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domingo, 14 de março de 2010

PERDIDOS...

PERDIDOS...

via Caçadores 3441 by Pedro Cabrita on 3/13/10
N´riquinha, 1 de Abril de 1972.
Sábado da Ressurreição, um dia como qualquer outro, perdida que estava já a noção da diferença dos dias, ou o sentido da invocação de alguns deles, quando era a guerra e o isolamento escaldante das Terras do Fim do Mundo que nos marcavam as horas, os dias e os meses por riscar no calendário já meio sebento pregado na parede.
Meio-dia.
Vindo dos lados da Zâmbia, o ruído longínquo de um avião tipo Cessna quebrou por momentos a monotonia daquela manhã, obrigando a um breve esforço de localização e identificação de aproximação, ou não, da aeronave. As visitas eram raras e sempre pelo ar. Mas a expectativa do aparecimento de um qualquer comandante do Batalhão, Zona Militar, ou de Sector em pouso surpresa em "teatros de guerra", que averbasse mais um "acto de bravura" ao cadastro de um eventual candidato ao 10 de Junho, era uma possibilidade sempre presente.
Em breves segundos se percebeu que a aeronave passava a uns bons quilómetros de distância e não se dirigia à N´riquinha, onde também podia fazer escala para reabastecimento.

O Domingo de Páscoa foi transposto dissolvendo na boca as tradicionais amêndoas doces em forma de elaborados esquemas de imaginação, a que alguns juntavam o sabor distante dos folares da terra, mastigados num quase masoquismo de fantasia, cuja aliança com o sol inclemente que os fustigava de manhã à noite, permitia uma breve sensação de realidade. À noite o rancho haveria de desmontar o cenário, como quem desfaz a tenda de feira e retoma o carreiro insonso das agruras da vida.

9:30 de Segunda-feira.
Um ronco potente, que nos reportava por momentos a sons longínquos provindos dos tempos da 2ª Grande Guerra, avassalou repentinamente as cercanias do aquartelamento, desenhando no céu uma figura canhestra de um cinza baço devassado por décadas de um lustro puxado à mão pela eterna pobreza dos tempos.
Era um velhinho PV-2 Harpoon, troando os seus dois motores de 2.000 HP cada, desenhando figuras em volta do aquartelamento, antes de se enfiar à pista e rolar até à porta de armas, onde se quedava por momentos desaparecido numa nuvem de poeira ruiva e fina, da qual cada um de nós preserva ainda uma espécie de memória de estimação em alguns dos recantos menos perecíveis dos sentidos.
Motores parados, haveríamos de esperar alguns minutos até que a nuvem se dissipasse e tornasse possível a aproximação.
Um pouco inquieto apressei-me e nem esperei que a poeirada se acalmasse em definitivo.
Ainda o piloto finalizava as operações habituais de fim de voo, já eu me quedava junto à asa sorvendo o calor do motor ainda em estalidos metálicos de arrefecimento.
A presença inusitada de um avião daquele tipo na N´riquinha só podia trazer maus presságios, normalmente presentes envenenados para a tropa, para quem já chegavam todas as guerras nas quais nos haviam mergulhado.
Minutos volvidos e já descia o meu amigo Capitão Pêpe no seu impecável fato de macaco azul. A ansiedade era tal que nem entrei pelos habituais cumprimentos. Disparei de imediato na esperança meio rançosa de me enganar no prenúncio.
- Vais-me dizer que vou ser atacado e põem o que resta da Força Aérea à minha disposição…!
Logo após um abraço e alguns sorrisos pela graça, que, no fundo, pouco tinha de engraçada…
- Não. A guerra parece que é outra. É que no Sábado caiu um avião, presume-se que aqui na tua área.
- Caiu um avião? Mas que avião? Aqui só há avião a meio da semana com o correio e o Nord às Terças com os géneros.
- Parece que era um mono-motor de uma empresa de Serpa Pinto que faz transporte de passageiros. Uma espécie de táxi aéreo. As últimas informações dizem que saiu do Rivungo no Sábado para reabastecer aqui, mas desapareceu e não deu mais sinal de vida.
Dando voltas à memória recordei o tal sinal de avião de Sábado sinalizado entre a N´riquinha e a Zâmbia, que conferia com a eventual rota vinda do Rivungo.
- Vais ter que me disponibilizar cama, mesa e roupa lavada não sei por quanto tempo. Isto é coisa para demorar, acho eu. Dentro de algum tempo devem começar a chegar aviões da empresa e outros para ajudarem nas buscas. Será aconselhável que preparem combustível para os necessários reabastecimentos.
- Então vamos começar pela mesa? – alvitrei.
- Não. Olha, ainda é cedo; vou dar por aí uma volta. Tendo em conta a rota, pode ser que ele tenha caído aqui por perto por falta de combustível.
E assim foi.
Ronco poderoso assistido por uma fumarada branca a sair dos escapes dos motores e eis que o PV-2 se lança em nova correria pista afora, elevando-se pesado nos ares.
Pouco tempo depois chegam dois aviões ligeiros, conforme prenunciara o Cap. Pêpe. Aterram e solicitam reabastecimento para as buscas que haveriam de ter lugar a partir daquele momento. Trata-se do proprietário do Cessna desaparecido, que dirige ele próprio um dos aviões, e traz consigo um outro também pertença da sua empresa.
Abastecem mas não levantam, porque o comando da operação de busca estava já confiado à Força Aérea, na pessoa do Cap. Pêpe, entretanto no ar.

A operação de busca e localização desenvolve-se por três dias utilizando o PV-2 e os dois aviões ligeiros da empresa, que se foram revezando com outros, sendo que o proprietário se manteve sempre presente no envolvimento das buscas. Presente e sempre muito nervoso. Viríamos a saber mais tarde que esta débil paz de espírito se relacionava com problemas de seguro de vida do piloto desaparecido, desenhando-se o pior dos cenários, caso não fosse encontrado com vida.

Quinta-feira, quarto, e último, dia de buscas, por decisão do Cap. Pêpe, partindo do princípio de que já não seria possível encontrar sobreviventes.
Delineada uma esquadria de busca a distribuir por quatro aviões agrupados num derradeiro esforço para encontrar o avião desaparecido, cada piloto tomou lugar na sua aeronave e levantou. Pêpe foi o último. Antes de subir ao PV-2, lançou-me um desafio:
- Anda daí porque tenho a sensação que nos vais dar sorte. Além disso conheces a zona e podes dar-nos uma ou outra pista.
Eu, que nunca me dei bem com os pés fora de chão firme, fosse em mar ou ar, ainda esbocei alguns argumentos enfeitando a minha relutância.
- Levantas e daqui a meia hora vais ter que me trazer de volta, com o "gregório" em primeiro plano…
- Não. Vamos levar aqui a banheira muito direitinha e sem ondas.
Convenci-me.

Naquele ponto das buscas havia uma única perspectiva; encontrar eventuais sobreviventes. O avião era na altura secundário. No Leste de Angola era frequente a queda de aeronaves sem grandes consequências para os ocupantes, tendo em conta a planura da savana. Logo, se tivessem sobrevivido, haveriam de se movimentar em busca de socorro. Nessa perspectiva, e tendo em conta alguma experiência de sobrevivência no mato que já possuíamos, havíamos sugerido, nos briefings de fim de dia, a busca em chanas abertas com água, porque a sede de cinco dias haveria de os prender num local com água e melhor visibilidade para quem os procurasse.

