domingo, 1 de agosto de 2010

Mensagem do desassossego

Mensagem do desassossego

via Mundo Pessoa on 7/22/10

É alguém capaz de indicar um benefício, por leve que seja, que nos tenha advindo da proclamação da República? Não melhorámos em administração financeira, não melhorámos em administração geral, não temos mais paz, não temos sequer mais liberdade. Na monarquia era possível insultar por escrito impresso o Rei; na república não era possível, porque era perigoso, insultar até verbalmente o Sr. Afonso Costa.

Da República (1910-1935), Fernando Pessoa, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Ática, 1978, p. 150

Mensagem do desassossego

Mensagem do desassossego

via Mundo Pessoa on 7/22/10

Em sonhos sou igual ao moço de fretes e à costureira. Só me distingue deles o saber escrever. Sim, é um acto, uma realidade minha que me diferença deles. Na alma sou seu igual.

Livro do Desassossego,  Bernardo Soares, edição Richard Zenith, Assírio & Alvim, 1998,  p. 57.

René Pélissier contra os mitos da colonização

René Pélissier contra os mitos da colonização

via Lusofonia Horizontal by Daniel on 7/24/10


Trechos da entrevista de René Pélissier a Nicole Guardiola, publicada na revista África 21 de maio de 2010:

O que despertou seu interesse pela colonização e descolonização portuguesa?

O gosto pelas descobertas. Em França ninguém se interessava pela história colonial portuguesa moderna, e em Portugal havia o Estado Novo, com a sua propaganda mitológica. Senti logo que algo não batia certo quando falavam de cinco séculos de colonização portuguesa. Havia uma fraqueza intrínseca nesta história, a que chamei de colonialismo sem colonos: no início do século XX havia apenas nove mil brancos em Angola, eram menos ainda em Moçambique, e na Guiné não chegavam aos 200. Ler mais

Príncipe Nicolau do Congo

(title unknown)

via Angola: os poetas by kinaxixi on 7/24/10

 príncipe Nicolau do Congo
(...)
O príncipe Nicolau (1830?-1860) era um parente mais novo do príncipe Aleixo, possivelmente seu sobrinho, e era filho do rei Henrique II do Congo, que governou entre 1842 e 1857. Nicolau, tal como Aleixo, era um assimilado com alguma instrução portuguesa. Tinha sido educado em Lisboa e em Luanda a expensas do governo português durante os anos de 1845 a 1850. Destinado à vida eclesiástica, Nicolau optou antes por entrar ao serviço da administração colonial portuguesa em Luanda, onde foi sucessivamente promovido e onde encontrou vários estrangeiros que se mostraram obviamente interessados na sua pessoa. O príncipe Nicolau é uma figura importante na história de Angola, pois foi provavelmente o primeiro africano com algum estatuto a recorrer a técnicas ocidentais para exprimir sentimentos nacionalistas. Não tardou a sentir-se insatisfeito com a sua posição na sociedade europeia, mas não podia regressar à sua terra natal, uma vez que já se tinha ocidentalizado e também porque, segundo as regras congolesas, não era elegível para a sucessão do reino, visto ser filho e não sobrinho do rei. No entanto, Nicolau aspirava a uma posição mais alta na vida. Ler mais


Mensagem do desassossego

Mensagem do desassossego

via Mundo Pessoa on 7/19/10

O observador imparcial chega a uma conclusão inevitável: o país estaria preparado para a anarquia; para a república é que não estava. Grandes são as virtudes de coesão nacional e de brandura particular do povo português para que essa anarquia que está nas almas não tenha nunca verdadeiramente transbordado para as coisas! 

Da República (1910-1935), Fernando Pessoa, recolha de textos de Maria Isabel Rocheta e Maria Paula Morão, introdução e organização de Joel Serrão, Ática, 1978,  p. 149.

sábado, 24 de julho de 2010

Homenagem a António Quadros (14 de Julho de 2010)

Homenagem a António Quadros (14 de Julho de 2010)

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 7/23/10

"Para mim, hoje, António Quadros representa, acima de tudo, a saudade de uma grande amizade, de um longo convívio e de uma comunhão de ideais patrióticos e espirituais, de uma luta comum pelo reconhecimento do significado e valor da filosofia e da cultura portuguesas e luso-brasileira, pela actualização de fecunda, embora encoberta, ignorada e esquecida tradição cultural. Na data em que completaria 87 anos, recordo também o homem bom, desinteressado e corajoso, que se entregou, com a razão e o coração, a um ideal espiritual superior e cuja obra é, cada vez mais, reconhecida pela sua rica e múltipla originalidade, aberta compreensão e subtil inteligência hermenêutica."

