sexta-feira, 25 de junho de 2010

O nosso muito caro Amândio César

O nosso muito caro Amândio César

via MANLIUS by José Carlos on 8/21/07

Vou-vos falar hoje um pouco do nosso Amândio César e refutar (por ser testemunha directa) uma das acusações que lhe é feita pela nossa esquerda catita. A saber: Amândio César é o responsável do assalto à Sociedade Portuguesa de Escritores. Assim, tal e qual.

Mas eu conto:


Em 21 de Maio de 1965 a Sociedade Portuguesa de Escritores, presidida por Jacinto Prado Coelho, atribui um prémio literário a Luandino Vieira, nome literário do português de origem e independentista angolano, José Vieira Mateus Graça, pelo seu livro Luuanda.

A atribuição do prémio (de cariz nitidamente política - que não literária) gerou uma forte comoção em Lisboa. Luandino era um militante comunista, filiado no MPLA. O júri de que faziam parte elevado número de escritores do aparelho "intelectual" do PCP (os pequenos e médios intelectuais, como na altura se dizia) decidiu, por maioria, atribuir o prémio - um dos mais prestigiados em Portugal e, até à data, sempre entregue a personalidades de esquerda ou de direita, mas com méritos artísticos firmados, ao escritor (e preso político) do MPLA. Estávamos em guerra e o MPLA continuava a chacinar portugueses de todas as etnias.

Amândio César - o primeiro a ensinar-me que não há escritores de direita ou de esquerda, há sim bons e maus escritores de todos os lados da barricada, reage publicando um artigo em que condena veementemente a atribuição do referido prémio. Também de imediato lança uma campanha entre os confrades escritores para a realização de uma Assembleia Geral que destituísse os corpos sociais da SPE. Os escritores Joaquim Paço d'Arcos e Luís Forjaz Trigueiros, em protesto, chegaram a pedir a demissão da sociedade. Jacinto Prado Coelho (Presidente da Sociedade) demarca-se da atribuição do prémio...

É então que um grupo de algumas centenas de jovens resolve assaltar e destruir a SPE. Eram jovens e não pides conforme anos mais tarde Urbano Tavares Rodrigues (do sector intelectual do PCP) diria. Toda a SPE foi destruída com excepção da Biblioteca e dos quadros dos escritores nela expostos. Dias depois Galvão Teles assina o despacho a extinguir a SPE.

Bem e agora voltando à história. No dia seguinte quando entro no Aviz vejo o nosso Amândio com cara de caso. De chofre perguntou-me: fizeste parte daquele grupo de vândalos que destruiu a Sociedade? Não lhe respondi, porque ele me não deu tempo. Começou com uma catilinária sobre os excessos dos jovens, que o que eles tinham feito era um disparate. O que os salvava era não terem destruído a biblioteca, etc... etc...

Durante uns bons tempos e sempre que o assunto se propiciava lá vinha ele falar dos energúmenos que tinham destruído a SPE que ele estivera a ponto de assumir (para o nosso lado) a sua direcção. Que os jovens tinham de pensar em vez de fazer disparates, que o PC e os católicos progressistas franceses só falavam do ataque o que muito prejudicava Portugal, etc.

Um dia disse-me mesmo. Se eu sei que participaste no assalto nunca mais te falo!

Pois foi a este Homem que a esquerda acusou de ser o instigador do assalto à SPE. É falso. Eu ouvi dele coisas horrendas. E como me custaram!

SARAMAGO FELIZ

SARAMAGO FELIZ

via MMC | Contingências by mmc on 6/23/10

Nenhum escritor representa um país. De resto, quanto maior ele for, menos o representa, porque a grandeza criativa vai sempre a par com a singularidade, a dissensão, a controvérsia, a solidão. Sempre, sem excepção. Um escritor representa-se a si próprio, à língua e à literatura que o fez ser. Pode projectar o seu país, como pode ser um ícone de causas ou uma bandeira de convicções. Mas só se representa a si e à sua obra – o único mundo que ele verdadeiramente representa, é o que foi capaz de criar.

