domingo, 6 de julho de 2008

Carta do General Silvino Silvério Marques para o General Gonçalves Ribeiro - I

via nonas de nonas em 05/07/08
Recebi do Senhor General Silvino Silvério Marques, - Governador de Cabo Verde, Governador-Geral de Angola, 2.º Comandante da Região Militar de Moçambique e galardoado com a Medalha de Ouro de Serviços Distintos com Palma, duas medalhas Militares de Prata de Serviços Distintos, a Medalha de Ouro Comemorativa das Campanhas de Moçambique (1971-1972-1973), e a Medalha comemorativa do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, entre outras, - duas cartas que o Senhor General enviou ao gen. Gonçalves Ribeiro relativas à publicação do livro "A Vertigem da Descolonização" e que as recebi com a sua devida e honrosa autorização para as editar.

«Estou a ler com muito interesse o seu livro "A Vertigem da Descolonização" em cujo lançamento não pude, com pena, estar presente.
Vou praticamente a meio da leitura que estou fazendo, pausadamente, com atenção. Mas não quero deixar passar mais tempo sem lhe dar conta de reparos que merece o Cap. 7 que me diz respeito, reparos que historicamente se me afiguram de interesse.
Cheguei a Luanda a 15 de Junho de 1974 sem relações com o MFA. Os contactos que me haviam levado a Angola haviam sido com o Gen. Spínola e o Dr. Almeida Santos, por iniciativa, não minha, mas de ambos. Não conhecia os raros oficiais do MFA com que me encontrei em Angola.
Na convocação que fiz do primeiro Conselho Provincial de Defesa fui perguntado pelo seu secretário, o hoje general Igrejas, quem devia estar presente. Disse-lhe que o Comandante-Chefe e os Generais dos Ramos que o constituíam, e apenas mais os Cmtes. da PSPA e da OPVDCA , pois desejava ouvi-los. Fiquei surpreendido quando, chegado à Fortaleza, o Comandante-Chefe me informou estarem já instalados na sala do Conselho seis oficiais representantes do MFA, dois por cada um dos Ramos. Nada me ter sido falado e pedido, o facto consumado, contrariando a indicação do Presidente do Conselho, representou evidente deslealdade para com o mesmo.
Não pude deixar de verberar a situação criada em termos que me pareceram adequados, entre militares. Parece que os representantes do MFA não tiveram consciência do agravo que haviam provocado mas ativeram daquele que mereceram.
O Dr. Savimbi declarou suspender as hostilidades na altura da minha chegada a Luanda. Passado tempo recebi do Dr. Almeida Santos a informação de que um oficial se deslocaria a Angola para contactar o Dr. Savimbi. Pedi-lhe que o oficial passasse pelo meu Gabinete pois desejava que um dos meus Secretários-Adjuntos o acompanhasse para lhe apresentar um convite meu. Queria que o Dr. Savimbi se fizesse representar no meu Governo com um Secretário-Adjunto e estava tentando, através o Arcebispo de Luanda, convencer o hoje Cardeal Nascimento, que eu tinha como simpatizante e influente no MFA, a aceitar outro lugar de Secretário-Adjunto (o governo de Angola esteve , creio que por mais de uma vez, entregue a altas figuras da Igreja). O oficial enviado de Lisboa, então Maj.(?) Charais que eu conhecia por ter despachado comigo, algumas vezes, no EME, compareceu certo dia no meu Gabinete onde nos encontrámos ambos com o meu Secretário-Adjunto, Dr Pinheiro da Silva. Conversámos sobre a sua missão e ficou combinado que o Dr. Pinheiro da Silva o acompanharia no encontro com o Dr. Savimbi para lhe fazer o convite em que eu estava interessado. O Major despediu-se e nunca mais, nem o Dr. Pinheiro da Silva nem eu, soubemos dele. Ninguém teve a atenção de uma palavra ao Governador. Novo facto consumado, nova deslealdade.
Mais tarde, uma reunião do MFA resolveu atribuir as culpas do que vinha acontecendo desde o 25 de Abril esse tornara mais grave com a crise Palma Carlos, o exemplo da desordem no Portugal europeu e, sobretudo, a soltura de presos de delito comum e o encerramento do Posto de S. Nicolau, ao novo Governador. E sem uma palavra a o Governador que somente teve conhecimento da reunião em Lisboa, o próprio Comandante-Chefe, com quem o Governador comunicava praticamente todos os dias, escreveu para Lisboa num sentido semelhante, sem qualquer explicação prévia ao camarada .
Pode o Senhor ter a opinião que entender a meu respeito, mas referir uma conflitualidade "entre o novo Governador" e o o MFA local não me parece correcto. Que fiz eu para tal conflitualidade? "Entre" ou "do" MFA (e não só) para o novo Governador?
Há lapso sério quando conta que na 2.ª quinzena de Junho se dão fugas e solturas de reclusos. Não houve qualquer intervenção do meu Governo em tais ocorrências que se devem ter processado antes da minha chegada, como aconteceu com o encerramento do Posto de S. Nicolau onde, a partir do Gen. Deslandes, se fixava residência a prisioneiros entregues pelas Forças Armadas à Polícia Internacional e a revolucionários detidos pela mesma Polícia. Como há lapso ao deixar a dúvida se o motim de reclusos teve lugar na referida 2ª quinzena de Junho. É a primeira vez que tomo conhecimento de ter havido tal motim. Há também lapso quando se inclui o assassinato do enfermeiro Benge no meu tempo. Os jornais de Lisboa anunciaram-no alguns dias antes da minha ida para Luanda.
Ao referir a sua opinião sobre a acção da PSPA, teria sido natural e correcto chamar a atenção para o facto dela ter passado, após visita, tempos atrás, do Gen. Costa Gomes a Luanda, a depender do Comando-Chefe e não do Governo-Geral, como seria normal, circunstância a que não fora dado conhecimento a este. E não seria pedir-lhe demais que acrescentasse que o Governo-Geral não só ficara praticamente sem meios para accionar a ordem pública, como sem informações atempadas sobre a sua evolução...
Tenho dúvidas se a minha nomeação foi "outro equívoco", como o Senhor, com certa deselegância opina, ou se em Angola o grande e criminoso equívoco não foi a subordinação acobardada de militares sérios e competentes a uma rapaziada de formação comunista, ou ansiosa de se branquear de tropelias feitas, que acabou por ajudar a trazer a subversão a Luanda e a outras cidades e a dar origem à tragédia reconhecida pelo ideólogo do MFA.»

