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sábado, 24 de novembro de 2012

Guiné 63/74 - P6448: Notas de leitura (111): Rumo a Fulacunda, de Rui Alexan...

Beja Santos fala aqui do Rui Alexandrino e apresenta uma fotografia do autor do "Rumo a Fulacunda" do tempo em que esteve na Guiné. Gostei muito de ver este artigo. No final do artigo o Beja Santos escreve: 
"Estou convicto que ele irá aproveitar a oportunidade para eliminar referências e críticas desajustadas e seguramente desnecessárias para o objectivo em causa: o dever de memória do combatente." 

Parece-me que Beja Santos se refere a relatos sobre conflitos entre militares relatados pelo Rui Alexandrino!?... e aconselha-o a que não faça no seu próximo livro. Mas eu não me lembro de ter lido no "Rumo a Fulacunda" alguma crítica a colegas militares.

Rui Moio


1. Mensagem do nosso Camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil At Inf, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Maio de 2010:

Luís,
Li os teus comentários sobre as guloseimas de Bambadinca. Seria bem interessante que se desencadeasse aí uma tempestade de recordações à volta da mesa, não os acepipes de Bissau mas os desenrascanços das gazelas de mato e peixe da bolanha, bem como os cantineiros que ainda conhecemos e que nos ajudaram a levantar a moral da muita comida sorumbática a que éramos obrigados.
Quase me sinto a entrar na loja do Rendeiro (o concorrente do José Maria de Bambadinca) onde eu encomendava o caldo de mancarra à subida da rampa, para todo o contingente que me acompanhava, naquele dia.
Estou convencido que ainda vamos fazer um livro de recordações gastronómicas...

Um abraço do
Mário


O privilégio de ter combatido com grandes amigos de hoje

Beja Santos


Em 6 de Março de 2008, aquando do lançamento do primeiro livro sobre a minha comissão na Guiné, na Sociedade de Geografia de Lisboa, recebi, com uma tocante dedicatória, "Rumo a Fulacunda", que o Rui Alexandrino Ferreira me entregou depois de me ter abraçado. Como trabalho por objectivos, e é muito difícil sair de disciplina auto-imposta, reservei a oportunidade de o ler quando me lançasse na empreitada desde demencial inventário que ninguém me pediu. Chegou o momento azado, eis as minhas impressões.


Primeiro, desvanece ver alguém que reteve, com carinho, boas memórias dos seus camaradas do grupo de combate a que esteve associado na CCaç 1420. Ilustro com o que ele escreveu sobre o soldado António Pacheco Sampaio:

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Repor a verdade (artigo de Pedro Lomba - publicado no Jornal Público de 06Nov2012)

Nota

Pedro Lomba rectifica uma declaração errada prestada pelo Embaixador de Israel em Portugal aquando a intervenção deste na Conferência História e Holocausto que se realizou na fundação Gulbenkian nos dias  29 e 30 de Outubro de 2012.
Rui Moio

* Realmente algém que tem apelido de obediência maçónica não augura nada de bom...

Fonte: Blogue "Reverentia", post de 06Nov2012. In Jornal Público de 6Nov2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

OU DAMOS CONTA DOS PARTIDOS OU OS PARTIDOS DESTROEM PORTUGAL!

Temos mais um interessante e corajoso artigo do Ten-Cor. Brandão Ferreira cuja leitura recomendo vivamente. 

Para os mais apressados não deixem de ler e meditar na passagem que transcrevo a seguir e que se refere à génese do inglorioso, nefasto e vergonhoso golpe do 25 de Abril de 1974 que destruiu a Pátria e nossa Nação multisecular, pluriétnica e pluricontinental
«Chegámos a 1974 e uma pequena parte do Exército, entendeu, por razões que ainda não foram devidamente assumidas, fazer um golpe de estado. Ao contrário dos seus camaradas de 1926, não se percebeu muito bem o que possam alegar como justificação.
Todos os órgãos do estado funcionavam em pleno; não havia crise financeira nem económica; a ordem imperava nas ruas e nos lares.
A Nação encontrava-se em guerra e batia-se no seu melhor ia para 13 anos e não se pode admitir que profissionais do quadro permanente aleguem, porventura, estarem cansados de fazer a guerra.» 
Rui Moio