Tínhamos pouco mais de cinco minutos de voo. Sentava-me num banco solitário plantado a meio do avião, que na verdade voava direitinho, como havia prometido o Pêpe. Sem que nada o fizesse prever, o avião faz uma subida abrupta, para logo de seguida cair sobre a asa esquerda apontando o bico ao chão. Pensei: pregou-me uma partida, o Pêpe. Mas que raio de altura escolhida para brincadeiras.
- Pêpeeeeeeee…! Pára lá com essa m…. – gritei cá bem de trás onde me sentava agarrado a uma pega da fuselagem do avião.
Não obtive resposta no imediato, porque o PV-2 continuava meio louco como se lhe tivesse dado um ataque de nervos. As cabriolas continuavam e eu segurava-me como podia.
Na verdade era quase um verdadeiro ataque de nervos, mas de alegria.
- OS GAJOS ESTÃO ALI…!!! – grita o Pêpe meio embriagado de exultação, abrindo a porta do cockpit e apontando-me para baixo.
Olhei pela pequena janela quando o PV-2 fez um voo rasante ao solo e apenas vislumbrei três pessoas em perfeita loucura no chão: cambalhotas, saltos, abraços, braços no ar.
O Sargento de apoio à tripulação apareceu com um bidão de água preparando-se para o atirar pela porta do avião, entretanto aberta.
- Onde é que você vai com isso? – indaguei.
- Vou atirar aos gajos. Devem estar a morrer de sede. Já passaram cinco dias.
- De sede? Os gajos estão num rio… Estão é a morrer de fome…
O Sargento olhou-me, abanou a cabeça e balbuciou:
- Está a ver, capitão. É o que dá andarmos sempre aqui no ar. Nem nos apercebemos da realidade no chão.

Comunicada a posição dos sobreviventes, o PV-2 regressou de novo sereno e pousou perfeito.
- Como vês, viemos direitinhos como prometi – disse o Pêpe da porta do cockpit entretanto aberta, com uma euforia quase menina estampada no rosto, quando o avião já rolava em movimento lento para parar.
- Pois, mas lá no sítio perdeste a cabeça.
- Encontrar sobreviventes de quedas de aeronaves é a maior alegria que um piloto pode ter. Mas deixa-me contar-te; aquele braço de rio onde os encontrámos estava fora da quadrícula de buscas. Quando cheguei à bifurcação deu-me uma pancada e enfiei o avião naquele pequeno afluente do rio. Foi a sorte deles. Estavam mesmo ali à entrada.

Por volta das 17:00 um helicóptero da F.A. haveria de resgatar os três ocupantes do avião, depois de estes já terem devorado oito rações de combate entretanto lançadas dos aviões.
A história daqueles cinco dias confrontava a simplicidade das circunstâncias com o sofrimento dos três ocupantes do Cessna.
Haviam, na verdade, saído do Rivungo com muito pouco combustível, dirigindo-se à N´riquinha para reabastecer. Um procedimento normal. O piloto, um jovem pouco experiente e desconhecedor daquela área, orientou-se pela carta – antiga e obsoleta, como todas as daquela região – e dirigiu-se à antiga N´riquinha Velha, a dezoito km de distância da actual N´riquinha, sendo aquela a única que figurava na carta.
Desconhecedor da verdadeira localização da pista, ainda não assinalada nos mapas, procurou durante perto de uma hora sem a encontrar, vindo a cair a cerca de 70 km para sul.
As peripécias dariam um pequeno livro.
Num breve resumo.
Eram três os ocupantes: o piloto, um jovem africano com cerca de 23 anos (funcionário da General Electric), que se deslocava a um determinado local para reparar uma avaria, e um outro jovem cabo-verdiano que havia pedido uma boleia no Rivungo.
O jovem africano era a terceira vez que caía de avião…, mas afirmava: "… não será por isto que vou agora começar a andar a pé…".
Nos momentos que antecederam a queda, quando o combustível faltou, enquanto o alvoroço se instalava dentro da aeronave, especialmente por parte do jovem cabo-verdiano gritando que iam morrer todos, o experimentado técnico da G.E. tomava conta dos acontecimentos: "… Calma! Ainda não morremos. Senta e reza. Se não souber rezar, senta só e acalma…".
O piloto tendo apontado para uma chana com mais de 1 km de largura e chão plano onde poderia ter aterrado sem grande dificuldade, entendeu que mais "suave" seria pousar no pequeno curso de água que ali corria. O avião capotou de imediato resultando um ferimento no sobrolho do piloto e a destruição parcial da aeronave.
A deslocação que decidiram empreender a partir do local, procurando encontrar uma picada ou sinais de vida, foi uma epopeia que lhes perdurará pela vida fora.
Sem reservatórios onde pudessem transportar alguma água, deitaram mão das mais incríveis opções. A namorada de um deles acabou sonegada de um perfeito perfume e água-de-colónia refrescante para as tardes de calor ardente; os frascos foram esvaziados e neles acomodados alguns decilitros da preciosa água.
A fome devassou a perspectiva de morte na queda do avião e intricou mirabolantes esquemas de sobrevivência; horas foram passadas em emboscada a um rato que se enfiara num buraco e se recusou obstinadamente a participar naquela história, que, afinal, não era a sua.
Caça em abundância à distância de um tiro de flecha – mas sobranceira a um corta-unhas perdido no fundo do bolso que jamais encontrou préstimo naqueles dias – "… pareciam rir-se de nós...", percebendo-os desarmados e vulneráveis ao fragor de um único rugido de leão a bocejar o términos de uma sesta dormitada à sombra de um embondeiro".
A noite e o medo montaram sentinelas que incendiaram todos os minutos que o cansaço rogava por um breve repouso de corpo e alma.
As horas, depois os dias, faziam bramir um âmago com 500 anos de submissão e a suspeita de uma eterna e vil escravidão: "… os portugueses, onde estão os portugueses que não nos vêm sequer procurar. Que é feito dos portugueses? Onde estão a porra dos portugueses…?", recalcitrava estridente o desespero do jovem africano especialista em inopinados mergulhos na selva africana.

Quinto dia de uma desesperança já assumida e aceite.
Pouco além das 9 horas da manhã.
Um ruído de avião… uma alucinação entre tantas outras… um sonho acordado fermentando um desejo.
Possante e inequivocamente vivo o PV-2 rompe os céus num ronco abrupto e desesperadamente amigo. Cabriola como criança na areia da praia; rasa-lhes as cabeças num afago terno e acolhedor. Agita as asas como que acenando uma alegria que desejava comungar desesperadamente.
Por entre as mais destemperadas manifestações de regozijo, uma voz meio submersa numa emoção de novo escravizada, refunde uma confiança perdida:

"… afinal há portugueses… Olha só os portugueses que estão chegando…! Portugueses! Portugueses…!"

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

TOQUE A INIMIGO...!