Silvino Silvério Marques

Carta do General Silvino Silvério Marques para o General Gonçalves Ribeiro - II

via nonas de nonas em 05/07/08
«Acabei de ler o seu importante livro que constitui um documento histórico de valor.
No que se refere a IV - Os Retornados/Desalojados trata-se de um verdadeiro e minucioso relato da notável acção que concebeu, dirigiu e levou a bom termo pela qual merece o respeito e a gratidão não só dos beneficiários directos da mesma mas de todos os portugueses conscientes. Tem o meu e a minha. A sua formação profundamente humanista de que dá notável testemunho nesta complexa, delicada e prolongada acção fora já revelada, como também refere, no seu magnífico apoio a populações africanas. A par da devotada vontade que tudo enfrenta para, com coragem, iniciativa e persistência, obter soluções, no cumprimento de uma missão a si próprio atribuída, evidencia uma capacidade organizadora rara entre nós.
Isto é independente dos reparos que fiz a respeito de III-7 e também de um outro que lhe junto agora.
Muito me impressiona que militares bem formados e inteligentes, como o Senhor, convivendo dia a dia com a evolução que o processo da chamada "descolonização" ia sofrendo e com a intervenção nele dos respectivos mandantes, conseguiram manter, em relação a ela, neutralidade, alheamento e mesmo acomodação... E, mais, como é possível manter tal neutralidade, com raras excepções (a mais recente e de todas a mais importante terá sido a do nosso camarada Silva Cardoso) quando responsáveis directos por tal evolução se pavoneiam entre o nosso povo como heróis da "nossa" Pátria!
Como um "assim não!" teria sido importante!
Estou a lembrar-me que no meu curto Governo fui insistido para correr com a vereação da C. M. de Luanda, como estavam fazendo com ocupações no Portugal europeu . Não deixei. Só após eleições que estavam prometidas.
E não estou a esquecer a sua atitude quando sentado, como réu, em frente de um grupo de mfas, marcou uma posição, a qual, pelo que julgo ter entendido, foi depois essencialmente a de alheamento e de neutralidade que conserva relativamente a eles.
Certamente pensavam os militares sérios e competentes que embora o poder estivesse a revelar-se destruidor, era nos termos democráticos apregoados, não revolucionário, mas legítimo, e acomodavam-se visando evitar o pior. O pior que assim acabou por acontecer causando destruições sem par, vítimas aos milhares, lá e cá a tragédia que foi confessada!
A ocupação pelo MPLA da C. M. de Luanda logo se verificou com a chegada do Alm. Rosa Coutinho! E deve ter sido importante para ajudar o MPLA a manejar meios humanos e materiais para... asua ( do MPLA) "descolonização"de Luanda.»