António Braz Teixeira

"Ler António Quadros foi uma revelação. Conhecer António Quadros tornou-se uma descoberta permanente. Conversar com António Quadros era um encanto superlativo e intemporal. Rememorar António Quadros é deixar-nos invadir pela saudade, mas é também uma oportunidade de o celebrar. António Quadros marcou gerações sucessivas com uma cultura enciclopédica – sobretudo dos clássicos que "tratava por tu" –, com um inefável Amor a Portugal, com uma arguta percepção da peregrinação lusíada pelo mundo, com uma densidade comunicacional simples, mas profunda. Hoje, mais do que em qualquer outra época da nossa contemporaneidade recente, que falta nos faz António Quadros!

Roberto Carneiro

[newsletter nº 13, Julho de 2010, Fundação António Quadros]

quinta-feira, 22 de julho de 2010

11 de Novembro

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 7/21/10

"Veio o médico de serviço. Veio a irmã Eugénia, solícita, bondosa, passando-me a mão sobre a fronte. Vieram enfermeiros. Foi uma agitação ruidosa e insuportável. Conduziram-me de maca até à enfermaria. Deram-me não sei que pílulas, atarefaram-se em meu redor. Trouxeram-me de novo para o quarto e deitaram-me. Melhorei, um pouco pelo menos, e a dor fortíssima desapareceu, ficando só a mesma pressão sobre o peito. Sinto-me agoniado. Vou morrer? Vou morrer? [...] Pensar, lembrar, as duas dores confundem-se-me, a dor dos meus ideais abatidos (e todavia resistentes) e a dor desta opressão que me sufoca [...] Lembro-me do que me disseste, há muitos anos, na minha visita à Holanda quando exilado de Portugal. Ah! A hora primeira! Quando com assombro se descobre que não há margem para dúvidas! Quando se chega a de onde não se pode voltar! O que se encontra, meu Deus!
Foste arrepiantemente premunitório. O que se encontra? Um quarto de hospital, um cheiro a desinfectantes, a comiseração das pessoas que nos olham como se já não estivéssemos cá, as últimas despedidas, a visita de uma amiga querida mas logo saudosa, as más recordações, um olhar para trás e perceber que tudo passou velozmente e não aproveitámos o nosso tempo, um reviver os nossos erros e um menosprezar dos nossos possíveis acertos. Olhamos para dentro de nós e apercebemo-nos que fomos pouca coisa, de que somos pouca coisa. Escrevemos livros, sobretudo um livro, montámos toda uma teoria de respostas satisfatórias para as nossas mais fundas interrogações, julgámo-nos senhores de um saber superior ao da maioria dos nossos amigos ou contemporâneos, mas sempre a mesma pergunta contundente e inevitável. O que se encontra, meu Deus?"
António Quadros
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) pp. 114-115

Helena

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 7/21/10

"[...] A que eu julgara ter morrido no meu coração como eu teria morrido no dela, a que eu magoara, a que sobrevivera à minha fuga lamentável estava agora comigo, apertando naturalmente a minha mão, acarinhando-a e tratando-me de novo [...] pelo meu nome próprio. As nossas mãos acomodaram-se, a minha palma e os meus dedos calejados de escritor e jornalista, a suavidade feminina da sua pele, que o manuseio dos livros e as lidas da casa não tinham conseguido desfrear. Eu desejava-a, sim desejava-a. Perguntarás, atónito: como, agora, assim, tu, velho filósofo doente? Uma alegria. Uma dor. Um querê-la absurdamente, quando sabia que nunca a poderia ter. Mas uma consolação. Eu vivia. Não ousámos sequer sorrir-nos. Quase embaciados os seus olhos, mas conseguiu dominar-se...Eu vivia, vivia uma vida de homem. Não era capaz de dizer mais do que: - Helena, Helena..."

António Quadros
Uma Frescura de Asas, Europress (1990) pp. 95-96