OU DAMOS CONTA DOS PARTIDOS OU OS PARTIDOS DESTROEM PORTUGAL!:
Este artigo foi publicado em 8 de Novembro de 2005, apesar da acção nefasta dos actuais Partidos, se fazer sentir hà muito. Presumo que agora já seja mais fácil perceber porquê.
As pessoas, por norma, indignam-se tarde e a más horas e nem sempre pelas melhores razões. E, por norma, também, os diferentes escalões hierárquicos teimam em fingir que não vêem/não entendem, e porfiam em atacar efeitos e não causas. Faz parte da natureza humana.
Não aprender nada, não faz parte da natureza humana".
Brandão Ferreira

“ho que cumpria aho bom governo”
D. Manuel I
Frase, que segundo Damião de Góis, o Rei teria proferido após ter reconhecido a Janes Mendes Cicioso, burguês de Évora, depois de este ser ouvido uma justificação do seu protesto contra um imposto real.
Não só lhe deu razão, como o louvou apontando-o como exemplo dos homens que pretendia ter junto de si, de modo a dizerem-lhe “...”
Ler mais
Fonte: Blogue Adamastror, post de 19Set2012, post do Ten-Cor Brandão Ferreira

sábado, 18 de setembro de 2010

Antologias - posts mais lidos nos últimos 30 dias (Entre 20Ago e 18Set2010)


Posts mais lidos entre 20 de Agosto e 18 de Setembro de 2010 


Cecília Meireles sobre Fernanda de Castro
Príncipe Nicolau do Congo
António Telmo 1927-2010
A propósito do 5 de Outubro: memórias de um dos seus heróis
Memórias de África - Jorge Eduardo da Costa Oliveira 


Fonte: Blogger.com - Blogue "Antologias" - Estatística

domingo, 1 de agosto de 2010

A RESPEITO DOS AMIGOS

Trata-se de um texto extraído de uma psicografia do espírita Divaldo franco.
Rui Moio

via Sedimentos... on 7/19/10

É fácil conquistar amigos. Basta uma tarde tranquila em local aprazível, na natureza, para se dispor à troca de gentilezas e a um bate papo amistoso. Trocam-se endereços, números de telefones, marcam-se outros encontros.
Programam-se idas ao teatro, um passeio mais demorado no final de semana com as crianças que, afinal, têm idades próximas.
É fácil iniciar novas amizades. Basta um pouco de gentileza e um sorriso, um aperto de mão, a quebra do gelo. Ler mais


quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Comentário a Cazombo

Nota
Os bolds são meus.
Rui Moio

via Comentários do blog fernandomartinsdias by fernandomartinsdias on 12/30/09
Caro Nelson
Foi com bastante agrado que recebi notícias de um amigo que não conheço, mas que viveu os maus momentos que vivi e que tantos jovens da nossa idade tiveram que passar, para se andar naquela guerra que parecia não ter fim. Fico admirado como é que um menino de 8 anos (o teu caso) ter ido para o Luso em 1948, devia ser uma cidade muito pequena. Pois que quando a conheci em 1965 ainda era uma cidade relativamente pequena , mas muito bonita. Gostei e ainda fui ao cinema Luena de que te deves lembrar . Durante a minha comissão fui lá umas 4 vezes, ia sempre num Unimogue e durava uns 3/4 dias a lá chegar era sempre picada. Quanto a Teixeira de Sousa, foi o fim da minha viagem de comboio quando da minha ida de Luanda para o Cazombo . Depois disso no Natal de 1965 fui lá com uns soldados do meu pelotão para passar uns dias de féria em compensação dos bons serviços segundo a perspectiva do meu comandante, mas como podes ler neste meu blogue quando estava a chegar e seguia paralelamente à linha de caminho de ferro, vi um comboio descarrilado e a arder, estava já perto de Teixeira de Sousa, e quando lá cheguei a então Vila estava a ferro e fogo com uns cerca de 800 negros que assaltavam a casa dos civis brancos e atacavam também o quartel. Fui para dentro quartel conforme pude e lá dei a minha ajuda pela manhã o inimigo retirou mas deixou no terreno centenas de mortos. Ainda hoje guardo alguns jornais da época sobre esta carnificina que não mais esqueço. Neste blogue se leres com atenção interveio um bloguer que nasceu no Cazombo de nome Rui Moio e de lá veio com 4 anos para Portugal e segundo sei será um Catedrático da nossa praça, é uma pessoa que admiro, muito embora não o conheça e tem vários blogues sobre diversos assuntos, é um intelectual. E não me vou alongar mais. Foi um prazer e sempre que queiras é só escrever. Entretanto um abraço e votos de um Feliz Ano Novo. Fernando Dias