Silvino Silvério Marques

Nota: Permita-me o Senhor General Silvino Silvério Marques que discorde de dois aspectos.
- quando escreve "seu importante livro que constitui um documento histórico de valor." Na minha modesta apreciação, parece-me um gesto de simpatia e exagero para com o autor.
Nas páginas do livro, encontram-se vários erros históricos, omissões de factos e relatos inexactos como o do assalto ao Palácio do Governador, no qual o autor repete a versão posta a circular logo nessa noite em Luanda.
- quando menciona "No que se refere a IV - Os Retornados/Desalojados trata-se de um verdadeiro e minucioso relato da notável acção que concebeu, dirigiu e levou a bom termo pela qual merece o respeito e a gratidão não só dos beneficiários directos da mesma mas de todos os portugueses conscientes."
Lembro que face ao Acordo de Paris, o governo português estava obrigado a que os «colonos deveriam ser repatriados a expensas de Portugal.» — Liquidação do Ultramar, Jornal Português de Economia e Finanças, 1980.
Ora, foi ao general Gonçalves Ribeiro que tocou pôr em prática essa exigência!
Finalmente, ao longo do livro o gen. Gonçalves Ribeiro fala em Portugal como, por exemplo, "Em Portugal" (p. 478) ou "expulso para Portugal" (p. 224).
Meu caro senhor: Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, Estado da Índia, Macau, Timor eram províncias ultramarinas!
Portugal não "tinha" e não "possuía" províncias ultramarinas! As Províncias Ultramarinas não eram de Portugal! Eram Portugal!

sábado, 5 de julho de 2008

Acromiomancia - V. A eterna juventude

Acromiomancia - V. A eterna juventude

via DRAGOSCÓPIO de dragão em 04/07/08
«No decurso dos anos 60 nunca mais deixaram as escolas de ser alvo da doutrinação comunista, mais ou menos encoberta, e de nelas se fazer trabalho de organização, a partir, em geral, da conquista das associações académicas ou das chamadas comissões pró-associação nas escolas onde aquelas não existiam. O emburguesamento do operariado alterara os termos da concepção clássica da revolução social,

Resumo de um texto a fazer...

Resumo de um texto a fazer...

via NOVA ÁGUIA de Renato Epifânio em 05/07/08
De José Marinho a Eduardo Lourenço e Miguel Real, passando por Álvaro Ribeiro e Agostinho da Silva - breve reflexão sobre o nosso "atraso".

Sendo, desde logo, o nosso descentramento de cariz espacial, geográfico - daí a nossa "situação finistérrea" -, ele é também, senão sobretudo, um descentramento de cariz temporal, histórico. Como escreveu José Marinho, esse descentramento histórico é de tal modo acentuado que "nos pensadores de maior consciência teorética ou especulativa, emerge o pensamento português alheio ao tempo da modernidade".
Para muitos, justifica-se esse desfasamento pelo nosso proverbial "atraso". Para esses, estranho seria, aliás, que, estando Portugal"atrasado" em relação aos mais "avançados" países da Europa nos mais diversos domínios, não o estivesse também no domínio da filosofia. Para esses, a par de um défice económico, social e político, deve pois mencionar-se um défice cultural, senão mesmo civilizacional, que, por sua vez, se consubstancia num alegado défice filosófico. Eis, em suma,a opinião mais generalizada e, dir-se-ia, a mais "sensata".
Não propriamente por ter "prazer em discordar" - prazer esse que, aliás, assumiu não ter - não é essa, contudo, a visão de Marinho. Daí, desde logo, esta sua dúvida, esta sua interrogação: se Portugal, enquanto essa "região espiritual, a mais agudamente cristã da Europa, que os nossos 'inteligentes' desde Luís António Verney vêm considerando a mais atrasada, a mais improgressiva (...), não será, noutro sentido, a mais adiantada, a que primeiro tentou a grande aventura da terra, esgotou os caminhos e ficou à espera que a experiência humanista chegasse à nova encruzilhada".
Convocando outros pensadores - nomeadamente, Eduardo Lourenço -, ensaiaremos defender essa perspectiva.

