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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

René Dumont. E, por fim, o emergente e difuso socialismo africano.

René Dumont. E, por fim, o emergente e difuso socialismo africano.

via universidade by Gil Gonçalves on 12/15/09

Quando a África independente ainda tinha percorrido apenas alguns metros, o francês René Dumont escreveu o livro intitulado "L´Afrique est mal partie" (Éditions du Seuil, 1962). Nele, apesar de Dumond não considerar a África um continente maldito, demonstra como o clima, a demografia e sobretudo a pesada herança colonial figuram insidiosamente como constrangimentos que obstaculizam o desenvolvimento.

Por Leopoldo Amado
http://guineidade.blogs.sapo.pt/5647.html

Porém, a par destes constrangimentos, René Dumond criticava duramente o enfeudamento pura e simples ao comunismo internacional, mas também os discursos extremados e radicalismos que proclamavam um corte total de cooperação com as antigas potências coloniais e, por fim, o emergente e difuso socialismo africano. E, perante esta realidade, Domond considera que a África apresentava-se, no momento das independências, «à un degré extreme, toutes caractéristiques du sous-développement. Le handicap à surmonter est tellement enorme, dans tous cês domaines, par rapport à d'autres régions sous-développées, que sa nature même en devient différente... Ia rigidité de l'organisation sociale et la force des traditions dressent un obstacle... la misère tend à se perpétuer d'elle-même. Ce n'est plus le moment de persévérer dans l'erreur, au nom de n'importe quel dogmatisme, mais celui de regarder en face lês faits et les hommes, pour voir ce qu'on en peut tirer».

Com efeito, Dumond demonstrou como é que uma mentalidade retrógrada (a colonial) permitiu que se submetesse África e os africanos a toda uma série de exploração, as quais decorrem desde o Tráfico de Escravos a à exploração comercial. Cita, por exemplo, o Jules Ferry que, sem hesitar afirmava no Parlamento, a 28 de Julho de 1885, que «La Déclaration dês droits de l'homme n'avait pás été écrite pour lês Noirs de 1'Afrique équatoriale» ou ainda o General Meynier que escreveu mais honestamente que «Dês le premier jour de leur rencontre, les européens ont pose en príncipe leur supériorité sur la race noire... Ils ont plié à l'esclavage les a, justifiant leurs actes par le droit du plus fort... pour y ouvrir des débouchés à leur commerce, ils ont jeté à bas les dernières traces existantes des civilisations africaines».

Ainda no que se refere às heranças coloniais, Dumond considera que o primeiro prémio dos europeus aos africanos foi justamente o alcoolismo, segundo ele, "o crime dos crimes", que se acentuou sobretudo quando se introduziram alambiques que vulgarizaram a prática de destilaria entre os africanos, numa altura em que os africanos apenas consumiam bebidas fermentadas de fabrico tradicional e de fraca graduação alcoólica, a saber: vinho de palma ou de ráfia (ricos em vitamina C e com cerca de 4 graus de álcool em média); bebida de milho (rico em prótidos e vitamina B12, com cerca de 3.5 graus de álcool em média).

No entanto, perante o "boom" das independências africanas e num momento em que o emergente socialismo africano parecia ganhar adeptos dentre as várias correntes ideológicas da África em efervescência nacionalista, Dumond, como experimentado homem da tradicional esquerda francesa, alertou, desde essa altura, de que nem sempre as independências eram sinónimas da descolonização, criticando inclusivamente o novo-riquismo das elites africanas que paradoxalmente advogavam o socialismo africano, desenvolvendo Dumont uma autêntica "plaidoyer" em prol de uma política de educação africana adaptada as realidades locais e uma desenvolvimento económico e social que privilegiasse a massa camponesa (para ele, a vanguarda da revolução que se consumaria com a independência económica).

Neste livro, aliás, Dumont apoiou a F.E.A.N.F (Féderation dês Étudiants d'Afrique Noir en France) quando no comunicado distribuído a imprensa por esta, na sequência da realização do seu XIVº Congresso (24-27 Dezembro de 1961) denunciaram o socialismo africano, denúncias essas as quais Dumond corrobora dizendo que o socialismo africano «est trop souvent un mythe abritant le néocolonialisme. Ou une tentative pas toujours honnête de syncrétisme entre un idéalisme communautaire et le maintien de la tradition africaine. Or cette dernière refuse le progrès, qui implique discipline et contrainte, rejet du parasitisme familial. Mais il ne suffit plus de se proclamer révolutionnaire, il faut vivre en conséquence. Cette situation, qu'il faut regarder en face, réduit les chances d'une action révolutionnaire immédiate et réussie ; elle ne justifie en aucune façon une résignation à la situation actuelle. Comment remonter vite le courant, préparer les conditions d'avènement du socialisme, rendre sa réalisation future plus aisée, la transition moins pénible pour le paysan, l'ouvrier et l'étudiant africains?»

Diz Dumont, ao propósito, que «sans une économie planifié et contrôlé, le investissement de travail paysan devient une simple addition d'initiatives locales sans réelle portée économique. De plus, l' effort fourni dans ce cadre économique sans cohérence ni contrainte et sans unanimité s'essouffle rapidement et ls pressions tribales paralysent vite le progrés. Il faut améne donc des conditions poour que les paysans puissent juger le polique adoptés, en mesurer a portée. Ils exprimeront ainsi à la fois leurs possibilites de réalisation, et les besoins en moyens de production nécessaires à la réalisation de ce Plan. Ainsi débutera le constant dialogue entre la base et le sommet, si nécessaire à la planiftcation démocratique. Installons d'abord lês bases solides du développement, lê crédit et Ia coopération».

Esta interacção que Dumond propunha à emergente África independente era porque, na maior parte dos casos e dos países, os planos eram demasiados audaciosos até no ritmo previsto, pelo que facilmente se percebe que não atingiriam os resultados esperados, pois estes documentos políticos mais parecem declarações de intenção, pois os governos não dispunham nem de organização, nem de quadros indispensáveis, nem de meios financeiros e materiais necessários a sua realização. E ainda acrescentava: Les difficultés de l'Afrique resulte surtout du manque de cadres compétents et honnêtes, en quantité suffisante. Une petite insuffisance de connaissances peut, dans une certaine mesure, être compensée par une grande honnêteté, et vice-versa: mais la double déficience parait sans remede».

É curioso reparar tabém que, ao referir-se criticamente às elites africanas emergentes, Dumond dizia, desde essas altura, que «pour trop d'élites africaines donc, l'indépendance a consiste à prendre la place des blancs et à jouir des avantages, souvent exorbitants, jusque-là concedes aux «coloniaux». Aux soldes élevées, s'ajoutaient parfois les belles villas, toutes meublées, sinon les palais pour les gouverneurs, la nombreuse domesticité payée sur le budget, les autos avec chauffeur. Aux 403, après l´indépendance, succèdent les Chevrolet d'Abidjan, les Mercedes de Yaoundé; souvent renouvelées tous les six mois, ce qui fait grincer des dents lls petites gens. Quand on réduisit ces avantages, certains ont voulu les rétablir à leur profit, sans être difficiles sur les moyens d'y arriver».

Aliás, para Dumond, esta propensão das elites para a prática da corrupção em África explica-se porque «la brusque accession au pouvoir sans controle a trouble certain esprits - prossegue ainda Dumond - corrodé le sens moral ("le pouvoir corrompt, le pouvoir absolu corrompt absolument"). La corruption était, certes, connue du millieu colonial, spécialement des douanes d'Indochine. Depuis l' indépendece, elle semble prendre dans certains pays, notamment du Centrefrique au Congo et au Gabon, de la Cote d'Ivoire au Dahomey, proportions effarantes. Le Cameroun a institué pour la combattre des commissions criminelles et certains prétendent que les détournements reconnus par celles-ci se monteraient au dixième du budget. Ce qui paraît beaucoup, mais il ne semble pas certain que les enquêtes aient pu remonter haut dans la hiérarchie ».