domingo, 26 de abril de 2009

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro



O núcleo de Luanda do MPLA pretendia instalar a guerrilha urbana na cidade capital de Angola e em outras cidades da Província. Pela ligação a militares metropolitanos é, bem possível, que também tivesse pretensões de espalhar o terror nas cidades da Metrópole. Uma coisa sei, este grupo de mpelistas pretendia provocar a morte e a desolação entre a população civil de Luanda e de outras cidades de Angola. Foram descobertos pela PIDE e presos.

Aqui, num comentário, MUSOKO informa que o grupo foi descoberto devido à acção de «um português de alcunha «Lua» ou «Vostok», camionista, que hoje reside em Portugal.»
Como os portugueses, no seu todo de nação pluriracial e pluticontinental, e, em especial, os luandenses, deveriam estar profundamente gratos a este anónimo compatriota que os salvou de terríveis horrores, ou seja, este compatriota impediu que se concretizasse o objectivo do inimigo e que era o de espalhar o terror entre a população civil da cidade de Luanda e, previsivelmente também, em cidades da Metrópole.
Onde está um nome de rua, um nome de praça que perpetue este acto de profunda humanidade?
Neste país traído e amputado devido à acção de uma corja de canalhas mais facilmente se homenageiam os nossos inimigos e os criminosos que tanto mal fizeram a Portugal e aos portugueses.
Que tempos horríveis, de tamanha ingratidão e de tantas mentiras!
Rui Moio

ESPECIAL COMEMORAÇÕES DO 25 DE ABRIL DE 1974Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam ... « Especial comemorações do 25 de Abril de 1974 « Dossiês « Dossiês « Página Inicial |

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro

Justino e Vicente Pinto de Andrade, Luís Fonseca e Edmundo Pedro, todos ex-detidos no campo de trabalho do Tarrafal, fizeram, através do Expresso, um cerrado interrogatório ao antigo carcereiro, Eduardo Vieira Fontes, que vive nos EUA. Perguntas e respostas recolhidas por José Pedro Castanheira.

José Pedro Castanheira
9:30 Sábado, 25 de Abr de 2009
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"Chorei no dia em que mataram Amílcar Cabral"

Justino Pinto de Andrade.