O Problema da Liberdade

O Problema da Liberdade

via FALANGISTA CAMPENSE de Francisco Pereira em 04/07/08
Caros visitantes, hoje proponho-vos a leitura de um texto sobre um tema que é sempre bastante discutido e complexo: A Liberdade. Ora então vejamos a opinião de José António sobre este tema:

"Contra o desdenhoso "Liberdade par quê?" de Lenine, nós começamos por afirmar a liberdade do individuo, por afirmar a liberdade do individuo, por reconhecer o individuo. Catalogados como defensores do panteísmo estatal, começamos por aceitar a realidade do individuo livre, portador dos valores eternos.
Mas só se afirma quando ela corre riscos de perecer. Afirmamos a liberdade, porque é susceptível de ser suprimido um dia. E em que estado de coisas sofre o conceito de liberdade o risco de ser menosprezado?
Para o homem primitivo não existia um conceito, uma ideia de liberdade. Vivia dentro dessa liberdade, que era natural na sua vida, sem apreciá-la nem formulá-la. O homem das primeiras idades era livre e com liberdade plena, sem reconhecer no que consistia. E não o sabia porque não havia nada capaz de coagi-lo; existia ele e nada mais.
Foi preciso que surgisse uma entidade que pusesse limites aos seus impulsos para que desse conta dessa liberdade de manifestação das suas tendências, até aparecer um conjunto de normas capaz de coibir os movimentos espontâneos da Natureza não se põe o problema da liberdade; em suma, até haver Estado.
O Estado pode ser considerado como realidade sociológica cognoscível pelo método das ciências de normas a que é aplicável o método das ciências normativas. No primeiro aspecto, a luta entre o individuo e Estado não teria interesse jurídico, reduzir-se-ia a uma investigação da causalidade indiferente para o problema do "dever ser". A luta jurídica e politicamente interessante, é a que se desenrola entre o complexo de normas que integram a ordem jurídica estatal e o individuo que, face a essas normas, quer afirmar-se vitalmente; quer em termos vulgares, "fazer o que lhe der na real gana".

José António Primo de Rivera
Colóquio no Curso de formação da Falange em 28 de Março de 1935

Eu concordo plenamente e vocês? Deixem os vossos comentários…

Uma vida ao serviço da Nação

Uma vida ao serviço da Nação

via Legião Patriótica de Legionário em 04/07/08

Como nota prévia à 2.ª edição da minha Antologia de Salazar (1955), escrevi: "Nesta época de superficialidades, incertezas e contradições que o mundo vive, destaca-se singularmente o pensamento de Salazar - vigoroso, firme e profundo, a traçar directrizes seguras em relação aos problemas essenciais da vida e da pessoa humana.
"A ordem cronológica e a diversidade das fontes dos extractos fazem avultar a constância do pensamento de Salazar: igual em 1909 como em 1955, igual nos discursos, como nos artigos de jornal e nas entrevistas - a mesma directriz, sempre a mesma certeza... e até a mesma actualidade!".
E em nota prévia à 3.ª edição (1966): "0 tempo decorrido veio plenamente confirmar a justeza destas palavras - que hoje se revestem ainda de mais acentuada oportunidade.
"Mas o estilo próprio e único de Salazar revela-se igualmente na acção; observe-se, por exemplo, a sua imediata e feliz reforma fiscal de 1929: que simplicidade e concisão de linguagem - e que facilidade de execução, tanto para os serviços como para os contribuintes!
"Outro claro exemplo desse estilo próprio e único, tanto de dizer como de agir, é a sua recente frase, que fez história: "Para Angola, rapidamente e em força!".
"De Salazar se pode dizer: UMA VIDA CONSAGRADA AO SERVIÇO DA NAÇÃ0.

"Para avaliar da grandeza da obra de Salazar é necessário ter presente a dificílima situação do País, em todos os sectores, quando tomou conta dos seus destinos: há 40 anos ninguém teria ousado desejar que se viesse a realizar tanto como o que efectivamente se alcançou - e a maior parte das aspirações durante muitos anos debalde formuladas na imprensa e no parlamento designadamente as da Igreja, antes tão maltratada -, só com Salazar vieram a ser satisfeitas". Ora, ainda hoje se pode dizer isso mesmo de Salazar: trabalhava, a tempo inteiro, pela Nação; sempre calmamente, sem pressas nem enervamentos - e em que tudo, de forma natural, tinha a sua ordem e hierarquia. Era meticuloso, tanto nas coisas grandes como pequenas.

No célebre discurso 0 Meu Depoimento, proferido no Palácio da Bolsa do Porto, em 7 de Janeiro de 1949, começou por dizer assim:

"Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso à roda da fortuna, nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia em que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia não tenho de enredar-me na trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente.
"Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido em que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no Mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção.
"Se lhes defendo tenazmente os seus interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre". E assim continuou o seu discurso...