Analisando, outrossim, o papel dos militantes dos partidos políticos em África, Dumon considera que «les militants des partis au pouvoir en Afrique n'ont pás compris, ou pas voulu comprendre que leur role essentiel devrait être d'éducation civique, de création d'enthousiasme au travail, par une véritable «mystique » de réalisation du plan. II y faudrait des idéalistes, des militants dévoués, et non dês carriéristes, d'abord préoccupés d'accéder aux prebendes, par le moyen des élections, dans l'ambiance de caricature de la démocratie». Sobre o que Domon denominava de «caricatura de democracia», ele ainda profetizou que " (...) l´Afrique risque d' faire autant".

Enfim, revisitar o "L´Afrique est mal partie", de René Dumond não deixa de ser um exercício interessante, sobretudo para aquilatarmos comparativamente os problemas que a África apresentava e os que apresenta, bem como as soluções que Dumond propunha e aquelas que hoje são postas em prática. Porém, deste exercício, fica-se certamente com a impressão, certamente falaciosa, de que desde a data em que o livro veio a público – há justamente 44 anos – e não obstante as ajudas ao desenvolvimento, a solidariedade do ex-bloco comunista, o ajustamento estrutural e a globalização, ainda continua o nosso continente a apresentar os mesmos problemas, a par de outros entretanto surgidos (p. e. HIV-SIDA), uns e outros reclamando soluções prementes.

Ora, esta aparente sensação é, por incrível que pareça, a prova da vitalidade e da actualidade do livro de René Dumond, cujo título ele próprio confessou desejar que fosse desmentido pelo natural desenvolvimento dos acontecimentos e dos tempos em África. 44 anos passados sobre a data em que que foi escrito o livro, é tempo suficiente para interogarmos se a evolução do continente produziu, por si só, o esperado desmentido que autor tanto ansiava. As respostas à essas interrogação fica ao critério dos juízos de valor que cada um de nós possa fazer ao revisitar " l' Afrique est mal partie", de René Dumond, porque vale a pena o exercício!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Guiné 63/74 - P5147: Historiografia da presença portuguesa (26): A Literatur...

Guiné 63/74 - P5147: Historiografia da presença portuguesa (26): A Literatura Colonial Guineense (Leopoldo Amado) (III): Até ao Portugal democrático

via Luís Graça & Camaradas da Guiné de Carlos Vinhal em 24/10/09
A literatura colonial guineense (Parte 3)
Por Leopoldo Amado
(Epílogo)

Da década de 40 até ao Portugal democrático

Entretanto, a década de 40 inicia-se com um acontecimento importante: a capital da Guiné é transferida de Bolama para Bissau, e dela resulta que Bissau cresce a olhos vistos, enquanto Bolama perde a sua vitalidade. Na verdade, a transferência da capital para Bissau foi um duro golpe para a elite africana de cariz pequeno-burguesa de Bolama. Consequentemente, a inteligentsia guineense, que era sobretudo representada por bolamenses militantes, dispersou-se por imperativos de força maior. Por isso, a actividade literária e cultural em geral foi o primeiro sector a apresentar sinais palpáveis de um retraimento significativo, a ponto de se paralisar qualquer actividade editorial na Guiné, exceptuando as publicações do Boletim Oficial da Guiné.

Foi o Arauto* que quebrou este silêncio editorial em 1943, quando as autoridades religiosas sentiram que as suas actividades careciam de um meio de divulgação, dado o crescimento cada vez maior da população católica guineense. Aliás, em 1940, tal crescimento era assinalado pela bula Solemnibus Conventionibus, na qual o território da Guiné foi separado da Diocese de Cabo Verde e erigido em Missão sui juris. Estava-se pois num período de relativa acalmia social, em que a política de assimilação, ainda que de forma subtil, estava a dar os seus primeiros resultados. Esta situação traduziu-se na prática pelo reforço do sistema administrativo colonial, cujos corolários foram a realização do Congresso da Guiné na Sociedade de Geografia de Lisboa em 1944, seguido em 1946 pelas comemorações do quinto centenário da descoberta da Guiné. É nesse contexto que o Arauto foi publicado em Bolama até 1947. Durante esse período, a temática central deste periódico gravitava à volta do espírito anti-capital que os bolamenses nutriam contra Bissau. A par disso e além da acção religiosa, o Arauto privilegiou os aspectos históricos de Bolama e do cristianismo na Guiné. Por ironia do destino e por razões que ignoramos, o Arauto fechou as portas em Bolama para reaparecer em Bissau, em 1950. É nesta sua segunda fase que se regista alguma produção literária-colonial com certo interesse de estudo, na qual se destacam os artigos de opinião assinados por Fausto Duarte, Juvenal Cabral e o guineense Caetano Filomeno Sá, entre outros.

Em 1945, Sarmento Rodrigues toma posse como Governador da Guiné e funda o Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, do qual nasce o Boletim Cultural da Guiné Portuguesa**, que viria a congregar um grande número de estudiosos da Guiné nas mais variadas áreas das ciências e, também, da literatura. Trata-se, segundo o africanista René Pélissier, da melhor produção científica no contexto das ex-colónias portuguesas de África. Avelino Teixeira da Mota, Fausto Duarte, James Walter e António Carreira foram, sem dúvida, pela sua capacidade polivalente e interdisciplinar, aqueles que deram o impulso decisivo àquilo que comummente denominamos de geração do Boletim Cultural. Quanto à produção literária-colonial patente nos 110 números publicados, seria omissão imperdoável não acrescentarmos nomes como o de Egídio Santos, Fernando Barrigão, João Eleutério Conduto e Fernando Rogado Quintino. São esses os autores que através da narrativa ou da simples descritiva sociológica, nos dão a medida exacta das preocupações intelectuais da geração do Boletim Cultural. De facto, as inquietações preocupação intelectuais desta geração dirigiam-se no sentido de forjar elos entre uma experiência africana que viveram intensamente e que já incorporava os seus ethós, e a espiritualidade mística, natural, que os prendia à terra-mãe. Para isso, usaram diversos géneros literários que vão do ensaio sociológico à novelística e à fixação de contos tradicionais. E é nesta linha de força que são publicados os Contos Bijagós, por João Eleutério Conduto; os "Contos Fulas", por A. Pereira Gomes; os "Contos Mandingas", por Manuel Dias Belchior; "Dois contos do ciclo do Lobo", por Maria Cecília de Castro, e "Contos de Caramô", por Viriato Augusto Tadeu. Ainda dentro dessa perspectiva se pode incluir o livro Terra Ardente, de Norberto Lopes, e Guinéus, de Alexandre Barbosa (respectivamente, reportagem jornalística e impressões de viagem), embora não apresentem grande interesse para o estudo da Literatura Colonial Guineense.

Em 1959, Romeu Martins publica 15 poemas e ainda: o Roteiro Moderno, que dedica à memória de Caetano Filomeno de Sá. No entanto, por amor à verdade, devemos reconhecer que a poética-colonial de Romeu Martins é de grande qualidade estética, talvez comparável com África Raiz, a grande poesia de Fernanda de Castro. É ainda uma poética de natureza historiográfica que, com um discurso típico da ideologia do Estado Novo, procura aqui e acolá enaltecer os heróis da colonização e cruzada guineenses, ao mesmo tempo que coloca Portugal como o horizonte messiânico dos guineenses, em suma, uma elegia ao culto da magnanimidade histórica de Portugal, o Portugal das descobertas que deu novos mundos ao Mundo.