via Caçadores 3441 by Pedro Cabrita on 12/29/09
Para lá da inspecção administrativa regular, o Major Tamegão trouxe, em determinada altura, a missão de avaliar a capacidade de resposta operacional da Companhia no aquartelamento.
O Major levantava-se sempre muito cedo, por mais que eu lhe sugerisse que relaxasse enquanto estivesse por ali, longe das suas obrigações de 2º comandante do Batalhão. Que tinha tempo, quando regressasse ao Cuito-Cuanavale, de exercitar aquele hábito meio militarizado de madrugar. O corpo, no entanto, estava habituado àquela tarimba e ei-lo que, todos os dias pelas sete horas, já vagueava pelo aquartelamento de mãos atrás das costas, esperando que nos levantássemos para lhe fazermos companhia. Entretanto ia metendo o nariz aqui e ali.
Um dia, logo após o hastear da bandeira, cerimónia a que assistia todos os dias com inusitada devoção (uma espécie de missa da madrugada que elevava a fé na instituição) o nosso Major solicitou ao oficial de dia que mandasse tocar a alarme para verificar como reagia a tropa. Segundo as regras militares, ao som daquele toque, toda a Companhia se deveria dirigir aos abrigos o mais rápido possível, tomando posição de combate, postando-se em defesa do aquartelamento.
O oficial de dia, receando alguma falha, decidiu perguntar ao corneteiro se conhecia o toque, porque para ele aquilo era uma novidade.
Embaraçado o corneteiro lá consultou os seus colegas de função e lá se arranjou uma "opereta" de circunstância, que se depreendeu dever ser parecida com o que solicitara o Major. Estou em crer que, ainda que muito diferente, o nosso Major não teria ouvido suficientemente educado para exercer qualquer crítica sinfónica. Para ele qualquer coisas serviria, desde que com o efeito programado.
De permeio o corneteiro lá foi bufando pelo canto da boca a um ou outro companheiro que passava nas proximidades, que aquilo que se ia ouvir era um toque de alarme, pelo que todos se deveriam dirigir aos abrigos. Sintoma que não augurava grande crédito ao corneteiro quanto à peça melódica que iria ecoar pelos ares nas terras do fim do mundo.
Assim foi. O toque soou, com o pessoal a encaminhar-se pachorrentamente para os abrigos em amena cavaqueira e cigarrito ao canto da boca – alguns com a arma apoiada no ombro segura pelo cano – cumprindo aquela chatice de alguns terem que sair da cama mais cedo e outros a irem à caserna buscar a arma, quando já se encontravam nos trabalhos que lhes estavam destinados naquele dia. Parece que quinze minutos depois de ter soado o toque de alarme ainda havia soldados a dirigirem-se para os abrigos, quando o nosso Major, de relógio em riste, esperava que o tempo não ultrapassasse um ou dois minutos para considerar aceitável a resposta dada ao sinal de alarme.
O nosso Major ficou destroçado e incrédulo, enquanto o Alferes se mostrava incapaz de encontrar alguma justificação plausível que satisfizesse a frustração de nosso Major, perante tanta "permissividade" da tropa.
Habituado ao toque costumado do hastear da bandeira, autêntico despertador natural do mato, acordei um pouco confuso com aquela nova melodia. Levantei-me de um salto, como quem não quer perder nada da festa que parecia anunciar-se com aquele rebate matinal.
Já me dirigia para a messe quando, autenticamente "emboscado", o Major me esperava a meio do caminho das tabuinhas, agitando frenético e nervoso os dedos das mãos atrás das costas. Eu já lhe conhecia o gesto e a partir daí comecei de imediato a desmontar a ideia de festa que me vinha animando a alvorada.
Sem mais delongas, ainda eu não tinha desfeito a continência, já ele desfiava logo ali a enorme ladainha do seu descontentamento e estupefacção pela resposta totalmente inadequada que a minha tropa tinha dado ao toque de alarme. Percebi de imediato o significado daquela estranha melodia que me tinha acordado prazenteira logo pela manhã.
Desliguei um pouco daquilo que ouvia, enquanto o Major continuava a despejar-me motivos de sobra para as minhas futuras preocupações, que deveriam concentrar-se naquele desastre de segurança para todos. Incluindo o Major, claro. Por fim encontrei algo para dizer.
- O meu Major não se importa de esperar umas horas?
- Umas horas? Mas para quê? Respondia-me sem vislumbrar o meu ponto de vista.
- Isto não pode ser. Um dia o inimigo entra-vos pelo quartel dentro e vai ter convosco à cama.
Percebi que era uma visita que o Major não desejava, pelo menos enquanto se mantivesse por ali. Julgo que terá sido o momento em que, por fim, sentiu a insegurança que todos nós vínhamos sentindo havia largos meses, por via do isolamento em que nos encontrávamos.
Contudo, após mais uma ou duas censuras lá anuiu e acalmou. Durante todo o dia não se falou mais no assunto mas sentia-se que o Major tinha ficado incomodado.
Escureceu.
Logo a seguir ao jantar, solicitei a um dos Alferes que levasse o nosso Major para junto das casernas onde os militares se acomodavam para dormir. Intrigado o Major deixou-se condu,zir, sempre naquele seu ar de latifundiário com boa vida, mãos atrás das costas e passos lentos despreocupados.
No silêncio da noite fiz explodir uma granada ofensiva nas proximidades das casernas. O estrondo naquele silêncio nocturno soou demolidor.
Foi um pandemónio. O Major quase foi atropelado e teve que se proteger. Em menos de um minuto as casernas ficaram vazias e todos os soldados ocuparam os seus postos de combate. Peguei no Major e convidei-o a percorrer comigo todos os abrigos. Parte dos soldados, ou estavam em cuecas e descalços, ou em tronco nu, mas de cartucheiras à cintura e a espingarda na mão. O Major não balbuciou uma palavra, nem voltou mais a falar no assunto. Apenas me respondeu quando, perante aquele quadro, lhe disse:
- Meu Major; é que não estou propriamente à espera que o inimigo me apareça e eu tenha tempo de mandar o corneteiro tocar a alertar porque nos vão atacar...!
- Pois. Mas sempre era bom que conhecessem o toque...
- ... ?!!

In "Capitães do Vento", Roma-editora.

sábado, 28 de novembro de 2009

Operação Dango...

Operação Dango...

via Caçadores 3441 by Pedro Cabrita on 11/28/09
Dango, Abril de 72 - N'riquinha

A operação tinha um outro nome de código. Mas vamos chamar-lhe por agora "Operação Dango" para melhor a localizar.

Alguns trechos do livro "Capitães do Vento" relativos a essa operação.

Ficamos à espera que o Gabriel Costa nos conte a versão do outro lado da recolha do pessoal envolvido na mesma.


/… Às duas da madrugada partimos distribuídos por sete viaturas Berliet, mais de metade fornecidas por Mavinga. As da Companhia, uma andava sem problemas, a outra tossia cada vez que o pneu se enterrava mais na areia da picada. A terceira estava de baixa. O percurso até ao objectivo era longo e desconhecido. Demasiado longo como viríamos a verificar depois. A parte que seria feita a pé presumia-se que duraria um dia inteiro de marcha rápida até às proximidades do objectivo. As viaturas tinham que ser deixadas suficientemente longe, a fim de não denunciarem a nossa presença. Partimos cedo na intenção de caminhar logo ao alvorecer, fugindo durante umas boas duas a três horas à inclemência de um sol abrasador que se esperava.

…/… Desembarcamos das viaturas cerca das seis horas. Orientei a minha carta com o auxílio da bússola e tracei o rumo a partir de um azimute previamente calculado.

…/… Depois da minha experiência no norte de Angola, eu ali andava quase de olhos vendados. Em todo o tempo de N'riquinha jamais falhámos um rumo. Na prática, durante os percursos consultava a bússola a espaços apenas para confirmar o que intuitivamente me parecia correcto. Os GE's confirmam, por conhecimento de séculos de vivência naquela região, que aquela é a direcção certa. Se não o confirmassem eu não teria dúvidas em rever os meus cálculos.

…/… Às 14 horas começa a faltar água, após uma breve pausa para almoçar. O calor era abrasador. Não soprava qualquer brisa. A fraca arborização da savana não permitia trajectos mais frescos. A urgência em aproximarmo-nos do objectivo não sugeria grandes contornos. A velocidade a que nos deslocávamos deixava-nos exaustos e alguns começavam a ficar para trás, obrigando a paragens para recuperação dos menos preparados.

…/… Ás dez horas da noite caminhávamos devagar, apalpando o terreno plano da chana. A noite estava escura. A lua ainda não tinha aparecido. Distinguíamos os nossos vultos mas não os contornos definidos dos nossos corpos. Aquela espécie de monstro alongava-se por mais de trezentos metros de comprido.