É fora de dúvida que Salazar sempre levou uma vida modesta - como bem modesta era a sua "moradia" em Santa Comba; a sua alimentação era a de qualquer português da classe média. Quando saía, a sua "segurança" era feita apenas por um carro da PIDE, com um agente e um inspector.

Indiscutivelmente, tinha Salazar um estilo de vida naturalmente simples: não procurava aplausos de multidões; e embora fosse exigente quanto à justiça que julgava ser-lhe devida, não era muito sensível propriamente a elogios que, por vezes, encobriam desejos de benesses.

Mas amigos tive, que não pensavam assim; e foram curiosos nos seus pontos de vista. Um dia, no Rossio, encontrei o Dr. Sá Nogueira, figura imponente, ligado à Oposição, então Presidente da Ordem dos Advogados, e a quem chamavam o "Bengalário da Ordem", por andar sempre de bengala. E falando nós de Salazar, disse-me: "Realmente, ele é excepcional, em cultura e seriedade, esta muito acima disto tudo... Eu só não lhe perdoo... é que ele é um vaidoso, disfarçado de modesto!".

Numa tarde de férias em Lousado, ouvi um amigo que muito bem conhecia Salazar, dizer assim: "Ele gosta da glória de desprezar a glória!".

Bastantes eram as anedotas que corriam sobre Salazar, sobretudo nos primeiros tempos, em que a sua preocupação de poupança tinha impressionado o Povo. Quem não se lembra da campanha Produzir e Poupar?

Eis, pois, algumas dessas anedotas:

Pergunta a Salazar: "Dois e dois, quantos são?".
Resposta: "Sendo para pagar, são 4. Mas para receber, são 22!".
Um contínuo, um dia chegou mais tarde; entrou no gabinete de Salazar (no Ministério das Finanças) e disse que a mulher se tinha sentido mal de noite, e de manhã tinha ido com ela ao hospital; e depois, ao vir para o Ministério, "segui a regra de Vossa ExceIência e vim a correr atrás do eléctrico - e assim poupei os oito tostões do bilhete...".
Salazar: "Está bem; mas para outra vez venha a correr atrás de um taxi: poupa mais... e chega mais cedo".

Na ementa de um restaurante, figurava "Bacalhau à Salazar"; perguntou o cliente como era; resposta: "É parecido com Bacalhau à Gomes de Sá, só que com muito pouco bacalhau".

Nos estabelecimentos de artigos de cozinha, havia um pequeno utensílio, com cabo de madeira e uma pá de borracha, para rapar bem os tachos; era chamado "Salazar".

Também às revistas do Parque Mayer não faltavam alusões ao espírito de poupança de Salazar:

Um grupo folclórico entra no palco, e canta: "Nós vimos de Santa Comba, de Santa Comba / É o grupo do pim-pam-pum, / Da terra onde todos dão... / Mas tirar... só tira um!
Aparece António Silva, como professor da escola de Santa Comba.
Compére: "Então, é o professor de Santa Comba...".
A. Silva: "Sou, sou, e há muitos anos".
Compére: "Então foi professor daquele aluno... o António?".
A. Silva: "Fui, fui, e lembro-me muito bem dele".
Compére: "0Ihe lá: ele dava... dava boas lições?".
A. Silva: "Bem, ele dar... não dava - tirava..., tirava bons apontamentos".

Salientei atrás que, com Salazar, e naturalmente, tudo tinha a sua vez - a sua hierarquia. Ora, curioso é notar que, mesmo depois, quando já muito doente, o pouco de vida que dele restava ainda mantinha essa sua personalidade. Assim:
Poucos meses antes do seu falecimento, minha Mulher telefonou à D. Maria, pedindo ao Senhor Presidente que nos recebesse - e ao casal do Dr. José Manuel da Costa (chefe de gabinete com quem eu tinha servido).
Dias depois a resposta afirmativa veio assim: "Primeiro, às 15 horas, o Dr. José Manuel da Costa e D. Maria Emília; e depois, às 15.30 horas, o Dr. Manuel da Fonseca e D. Maria Delfina".
Para evitar fadiga, a visita era só um de cada vez. Assim, quando entrei, após os cumprimentos, Salazar disparou-me a pergunta: "Então o que vai lá por fora?". Ora como se mantinha a dúvida sobre se Salazar saberia da sua substituição.... fugi à resposta - e disse que continuava o mau tempo e que até ali pela janela se viam as nuvens muito escuras... A resposta desejada não era esta, mas Salazar não insistiu na pergunta...