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro
Angola, 61 anos, director da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica de Luanda. Esteve preso no Tarrafal de 1970 até ao seu encerramento, a 1 de Maio de 1974. Militante do MPLA, havia sido condenado a oito anos de cadeia.
Será que acreditava que o "Império Colonial" jamais terminaria?
Nunca pensei em Portugal e nas colónias em termos de Império. Acreditei que Portugal seria capaz de construir uma comunidade de nações amigas, cada qual com o seu Governo e Parlamento, que pudessem enfrentar juntas o futuro, com mais segurança que agora. Era esse o meu sonho, e não esse império. Como assinalei no meu livro, fiquei chocado com o estado em que encontrei Angola, depois de 500 anos de presença portuguesa.
Nunca lhe passou pela cabeça que o facto de estarmos ali presos, indivíduos de várias gerações e de origens sociais diversas, era uma clara demonstração da justeza da nossa causa?
Nunca pensei nesses termos. Para mim, os prisioneiros pertenciam apenas a organizações políticas proibidas.
Qual foi a sensação que teve no dia em que fomos libertados e o senhor director ficou ali retido, no seu gabinete, à guarda dos militares?
À guarda dos militares? Não é verdade. Dei um abraço a muitos, entre eles o próprio Justino. E houve um outro, também de Angola, que me deu um abraço tão apertado que fiquei sensibilizado, ao mesmo tempo que me dizia: "acredite que sou seu amigo!"
Hoje, sabendo que Cabo Verde é tido como "um bom exemplo de gestão económica e política em África", não sente que valeu a pena a sua independência?
Em Cabo Verde, o povo não lutou pela sua independência. E os políticos combateram foi pela unidade da Guiné com Cabo Verde. Eu não concordava com isso. Por Cabo Verde, aceitaria; com a Guiné, não! Mas o povo não foi consultado. E Portugal abandonou Cabo Verde - como não abandonou os Açores ou a Madeira. É isso que nunca entendi e não posso esquecer.
Que sensação teve quando tomou conhecimento da morte de Amílcar Cabral, seu colega de escola?
A minha mulher Regina que o diga: ela chorou. E eu também. Quem não chorou?! Dormimos juntos numa caminha de solteiro, na galhofa toda a noite, lembrando-nos dos tempos passados juntos no liceu. Eles não conheceram o Amílcar. Eu conheci!
Sem a pressão da PIDE, teria ido dar a notícia aos presos da morte de Cabral, nos termos em que fez, como se fosse uma "boa notícia"?
Pressões da PIDE? Essa está boa! A PIDE estava na Praia e a do Tarrafal não metia lá o bedelho.
Lembra-se quando, no refeitório do Tarrafal, ao almoço, Justino Pinto de Andrade se recusou pôr-se de pé na presença dos pides, e depois foi de castigo para a Cela Disciplinar?
Pides no Tarrafal? Nunca os pides estiveram no Campo de Trabalho senão comigo e para acompanhar a visita de individualidades vindas da Europa e que queriam conhecer o campo. Convencidos que era a PIDE quem mandava no campo, dirigiam-se ao posto do Tarrafal, que os acompanhavam até ao campo. Só isso. Assim se constrói a mentira.
Mesmo sendo o Director do Campo, não sentiu dentro de si, como africano, uma pontazinha de orgulho por um jovem, na altura com 23 anos de idade, manter o espírito combativo com que tinha entrado para a prisão?
Nunca senti esse espírito combatente. Não houve um só preso que tivesse lá estado por denúncia ou por ordem minha. Não pus ninguém na cadeia. Enquanto lá estive, tratei-os a todos com dignidade e humanidade.

"A PIDE não decidia nada no Campo de Trabalho"


Vicente Pinto de Andrade

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro
Angola, 59 anos, professor de Sociologia e Economia da Universidade Católica de Luanda. Na cadeia, teve um percurso em tudo idêntico ao seu irmão Justino. No ano passado, anunciou a sua candidatura a Presidente da República.
Por que razão chegou a censurar um pedaço de um discurso do Prof. Marcelo Caetano, publicado no jornal "Arquipélago", numa altura em que o mesmo já era Presidente do Conselho de Ministros?
Não me lembro. A correspondência passava pelos guardas prisionais antes de vir a mim. Isso pode ter sido uma patifaria feita por um deles, não sei, mas eu não fui.
A decisão de nos oferecer o passeio à ilha de Santiago, depois das provas desportivas que nós organizámos, foi decisão sua, ou foi preciso o aval da PIDE?
A PIDE não decidia nada, absolutamente nada, noCampo de Trabalho. A PIDE nunca soube disso.
Qual o sentimento que nutria por pessoas como eu e o meu irmão Justino, uma vez que teve acesso às cartas que nós escrevíamos aos nossos familiares e amigos?
Que era boa gente e que a mãe tinha uma grande coragem. Eu tinha muita pena deles e da mãe, sobretudo desta - já que eles estavam a cumprir uma missão.