Porém, antes de fecharmos este percurso pela Literatura Colonial Guineense, permitam-nos debruçarmos um pouco sobre dois autores cujos nomes se pode apontar entre os mais válidos da geração que viveu a guerra colonial na Guiné. Trata-se de José Martins Garcia, que escreveu O Lugar de Massacre, sem dúvida a melhor obra de literatura da guerra colonial da Guiné: de um realismo extraordinário, nela se descreve a essência filosófica dos que na arena de guerra lutaram por um ideal que se esforçavam em vão por compreender; o ideal que jamais se poderá omitir, ou seja, o princípio transcendente que supera as capacidades conjecturais do homem confrontado com o abandono e a morte e que está para aquém e para além dos marcos sensíveis – o espírito. Ousamos mesmo dizer que O Lugar de Massacre revela-se de uma importância incomensurável, mesmo do ponto de vista africano. O outro autor é o Armor Pires Mota, autor do Diário íntimo de um soldado, Tarrafo, e do livro de poemas Baga-Baga e ainda do livro de contos intitulado Guiné Sol e Sangue. Nos seus escritos, não é raro depararmos amiúde com considerações que denotam a existência no autor de preconceitos:

Sou o teu irmão mais velho,
Sou negro também dentro de mim! (23)

Mas em Armor Pires também se vislumbra a mensagem da igualdade e da justiça entre europeus e africanos, numa descrição poética que se reporta à guerra colonial e cujo principal mérito é a serenidade dramática, testemunhando, sobretudo, um estado de alma – uma visão poética da guerra colonial:

É urgente libertar os meninos negros e brancos,
e dar às mães as estrelas
e as rosas de uma madrugada pura e imensa (24)

Porém, foi em 1956 que surgiu O Bolamense, sem dúvida, o jornal guineense de maior impacto cultural e literário. Nele, foram publicados muitos poemas que cantam com saudosismo os tempos difíceis em que Bolama, a velha cidade, era a capital da Guiné. Dos poemas publicados, vislumbra-se urna poética um tanto ou quanto apolíticas ou se quisermos, pitoresca e turística. Era, de resto, um jornal que pugnava pela História da Guiné – entenda-se História Colonialista –, ao mesmo tempo que procurava legitimar a colonização portuguesa ante o movimento libertário que, embrionariamente, ia dando os primeiros passos.


Conclusão

Em jeito de conclusão, gostaríamos de referir alguns aspectos deste estudo que merecem uma melhor explicação. E a primeira ideia que nos ocorre é a de que a Literatura Colonial não depende da realidade habitual e do contexto em que foi produzida uma vez que dela se separou e continua a viver depois de esta ter morrido. Isto é tanto mais verdade quanto é certo que, na obra literária, o assunto é de tal modo elaborado que não subsiste como valor puramente humano, sujeito a qualquer juízo prático. O assunto extingue-se para renascer noutra esfera. É exactamente tendo em conta este postulado que atribuímos à Literatura Colonial uma importância particular no que concerne ao seu relacionamento com a Literatura Nacional.

Com isto, não pretendemos inferir que a Literatura Nacional nasceu directamente na sequência da Colonial. Somos da opinião que, efectivamente, são duas coisas distintas, mas que se articulam por elos histórico-culturais e linguísticos. É axiomático que as motivações nortearam um e outro discurso literário em direcções opostas. Por isso, não nos parece legítimo a evocação de autores como Amílcar Cabral e Vasco Cabral – cujos alguns poemas datam da época colonial – para argumentar que a Literatura Nacional não nasceu do nada.

Ora, não esqueçamos que estes dois autores guineenses comparticiparam do espírito da Casa dos Estudantes do Império, da Negritude literária e demais inquietações a que estavam expostos os estudantes africanos em Portugal, ainda em pleno período colonial. Torna-se pois necessários (utilizando a expressão de Manuel Ferreira) separar o trigo do joio sem, todavia, esquecermos as grandes afinidades culturais entre uma e outra literatura, donde a finalidade fundamental do nosso estudo, convictos como estamos de que a História Literária só pode ser a História da Cultura Literária.

Eis chegado o momento de fecharmos esta modesta incursão pela Literatura Colonial Guineense. Ora, fazemo-lo com a consciência de que muito falta ainda para esclarecer e informar a seu respeito. Só a crítica e a estilística poderão penetrar mais profundamente o objecto de estudo em questão, pelo que aqui se regista um apelo aos especialistas na matéria. E porque aspectos positivos há a extrair da Literatura Colonial, interessa – como dizia Amílcar Cabral – aproveitar os aspectos positivos decorrentes da colonização, não só para enriquecermos a descolonização literária em curso, mas também para enquadrarmos sem complexos a componente cultural do passado que se cimentou indelevelmente na nossa cultura nacional.

E porque também no arraial de provações, de quezílias, de lutas e agravos que constitui a História Política da Guiné-Bissau, orgulhosa da sua luta de libertação, importa afastar derrotismos que de alguma forma possam gerar uma crise cultural de consciência e identidade, toma-se necessária a inclusão da Literatura Colonial no conjunto temático preferencial de estudo, a par de outros que se afiguram importantes. Isto porque, passados quinze anos do fecho do ciclo colonial, o Portugal Democrático e os novos Estados africanos de língua oficial portuguesa não são meros co-herdeiros de uma mesma tradição cultural – a colonial. São, creio bem, portadores da mesma missão que é a da construção da nação.

Leopoldo Amado


OBS do Editor:
- Subtítulo da responsabilidade do Editor

- Leopoldo Amado é Doutor em História Contemporânea pela Universidade Clássica de Lisboa, Faculdade Letras de Lisboa), sob a temática Guerra Colonial da Guiné versus Luta de libertação Nacional, 1961 – 1974)
__________

Notas de CV:

(*) Vd. poste de 16 de Abril de 2008 Guiné 63/74 - P2766: Álbum das Glórias (42): As melhores ostras de Bissau, em O Arauto, de 27 de Julho de 1967 (Benito Neves, CCAV 1484)

(**) Vd. poste de 12 de Fevereiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3878: Historiografia da presença portuguesa (18): O sítio Memória de África ® (Afonso Sousa

Vd. postes da série de:

22 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5141: Historiografia da presença portuguesa (24): A Literatura Colonial Guineense (Leopoldo Amado) (I): Introdução
e
23 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5144: Historiografia da presença portuguesa (25): A Literatura colonial guineense (Leopoldo Amado) (II): A primeira tipografia em 1879

Guiné 63/74 - P5144: Historiografia da presença portuguesa (25): A Literatur...

via Luís Graça & Camaradas da Guiné de Carlos Vinhal em 23/10/09
A literatura colonial guineense (Parte 2)
Por Leopoldo Amado
(2.ª parte)

Desde a primeira tipografia em 1879, até à década de 30 do século XX

O último quartel do século XIX foi deveras decisivo para a colonização portuguesa da Guiné, pois que ante a resistência dos guineenses e a cobiça estrangeira, Portugal foi obrigado a acelerar os seus propósitos de colonização com a implantação compulsória da administração e a criação de um mínimo de infra-estruturas que garantissem a soberania sobre o território. Em 1870 Portugal saiu vencedor da disputa por Bolama em que se vira envolvido com os Ingleses, mediante a sentença arbitral do Presidente norte-americano, Ulisses Grant. Criaram-se então as condições para a autonomização administrativa do território, até aí sob tutela do Governo-geral de Cabo Verde. Assim, em 1879, a Guiné tinha ganho o estatuto de Província e Bolama, que em 1871 tinha ganho estatuto de Concelho passa a ser a capital da Província, passando o Governo da Guiné a preocupar-se mais com as guerras de pacificação e consequente implantação da administração, processo esse que se estendeu, grosso modo, até aos finais da década de 30 do século XX.