Como escreveu Marcello Caetano, na Enciclopédia Verbo (rubrica "Estado Novo"): "Após a Primeira Grande Guerra, produziu-se a crise da concepção liberal e individualista do Estado, manifestando-se em muitos países europeus a necessidade de uma nova concepção que permitisse a intervenção do Estado na vida económica, condicionasse o exercício das liberdades individuais afirmando a supremacia do interesse geral e favorecesse a protecção e promoção social das classes trabalhadoras num clima de paz social.
"Os regimes, em geral saídos de revoluções nacionais, que procuraram pôr em prática essa forma autoritária e social de governo, disseram-se defensores do Estado Novo".

Assim, tivemos realmente em Portugal um regime de autoridade, de raiz nacional; porém de forma nenhuma totalitário, ou de cunho "fascista".

Mas um juízo correcto sobre a obra do Estado Novo impõe a sua comparação com as dos regimes, quer anterior quer posterior.

Regime anterior (1910-26).

Como regra, o País estava quase na estaca zero. Por exemplo: o escudo era das moedas mais desacreditadas da Europa; meses houve com os vencimentos dos funcionários pagos com atraso; câmaras municipais, e até casas comerciais, imprimiam "cédulas", que tinham valor local de papel-moeda; os governos eram mais que provisórios e as revoluções mais que frequentes; não havia portos minimamente equipados, nem barcos capazes, quer de pesca ou marinha mercante; em todo o Norte do país, não havia fábrica alguma com técnico engenheiro ou de Economia; praticamente nada de pontes novas, de edifícios escolares, de novos hospitais, de edifícios novos para o Exército e para a Marinha, nem equipamentos - e nem sequer eram reparados os frequentes e grandes buracos das estradas, mesmo principais; pelo menos nas aldeias do Norte, sucessivos grupos de pobres (um dia certo da semana) batiam às portas, a pedir esmola; e a caminho das grandes romarias, mendigos exibiam suas chagas e aleijões, clamando por uma "esmolinha".

Houve, porém, uma nota muito positiva deste regime: os seus políticos responsáveis eram francamente patriotas - e, como assim, defensores do Ultramar: ver Nação Una, de Norton de Matos, com prefácio de Egas Moniz e comentário do Prof. Barbosa de Magalhães; e em 1953, Norton de Matos voltou a publicar África Nossa. E Cunha Leal, Nuno Simões, Ramada Curto, etc.

Nas Forças Armadas: nos últimos anos da Monarquia, muitos dos Heróis de África eram republicanos - e tal como depois na República, muitos eram monárquicos: acima da política, triunfava o patriotismo português. Aliás, a letra do que veio a ser Hino Nacional é eloquente testemunho do patriotismo dessa época - e tal como, depois, no Estado Novo.

Estado Novo (1926-44).

Graças à acção de Salazar, o País entrou em franca recuperação, em todos os sectores. Assim:

1) pronta reabilitação do escudo, que veio a ser das moedas mais valorizadas do mundo, a par do dólar americano e do franco suíço; orçamentos não equilibrados; não mais vencimentos em atraso; substituição e sucessivo aumento de reservas de ouro, que no fim do regime eram perto de 900 toneladas; insignificante dívida pública, externa e interna, sempre limitadas a níveis tidos por convenientes;

2) obras públicas: grande rede de edifícios escolares, a todos os níveis de ensino; aeroportos e remodelação de portos; novos hospitais, e tribunais, e quartéis para o Exército, Marinha e Aviação; remodelação das estradas e construção de pontes; reparação de edifícios e monumentos nacionais, etc. etc., e a Ponte Salazar;

3) grandes barragens, quer de energia eléctrica, quer de irrigação agrícola e abastecimento público; florestação de várias serras, sem árvores; planos de fomento; arranque do desenvolvimento quer industrial, quer do turismo (de início, com as Pousadas; depois, com médios e grandes hóteis), etc. etc.;

4) no campo social: deixou de haver quer grupos de pobres a pedir pelas portas, quer filas de mendigos, em dias de romaria; e início de salários mínimos, horário de trabalho, abono de família e assistência médica e medicamentosa; construção de esplêndidos bairros sociais, com casas adquiridas por encargo mensal compatível com os salários de então; e criação das Casas do Povo e Casas dos Pescadores; e férias na FNAT, a preço acessível aos trabalhadores; e cursos de Formação Profissional Acelerada, etc. etc.;