De repente, um grito abafado de uma das mulheres que seguia na frente. Largou a trouxa que trazia à cabeça e fugiu em direcção à mata que bordejava a chana do rio. Os três GE's que iam à minha frente saltaram cada um para seu lado. Ao mesmo tempo senti algo volumoso bater-me nas pernas e, sem compreender o que se passava, saí instintivamente do trilho em que vínhamos.

- Pisámos uma jibóia, meu captão. Schii; era grande mesmo! - Esclareceu um dos GE's.

…/… Por fim, por volta das nove horas, ordem para parar. Estávamos no local. Tratava-se de uma confluência de um afluente de rio que entroncava naquele ao longo do qual vínhamos desde o dia anterior. As chanas eram muito largas. Os rios corriam estreitos no meio do descampado de capim seco que as formavam.

Segundo as mulheres eram dois acampamentos. Um na margem direita e outro na esquerda daquele afluente. Distavam um do outro cerca de um quilómetro. Conforme vinha planeado, o grupo de Mavinga atacaria o da margem esquerda e nós o da direita. Fora estipulado o local de encontro após o ataque. Os de Mavinga atravessariam o rio mais acima e viriam ter connosco.

…/… O Fulai ia falando com as mulheres que manteve sempre junto de si. Perguntei o que é que elas diziam.

- Elas dizer que guerrilhêro e popração já fugiu tudo! Muitos tropa! Muitos barulho!

…/… E assim foi. Para lá de uma ou outra escaramuça com uma rajada a sobrevoar-nos, dilagramas e umas trocas de tiros de morteiro, a grande operação acabou num fiasco, mesmo com aviões a mergulhar por cima de nós e a lançar foguetes sobre alvos vazios.

Eram ainda as tácticas da 2ª Guerra Mundial em uso no ano de 1972.

Aparentemente, pouco tínhamos aprendido desde 1961. Quer os generais queiram, quer não...

A recolha.

…/… As viaturas tinham já partido de madrugada de N´riquinha para nos recolher. Mas a odisseia daquela operação não estava ainda terminada. Pelas nossas contas o encontro devia dar-se por volta do meio-dia. Às treze nem viaturas nem qualquer ruído longínquo que pudesse significar a sua presença. A impaciência começou a instalar-se. Os GE's de Mavinga ameaçavam ir a pé até a casa. Uns 120 quilómetros que se dispunham a fazer apenas porque estavam a ficar aborrecidos com aquela estória das viaturas não aparecerem.

…/… Funcionávamos ali como uma espécie de náufragos perdidos em mar revolto à espera de uma ponta de sorte que nos levasse aos salva-vidas que nos procuravam. A DO voltou a levantar de N'riquinha a fim de fazer uma avaliação do desencontro. Do ar era fácil localizar a nossa posição e a das viaturas. Só que a DO não tinha contacto rádio com estas: só connosco.

O Major de operações a bordo do avião viveu uma situação de impotência que o fez desesperar. Como fazer compreender aos das viaturas que estavam a andar mal em relação à nossa localização sem contacto rádio? O avião fazia cabriolas, depois passava muito baixo sobre as viaturas agitando as asas e apontando com o sentido do próprio voo a direcção correcta que as levaria até nós. Mas no chão quem podia compreender isto? Para eles o avião estava a saudá-los e a congratular-se com qualquer coisa que não compreendiam.

Num rasgo de improviso e imaginação lusitana, o nosso Major regressou à N'riquinha e, munindo-se de embalagens de granadas de morteiro 60 meio cheias de areia, voltou lá. Do ar enviou então as embalagens com um pequeno bilhete que dizia: "Sigam a direcção do avião!" Como ainda estavam bem longe de nós, na marcha que serpenteava por entre as árvores alteravam com frequência o rumo certo. A DO voltava a insistir nos voos rasantes redefinindo o rumo certo. O Solnado não teria imaginado melhor uma guerra como aquela. Era um pouco assim a guerra em África, em Janeiro de 1972.

Por volta das quinze horas o encontro deu-se por fim. O pessoal das viaturas vinha com oito horas de marcha e esperava-os outras tantas no regresso, que poderia ser menos moroso uma vez que bastava agora seguir os sulcos dos rodados deixados na vinda, sem preocupações de orientação. Mas a carga era de mais de vinte militares por viatura, mais o armamento e bagagem.

…/… Acomodei-me o melhor que pude procurando o espaço necessário para estender as pernas. Perto de mim encontrava-se um Furriel que tinha vindo na coluna. Procurei indagar como tinha corrido a viagem e as dificuldades que tinham encontrado. Era sempre bom ficar com uma ideia dos problemas para que, se possível, mais tarde não voltassem a repetir-se. Essa era, pelo menos, a minha perspectiva.

Não tinha sido muito difícil fazer a maior parte do percurso porque era tudo plano. Além disso tinha sido recrutado um nativo no aldeamento que dizia ter vivido naquela região anos atrás. Colocado no rebenta minas (parte da viatura sobre o rodado dianteiro) tinha vindo todo o caminho indicando com o braço o rumo a seguir até às nascentes do rio. Cerca de seis horas nesta função, porque a primeira parte do percurso era uma picada já conhecida. Concluíram que, na realidade, não ocorreram desvios no rumo que o nativo veio indicando. A memória daquela vasta região, quase sem pontos de referência, estava-lhe intacta na memória. Apenas ocorrera um curto episódio. O nativo solicitou ao chefe da coluna, se seria possível passar numa determinada árvore e parar por momentos para ele ir buscar uns haveres, que enterrara anos atrás. O Furriel nem queria acreditar. No meio de milhares de árvores, aparentemente todas semelhantes e dispersas numa paisagem monótona como era aquela que se estendia por dezenas de quilómetros, como é que seria possível localizar e identificar uma delas? Pois não se enganou uma só vez. À primeira identificou a árvore e só não recuperou todos os pertences (uns recipientes para água, segundo dizia) porque entretanto a maior parte deles já tinham sido roubados, o que não deixou de ser muito estranho numa zona árida e isolada como aquela. Uma questão a ser dirimida mais tarde com a guerrilha, supõe-se.

…/… Trazíamos apenas cerca de meia hora de viagem. O dia ia ficando cada vez mais escuro à medida que se aproximava o anoitecer. Perto de mim sentava-se o Furriel Leitão do 4º Grupo de Combate. Repentinamente, este colocou-se de joelhos e apontou para fora.

- Está ali qualquer coisa a mexer, diz.

Mandei parar a viatura. Sobressaltei-me. Uma emboscada? De facto, era só o que faltava para rematar aquela sequência de maus acontecimentos. Mandei apear alguns soldados como medida de segurança.

- Não é uma emboscada! Está ali uma coisa a mexer, mas não está escondida.

Mandei o Leitão ao local que distava uns quarenta metros. Voltou trazendo uma criança que aparentava uns seis, sete, anos de idade. Estava nua e tremia tanto que a minha primeira avaliação foi de que se tratava dum epiléptico em plena crise. A criança foi colocada entre as pernas de uma das mulheres capturadas, que a agasalhou com os panos com que se cobria. Continuava com movimentos desconexos e tremores intensos. A mulher aconchegava-o mais. Os seus olhos mortiços muito brancos fitavam-me como berlindes reluzentes desconformes num rosto magro de fome e pouca infância. Fitar-me-ia o caminho inteiro. Com tantas ordens que eu ia debitando apercebeu-se de imediato quem era ali o inimigo mor. Embora óbvio, mandei ao Fulai que perguntasse às mulheres se o conheciam. A criança tinha fugido aquando do assalto e vagueara sozinha perdida durante dois dias e uma noite, até que caíra exausta de fome e frio. A noite tinha sido toda ela de tempestade. Não teria por certo resistido a mais aquela noite, caso o Furriel a não tivesse vislumbrado naquele espaço de mata aberto onde caíra. Éramos a última viatura e ele foi o único que a viu.