Dominada (?) a resistência dos africanos, temperadas as desavenças, os colonos entregaram-se às tarefas mais prementes como, por exemplo, a instalação da tipografia em 1879 e a criação do Boletim Oficial da Guiné em 1880 que, não obstante alguns pequenos hiatos, foi publicado ininterruptamente até 1974. E o que as agruras do clima e as guerras de pacificação não conseguiam fazer, alcançava-o o anseio do tempo memorial vivido, a sombra de um passado esfumado ao longe, como atestam os primeiros jornais publicados na Guiné: Ecos da Guiné em 1920, A Voz da Guiné em 1922 e Pró-Guiné em 1924. Estava-se ainda na fase em que a saudade da terra-mãe gravitava em volta dos demais temas e motivos de literatura jornalística ao mesmo tempo que a apologia do desenvolvimento colonial era a tónica omnipresente.

Vivia-se até dos rescaldos decorrentes da implantação da República na metrópole, tanto mais que dois desses periódicos pioneiros, A Voz da Guiné e o Pró-Guiné se intitulavam, respectivamente, de quinzenário republicano independente e órgão do Partido Republicano Democrático. Raras vezes se fazia referência à população africana, pois era bastante diminuta, senão insignificante, a sua presença na vida urbana colonial, na qual, aliás, era somente a tolerada pelos serviços domésticos que realizavam junto dos colonos. Quando se dizia entusiasticamente que quando alcançarmos a meta das nossas mais caras aspirações, erguendo bem alto (...) o nome de Portugal..., faziam-no por exclusão de partes; decerto não pensavam na população africana que ainda não tinha conquistado qualquer outro estatuto social que não o de selvagens.

Se por um lado se assistia ao surgimento, ainda ténue, daquilo a que se poderia impropriamente chamar elite africana, por outro, a embrionária cristianização ainda não tinha desabrochado os seus frutos. O agente da administração, o soldado e o comerciante estavam todos entregues a uma vida enfadonha de procura de posses a que também os missionários não foram alheios. Era isso que reflectia a imprensa da época: um ambiente em que proliferava a maledicência, onde uma multidão burocrática efusiva se projectava nos jornais, uns contra os outros, em ataques e contra-ataques; em suma, um ambiente que denotava fortemente o sentimento generalizado de degradação moral e política a que estavam sujeitos os colonos na Guiné.

Daí que não se produziu literatura no sentido estrito da palavra, salvo algumas manifestações poéticas (poucas) que, mesmo assim, pouco ou nada tinham de africano. Era, pois, a fase da saudade, a saudade que os consumia porque além da inexistência de uma atmosfera propícia ao fluxo cultural recíproco entre europeus e africano - agravada ainda pelas guerras de pacificação –, o ethós curioso do colono foi insensível ao conhecimento das balizas do mundo, do diferente e, paradoxalmente, até do exótico. Nem a magnificência do cenário, de fascínio quase narcotizante aos olhos europeus da altura foi capaz de despoletar manifestações literárias, nem mesmo aquelas empapadas de exotismo como as produzidas, por exemplo, no mesmo período, em Angola ou Moçambique. Quando em Março de 1922 O Século publicou uma notícia que dava conta que um médico brasileiro provou ser capaz de mudar indivíduos negros em brancos, A Voz da Guiné comentou o facto da seguinte maneira: "... Ora lavre lá dos tentos o Senhor Oclávio, e faça rapidamente, essa maravilha, porque nos livra deste grande mal: a dúvida em que estamos sempre de quais serão os pretos... Mas por favor, não os deixe com malhas". De resto, é evidente a ousadia e a sem cerimónia com que foi publicado este comentário, o que só prova a inexistência na época de uma elite africana esclarecida que pudesse desencorajar a sua publicação.

É que na Guiné da época, já o dissemos, as condições de inserção social do africano na sociedade colonial não foram de molde a que isso pudesse acontecer, à semelhança, por exemplo, do papel precursor e catalisador que teve a Revista Luz e Crença em Angola, revista essa que impulsionou a criação da Associação Literária Angolense. Tanto assim era o ambiente de relacionamento entre portugueses e africanos que nas primeiras décadas do nosso século não surgiu nenhum guineense que merecesse o designativo de continuador da obra de Marcelino Marques Barros, figura importante do último quartel do século XIX que, em nossa opinião, terá lançado os germens da identidade nacional guineense, à qual está indiscutivelmente ligada a sua opção de estudo do crioulo e de algumas línguas nacionais.

Nem mesmo o escuro e obscuro português, como o próprio Honório Barreto se intitulava, foi tão longe em matéria de nacionalismo como Marcelino Marques de Barros, não obstante se deverem àquele as constantes denúncias do racismo colonial, hesitantes embora, dado os cargos que desempenhou em colaboração com o sistema colonial. Como repetidas vezes já dissemos, as condições de inserção do guineense na sociedade colonial eram muito reduzidas, salvo casos muito pontuais. E a provar isso recorremos ao artigo segundo do decreto número 16.473 de 6 de Dezembro de 1922, que pregava: para efeitos do presente estatuto são considerados indígenas os indivíduos de raça negra ou dela descendente que, pela sua ilustração e costumes, se distingam do comum daquela raça; e não indígenas, os indivíduos de qualquer raça que não estejam nestas condições. Como se pode ver por esta disposição legal, estavam criadas as condições jurídicas para a marginalização social do guineense, se considerarmos a clivagem institucionalizada e ainda o grau de instrução, que era quase nulo.

Quanto à cristianização, também não prosperou significativamente. Cacheu, que antes de 1932 era o centro religioso mais importante da Guiné, tinha pouco mais de mil devotos que, mesmo assim, amiúde regressam às suas práticas religiosas tradicionais. A escola-oficina da Missão de Bolama, instituição que mais produziu guineenses letrados na altura, foi fundada em 1933, quando Cacheu, até então considerada como o apanágio da designação Roma da Guiné, perdeu o papel de primazia ante a importância religiosa que Bolama adquiriu devido essencialmente à emigração em massa de caboverdianos.

Antes da chegada em massa de caboverdianos, de facto, a bifurcação entre a sociedade guineense e a colonial era bastante mais acentuada. Foi o elemento étnico caboverdiano que aproximou as duas componentes sociais que coexistiam quase separadamente. E não foi por mero acaso que tal foi possível: a chegada em massa de emigrantes caboverdianos foi encorajada pelas autoridades coloniais com o fim de propiciar a miscigenação cultural e biológica, pensando erradamente – como mais tarde se provou – que o ambiente dela decorrente iria ao encontro dos propósitos do sistema colonial. Curiosamente, a emigração massiva de caboverdianos para a Guiné coincidiu no tempo com um período de menos tensão social, pelo que pode ser tido como um marco de referência no processo de implantação da colonização efectiva na Guiné, sem receio de exagerarmos, pois basta ter em conta o peso dos caboverdianos na administração colonial da Guiné.

Ora, se é verdade que a emigração cabo-verdiana para a Guiné provocou grandes alterações na estrutura social que prevalecia antes, não é menos verdade que, por outro lado, a sua presença e posição social terão facilitado a crioulização social em toda a Guiné. Assim, se por um lado o contacto entre caboverdianos e guineenses foi salutar graças às afinidades históricas e linguísticas (prova isso que ambos eram subjugados pelo colonialismo, pelo que decidiram lutar juntos pela sua libertação), por outro, os guineenses não viam com bons olhos a identificação e, em alguns casos, a colaboração que os caboverdianos, na verdade, prestaram ao aparelho colonial--administrativo na Guiné. Porém, hoje que a reminiscência do passado colonial tende a revelar-se menos forte do que a vontade dos povos em se entenderem, torna-se um imperativo inadiável a necessidade de enquadramento cultural das contribuições valiosas de características coloniais que alguns caboverdianos assinaram, sendo de destacar no domínio literário os exímios romancistas Fausto Duarte e João Augusto Silva, e no ensaio, Juvenal Cabral (pai de Amílcar Cabral) e Fernando Pais de Figueiredo (7).