A atribuição de prémios, nomeadamente internacionais, e sobretudo em países com grandes carências de reconhecimento, pode criar os maiores equívocos nesta matéria. José Saramago teve uma clara percepção disto. Lembro-me bem de, quando em 1998 lhe foi atribuído o prémio Nobel, ter falado com ele ao telefone quando já se encontrava em Lanzarote, regressado de Frankfurt, onde recebera a notícia. Preparava-se então para seguir para Lisboa, mas estava preocupado com as notícias que tinha sobre o tipo de recepção que lhe estavam a preparar, "como se fosse uma coisa de futebóis". E acrescentou, em palavras que recordo como se fosse hoje: "eu sou escritor, o que se fizer tem que ser uma homenagem à literatura". Informei-me, e soube que estava de facto a ser preparada uma "chegada triunfal" que poderia fazer o gáudio de algumas televisões e de alguns animadores de multidões, mas que ele teria, com toda a certeza, detestado.

Fez-se então o que José Saramago desejava: sem nenhum jornalista ou media a acompanhá-lo, ele veio para Lisboa onde, no CCB, lhe seria prestado um inesquecível tributo, simultaneamente oficial e popular, que abriu com uma interminável e emocionada "standing ovation" e prosseguiu com a evocação da obra e a jubilação do prémio, sempre com o pensamento no essencial – a literatura. Era à literatura que os portugueses deviam - numa imagem que José Saramago repetiria muitas vezes – poder sentir-se então com mais um ou dois centímetros…

Para mim, o momento Nobel fechou um período e abriu outro. Fechou o período da normalização das relações de José Saramago com o Estado português, muito abaladas com o episódio censório de 1992. Eu tinha assumido, quando em 1995 iniciei funções no ministério da Cultura, o imperativo de ultrapassar esse problema. A ocasião propiciou-se, por mero acaso rapidamente, com a atribuição por essa altura a José Saramago do Prémio Camões desse ano, a que o governo se associou com naturalidade. Depois, com o tempo, criou-se uma relação institucional de reconhecimento e de respeito mútuo, que José Saramago valorizava. Lembro, por exemplo, a sua presença e palavras no anúncio de uma intervenção de requalificação no "seu" Convento de Mafra, a empatia filosófica num lançamento muito especial, em Madrid, do «Ensaio sobre a Cegueira», o seu empenho na Feira de Frankfurt dedicada a Portugal, a cumplicidade lusófona na Bienal do Livro no Rio de Janeiro ou o apoio que fez questão de dar ao Comboio da Literatura Lisboa/Moscovo…

O período que se abriu, foi o de um conhecimento mais próximo de José Saramago. Das diversas ocasiões de conversa e de troca de ideias que fomos tendo, nasceu não só uma autêntica estima pessoal, mas também a descoberta de uma outra face, que a imagem pública de José Saramago ocultava: uma tranquila modéstia, um imprevisível humor, uma generosa capacidade de admiração por tantos escritores. Longe da imagem muito comum de um José Saramago amargo, conheci então um José Saramago feliz. Céptico quanto à evolução do mundo, inquieto com os impasses do país, cáustico na sua visão da natureza humana, é certo. Mas feliz, de uma felicidade que decorria fundamentalmente do seu sucesso literário mundial, dos leitores que tinha conseguido conquistar para o seu mundo, em todo o mundo.

Nos últimos anos fomos vizinhos, ele e a Pilar descobriram os encantos de um pequeno bairro de Lisboa, onde hoje a Blimunda também vive. Foi lá que conversámos sobre literatura, sobre o mundo, sobre os seus últimos projectos: a exposição «A consistência dos Sonhos», a «Viagem do Elefante», o «Caim». E também sobre as apreensões e as ambições da sua Fundação, cujo destino em boa medida fica agora – em coerência com tudo o que se disse nos últimos dias – nas mãos da Câmara de Lisboa e do Ministério da Cultura.

Eu atrever-me-ia, de resto, a ver no último texto publicado, no dia da sua morte, no blog «Outros Cadernos de Saramago», o programa que poderá dar à Fundação José Saramago um sentido tão estratégico como perene: «Falta-nos reflexão, pensamento, necessitamos do trabalho de pensar, parece-me que sem ideias não vamos a lado algum». O trabalho de pensar – é isso!
(Diário de Notícias,24.06.2010)

José Adelino Maltez – Discurso faccioso e tribal, proferido ontem, por mim p...

José Adelino Maltez – Discurso faccioso e tribal, proferido ontem, por mim próprio, sem heterónimo,em Viseu

via BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA by João Mattos e Silva on 6/24/10

Estive em Viseu, no sábado e no domingo, no Congresso da Causa Real. Confirmei as minhas crenças políticas na metapolítica do poder real e das Cortes, desde menino e moço, como aqui e em todo o lugar tenho proclamado e como aqui e em todo o lado sou conhecido. Ah! No Congresso prestei homenagem a Saramago e fui aplaudido por isso. Aqui vão notas que serviram de base à intervenção…
Claro que, como tradicionalista, sou contra os reaccionários e, como conservador, sou contra os revolucionários e os contra-revolucionários, seus irmãos-inimgos, os que querem uma revolução ao contrário, mesmo que seja o que dizem ser, ou ter sido, uma revolução nacional…
De mal com certa esquerda por ser monárquico e de mal com certa direita por ser liberal, sou, como sempre fui, por amor de el-rei e da pátria, disposto a restaurar a república, para, em cortes, poder reeleger um rei…
De mal com o situacionismo, por ser do contra, também sou contra as oposições que se iludem com a febre das revoluções, porque sou mesmo contra as revoluções que não sejam revoluções evitadas…
Aliás, sou tão tradicionalista que certos membros da ortodoxia ultramontana, a ala dos ditos catolaicos, me diabolizam como herético, panteísta e relativista.
Confesso ser um homem religioso (Régio dixit) e que não faço parte dos ateus estúpidos e das cliques libertinas (ainda sigo Anderson). Isto é, continuo tão tradicionalista que reinvindica uma tradição mais antiga do que a do ano um…a que não tem o privilégio de uma religião revelada pelos povos ditos do Livro.
Liberal à antiga, assumo o vintismo e o cartismo, desembarcaria no Mindelo, defenderia o setembrismo e entraria na patuleia como histórico, embora prefira o Pacto da Granja com os reformistas…
Continuo disposto a militar no partido do Passos, de Sá da Bandeira, de José Estêvão, de Anselmo e Luís Magalhães. Por outras palavras, mantenho orgulhosamente a fidelidade azul e branca, dos liberdadeiros e da liberdade que, sem ser por acaso, também foi a bandeira da Europa e do projecto de Quinto Império do Padre Vieira…
Menino e moço, me assumi como tal, seguindo o exemplo cívico de um Henrique Barrilaro Ruas, de um Rolão Preto, de um João Camossa, que me ensinaram a detestar o despotismo ministerialista da salazarquia. E com tais exemplos, continuámos contra outros despotismos, mesmo os iluminados pela desculpa da ideologia, sempre em nome de pretensos amanhãs que cantam.
Aliás, salazarquia sempre foi aquilo que um dia disse Almada: "foi substituído Portugal pelo nacionalismo que apenas foi uma maneira de acabar com os partidos…"
E com tipos como o Luís Almeida Braga fui bebendo aquela profunda tradição regeneradora que nos deu o consensualismo anti-absolutista, coisa que em inglês se diz pluralismo e guildismo e que é o cimento fundamental das revoluções evitadas daquela revolução atlântica que nos deu o presente demoliberalismo…
E comungando no estoicismo de Herculano, era capaz de voltar a subscrever o Manifesto de Dezembro de 1820, da autoria de D. Francisco, o futuro Cardeal Saraiva, seguidor de Cádiz e Martínez Marina, dessa bela aliança peninsular contra o usurpador, como praticámos na Restauração de 1808…
Procuro retomar as teses expressas no Código de Direito Público de António Ribeiro dos Santos, seguido por Palmela, por Silvestre Pinheiro Ferreira e pelas tentativas constitucionais históricas e cartistas do governo de D. João VI…
Assumo a herança de Francisco Velasco Gouveia e de João Pinto Ribeiro e detesto as tentativas absolutistas de Pascoal e de Penalva. Prefiro as chamadas Alegações de Direito de 1579, em favor Dona Catarina e, naturalmente, prefiro a síntese das Actas das Cortes de Lamego, positivadas pelas Cortes de 1641
Porque na base está a Constituição política das Cortes de Coimbra de 1385, expressas por João das Regras e desenvolvidas pelas teorias da Casa de Aviz, principalmente na Virtuosa Benfeitoria do Infante Dom Pedro, duque de Coimbra
Claro que me entusiasmam os exemplos cívicos de Sá da Bandeira contra os devoristas e os esclavagistas, ou Herculano, pela regeneração e pela descentralização, contra os cabrais. E iria para a Patuleia não deixando morrer em vão Luís da Silva Mousinho de Albuquerque…
Tal como resistiria por D. Manuel II, como Paiva Couceiro, o mesmo que foi um dos primeiros desterrados por Salazar, por denunciar a estúpida política do Acto Colonial, no que se irmanou com Norton de Matos…
Até estaria com Rolão Preto, Almeida Braga e Vieira de Almeida ao lado de Delgado, como estive com Barrilaro, Gonçalo, Camossa e Rolão Preto, em defesa da democracia de Abril…
Mas não esqueceria a armilar mesmo depois da descolonização, como tem feito o duque de Bragança, até por Timor, na senda das perspectivas de um Luís Filipe Reis Tomás…
A fé na bandeira azul e branca, sem recusa da que é hoje o símbolo nacional e daquela armilar que esteve na base simbólica do Reino Unido de 1816, nessa herança de D. João II, da esfera, da espera, da esperança, para que o abraço armilar possa semear futuro…
Daí não poder ser anti-republicano, porque sou, além de republicano, monárquico, querendo como o título de um livro dos finais do século XV, de Diogo Lopes Rebeleo: "De Republica Gubernanda per Regem"…
Importa restaurar a república para que se refaça a comunidade política, esse concelho em ponto grande, como disse o Infante Dom Pedro, onde o príncipe deve aliar-se à comunidade da sua terra, para que a política possa regenerar-se em coisa pública, com bem comum e saudades de futuro…
O caminho da restauração da república pode reforçar-se com a eleição do rei por consenso nacional, nomeadamente como bandeira contra a desertificação do país das realidades contra o país nominal (Herculano dixit), até para podermos voltar ao mar-oceano com os pés na terra, contra o centralismo capitaleiro de Pombal, Fontes, Afonso Costa, Salazar, Soares e Cavaco Silva…
em blogue "Sobre o tempo que passa"

Herculano e os Açores - Eduíno de Jesus

via Comunidades - RTP by Irene Maria F. blayer on 6/25/10



EU JÁ VI NUMA ILHA
(Excerto do poema "Tristezas do Desterro")

Eu já vi numa ilha arremessada
às solidões do mar , entre os dous mundos,
vestígios de vulcões que hão sido extintos
em não sabidos séculos. Cintilam,
aqui e ali, nos areientos plainos,
onde espinhosas sarças só vegetam,
restos informes de metais fundidos
pelas chamas do abismo, entre afumadas
pedras que em parte amarelece o enxofre,
que a lava em rios dispersou, deixando
só dele a cor em lascas arrancadas
das entranhas dos montes penhascosos.
A natureza é morta em todo o espaço
que ela correu no dia em que, rugindo,
da cratera fervente, à voz do Eterno,
desceu ao mar turbado, e ele, escumando,
a engoliu e passou, qual sumiria
de sossobrada nau celeuma inútil.
Tal é meu coração. [...]

ALEXANDRE HERCULANO


HERCULANO E OS AÇORES
Eduíno de Jesus


Herculano desembarcou na ilha Terceira no dia 18 de Março de 1832, de onde depois embarcou para S. Miguel no dia 6 de Abril seguinte e desta ilha para o Continente a 27 de Junho do mesmo ano. Feitas as contas, dá para a assistência do futuro escritor nos Açores um total de 100 dias á justa, dos quais 18 na Terceira e 82 em S. Miguel.
Isto é quase tudo o que se pode dizer sobre Herculano e os Açores. De facto, ele nunca mais voltou às ilhas depois daqueles 100 dias e nunca se ocupou delas na sua obra literária nem nos seus trabalhos políticos ou históricos.
Nunca se ocupou delas propriamente como tema literário nem como assunto político ou histórico, mas, em todo o caso, nomeou-as ou fez-lhes alusão ocasionalmente, em abstracto. Há, com efeito, breves referências suas, de circunstância - pouquíssimas, aliás -, uma à Terceira, mencionando-a por "rochedo da salvação"; outra genericamente ao Arquipélago, recordando as "tristes saudades" que curtiu assentado "sobre os outeiros vulcânicos dos Açores" (teria em mente talvez S. Miguel, em que a vulcanidade é mais patente); e ainda, um pouco mais extensamente, a "uma ilha arremessada / às solidões do mar", que (se dos Açores se trata, como parece) tanto pode ser a Terceira como S. Miguel, com mais probabilidade, porém, esta segunda, onde os "vestígios de vulcões" a que se refere lhe terão chamado mais a atenção.
Ainda assim, vejamos um pouco mais de perto aqueles 100 dias açorianos do futuro escritor; ou melhor: vejamo-lo a ele mesmo mais de perto nessa altura...
Quem era,. afinal, esse moço Herculano que desembarcou na Terra Chã, ilha Terceira, no dia 18 de Março de 1832?
De onde e ao que vinha? O que fez e o que lhe fizeram por lá?
Seu nome, por extenso, era Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo.
De uma família pequeno-burguesa com antecedentes batante humildes.
Tinha, de idade, apenas 21 para 22 anos (completaria os 22 dez dias após o desembarque na Terceira, em 28 de Março). e vinha de Belle-Isle-en-Mer integrado numa divisão de emigrados políticos portugueses com destino à Ilha Terceira. Esta ilha, na altura - mais propriamente a cidade de Angra --, era a sede do Conselho de Regência Liberal do Reino, nomeado em 1830 pelo príncipe D. Pedro de Bragança, ex-Rei D. Pedro IV, agora Regente do Reino em nome de sua filha D. Maria II. O Rei de França Luis Filipe I tinha-lhe disponibilizado Belle-Isle para ali se poderem concentrar os portugueses emigrados por causa da sua oposição ao regime absolutista implatado em Portugal por D. Miguel I, aclamado Rei em Cortes em 1828 contra os direitos. da jovem rainha D. Maria II, sua sobrinha, apoiada pelos liberais. Estes emigrados, procedentes todos, ou na sua maioria, da Inglaterra e de outros pontos de França, destinar-se-iam a integrar uma projectada expedição liberal a partir dos Açores com o objectivo de libertar Portugal daquele regime.
Herculano vinha, pois, de Belle-Isle, para onde tinha ido de Rennes, aonde chegara procedente de Plymouth, Inglaterra, e se demorara algum tempo. A Plymouth tinha ido parar em 1831, fugido à forca, pode-se dizer, por, em Lisboa, em que nascera e vivia , se ter envolvido, moço de 20 anos, na conspiração que preparara a revolta do regimento de Infantaria 4 contra o regime absolutista imposto por.D. Miguel.
Chegara à Terceira antes da Primavera três dias, depois de uma longa viagem começada dezassete dias antes, em 29 de Fevereiro. Vinha mal enjorcado num capote da tropa por cima do seu traje civil (os uniformes comprados em França e distribuídos a bordo não chegaram para todos; a alguns voluntários coube apenas uma parte, pelo que vinham, muitos deles, Herculano inclusive, grotescamente trajados. Não seria, pois , boa a.aparência do futuro escritor, assim vestido meio à civil, meio à militar, e talvez mal encarado, como parece que era, de resto, o seu natural. Ninguém deve ter dado por ele.
Não aconteceu o mesmo com outro emigrado - já então personalidade emérita - que também vinha de Belle-Isle incorporado na mesma divisão com destino à Terceira. Essoutro rejeitara simplesmente tal "vestimenta" - aqueles "trajos de palhaço", como chamara à farda que lhe tinham distribuído a bordo -, e podeis imaginar com que repugnância o fizera, quando vos disserque se tratava de Almeida Garrett. Exactamente esse, o dândi e já então famoso poeta, tão presumido da sua elegância como da sua obra. Ao tempo, era já autor de alguns dos marcos da nova ordem poética -- o Romantismo - de que foi fundador: os poemas Camões, Dona Branca e Adozinda, todos publicado na segunda metade da décade da 20.
Os dois, Garrett e Herculano, tinham travado relações em Belle-Isle, como emigrados políticos e intelectuais que eram ambos. Garrett tinha mais cerca de 11 anos do que Herculano e uma formatura em Direito por Coimbra que Hrculano não conseguira por falta de meios; além disso, aspirava a uma nobilitação (que veio a conseguir mais tarde, de visconde, como se sabe) e, claro, vivia na alta-roda social e literária. Como se havia relacionado com aquele pobre moço, ainda anónimo, mal chegado à maioridade civil?
Bem, aquele pobre moço, não obstante não possuir fortuna nem estudos superiores oficiais, nem ter ainda obra publicada, já era alguém.. Estudos tinha apenas feito as Humanidades na Congregação do Oratório, onde também estudara Lógica e a Bíblia, e frequentara a Aula do Comércio , e estudara Diplomática na Torre do Tombo, e aprendera inglês e alemão, e se iniciara na leitura de Schiller, que tentara traduzir, Klopstock, Chateaubriand, etc.. Andava ainda pelos 18 anos e já se tornara aceito em círculos literários selectos, como a tertúlia do Morgado de Assentis e o salão da Marquesa de Alorna, um e outro ainda acentuadamente arcádicos mas em que já se pressentia a sensibilidade romântica que andava no ar.
Em Rennes, na França, tinha frequentado assidua e avidamente a respectiva Biblioteca pública e se municiado da grande literatura francesa do momento (Hugo, etc.) que algo o enriquecera, abrindo-lhe vistas para o Romantismo, que era o horizonte da nova Literatura, de que ele ia ficar sendo, com Garrett e Castilho, um dos pilares em Portugal.

EDUÍNO DE JESUS

(Texto inédito, Maio 2010)


Eduíno de Jesus nasceu nos Arrifes, S. Miguel, Açores (1928). Concluídos os estudos secundários deixou os Açores e instalou-se primeiramente em Coimbra e depois em Lisboa, onde reside actualmente. No continente, Eduíno foi professor do ensino primário e secundário, docente na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Eduíno faz parte do conselho de Directores da Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura Verbo e é colaborador da enciclopédia de literatura Biblos e do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses do Instituto Português do Livro e da Leitura, e do Grande Dicionário Enciclopédico Ediclube (na parte do Léxico). Publicou três livros de poesia: Caminho para o Desconhecido (1952); O Rei Lua (1955); A Cidade Destruída durante o Eclipse (1957) e em 2005 a Imprensa Naciona -Casa da Moeda, editou o livro Os Silos do Silêncio, reedição selecta e refundida destas três colectâneas poéticas. Também publicou a peça de teatro Cinco Minutos e o Destino (1959). Tem centenas de artigos dispersos em revistas e suplementos culturais. Diz-nos Onésimo Almeida (posfácio Os Silos do Silêncio) que " Se não existe uma história da Literatura açoriana, Eduíno de Jesus escreveu para ela alguns capítulos fundamentais em prefácios ou posfácios (verdadeiros estudos para livros dos poetas açoriano António Moreno, Pe José Jacinto Botelho), Armando Côrtes-Rodrigues, Virgílio de Oliveira e Madalena Férin" (p. 355).

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Paiva Couceiro exilado por Salazar !

Paiva Couceiro exilado por Salazar !

via Centenário da República by noreply@blogger.com (Rui Monteiro) on 6/23/10

Exilado pelo salazarismo a 16 de Setembro de 1935, por seis meses, por ter criticado publicamente a política colonial do regime.