Deste episódio houve uma dúvida que sempre me ficou. Quando se agitou era para que o víssemos ou procurava esconder-se? Só o terrível inimigo se fazia transportar em viaturas ruidosas. Só este varria os céus com "modernos" engenhos prateados sobreviventes da 2ª Guerra, roncando e vomitando foguetes de fogo que queimavam cubatas vazias.

Escondia-se, por certo.

Passaram seis viaturas com 120 pares de olhos. Muitos deles especialistas naquele tipo de vegetação e exímios em descortinar o inimigo acoitado. Ninguém o viu. Porquê só o Leitão? Provavelmente uma mão de Deus. Deus a quem na hora questionei com ironia de ateu insolente: mas porquê as crianças, senhor?

P. Cabrita

Dango, Agosto de 73 - Mabubas

terça-feira, 19 de maio de 2009

ANGOLA - A Guerra e a sede.

via Caçadores 3441 de Pedro Cabrita em 19/05/09
Excerto do livro "Capitães do Vento"
Dezembro de 1970, algures nos Dembos – Norte de Angola

…/… Há dois dias que andamos sem encontrar água.
Dois longos dias sem inimigo nem água, sendo que o primeiro não nos faz falta nenhuma. O sol não dá tréguas e continua a derramar ondas de calor chamejante desde que nasce até se esconder no horizonte vermelho, num presságio de promessa de novo inferno para o dia seguinte.
As reservas de água carregadas no rio há dois dias atrás estão esgotadas há muito. Vem-nos à memória, em jeito de miragem de uma onda de frescura, a malfadada travessia do rio dias atrás às sete da manhã. Há quem verta um resto de água quente na tampa do cantil para molhar apenas os lábios, voltando a guardar religiosamente as gotas que restaram, como se de ouro ou uma relíquia se tratasse. Há quem se atire para o chão e jure que não sai mais dali, para logo mudar de ideias mal a coluna preguiçosa se põe de novo em marcha em busca de um oásis que ninguém promete.
A língua fica pastosa e dificulta o falar. A saliva é praticamente inexistente. É como se viéssemos a mastigar cola. Os lábios ásperos e gretados ouvem-se roçar um no outro e queimam.
- Água! Ouve-se na frente.
- Água!
Passos apressados, um ânimo que parece renascer não se sabe donde, um ir destapando um cantil que ferve à cintura vazio e seco.
- ... água?
A "água" é um charco pestilento calcado por dezenas de pegadas de animais, mistura de lodo e algum líquido que borbulha à superfície, onde pululam uns bichinhos minúsculos de pouco mais de meio centímetro, movimentando-se num saracotear de corpo todo – que em pequeno costumava ver nas valetas de água parada da minha aldeia misturados com os girinos – a que se dava o nome de saltitões.
Muitos não resistem. Procuram uma zona de maior profundidade, três a quatro dedos, inclinam o cantil e enchem-no até onde é possível, procurando enxotar as pequenas jangadas de porcaria pestilenta que se precipitam em direcção à boca do cantil. Com uma bola de algodão tapam o bocal do outro cantil e vertem-lhe aquele líquido meio espesso que vai deixando o algodão empapado de lama e saltitões que se debatem como nós pela sobrevivência.
Juntam-lhe um daqueles comprimidos militares que garantem destruir a maior parte das doenças (além do fígado e dos rins) que pululam nas águas podres – teoria jamais comprovada, mas que ajudava a beber qualquer porcaria para não morrer de sede – e agitam o cantil com grande intensidade procurando aumentar o efeito do químico. Alguns nem dão tempo sequer a que se derreta e apazigúe alguns dos milhentos micróbios que se preparam para ajudar o IN, devorando-nos a nós. 
O sabor é horrível mas só param depois da quarta ou quinta golada, não vá o saborear antecipado corromper a vontade de matar a sede. Alguns resistentes parecem preferir o risco de morrerem à sede, mas têm algumas armas escondidas em que confiam e que hão-de utilizar na hora certa e no momento apropriado.
Cai a noite estrelada e fresca. O desânimo é enorme. No silêncio murmuram-se maldições.
- Agora só faltava os turras atacarem, ouve-se.
- Se trouxerem água até a G3 lhes dou, carago. Que puta de vida. Que mal fiz eu a Deus? Andou a minha mãe a criar-me com tanto carinho para isto.
Ninguém tem vontade de comer. A sede tira qualquer vontade de mastigar ou engolir o que quer que seja. No mato morre-se de sede. Dificilmente se morre de fome. A água até a fome engana.
A boca tem um sabor estranho, o raciocínio imobiliza-se, o pensamento tem um único sentido: chuva, rios, mar, vinho, cerveja, água, água, água …
Na escuridão que já nos envolveu há duas ou três horas, vislumbro três vultos que deslizam em silêncio saindo duma tenda afastando-se ligeiramente da zona de concentração, sendo claro o cuidado que põem em não fazer o menor ruído para não serem vistos. Tanto quanto me é dado a perceber, um pouco mais além agacham-se os três e ficam imóveis. A situação desperta inicialmente a minha curiosidade. Há militares que ficam de sentinela de noite guardando o sono dos companheiros que dormem. Mas não assim. Normalmente são quatro que se dispõem formando um quadrado, alguns metros para lá das tendas dispostas em círculo. Admito uma segunda circunstância relacionada com a satisfação de necessidades fisiológicas, cujo uso tinha regras. Mas em grupo não me parecia apropriado. E para outras, … essas sim de grupo... o momento não me parecia o mais oportuno...
Desligo-me da situação porque nem me apetece indagar. Disponho-me a tentar dormir.
Cinco minutos depois.
- Meu Alferes, meu Alferes! Já viu? Sussurra-me o furriel "Montijo" entrando de cócoras na tenda em grande agitação.
- O quê? Pergunto, sem me mexer nem abrir os olhos. Achei que na altura me podiam até atacar que a vontade de me mexer seria nula.
- O Serrano, o "Galinhas" e o Gama estão ali atrás das tendas de joelhos a rezar para que chova. O meu Alferes já viu o que é que a merda da falta de água faz? Os gajos piraram. Têm os miolos cozidos do sol.
- Não me parece "Montijo". Na hora do aperto a fé é a última arma para algumas pessoas. Você não acredita em Deus? Disse, continuando de olhos fechados perguntando-me a mim próprio por que carga de água trazia eu aquele tema para a conversa numa altura daquelas.
- Nunca fui de ir à missa, meu Alferes. Só me lembrei de Deus quando estive quase a patinar naquele acidente em que me ia partindo todo contra um poste. Ia lá deixando os dentes todos. Já lhe contei essa, não contei? Depois curei-me e olhe, nunca mais me lembrei disso outra vez.
- Pois é "Montijo"; quando a vida começa a andar para trás é que as pessoas se lembram de Deus. É assim como quando faz trovões. Depois, passa a tempestade e só se voltam a lembrar quando trovejar de novo.
- Não tinha que morrer. Senão tinha morrido mesmo, não acha? Eu só me lembrei. Mas não pedi nada. Eu nunca acreditei em Deus. O que tiver que ser é... e seja o que Deus quiser...
- Claro, "... e seja o que Deus quiser "Montijo"… ".
- Vamos mas é dormir ó "Montijo", porque assim nem sentimos a sede. Amanhã à noite estamos em casa.
O "Montijo" acomoda-se na tenda virando-se de costas para mim enquanto abafa um riso fungado que se lhe escapa pelos dedos que comprimem o nariz.
- Meu Alferes! Tenho a impressão que já está a pingar...
- Não goze "Montijo", não goze.
- Os gajos piraram. O "Galinhas" então, mesmo sem sede já é marado.
Na mata às sete horas já se dorme. Naquela noite seriam umas nove quando nos dispusemos a tentar descansar, perturbados como estávamos com a falta de água que nos martirizava de uma forma difícil de traduzir por palavras. Os tormentos da sede confundem-nos de tal forma o raciocínio e os sentimentos que o que fica na memória é uma espécie de dor vazia de imagens, cuja recordação traz mal-estar e um enorme desejo de não lembrar.
Duas da madrugada. Em enorme sobressalto agarro-me à espingarda com o "Montijo" em grande alvoroço dentro da tenda.
- Meu Alferes, meu Alferes; porra chove para caraças; o cantil, o cantil!
Uma das características do clima de África é a alternância brusca entre um sol radioso ou uma noite estrelada e uma chuvada diluviana em menos de uma hora, para logo depois tudo serenar.
O alvoroço era indescritível. Inventavam-se mil e uma maneiras de apanhar a água que caía generosamente do céu. Fizemos uma goteira a partir do bico dos ponchos que formavam a tenda e a água corria a fio ali mesmo à nossa frente. Alguns soldados dançavam em grande algazarra à chuva agarrados uns aos outros, perante a escamação do Alferes Chagas que lembrava em vão a necessidade de observância do silêncio e das normas de segurança.
- Eu quero que os turras se f....
Era o tipo de resposta que invariavelmente se conseguia ouvir, numa perfeita loucura que subvertia os conceitos e preconceitos, comandos e hierarquias, que no escuro de uma noite de chuva intensa sofregamente abençoada se misturavam e confundiam.
A água sabia à borracha dos ponchos e trazia um leve travo salobro do suor que se lhe entranhava durante o dia quando transportado às costas dobrado e atado ao saco. E tudo porque ninguém se atreveu a perder as primeiras gotas que caíram e o lavaram de três dias de poeira e transpiração transbordante. A chuva podia terminar de um momento para o outro. O céu escuro não deixava adivinhar a dimensão da chuvada.
Choveu toda a noite. Foram bebedeiras de água e de pragas devolvidas ao sossego dos espíritos saciados da guerra da sede. Qual alambique destilando o melhor álcool, cada cantil sabia melhor que o anterior, depois de bem lavados os telhados da tenda que nos abrigava. Ninguém mais dormiu. Não só porque todos queriam beber até não poder mais, mas também porque a chuva inesperada encharcou tudo, entrando pelas tendas adentro.
Meditativo, o "Montijo" está sentado à porta da tenda de pernas cruzadas e olhar fixo no fio de água que escorre para dentro do cantil.
- Porra meu Alferes! E choveu mesmo. Diz sem tirar os olhos da água que corre límpida para dentro do terceiro ou quarto cantil que enche.
- Agora é que você começa a ir à missa ó "Montijo".
- Náh! O meu primo era um beato do caraças que até ajudava à missa. Mesmo assim não deixou de se enfiar por uma ribanceira abaixo com uma bebedeira que nem queira saber. Olhe, ainda ficou com menos dentes do que eu.
- Mas ó "Montijo"; isso foi da bebedeira.
- Ó meu Alferes; e Deus naquela altura também estava distraído ou com os copos, não? Ao que consta, Deus não dorme... nem bebe. Só que... sei lá…
Pronto. E assim se tresmalhou mais uma ovelha que se admitiria poder constituir-se num sério candidato ao rebanho de Deus, passada que foi aquela provação de tão grande aperto e sofrimento.
Talvez na próxima, quando Deus e os homens ousarem desafiar as convicções de um "Montijo" que entende que a chuva nem sempre cai quando Deus quer ou manda…/…