No que diz respeito aos guineenses, se exceptuarmos os estudos de Marcelino Marques Barros e alguns artigos de Caetano Filomeno de Sá com interesse de estudo na perspectiva da Literatura Colonial, somos forçados a admitir que aos guineenses, a política colonial nunca permitiu o acesso em massa à cultura e à instrução, o que explica em medida considerável as razões porque na Guiné colonial não terá existido um movimento literário ou cultural que pudesse de algum modo constituir-se no embrião da literatura nacional, à semelhança, por exemplo, de Vamos descobrir Angola ou do movimento Claridade, no caso caboverdiano. Estamos mesmo em crer que aos guineenses não foram abertos outros caminhos que não o da resistência contra a colonização, mesmo depois de terminadas as guerras de pacificação (8).

Escusado é pois dizer que as condições nas duas primeiras décadas não eram propícias ao florescimento literário. À excepção de alguma actividade jornalística que esporadicamente publicava uma poética saudosista-colonial, que saibamos, não foi publicado qualquer outra obra literária colonial além do poema Desejo Mórbido de Maria Archer e Mariazinha em África*, de Fernanda de Castro. Aquela, sequiosa de exotismo tropical, canta prodigiosamente os mistérios do sertão ao mesmo tempo que estabelece os contrastes entre a metrópole e a Guiné. Como quer que seja, Maria Archer figura como a primeira literata-colonial guineense e o seu poema Desejo Mórbido, data de 1918.

Foi, na verdade, Fernanda de Castro (s) quem, deliberadamente ou não, introduziu, se se quer, uma literatura social na qual era tida em linha de conta a realidade da sociedade guineense e colonial da altura. Ousamos mesmo dizer que a produção literária-colonial desta autora inaugurou – do ponto de vista historicista – um novo período, não só devido à introdução de um discurso literário novo, como também pelas transformações sociais e sociológicas de que a sua produção literária-colonial são o prenúncio, o testemunho e o reflexo. As reedições aumentadas, mas sobretudo alteradas, do best-seller Mariazinha em África (9) conferem uma particularidade flagrante aos escritos desta autora, na medida em que permitem-nos discernir as atitudes do Estado Novo perante a política colonial da Guiné. Além disso, não é apenas o exotismo, o paternalismo e o desconhecimento do outro civilizacional que faz da produção literária-colonial uma peça-chave para a compreensão das metamorfoses da política oficial de que também comungava Fernanda de Castro (10). É, digamos assim, a idiossincrasia com que encarou a sua produção literária-colonial, o que a forçou nas reedições havidas a alterações ideográficas de fundo, de forma a se equidistar do Estado Novo que, paradoxalmente, apregoava a multirracialidade. O racismo colonial, hábil, tinha também uma actuação e respectiva teorização correspondente. Nuns artigos que publicámos no jornal Angolê – Artes & Letras, demonstramos através de um estudo comparativo de diferentes edições de Mariazinha em África a forma como ela foi procedendo a uma gradual suavização da visão colonial ou colonialista do negro-africano, ou seja, da carga conceptual e preconceitual pejorativas.

Já escrevemos algures que o livro de Fernanda de Castro Mariazinha em África teve mais de um dezena de edições que percorreram gerações, e a autora vangloria-se quando diz que «este livro está certamente entre os livros mais vendidos em Portugal». Ora, se por um lado o facto se deveu à capacidade da autora enquanto escritora, por outro também é verdade que o facto de ter sido mulher de António Ferro (braço direito de Salazar) valeu-lhe intervenções públicas de particular interesse. Outro aspecto importante que ressalta dos escritos coloniais de Fernanda de Castro é o deles serem, em termos de intriga textual, factos arrancados à vida real a que não falta um certo teor autobiográfico, que derrapa, regra geral, em construções artificiais, empapados de elementos misteriosos – onde os nomes e as designações geográficas, mesmo quando verdadeiros, apenas figuram como criadores de uma atmosfera exótica.

Depois de Fernanda de Castro, seguir-se-ia um hiato até 1931, altura em que surge o primeiro jornal editado por um guineense. Trata-se de Armando António Pereira, de quem já recolhemos depoimentos para futuros trabalhos. O periódico em causa, O Comércio da Guiné representava não só os interesses comerciais da colónia como também atribuía uma grande importância aos aspectos culturais em geral. Depois do hiato a que já fizemos referência, O Comércio da Guiné aparece como corolário duma situação ambiental de menor tensão social e racial, decorrentes dos problemas que a resistência africana provocava e que absorvia quase totalmente o governo colonial. Doravante o Governo da Guiné tem unicamente a orientá-lo as exigências da nacionalização da colónia e o estabelecimento de condições indispensáveis ao florescimento do comércio colonial. É neste contexto que Bissau ganha rapidamente importância como porto de óptima navegação, e dela resulta o grande movimento comercial no seu interior, donde o reassumir da sua importância em relação a Bolama (11). Em termos da chamada política indígena, passa-se paulatinamente a uma fase que chamaríamos assimilacionismo, pois começou-se a vislumbrar na política colonial da Guiné a tendência para a aproximação social de alguns guineenses com fins previamente visados. Foi nestas condições histórico-sociológicas que O Comércio da Guiné surge em Bissau, em 1931, sendo dirigido por Armando António Pereira, talvez o único guineense com formação superior na altura.

Todavia, convém que se diga, O Comércio da Guiné não se afastou muito do discurso colonial, apesar de se ter assumido, vagamente, como defensor dos interesses indígenas (sic).

No que concerne à produção literária-colonial, O Comércio da Guiné publicou alguma poética que, também, pouco ou nada tinha a ver com a Guiné. No domínio do ensaio destacou-se Fausto Duarte, que também era repórter, cronista desportivo e colunista. Nomes como o de Juvenal Cabral, Alberto Gomes Pimentel e Álvaro Coelho de Mendonça, figuram n' O Comércio da Guiné como autores de inúmeros artigos com algum interesse de estudo na perspectiva da Literatura Colonial. Embora se intitulasse de órgão dos interesses da colónia, O Comércio da Guiné transcendeu largamente os objectivos primeiros da sua fundação. Foi nele que Fausto Duarte começou a revelar os seus talentos de escritor colonial para mais tarde se transformar, em nossa opinião, no melhor e mais esclarecido romancista guineense. Por ocasião da primeira exposição colonial de Paris de 1931, O Comércio da Guiné dedicou um número especial ao evento, onde se destacou a etnografia guineense, os aspectos tradicionais da cultura guineense e ainda um artigo intitulado "Literatura Colonial", não assinado, mas que supomos ser da autoria de Fausto Duarte. Este artigo representa por parte do autor uma consciência profunda dos aspectos teóricos e definicionais da Literatura, além de demonstrar que a década de 30 era caracterizada por um novo discurso literário para o caso guineense; um período em que a Literatura Colonial da Guiné, influenciada pela Literatura Colonial francófona, ia aos poucos relegando para segundo plano a faceta eivada de idealismos, de conceitos morais doutrinários, para se interessar pelo folclore africano... (12).