"Estou de bem com a minha consciência"


Luís Fonseca

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro
Cabo Verde, 64 anos, é um dos mais cotados diplomatas do país. Foi até há pouco tempo o secretário-executivo da CPLP. Antes, esteve à frente das embaixadas em Haia, Moscovo e Nova Iorque (ONU). Militante do PAIGC, esteve no Tarrafal durante três anos e meio, tendo sido libertado em Fevereiro de 1973, após o assassínio de Amílcar Cabral. Natural de Santo Antão, está conotado com o PAICV, o partido no poder.
No dia da chegada de um grupo de presos cabo-verdianos ao Campo de Concentração o Director mandou sair da cela disciplinar o poeta e preso político angolano António Cardoso e, depois de uma altercação entre os dois ordenou ao Chefe dos Guardas: "Ó Sr. Reis, dê uma tosa neste gajo" Seguiu-se uma sessão de bastonadas, após o que António Cardoso foi de novo atirado para o isolamento, a pão e água. Tratava-se de um problema pessoal com António Cardoso ou foi um pretexto para avisar os cabo-verdianos que acabavam de chegar?
Não foi isso que se passou. O que conta é uma meia verdade. O António Cardoso não se levantou quando eu passei por ele. Ora, quando eu recebia os presos no meu gabinete, levantava-me e recebia-os em pé, com todo o respeito. Exigia que me tratassem de igual modo. Admoestei-o por isso, ao que ele respondeu de uma forma intempestiva e agressiva. Mandei então um guarda pô-lo na cela disciplinar, mas ele atirou-se ao guarda, que puxou do bastão e abriu-lhe uma pequena ferida no sobrolho. Mas não foi sovado. Aliás, depois, até chamei o guarda e recriminei-o: "Não devia ter feito aquilo". Mandei-o depois para a cela. Foi isto que se passou. As cadeias têm as suas regras.
O Director correspondia-se directamente com a PIDE em Angola e Cabo Verde, como atestam ofícios disponíveis na Torre do Tombo, nos quais ele tece várias considerações sobre a melhor forma de "recuperar" os presos, indicando, por exemplo, medidas restritivas relativamente às leituras que poderiam ter. O cargo de director do Campo implicava este tipo de colaboração, fazia igualmente parte das suas atribuições receber orientações directamente da PIDE ou tratava-se de um esforço para ser bem visto pela polícia política?
O jornalista viu o meu processo na PIDE. Tive muita alegria em ver os elementos que me mostrou. Não houve cartas minhas para a PIDE. Isso são tudo fantasias e mentiras. É incrível! Não lhe disse que tinha inimigos? A verdade é que fui perseguido pela PIDE em Angola e desterrado, com a minha mulher e os nossos quatro filhos, para a Baía dos Tigres.
Qual foi o objectivo de levar o escritor Manuel Lopes a visitar os presos políticos cabo-verdianos dentro das instalações do Campo, onde jamais era permitida a entrada dos familiares dos presos? De quem partiu a iniciativa?
Foi do próprio Manuel Lopes, que pediu para visitar os presos. Eu não escondia nada do campo de trabalho, que foi visitado por muitas outras pessoas. Incluindo, por duas vezes, pela Cruz Vermelha, que só teve palavras de elogio quando comparadas com as restantes prisões de África.
Aristides Barbosa, um dos presos guineenses regressados a Bissau em 1969, beneficiou, enquanto recluso, de privilégios especiais, sendo muito amigo do Chefe dos Guardas, de nome Reis, que não se cansava de elogiar a sua inteligência e outras supostas qualidades. Qual a razão desse tratamento privilegiado?
Desconhecia completamente isso. Nunca me constou essa intimidade com o Reis. A minha intenção era recuperar de facto os prisioneiros políticos, tratando-os com toda a dignidade e humanidade, para se integrarem novamente na sociedade. Tentei inclusivamente reconciliar os homens do MPLA e da UNITA, e disse-lhes isso mesmo. Mostrei-lhe documentação que revela isso mesmo.
Aristides Barbosa foi, mais tarde, associado ao assassinato de Amílcar Cabral, tendo sido condenado à morte e executado. O Director estava a par das relações de Aristides Barbosa com a PIDE e dos planos existentes para eliminar Amílcar Cabral?
Não! Se eu soubesse, dava com a língua nos dentes, através do governador de Cabo Verde, que não deixaria de alertar o governador da Guiné. Eu era amigo e admirador de Amílcar Cabral. A minha mulher também. Era um rapaz sensato e educado. É pena que o governo central não tivesse ouvido o Amílcar como ele queria. É muita pena.
O Director esmerou-se em "recuperar" os presos políticos cabo-verdianos e várias vezes recomendou a manutenção das medidas de segurança para os manter no Campo, muito tempo depois de terem cumprido as penas a que tinham sido condenados. Afirmou a várias pessoas que se orgulhava perante Deus de cumprir o seu dever como Director do Campo. Cabo Verde é um país universalmente reconhecido como tendo grandemente beneficiado da independência, contra a qual Eduardo Fontes tanto se empenhou enquanto director do Campo. 34 anos após o encerramento do Campo, continua a orgulhar-se do seu papel nos anos em que esteve à frente da instituição prisional?
Sim. Estou de bem com a minha consciência. Não me arrependo nada de ter ido para lá. Mas eu não tinha poderes para manter os prisioneiros na prisão. É uma falsidade. Podia propor a prorrogação das penas, se os presos tivessem mau comportamento. Mas isso não aconteceu. Relativamente aos cabo-verdianos, não propus a continuação das medidas de segurança. O próprio Luís Fonseca saiu antes de terminar a pena, em liberdade condicional proposta por mim. Ele próprio me agradeceu em carta que então me enviou. Ele lembra-se certamente da carta que me escreveu - e que, infelizmente, desapareceu do meu arquivo.