segunda-feira, 30 de março de 2009

N'riquinha - Um E.T.D. sem retorno...

N'riquinha - Um E.T.D. sem retorno...

via Caçadores 3441 de Pedro Cabrita em 29/03/09
Jamais consegui explicar a razão da minha afeição às gentes do aldeamento da N´riquinha. 
Porque fiz quase minhas as dores daquela gente e porque sofri na partida, quando era uma incontida alegria que me deveria inundar por finalmente abandonar aquele autêntico "buraco" onde nos amarraram longos dezoito meses e meio.
Porque interiorizei o sofrimento daquela gente e, nesse sentido, quanto martirizei a "minha tropa" em apoios, transportes e protecção de uma população que não tinha que me dizer nada, porque eu estava ali para fazer a guerra e não para me sensibilizar com o sofrimento escorrido dos nossos 500 anos de ocupação, em que nem a língua materna fomos capazes de lhes transmitir.
Talvez a minha origem humilde possa explicar este acolhimento insensato para um "guerreiro" armado para fazer a guerra. Talvez se tenham enganado os Senhores da Guerra quando me descortinaram engenho e chama para a beligerância a que me destinaram; ou, quem sabe, nem tenham tido tempo para perceberem que a peça não era muito talhada para a função almejada.
Talvez a comunhão sempre viva no dia-a-dia da minha aldeia tenha permitido e incentivado esta minha extensão às agruras das gentes das Terras do Fim do Mundo que nos calharam em sorte e em tempo de guerra.
Talvez "a minha tropa" nunca venha a entender porque os obriguei a tanto tempo extra em devoção a gente tão despida de valores materiais, mas tão rica na nobreza de nos aceitarem com 500 anos de soberania prepotente, tempo aparentemente insuficiente para lhes termos dispensado uma réstia de dignidade que nunca fomos capazes de lhes proporcionar.
Quem sabe se não me pesaram na consciência esses 500 anos de ostracismo e desdém com que brindámos o seu consentimento em deixar-se ser portugueses sem o pedirem.
A partida de N'riquinha foi dos momentos mais doridos de entre todos os 1400 dias de serviço militar a que me vi obrigado a cumprir.
Não encontro melhor forma de vos fazer compreender o meu sentimento por aquela gente senão transcrevendo-vos como o vivi.
Apenas referir que este escrito tem cerca de nove anos. Li-o uma única vez depois de publicado. Não consegui voltar a lê-lo.
Não será hoje que o faço. Transcrevo-o apenas.

"…A grande viagem vai começar. N'riquinha-Luanda.
Dois mil quilómetros em linha recta. Bastantes mais pelas picadas e asfaltos que nos esperavam.

As despedidas estão feitas. Cerca de 140 militares distribuem-se por não sei quantos camiões civis, sentando-se sobre as caixas, malas e múltiplas embalagens, que albergam uma mistura de espólios de guerra com esbulhos de uma civilidade havia muito perdida e encaixotada, e que agora cortejavam a esperança de poderem voltar a florescer, depois de vencido o bafio e a poeira do tempo.
A primeira viatura faz-se preguiçosa e indolente à porta de saída. Soam os primeiros gritos de alegria de despedida de um inferno que por fim se extinguia. Em pé os soldados, enfardados num camuflado desbotado dos tombos da guerra, erguem a G3 como se acabados de conseguir a maior vitória das suas vidas. Os putos, menos doridos e molestados pelos sentimentos de proximidade e pieguice dos adultos, saltitavam em bandos ao lado das primeiras viaturas, alegremente contagiados pela alegria que explodia em cada uma delas.
Ao fundo, comedidamente à distância, na beira do kimbo defronte da picada por onde iríamos passar, aglomera-se um magote de gente silenciosa e mortalmente imóvel. Mulheres com crianças às costas, velhos que se vergam à frente apoiados em paus longos, raparigas adolescentes de braços cruzados que mordem uma ponta do pano que lhes envolve o corpo esguio, mulheres idosas, que se ficam mais atrás apoiando-se na última cubata, com a mão sobranceira aos olhos protegendo-se do sol.
Um kimbo inteiro.
Um kimbo inteiro veio despedir-se da tropa matchiririca que chegou um dia para fazer a guerra com armas que matam e acabou por se consumir noutras batalhas tão indesejáveis e perversas quanto aquela. Uma luta pela dignidade da vida dos que nada tinham e uma autêntica guerra contra o isolamento e as agruras duma fome ignóbil de comunidade perdida nos confins de África, uma autêntica tribo de índios ainda perdida nos confins duma Amazónia deserta, também esta em vias de extinção por via do progresso e de causas justas.
A coluna já se forma lá fora do aquartelamento iniciando preguiçosa uma caminhada de serpente, marcada por nuvens de poeira que se vão elevar nos céus assinalando a sua passagem. A picada segue inicialmente a linha da pista de aviação em direcção a Mavinga, correndo paralela ao quartel e ao kimbo.
Agitam-se lenços, braços e gritos. Uns quantos não resistem e correm até junto da picada. Crianças, adolescentes e mulheres, algumas com crianças às costas. O movimento das viaturas induz-lhes o acompanhamento destas.
Correm. Num impulso contagiante, mais gente vem descendo por entre tufos de capim seco que saltam com destreza. Já há uma pequena multidão que corre paralela à coluna acenando e gritando palavras que continuo sem entender o significado mas que desta vez dispenso tradução. Alguns correm apenas e nada dizem, nada fazem. Apenas querem correr e ficar mais um pouco junto de nós. Uma derradeira companhia, um último momento de uma despedida que já levava dias. Apenas o prolongar um pouco mais da agonia do fim de uma amizade fraterna que a proximidade confortava e induzia um pouco mais de segurança, bem-estar e protecção.
Centenas de metros percorridos e quase ninguém desiste. Corações ao alto, corações ofegantes, corações que persistem numa corrida sem fim nem proveito. Uma corrida quase suicida de ir até ao fim, de ir até cair.
Estou sentado ao lado do condutor que sorri meio estupefacto e me diz.
- Nunca vi nada disto.
Mando abrandar.
Que raio de ideia. Retemperam-se do esforço e dispõem-se a ir muito mais longe.
Mando acelerar e deixo de olhar. Fecho os olhos naufragados numa comoção que transcende aquilo que se espera de um comandante de guerra. Esqueceram-se que um militar nasce militar, não se fabrica por conveniência. Sinto que aceleramos e deixo passar mais uns metros seguros de não ver mais aquela espécie de loucura, de suicídio colectivo, um mar de baleias que dão à costa e se matam com um sorriso de prazer inexplicável recusando voltar atrás, que nos sobreleva o entendimento ou nos desvirtua a propalada razão e superioridade humana.
Por entre um marejar turvo de imagens desfocadas consigo perceber que há ainda um resistente que ao nosso lado se mantém firme de olhos em frente e um sufoco estampado no rosto. Traz vestida uma pequena tanga que esvoaça e denuncia os restos de um camuflado há muito esquartejado, que disfarça agora a sua nudez e sufoca o que resta de uma dignidade que recusa perder.
Fecho os olhos em definitivo e recosto-me no banco. Passo as costas da mão pela testa em busca de um suor que não existe e prolongo o gesto pelos cantos dos olhos, onde estrangulo uma dor que se me escorre de dentro sem que se entenda bem onde nasce. Preciso urgentemente de me explicar quando percebo que o condutor me olha de soslaio e desvia a atenção da picada.
- ... Esta poeirada...!
- ...?!
Mantenho-me assim por dez minutos e percorro em sentido inverso aqueles dois, três quilómetros já percorridos. Tento entender e não consigo. Ficamos sempre com uma imagem de um determinado bem que se faz, de umas migalhas que se oferecem e nos deixam alguma paz de espírito que nos conforta o sentimento de bem-estar connosco próprios. De acordo com as circunstâncias em que ali fomos vivendo todo aquele tempo, atribuímos um determinado significado às coisas, sempre parco quando o comparamos com os nossos padrões de vida, os nossos hábitos e anseios. Esquecemo-nos que o pouco que por vezes se oferece tem um significado tão intenso e duradouro quanto miserável é o significado das suas vidas e quão vulneráveis ficam os seus corações a gestos de pouca monta, mas tesouros de riqueza desmedida que retribuem com as únicas moedas que possuem: a solidariedade e o reconhecimento.
O condutor não pára de olhar pelo retrovisor.
- Parece que já ficaram para trás, diz espreitando dos dois lados como que receando que se tivessem passado para o outro lado.
Não arrisco a abrir os olhos para confirmar. No fundo, talvez eu quisesse guardar aquela imagem lá bem no meu íntimo. Uma prenda simbólica que nos cinzela a memória corroída por inutilidades. Uma fenda esculpida a marteladas de vida que nos deixa marcas que perduram pela vida fora e nos humedece ainda os olhos, trazendo à mente uma catadupa de sons e imagens de significado imenso e de tão grata recordação.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga...
Diz-me ainda o condutor, mais preocupado com aquela perseguição tenaz, que com o trilho baço de poeira da viatura da frente.
Não! Virão atrás de nós muito para lá de Mavinga. Virão atrás de nós todo o tempo que eu viver e for capaz de me lembrar deles, da sua simplicidade, dos seus corações abertos, dos seus hábitos e tradições, da sua inocência de fazer casa grande para captão e mulher do Puto, de acreditarem numa pátria que nunca viram nem sentiram como sua, de serem capazes de acreditar todos os dias em qualquer coisa sem terem nada em que acreditar. 
Abro por fim os olhos. Agora sim mergulhados num verdadeiro tormento de poeira, uma extensão daquele escuro de nuvem confusa que me faz perder o norte e me baralha a mente com pensamentos descoordenados que me desalinham a recentíssima alegria de partir.
Não me sinto.
Não sei se venho. Não sei que partes de mim vêm. Não sei o que trago. Não sei o que deixo. Não sei o que perco.
Mas sei o que ganho.
E que me dói já a certeza de jamais poder com eles usufruir do que bebi dessas lições de vida sentida e dorida, trituradas a golpes magoados de pilão e sublimadas a bálsamos de batucadas ardentes vencidas pela noite dentro, até que a dor morresse e um novo dia de fé ausente nascesse.
Já não ouço vozes. Só corações soçobrando num adeus derradeiro que se extingue num último suspiro sem sinais de revolta.
Agitam-me os tombos da picada. Agitam-me os meus pensamentos desarrumados. Agitam-se-me revoltas de sentimentos de impotência e remorsos de me vir embora quase feliz. De deixar para trás um fosso com gente dentro que chegou a acreditar que tinha chegado a hora de fugir daquele gueto de guerra e poder morar livre como o vento no mato longínquo e seguro das terras do Cuando-Cubango.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… (120 Km)
De soslaio vou dando miradas pelo espelho retrovisor, não sei se na esperança de ainda ver alguém, se de não ver. Mas se vir, garanto a mim próprio que mando parar a coluna e o abraço longamente até sentir que o seu coração se acalma e se me ensurdecem os gritos de despedida que ainda ouço.
Convenço-me por fim que já não vêm. Convenço o condutor a olhar apenas em frente porque é por ali que passa o futuro. Tenho pela frente quatro dias de comer quilómetros de poeira que embaciam um céu limpo sem nuvens. Um circo em movimento que se move em busca de outros públicos e os mesmos aplausos dos que querem continuar donos e senhores da terra que, para muitos, os viu nascer.
Mavinga, de passagem. Quase sem tempo para uma cerveja refrescante que nos lave estômago e a bexiga dos primeiros 120 km de um pó eterno que mastigávamos já com naturalidade, quando o sentíamos ranger entre dentes ou lacrimejar turvo que escorria pelo canto do olho levado pelo vento que nos temperava das ondas tórridas de um calor sempre sufocante.
Andar, andar. Está no andar. Dali para fora. Com calor, com sufoco, com gosto ou desgosto.
Um último relance pelo fim da picada que vinha de N'riquinha. Um último sossego de caminho vazio onde a poeira fina ainda paira no ar como cacimbo seco e colorido obstinado em ficar por ali tingindo as árvores da cor da picada.
- Estava a ver que vinham atrás de nós até Mavinga… – ainda me ressoa perturbador como vaga que me quer engolir e atirar de encontro ao rochedo do meu medo de olhar para trás…"