Em 1931, Afonso Correia publica o livro Bacomé Sambú (13). Trata-se, antes de mais, de uma obra deveras paternalista e exótica, em suma, um misto de ficção, romance e etnologia sobre os nalús. Bacomé Sambú, que é o protagonista da intriga textual, era um nalú a quem o administrador apadrinhara e acarinhava longamente a sua timidez, a sua inocência, encaminhando-o na vida, ensinando-lhe a língua portuguesa com uma paciência que tinha algo de evangélica. Deste extracto sobressai imediatamente o paternalismo feroz, produto de uma mentalidade estigmatizada e verdadeiramente colonial. Ao longo de toda a obra é-se forçado pelo autor a admitir que Bacomé Sambú não é preto mas sim pretito, isto é, duplamente diminuído, donde a necessidade de apadrinhamento da sua tribo/raça pelo administrador ou pelos colonos. Por isso, a dado passo escreveu: "Bacomé estava já no caminho amplo das leis dos brancos, aprendendo com eles a raciocinar sobre a vida e encontrando-se à sua protecção para viver farto e feliz" (14) . Estava-se pois na fase do assimilacionismo colonial e Afonso Correia, amiúde, punha na boca das suas personagens uma espécie de auto-convicção da sua inferioridade nata em relação aos brancos. A par disso, associa os conceitos ocidentais de miséria e felicidade à análise que efectua sem qualquer relativismo cultural, de resto, muito comum na literatura colonial de então. Ao mato, associa todo um imaginário preconcebido ou estereotipado de perigo, do negro – sintomaticamente a cor do guineense –, da fauna selvagem, do exotismo e mistério, do medo e do tédio.

Porém, não recusamos a hipótese dum certo enraizamento africano de Afonso Correia tendo em linha de conta algumas incursões que efectua e bem sobre a psicologia nalú. Por outro lado, somos forçados a considerar a obra deste autor como um caso típico de retrocesso ideográfico em relação ao contexto histórico-cultural da sua época. Tanto assim é que, na sua obra, Afonso Correia recorre aos termos de referência obrigatória com que a Literatura Colonial dos primeiros tempos caracterizava o africano. São eles a indolência (insensibilidade moral, indiferença, apatia, inacção e ócio), os excessos (o sexo, a gula e a extravagância) e, por fim, a irresponsabilidade (que pregava que o negro é uma grande criança) e a sofreguidão (que atribuía ao negro a adjectivação de bêbados incorrigíveis). De resto, Bacomé Sambú é uma obra algo enfadonha que, como opinou 0 Comércio da Guiné, "serve-se de um enredo fantasista em que aparece a paisagem matizada de Cacine e a descrição dos usos e costumes pitorescos dós nalús. As observações ligeiras que enfeitam todo o motivo estampam-se numa prosa escorreita, despreocupada" (15).

Quanto à imprensa, a década de 30 nem por isso foi fértil. Ao Comércio da Guiné sucederam três outros jornais, todos de número único e sem qualquer importância para o sujeito em estudo. Foram eles, respectivamente, o 15 de Agosto (1932), Sport Lisboa e Bolama (1938) e A Guiné Agradecida (1939).

Ainda na década de 30, António de Cértima revelou-se um escritor colonial de talento. Inicialmente como colaborador d' O Comércio da Guiné e, mais tarde, como cônsul português em Dakar, onde escreveu lindos poemas e prosas de inspiração guineo-senegalesa com muito interesse de estudo. António de Cértima foi autor do maravilhoso livro de viagens Sortilégio Senegalês, onde, numa amálgama de nacionalismo pátrio e algum enraizamento guineense, construiu todo um postulado teórico da sua visão colonial, numa narração plena e multímoda.

Mas foi sobretudo Fausto Duarte que, depois de ter chegado à Guiné em 1928, revela em 1934 com seu livro Auá** uma Guiné diferente daquela que fora pintada na Literatura Colonial até aí (16). As suas funções de agrimensor permitiram-lhe rapidamente um contacto profundo com as populações da Guiné, pelo que partiu, antes de mais, da identificação cultural do povo guineense para encetar uma incursão romanesca que revelou, de forma singular, um conhecimento não só das componentes sociocultural e linguística, como também da sua articulação intrínseca. Tal proeza originou por parte de Benjamim Pinto Bull uma atitude intelectual em que, sem hesitações, coloca Fausto Duarte entre os primeiros, senão mesmo o primeiro, a lançar as sementes de uma identidade nacional (17). Não obstante congratularmo-nos: em parte com Benjamim Pinto Bull, restam-nos as naturais reservas que nos sugerem o estudo global da produção literária-colonial de Fausto Duarte. Não há dúvidas de que Fausto Duarte apostou estranhadamente na descrição romanesca e omnipresente do confronto civilizacional, mas, por exemplo, em Auá descortina-se um paternalismo algo tímido na penetração nos valores culturais guineenses. Ora, Benjamim Pinto Bull atribui isso à vigilância da PIDE (18). Todavia, estamos em crer que a atitude de Fausto Duarte não se deveu unicamente ao poder dissuasivo da polícia política, mas também às condições ambientais da época em termos de visão que se tinha do africano. A provar isso está bem patente nas páginas do seu livro Foram Estes os Vencidos o seu paternalismo relativamente aos africanos. Igualmente, encontramos em Negro sem Alma considerações que denotam fortemente a existência em Fausto Duarte uma espécie de preconceito interiorizado. Senão vejamos: "...o instinto sanguinário adormecido na alma dos pretos despertou com inaudita violência..." (19) ou ainda "...abandonando-o, o negro é um pobre corpo sem alma, um vagabundo nostálgico que caminha titubeante atraído pela sombra como as térmitas" (20). Por outro lado, não esqueçamos que Fausto Duarte era mestiço, elemento que não era totalmente aceite nem pelos africanos, nem pelos europeus no contexto colonial, donde, talvez, a sua ambivalência e ambiguidade cultural. Seja como for, Fausto Duarte revelou-se como um conhecedor profundo da Guiné assim como da alma guineense. Também é certo que nenhum outro escritor colonial logrou atingir a plenitude das narrações sobre a Guiné que o seu punho brilhante impregnou nas suas obras. De facto, a sua produção literária-colonial foi revolucionária dentro do contexto colonial guineense, pelo simples facto desse autor possuir um poder de observação sociológica extraordinário e, ainda, uma paradoxal consciência de africanidade que se lhe pode atribuir sem reservas.

Por ocasião da primeira exposição colonial portuguesa no Porto, em 1934, Fausto Duarte foi prelector do seguinte tema: "Da Literatura Colonial e da Morna de Cabo Verde". Descortina-se neste casamento temático, de alguma forma ligado por elos culturais, a tentativa de demonstrar que a Literatura Colonial e a Morna são ambas de mesma raiz cultural – a portugalidade dos trópicos. Não é nossa intenção problematizar aqui a fundamentação desta suposição que não cremos descabida de todo. Tão-somente queríamos chamar a atenção do quid híbrido de Fausto Duarte, o que abona em favor da tese que até aqui temos sustentado, sem anular a nossa profunda convicção de que Fausto Duarte também possuía a consciência da identidade cultural guineense, mas algo que se aproxima em muito daquilo a que hoje se chama, convencionalmente, de protonacionalismo.

Ora, o mérito de Fausto Duarte vai ainda mais longe. Era, digamos assim, o grande teorizador da ideografia literária-colonial, à qual associava um discurso de apelo à justiça ou, se quisermos, moralista: "...não se faz psicologia; descreveu-se apenas a floresta virgem, as cruéis fadigas da jornada, à medida que o litoral se confundia com a linha do horizonte. Os indígenas eram tão-somente animais de uma outra espécie, sem sensibilidade para amar, sem inteligência para compreender (...) depois procurou-se o horrível e o extraordinário. Surgem romances de aventuras que nos pintam o negro como o maior inimigo da selva, em constantes hostilidades. E a mulher indígena apaga-se ante os preconceitos aristocráticos. O amor entre eles tem apenas uma finalidade objectiva. Falta a justeza da expressão nessas literaturas incipientes. Adeja sobre a África uma incompreensível fatalidade (...) é necessário antes o contacto directo com a sua mentalidade, perguntar-lhe a vida e compreender-lhe as superstições" (21). Em 1945, Fausto Duarte fecha o seu percurso literário colonial com o livro intitulado A Revolta. Mais que um romance, esta obra é um preciosíssimo documento histórico para a História cultural e das mentalidades subjacentes às guerras de pacificação pois, à semelhança das restantes, privilegia o confronto cultural, desta vez não só entre portugueses, guineenses e caboverdianos, mas fundamentalmente entre as diferentes identidades da Guiné.

Em 1935, Landerset Simões, que exercia funções administrativas e posteriormente militares, publica a Babel Negra, sem dúvida um livro de incalculável interesse, e talvez dos estudos etno-antropológicos cientificamente melhor elaborados sobre a Guiné. Por se tratar de uma espécie de antologia etnográfica e etnológica da Guiné, apresenta algum interesse do ponto de vista literário. E porque remete os leitores para uma ancestralidade étnica remota, que se reporta à História da Guiné e suas populações, Babel Negra figura como a primeira tentativa de desmistificação histórica num contexto ideográfico e cultural em que era lugar-comum supor-se que os africanos não possuem a escrita e, consequentemente, a História. Pela primeira vez um autor colonial debruça-se sobre a arte guineense com postulados metodológicos e conceptuais que se opõem diametralmente às ideias que na Europa se ventilavam sobre a arte africana.

Um ano depois, em 1936, João Augusto Silva publica África – da vida e do amor na selva, que obteve o primeiro prémio de Literatura Colonial. A par das obras de Fausto Duarte, ela surge como uma das obras que mais intensamente penetrou a psicologia e a cultura guineenses. Porém, o grande mérito desta obra reside no facto de ser um testemunho vivo das vicissitudes da implantação da administração na Guiné, além de representar um retrato, bem conseguido, da sociedade colonial da década de 30. Diz o autor – e com razão – que a colonização é feita pelas mais desvairadas gentes, desde os revolucionários e bandidos políticos que para ali foram, pacatamente gozar as recompensas que os seus grupos lhas concederam, até àquelas generosas almas que procuram em África o esquecimento das misérias terrenas (...) deste forçado entrechocar de educações e sensibilidade, nasce uma sociedade odiosa, onde, quase sempre, triunfam aqueles que deviam ser postos à margem dela, pelos seus crimes, suas vilanias e a sua desprezível moral (...); e só vivem para explorar o negro, maltratá-lo... (22)

OBS:-Subtítulo da responsabilidade do co-editor
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 5 de Dezembro de 2008 > Guiné 63/74 - P3565: A literatura colonial (1): Fernanda de Castro ou a Mariazinha em África, romance infantil, de 1925 (Beja Santos)

(**) Vd. poste de 10 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3716: A literatura colonial (2): Auá, novela negra, de Fausto Duarte, uma obra-prima (Beja Santos)

Vd. primeiro poste da série de 22 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5141: Historiografia da presença portuguesa (24): A Literatura Colonial Guineense (Leopoldo Amado) (I): Introdução

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Guiné 63/74 - P5141: Historiografia da presença portuguesa (24): A Literatur...

Guiné 63/74 - P5141: Historiografia da presença portuguesa (24): A Literatura Colonial Guineense (Leopoldo Amado) (I): Introdução

via Luís Graça & Camaradas da Guiné de Carlos Vinhal em 22/10/09
1. Dizia-nos Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), em mensagem do dia 1 de Outubro de 2009:

Luís e Carlos,
Para mim, este livro é uma inteira revelação. Nem o Leopoldo Amado o menciona no seu importantíssimo ensaio "A literatura colonial guineense". Tenho muito orgulho em passar esta informação para dentro da nossa caserna.

Um abraço do Mário

Esta mensagem e respectivo anexo deu origem ao poste 5069* que começava assim:

A Guiné e o 1.º Prémio da literatura colonial, 1936
por Beja Santos

É curioso como o título "África, da vida e do amor da selva" consta de toda a bibliografia elementar da história da Guiné e nunca foi me foi possível encontrar a obra nas principais bibliotecas. Na verdade, o autor mencionado é sempre João Silva e agora, quando finalmente encontrei o livro, o nome que consta é João Augusto. Trata-se de uma obra a vários títulos singular, pode perfeitamente emparceirar, pelo grau de importância, com "Mariazinha em África", de Fernanda de Castro, e "Auá", de Fausto Duarte, duas obras pioneiras na literatura colonial guineense. Não consegui encontrar quaisquer referências a João Augusto que, conforme se pode ler no livro "África, da vida e do amor da selva" viveu bastantes anos na Guiné (e pelo menos durante seis anos foi caçador). O que ainda aguça mais a curiosidade é querer descobrir o que ali fez João Augusto (Silva) e como estabeleceu uma relação tão profunda com a Guiné e o seu povo. Um desafio para todos nós, em Portugal e na Guiné. [...]


2. Em 7 de Outubro recebemos de Carlos Schwarz (Pepito), que é Eng.º Agrónomo, dirigente da AD - Acção para o Desenvolvimento, e membro da nossa Tabanca Grande, uma mensagem que deu origem ao poste 5084**, de onde salientamos:

Luís,
Vi hoje a observação do Beja Santos com a descoberta do João Augusto Silva. Fartei-me de rir com o facto, uma vez que ele é meu tio e deixou marca na sua passagem por cá. Tinha um sentido de humor fabuloso e eu tinha uma adoração especial por ele, até porque era muito parecido com o irmão mais novo, o meu pai. Tinha uma imaginação prodigiosa. [...]


3. No dia 17 de Outubro de 2009, recebemos do nosso Tertuliano Leopoldo Amado (Doutor em História Contemporânea pela Universidade Clássica de Lisboa, Faculdade Letras de Lisboa), sob a temática Guerra Colonial da Guiné versus Luta de libertação Nacional, 1961 – 1974) esta mensagem:

Caro Beja Santos,
É verdade que não mencionei este livro no pequeno trabalho que escrevi (e partilhei convosco) sobre a literatura de guerra colonial sobre a Guiné. Mas conheço a obra desde os idos anos de oitenta (talvez 1985) pela mão do meu então mestre da cadeira de História da Cultura Portuguesa da FLL, Prof. João Medina, que na altura deu-me emprestado o livro sem me informar que era do pai.

Lembro-me que li de um só fôlego esse livro que achei maravilhoso e só foi então que o meu mestre (eterno mestre, diga-se de passagem!) deu-me a conhecer que o autor era seu pai. Aliás, foi também o Prof. Medina que me proporcionou a leitura de Auá, de Fausto Duarte e Babel Negra, de Landerset Simões, obras que me serviram de base à pesquisa e posterior elaboração de um extenso artigo sobre a Literatura Colonial Guineense, publicado primeiro na extinta Revista do ICALP (Instituto de Cultura e Língua Portuguesa) e depois em Bissau (revisto e aumentado), na Revista Soronda, do INEP.

Nessas publicações, obviamente, foi referenciado o livro de João Augusto Silva (vide anexo).

Aqui vai, para ti, Luís Graça, João Tunes, Carlos Vinhal, Pedro Fiso, Pepito, Santiago, Mário Dias e ainda todos os outros camaradas da Tabanca Grande - que vêm esforçando para que a memória simplesmente não se apague - um singelo mas grande abraço de saudades.
Leopoldo Amado


A Literatura colonial guineense - Parte I (1)
por Leopoldo Amado

Uma tentativa de análise histórico-cultural da Literatura Colonial Guineense, da sua evolução diacrónica e sociológica que desembocou nesta cumplicidade cultural de que hoje somos portadores.


Introdução

Remonta ao século XIX o surgimento massivo da Literatura Colonial Portuguesa, não obstante podermos recuar até ao século XVII para situar alguma literatura que, ocasionalmente, se produziu no contexto do Império Colonial Português (2) . Todavia, foi essencialmente na década de 20 do século XIX, após a independência do Brasil, que este género literário ganhou corpus devido essencialmente à política colonial portuguesa de então que, no intuito de substituir a importância económica do Brasil, delineou todo um plano de emigração massiva de colonos portugueses para territórios africanos, com particular incidência para Angola.

Repare-se que na época, como aliás em todo o processo de colonização da Guiné, as preocupações da política colonial eram secundárias em relação, por exemplo, a Angola ou Moçambique. O facto de a política de fomento colonial não ter assumido proporções consideráveis na Guiné, justifica a quase inexistência de uma produção literária no século XIX, assim como nos períodos que lhe antecedem. A associar a isso, ocorre que em termos da definição dos objectivos económico-coloniais da altura, a ocupação da Guiné Portuguesa era justificada mais por questões de prestígio, às quais se juntavam, obviamente, preocupações estritamente comerciais. Consequentemente, os anais da altura põem a descoberto uma sociedade deletéria de degredados e personas non gratas a que não era alheio o sentimento de abandono a que estava votada a Guiné, agravado ainda pelo cenário constante das guerras de pacificação, ou melhor, da resistência africana.

Num momento em que as Literaturas Africanas de expressão portuguesa começam a se afirmar em paralelo com outras literaturas, não só por um processo de redimensionamento cultural que lhe subjaz, mas também pela descolonização literária em curso, pareceu-nos oportuno chamar a atenção para a existência de uma Literatura Colonial produzida na Guiné, ou melhor, de inspiração guineense. Por isso, e por se tratar – ao que sabemos – de uma das primeiras tentativas do género, com todos os riscos que acarreta, vai pois o nosso pedido de indulgência para que este modesto estudo seja tomado como notas a lápis, conquanto possa contribuir para despoletar o interesse de estudos por temáticas como esta com serenidade isenta de ressentimentos reminiscentes ou, ainda, com a naturalidade histórica resultante da convivência intercultural de séculos. Foi apesar disso, e por isso mesmo, que intitulámos este estudo de Literatura Colonial Guineense.

Do ponto de vista metodológico, não nos detivemos tanto em apresentar uma definição da Literatura Colonial que sabemos ser – e com razão – controversa, carecendo de debate conceitual e epistemológico dado o reduzido número de trabalhos publicados sobre o assunto (3).

Por isso, procurámos não utilizar unicamente o critério literário na selecção de fontes, recorrendo também a textos de natureza etnográfica, etnológica, antropológica e, ainda aos contos da tradição oral fixados através da escrita. Para colmatar a ausência definicional da Literatura Colonial, procuraremos ao longo de todo este estudo anunciar, explícita ou tacitamente, a configuração daqueles elementos que encerram um conjunto de valores que cremos essenciais à definição caracteriológica do que eufemísticamente (ainda) se designa por Literatura Colonial.

Como quer que seja, optámos por não nos coibirmos à problematização de algumas considerações conceituais que se prendem com a Literatura Colonial: anteriormente denominada Literatura Ultramarina e mais tarde Literaturas Africanas, a Literatura Colonial, por este facto, revelava-se sincrética nos conceitos a ela ligados. A consciência de que este género literário situado em África mas que nem por isso era africano, levou a que se combatesse tanto a ex pressão Literatura Ultramarina como a de Literatura Africana. Esta por razões que interrogam a sua africanidade, e aquela porque era notória a imagem lírica que os autores transportavam da sua terra. Começou-se então a vislumbrar uma nova definição e, consequentemente, a prática literária-colonial adquiriu uma nova dinâmica de conteúdo Nos anos trinta deste século já não era fácil a aceitação de revelações de turismo intelectual, assim como de sensações estranhas e exóticas.

Ao exotismo passou-se a contrapor a necessidade de avaliar o nível de adaptação dos colonos e ainda o seu relacionamento com o colonizado, numa perspectiva de redefinição conceitual que apontava para a necessidade de privilegiar o estudo da alma primitiva, secundando os conhecimentos técnicos, a sociologia e a antropologia. Isto porque, segundo Robert Cornevin, "os autores coloniais não são metropolitanos de passagem que ficaram ligados à mãe pátria, eles optaram pela colónia e é já não da Europa mas da colónia, que eles presenciam o evoluir dos acontecimentos…" (4) . Posto isto, resta referir que a designação Literatura Colonial possui conotações político-ideológicas que tendem a sobrepor-se à sua axiologia literária-cultural em termos conceptuais. A título de exemplo, autores coloniais como Castro Soromenho (Angola) e Fausto Duarte (Guiné) puderam transpor em certa medida, os parâmetros que a designação impunha para vislumbrarem a busca de uma identidade nacional (5).

E porque houve autores coloniais que avançaram e/ou recuaram relativamente ao contexto histórico-cultural da sua época, resta-nos esperar que o debate conceitual e epistemológico que se avizinha possa aclarar com novas luzes a problemática da Literatura Colonial. Do nosso ponto de vista, temos sempre presente que o que mais interessa de momento é encarar de modo problemático o estudo da Literatura Colonial, convencidos de que só em certo sentido a literatura é objecto historiavel: na exacta medida em que se prende à História das ideias, à História de uma sociedade ou de grupos sociais, à História (biográfica) dos autores ou ainda na medida em que as leituras da obra literária se vão sucedendo no tempo, condicionadas por diferentes conjunturas socioculturais e mutuamente se influenciando. Aliás, concordamos com Tzevetan Todorov quando afirma que "o texto escreve-se através do seu autor mais do que é escrito por ele" (6). Só assim se compreende, cremos nós, o simplismo estéril e lacónico com que, por agora, ousamos definir a Literatura Colonial: obras de carácter literário e afins que se produziram no contexto colonial.

O que pretendemos é proceder a uma tentativa de análise histórico-cultural da Literatura Colonial Guineense, da sua evolução diacrónica e sociológica, que desembocou nesta cumplicidade cultural de que hoje somos portadores. Em seguida procuraremos interrogar as razões porque a Literatura Colonial da Guiné teve um percurso e uma evolução algo diferente em relação às congéneres de Angola, Moçambique e mesmo de São Tomé e Príncipe. Outro objectivo deste estudo prende-se com a preocupação de tentar delimitar ou discernir, tanto quanto possível, as intersecções de ruptura e/ou continuidade entre a Literatura Colonial e a Nacional, no caso guineense. Porém, uma preocupação pedagógica nos move: a de lançar dados e elementos de reflexão sobre a nova Literatura, a nacional, na perspectiva de uma descolonização literária em curso – se assim se pode dizer –, que terá de deitar os olhos ao passado para melhor enquadrar o presente literário.

(Observação do Editor: Por ser muito extenso, este trabalho vai ser publicado em três partes, correspondentes a outros tantos postes)
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Notas de CV:

(*) Vd. poste de 7 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5069: Historiografia da presença portuguesa (22): África, da Vida e do Amor na Selva, Edições Momentos, 1936 (Beja Santos)

(**) Vd. poste de 9 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5084: O mundo é pequeno e o nosso blogue... é grande (17): João Augusto Silva é meu tio (Pepito)

Vd. último poste da série de 18 de Outubro de 2009 > Guiné 63/74 - P5127: Historiografia da presença portuguesa (23): Aquela Guiné dos anos 50 (Beja Santos)