"Era um funcionário, tinha que cumprir ordens"


Edmundo Pedro

Quatro ex-prisioneiros doTarrafal interrogam o último carcereiro
Portugal, 90 anos, foi um dos portugueses que "estreou" o campo do Tarrafal quando este foi aberto por Salazar, em 1936. Era então um jovem comunista, de 17 anos. Militante do PS, é um dos dois únicos portugueses "tarrafalistas" ainda vivos. Apesar de não ter conhecido Eduardo Fontes, acedeu em colocar-lhe uma pergunta.
Porque razão demorou tanto tempo a libertar os presos, entre 25 de Abril e o 1º de Maio?
Fiquei à espera de ordens. Logo nos dias seguintes ao 25 de Abril - não posso precisar a data -, quando tive a certeza do que se tinha passado, propus o encerramento do campo e a libertação de todos os presos políticos. Fiz essa proposta ao governador de Cabo Verde, a quem competia depois apresentá-la ao Ministério. Essas eram as vias hierárquicas - o governador é quem despachava com o ministro. Estive, pois, a aguardar ordens. Não me arrependo. Era um simples funcionário. público, que tinha que cumprir ordens.

Versão integral da entrevista publicada na edição do Expresso de 25 de Abril de 2009, 1.º Caderno, páginas 18 e 19.

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O 1º PROCESSO DE MARCELO
Musoko, 2 pontos , ontem às 10:30
Recordo-me. O Vicente e o Justino faziam parte de um enorme grupo de militantes clandestinos do MPLA (grupo de acção Kimangua integrado no Comité Regional de Luanda do MPLA) que começou a ser preso em Luanda em fins de 1969. Essse grupo era constituído por pescadores da ilha de Luanda, operários, estudantes secundários e do ensino superior e militares do exército português. O primeiro a ser preso foi Juca Valentim (morto em 27 Maio de 1977), que não foi para o Tarrafal.
A Pide dividiu o processo em três.
Os presos brancos foram enviados sob prisão para a cadeia de Caxias em Fevereiro de 1970; os presos mais «intelectualizados», «mestiços» e considerados mais «perigosos» foram enviados de barco para o Tarrafal; os presos considerados mais «básicos» foram para o campo de trabalho de S. Nicolau em Moçâmedes.
Só os dois presos brancos foram julgados, integrados num processo com o Joaquim Pinto de Andrade (defendido pelo dr. Mário Brochado Coelho e condenado a 3 anos de cadeia).
Os outros, inclusive o Justino e o Vicente não foram julgados nem condenados judicialmente, sendo alvo de medidas administrativas impostas pela Pide, creio que de 12 anos. O porta-voz do Presidente angolano. Aldemiro da Conceição, também fazia parte desse grupo.
Quem estava «infiltrado» nesse grupo era um português de alcunha «Lua» ou «Vostok», camionista, que hoje reside em Portugal.
Quem dirigiu as prisões e os interrogatórios foi o chefe de Brigada Vieira.

Fonte: Jornal Expresso de 25Abr2009