5) fomento do ensino a todos os níveis - e criação do ensino técnico-profissional, nas escolas comerciais e industriais e agrícolas; grande campanha contra o analfabetismo, em grande parte vindo do regime anterior;

6) celebração da Concordata com a Santa Sé, a pôr termo a injustiças sofridas pela Igreja Católica - e assegurando-Ihe liberdade de culto;

7) a grandiosa Exposição do Mundo Português, em frente ao Mosteiro dos Jerónimos;

8) construção de grandes paquetes: Santa Maria, Vera Cruz e Infante D. Henrique;

9) e, principalmente, o espectacular sucesso no campo da cultura: Artes, Letras e Ciências.
Com efeito: o sentido quer de dignidade, quer de grandeza que o Estado Novo imprimiu à vida nacional, em breves anos fez com que surgisse uma vasta plêiade de grandes valores, tanto na Situação, como na Oposição, com nomes que o povo ainda bem recorda e que agora não têm par. Apenas uma breve resenha: Medicina: Egas Moniz (prémio Nobel, em 1943) e Francisco Gentil (fundador do Instituto Português de Oncologia); Matemática: Bento Caraça, Vicente Gonçalves, Esparteiro, Mira Fernandes; Engenharia: Duarte Pacheco, Edgar Cardoso, etc.; Escultura: Francisco Franco, Leopoldo de Almeida, Barata Feyo, etc.; Arquitectura: Raul Lino, Cotinelli Telmo, Januário Godinho, etc.; Pintura: Vieira da Silva, Almada Negreiros, João Reis, Henrique Medina, Cargaleiro, Carlos Botelho, etc.; Direito: em Coimbra, Alberto dos Reis e Antunes Varela; em Lisboa, Marcello Caetano, Cavaleiro Ferreira, etc.; Advocacia: Bostorf Silva, J. G. Sa' Carneiro, Azeredo Perdigão, etc.; Teatro e cinema: actrizes: Rey Collaço, Maria Mattos, Palmira Bastos e Laura Alves; actores: Vasco Santana, António Silva, Vilarett, Ribeirinho, etc.; Escritores: Júlio Dantas, Aquilino Ribeiro, Vitorino Nemésio, Miguel Torga, Fernando Namora, etc. etc.; Poetas: José' Régio, Correia de Oliveira, Moreira das Neves, etc.; jornalistas: António Ferro, Norberto Lopes, Ferreira da Costa; Historiadores: Alfredo Pimenta, Damião Peres, Jaime Cortesão, António José Saraiva, Franco Nogueira; Realizadores de cinema: Lopes Ribeiro, Leitão de Barros, Artur Duarte, com filmes que ainda hoje se recordam e são vistos com muito agrado na televisão; Música: piano: Viana da Motta, Varela Cid, Maria João Pires; violoncelo: Guilhermina Suggia; maestros e compositores: Freitas Branco, Frederico de Freitas, Tavares Belo, Ruy Coelho, Jolli Braga Santos; canções populares: Alberto Ribeiro; fado: Alfredo Marceneiro, Hermínia Silva, Amália Rodrigues; Cultura popular: renasce o artesanato, em peças de barro e cerâmica, e de ferro forjado e de cobre; e surgem grupos folclóricos, por todo o País, e que de tudo foi grande impulsionador António Ferro.

Depois do 25 de Abril de l974.

Muitos foram os sectores da vida nacional que entraram em decadência. Assim:

1) empobrecimento do País: o escudo passou a queda deslizante (quanto valia e quanto vale, em relação à peseta?); muitas toneladas de ouro foram vendidas ou hipotecadas (quantas?); grande baixa do stock de divisas/dólar (quanto era e quanto é?); brutal aumento da circulação fiduciária (era de 49 milhões de contos; e agora, de quanto é?); a inflação, que era muito baixa, subiu em flecha, tendo ultrapassado muito os 20 por cento/ano; e sobretudo: brutalíssimo aumento da dívida pública, interna e externa (de quanto são? e como vão ser pagas?);

2) grande aumento da corrupção: só no IARN e na Reforma Agrária, os desvios. ultrapassam, em muito, tudo quanto foi "desviado" nos quarenta e oito anos do regime anterior! - e que é feito do antigo Fundo Militar do Ultramar? Dantes, apontavam-se... os que se "governavam" agora, apontam-se os que são sérios;