N´riquinha – Entregar, peça por peça, um quartel vazio de gente e de almas…

via Caçadores 3441 de Pedro Cabrita em 29/03/09

Tinha deixado a promessa de por aqui passar com mais regularidade, deixando uma ou outra intervenção que ecoasse a nossa memória colectiva daqueles anos 71/73. Não que não tenham buscado e rebuscado uma ou outra história ainda "secreta" que valesse a pena trazer ao conhecimento dos nossos cabelos brancos e olhos ávidos de lembranças de uma mocidade que nos calhou viver em comunhão e em sofrimento.

Mas a verdade é que, para já, não encontrei senão episódios dispersos a que acabei por não dar relevo.

Prometo continuar a procurar. A memória já não é o que era; mas aquela daqueles anos ficou como marca indelével, que se nos vai avivando em cada ano em que matamos saudades nos encontros que o Duarte em boa hora empreendeu.

Mas este vazio de reconstrução de histórias novas também tem uma outra justificação que se prende a uma ou outra aventura literária em que me fui metendo, acabando por quase esgotar o manancial de narrativas passíveis de reproduzir agora e de novo.

Entendo, no entanto, que este lugar nos deve merecer um inusitado carinho, louvando, desde já, o Egídio Cardoso pelas belas prosas e fotos com que nos tem brindado. Pela minha parte farei o possível.

Deste modo, e perdoem-me a falta de originalidade, achei que talvez não fosse despropositado trazer um ou outro eco de trechos que já escrevi noutros sítios, na certeza de que muitos dos nossos companheiros ainda os não terão lido e outros nem tenham lá chegado, se porventura se aventuraram a lê-los.

Escolhi duas situações. Esta que aqui vos vou deixar e uma outra que transcreverei noutra folha.

Especialmente para a malta do "arame" (para os leigos, não confundir com "malta do dinheiro"… O "arame" aqui era o arame farpado, querendo referir os militares especialistas que faziam a sua actividade militar no aquartelamento, logo, dentro do arame farpado); dizia então que, para estes, e não só, deixava a recordação da entrega do aquartelamento à Companhia que nos foi render e os milhares de apetrechos e artefactos que foram necessários contabilizar e conferir, numa saga inimaginável, ou só admissível numa instituição como a militar. Também para muitos outros que não fará a mínima ideia de como aquilo era.

Então foi mais ou menos assim que eu senti aqueles três ou quatro dias em que cheguei a ter cãibras na mão direita de tanto assinar papel:

"… Por fim a trouxa militar está entregue. As mais de mil e quinhentas assinaturas estão rabiscadas noutros tantos formulários e modelos militares garantindo a passagem de testemunho, consubstanciado em milhares de peças e pecinhas com os mais variados tamanhos e funções.

Garfos, quase conferidos dente a dente para verificar da sua operacionalidade, colheres, casas, pré-fabricados com telhas de zinco que voam nas tempestades mas param submissas a cinquenta metros de distância e aguardam que as tragam de volta vezes sem conta, como crianças que se obstinam em fugir ao controlo dos progenitores; máquinas de escrever, que por vezes escreviam; mapas, que falavam mas nada diziam e por vezes mentiam; cadeiras, secretárias (de madeira…), chaves de fenda, de cruzeta, de boca, sem boca, com dentes, sem dentes; motores que trabalhavam, outros que se reformavam, e ainda os que morreram há muito e já não respiram, mas continuam pertença e tesouro da República; retretes que fediam, camas que gemiam, colchões sem edredões; passeios de tabuinhas cruzados por milhões de viagens nos dois sentidos e sem sentido; arame farpado com bicos que ameaçavam rasgar a carne aos que queriam entrar, mas também dos que queriam sair; holofotes com luz, sem luz, antenas, bombas de água que nos bombeavam a paciência, geradores que muitas vezes trabalhavam; câmaras frigoríficas a funcionar, avariadas, inutilizadas, obsoletas, mas ainda zelosamente à carga, não fosse desertarem para as bandas do inimigo; camiões, unimogs, jipes, uns a andar, outros parados, vandalizados, canibalizados; uma prisão com telhado de capim, paredes de barro (espesso…!) e grades de vento; areia, muita areia, pedrinhas pintadas de branco que faziam de ruas que não levavam a lado nenhum e davam uma ilusão de ordem que apontava um caminho que não existia; uma taberna travestida com o eufemismo de cantina; bidões de gasóleo, cunhetes de munições contadas caixinha a caixinha, cunhetes de cerveja contadas na garganta duas a duas; janelas com rede mosquiteira, quartos com mosquitos, panelas de 50 litros e tachos de 30 que tresandam a um aroma de gordura militar que se esvai três dias depois da fome nos ter dizimado as resistências do olfacto e o último furo do cinto; um Chiado (vazio) onde em época alta se pode encontrar o último grito de sabão azul cortado em fatia fina com faca de queijo; um clima variado (de 45º a – 3º), noites escuras, de solidão, de desespero, de medo, blenorragias, pagas em moeda corrente ou géneros de primeira necessidade; ("… furrié é bom p'ra mim; furrié dá sapato, dá pano, dá dinhêro p'ra comprá cérvêja lá nos cantina…"); paludismos distribuídos gratuitamente a febres de 41º repartidas por 15 dias de férias em cama fresca de abundante suor; vacinas contra a mosca do sono (1cm3 por cada 10 kg inoculados por agulhas de 8cm enterradas na alva nádega sem dó nem piedade); medicamentos, para as doenças e para afugentar o medo das balas; um milhar de bugigangas agrupadas em pacotes de função, outro milhar dividido em função de pacotes, ainda um outro sem pacote nem função, e, por fim..., um kimbo com gente viva dentro, porque se mexia; uma bandeira num mastro altaneiro que se esfalfa todos os dias para afirmar a nossa autoridade naquele lugar e uma guerra; uma guerra que começa à porta de armas e termina nas margens de um rio Cuando majestoso e indiferente, que nos separa da soberania do povo do lado de lá, mas que os do kimbo não entendem porque os apartam dos família do outro lado de um rio sem paredes nem muralhas, feito apenas de água que corre límpida e sem raivas em ambas as margens.

Ficam de fora, com o consentimento das NEP's (normas da coisa militar que nos orientavam em tudo, por vezes até os gestos e os desejos) depois de demorada consulta para esse efeito, a gata (a "chaninha" para os mais íntimos, companheira inseparável das noites de insónia em que nos achávamos a fazer de ratos para a gata brincar); uma cabra bebé, poupada a um tiro de G3 num intervalo da guerra, passando a fazer parte da carga da Companhia (até que um dia a fome ditasse um outro destino) e… o Dango (depois Dango Cabrita), a peça de guerra mais representativa que foi possível achar, depois de capturada ao inimigo nas terras do Cuando-Cubango.

Tudo contado, conferido e entregue, soa um batuque fúnebre que carpirá noite dentro uma dor cíclica de perder quase para sempre, e de uma só vez, um amontoado de amigos trazidos pela guerra e pela guerra levados.

Tropa matchiririca parte amanhã bem cedo…"