Polícia de Vigilância e de Defesa do Estado (mais tarde P.I.D.E.) – "Certificado de viagem" com que Henrique Paiva Couceiro saíu de Portugal para o seu último exílio em Espanha. Ia fazer 77 anos! Mesmo assim foi tratado por Salazar como o pior dos criminosos…
A carta que escreveu a Salazar a 31/10/1937 e que lhe valeu esse derradeiro exílio pode ser lida no link seguinte:

http://www.angelfire.com/pq/unica/ultramar_1937_paiva_couceiro_ultramar.htm

Fonte : Miguel Paiva Couceiro

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Retornados, espoliados do Ultramar: Discurso do Prof. Dr. Adriano Moreira

via BRAVOS RETORNADOS, ESPOLIADOS, DESLOCADOS... by MARIANJARDIM on 5/30/10
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Meus Amigos, minhas Senhoras e meus Senhores:

Começando por agradecer a honra que me deram de, mais uma vez, me convidarem para presidir ao vosso Congresso, queria corresponder ao convite dizendo algumas palavras de encerramento desta sessão tão importante para a vida portuguesa.

E o primeiro ponto que gostaria de abordar é o seguinte: constantemente, sempre que um período agudo da vida política portuguesa se declara, os problemas do que foi o Ultramar Português e os problemas dos deslocados, retornados e espoliados voltam ao debate público e a mim parece-me que são interesses excessivamente importantes para que sejam lembrados ou esquecidos ao sabor das conveniências dos debates eleitorais.

Os deslocados, os retornados, os espoliados, são êles próprios a expressão viva duma amputação dos interesses nacionais e são eles próprios que devem, como têm feito, manter a iniciativa e a autonomia da defesa da restauração de dignidades que foram ofendidas, de interesses que devem ser reparados, mantendo uma autoridade que lhes não pode ser negada em relação aos intervenientes nos pleitos eleitorais porque são eles que precisam do apoio, do julgamento, da adesão, dos que foram vitimas dum processo descontrolado, não são eles que podem trazer qualquer benefício ou conforto àqueles que aqui estão representados.

Queremos que essa dignidade seja respeitada, trata-se de uma situação de injustiça, trata-se da representação viva de um acontecimento fundamental na vida portuguesa, são os senhores que representam e assumem isso, é um valor permanente, não está dependente das contingências e interesses eleitorais.

O segundo ponto que gostava de sublinhar: constantemente, o julgamento do processo da chamada descolonização é trazido à consideração pública e certamente não é difícil atribuir às emoções de quem esteve envolvido no processo, porque não lhe foi dado participar nas decisões, os julgamentos tão frequentemente e fundamentalmente condenatórios dos caminhos que esse processo seguiu.

Simplesmente acontece que foi hoje aqui citado por um dos oradores o director geral da UNESCO, Sr. Federico Mayor. Esse director geral da UNESCO publicou um livro importante que se chama « Manhana siempre es tarde» (Amanhã é sempre tarde). Esse livro faz a síntese daquilo que é hoje a situação dos territórios onde vários países e nós, tiveram responsabilidades colonizadoras.

O inventário das carências é aterrador. Há regiões em que nós exercemos o poder onde morre uma criança de fome por minuto! Não somos nós que precisamos hoje de fazer a contabilidade dos resultados. A contabilidade está feita com autoridade, designadamente, por este citado director geral da UNESCO.

É necessário reconhecer que, à margem dos responsáveis pelo processo político, em que os senhores não participam, a retirada a que foram obrigados os colonos, significou a retirada das traves-mestras em que assentavam a regularidade da vida civil dos territórios.

Quando se lê o livro, este livro de Federico Mayor, nós sabemos que em relação a cada uma daquelas calamidades da vida civil que ali se encontram, a cada uma das carências enormes, inimagináveis, que afligem aquelas populações, na base disso está, indiscutivelmente, o vazio que foi deixado pela retirada de cada um dos senhores. E, por isso, me tem parecido que não é de mais dizer e sustentar: nós podemos fazer, e devemos fazer, um julgamento do processo político português; os aparelhos políticos têm de tomar as suas responsabilidades em relação a cada época; mas, a presença portuguesa nesses territórios, a organização da sociedade para enfrentar os desafios do mundo moderno em que esses territórios estavam a integrar-se, a criação da sociedade civil que estava em curso, isso não foi obra dos políticos, não foi, fundamentalmente, obra dos políticos, foi obra da gente que está aqui e que não tinha responsabilidades políticas.

E é por isso que, todos os que tivemos responsabilidades no aparelho político , eu também, julgo que devemos ser humildes perante os desafios a que nenhum de nós foi capaz de responder.

Cada um tem de Ter a atitude de assumir a incapacidade de ter enfrentado esse desafio, mas não pode somar ao facto de todos terem sido excedidos pelos desafios, a passividade perante a possibilidade de ainda reparar as injustiças que estão vivas, as injustiças de homens vivos que ainda está ao nosso alcance reparar, aqui e lá.

E é por isso que, embora não me reconheça nenhuma autoridade para o fazer, pela circunstância de me terem dado a honra de presidir a este Congresso, eu me atrevo a dizer que merece reconhecimento público o trabalho cívico que tem sido feito pelas vossas Associações e sobretudo o sentido de responsabilidade com que têm sempre actuado, porque a maior parte dos senhores, que viu ruir o trabalho de uma vida inteira, que viu desaparecerem as perspectivas e as esperanças de uma vida totalmente dedicada ao trabalho naqueles territórios, não se tem movimentado nunca ao sabor das paixões das conjunturas portuguesas --- tem continuado a dar aqui o exemplo da responsabilidade em função dos interesses nacionais e eu penso que este Congresso é mais um exemplo dessa capacidade serena de enfrentar o infortúnio e os tempos afortunados, mantendo o animo para todas as circunstâncias.

E, por isso, espero que o movimento seja recompensado, que os resultados venham corresponder aos esforços devotados com que todos contribuíram para a tarefa que os novos tempos, e o tempo que já passou e que nos permitiu esquecer algumas amarguras, ser mais benevolente para com algumas injustiças nos ajudem a reparar que, entretanto, alguns vão caindo e que acontece a este combate que quanto mais tempo dura, mais diminui a causa dele porque as pessoas vão desaparecendo.

Que se reconheça que, neste momento em que temos esperança de que venham a estabelecer-se outros padrões na nossa vida internacional, caminhemos para uma sociedade mais pacífica, mais cooperante, menos conflituosa, em que o regresso de Portugal a África se possa fazer em novos moldes, porque, o que ruiu foi um sistema político que tínhamos, não ruiu a área em que nós actuámos, e que nós criámos, e que nós identificámos. Que neste momento, em que um dos valores portugueses que são postos em evidência é o do nosso capital de experiência em relação a esses territórios, se reconheça que grande parte dessa experiência está viva, está aqui, e está disponível para servir o País.
Tirado Daqui

Cecília Meireles sobre Fernanda de Castro

Cecília Meireles sobre Fernanda de Castro

via Fernanda de Castro by António Quadros Ferro on 6/22/10
"Tenho uma amiga esperando-me no Estoril. É a poetisa Fernanda de Castro. [...] Uma criatura encantadora, [...] com o mesmo tóxico que eu tenho no sangue do espírito: deslumbramento pela selva e pelo oceano, loucura pelo sol [...], fome do infinito."

De uma carta de Cecília Meireles a Fernando de Azevedo, in Cecília em Portugal (Iluminuras, 2001) de Leila V.B. Gouvêa

terça-feira, 22 de junho de 2010

Memórias de um letrado

Memórias de um letrado

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 6/22/10
"[...] Efectivamente, se a política está, ou deve estar, subordinada à filosofia, conforme ficou para sempre estabelecido por Aristóteles, ser-me-ia lícito e fácil inferir que a política portuguesa pressupõe, ou deve pressupor, uma filosofia portuguesa. [...] Ciente dos meus limites, nunca respondi à crítica infalível dos opositores malévolos. Respeito e defendo a liberdade de opinião; não gosto de dizer palavras desagradáveis às pessoas; espero a hora da justiça pela distinção entre o Mal e o Bem. [...] Tudo o que é português - o pensamento, o conhecimento, o procedimento - passou a ser aferido e pautado pelos lineamentos internacionais que os estados mais fortes propunham ou impunham aos povos subdesenvolvidos. [...] O homem português deixara de pensar por si próprio, e descera àquela menoridade mental que convém à influência dos jornais, das revistas e dos livros que propagam e divulgam as certezas instantâneas da conservação social."

Álvaro Ribeiro,
Memórias de Um Letrado (1980) vol. 3.