3) e não é só desonestidade a nível das pessoas: onde está, minimamente, a seriedade de um regime que permite a retirada - ou mesmo destruição - de estátuas e outros símbolos da época em que foram feitos? - e que muda nomes de pontes, de estádios, etc., pondo-Ihes outros, ligados ao regime actual? Assim disse o Cardeal Patriarca de Lisboa, em recente homilia pascal: "Quem não se apercebe da duplicidade de comportamentos, da ambiguidade de atitudes, dos jogos de poder, numa palavra, da desonestidade reinante, por vezes em nome do progresso e da modernidade dos tempos?";

4) obras públicas: sofreram forte declínio; apenas com o actual Governo, de Cavaco Silva, se voltou ao ritmo do Estado Novo (só que, agora, grande parte é com fundos comunitários europeus);

5) e casas de habitação? Em 25 de Abril de 1974, em Lisboa e arredores, havia um défice de 15-20 000 habitações; com a "via socialista", o défice passou a 150-200 000! - e todos os anos se vai agravando! Como é que um casal de trabalhadores pode agora arrendar ou comprar uma casa - como durante o Estado Novo?

6) galopante aumento do custo de vida: já muitos trabalhadores, e muitíssimos reformados, vivem hoje pior que antes do 25 de Abril;

7) e até crise cultural; com flagrante objectividade, o insuspeito e antigo oposicionista Prof. Rodrigues Lapa disse, em entrevista ao vespertino A Tarde, de 25 Agosto 1983: "A crise cultural depende, em boa parte, da crise política que estamos atravessando. 0 País vive um dos períodos mais dramáticos da sua longa história, assinalado pela corrupção do carácter e promoção de falsos valores. Com estes ingredientes nocivos como pode florescer a cultura?"

Porém, o grande e irreversível pecado do actual regime foi a precipitada entrega das nossas Províncias Ultramarinas - e assim, subitamente, reduzindo Portugal a 4 por cento do seu anterior território, com afronta a cinco séculos de história! - Ler 0 Fim Histórico de Portugal, do historiador Doutor Amorim de Carvalho, há pouco falecido. E causaram a miséria e fome a largos milhões que eram então Portugueses: brancos, mestiços e pretos.
Agora, reduzido a 4 por cento, quanto valerá Portugal no contexto europeu? Certamente mais que a Galiza, mas talvez menos que a Catalunha; aliás, em vários domínios (produtos agrícolas, inclusive), já estamos a ser invadidos pelos Espanhóis: oxalá que não venha a colonização cultural.

Em conclusão: do confronto acima evidenciado, resulta que o Estado Novo foi muito melhor que o regime anterior - e muitíssimo melhor que o actual.
E, pois, honroso ter servido o Estado Novo - e até porque Salazar era bem exigente com os seus colaboradores, como sabido é. Felizmente, só poucos dos que então serviram o Estado Novo procuram ocultar essa circunstância (ou por fragilidade de espírito, ou por vontade de conseguir vantagens no actual regime). Aliás, o povo aprecia é que os antigos servidores de Salazar, natural e honradamente, se afirmem como tais e prestem homenagem à sua obra, sem paralelo nos últimos anos de Portugal. Por mim, quando me perguntam se depois do 25 de Abril não mudei pelo menos um pouco..., costumo responder que sim - e até mudei bastante: quando secretário, era 80 por cento salazarista; agora, realmente mudei, mas para 99 por cento.

Por Manuel Batista Dias da Fonseca
Secretário particular (1946-49)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

O "herói" Rosa Coutinho pelo general Gonçalves Ribeiro

O "herói" Rosa Coutinho pelo general Gonçalves Ribeiro

via nonas de nonas em 04/07/08
Uma das páginas mais revoltantes e delirantes do livro assinado pelo general Gonçalves Ribeiro é a que nos relata uma versão do assalto ao Palácio do Governador, na qual quer transmitir a ideia de acto de coragem e de heroísmo do almirante vermelho, Rosa Coutinho.
Uma página que não lembra nem ao careca!
"Mas esta nova onda de violência rapidamente se propaga a outros muceques. Diz-se. Diz-se. Os boatos não param. Que anda gente fardada a disparar indiscriminadamente. Que bandos armados e com armas russas assaltam, roubam e matam.
A população branca expulsa de um daqueles muceques, o Cazenga, concentra-se no Comando da Polícia bramindo por protecção e reforço da segurança. Outros se lhes juntam. Exaltados, organizam uma coluna automóvel que percorre as ruas de Luanda, buzinando sem parar.
Convergem para o Palácio do Governo, onde eu me encontrava.
E dei por eles.
O meu gabinete de trabalho dispunha de um duplo acesso, abrindo uma das portas para um extenso corredor que começava numa das entradas do edifício e terminava num varandim, logo sem qualquer outra saída. