abril.
António Manuel Guerra
comentário:
De A. Jorge Santos a 26 de Março de 2009 às 20:10
Gostaria aqui de cumprimentar o amigo António Guerra, por nos trazer este testemunho por ele vivido, na 1ª pessoa, e que a mim particularmente, me emocionou. É-me dificil imaginar, o que se passará na cabeça de uma criança de 10 anos, perante os acontecimentos que aqui nos relata.
Um abraço tambem ao amigo João Garcia, por juntar neste blogue, todos estes valiosos testemunhos, de conterrâneos nossos.
A. Jorge Santos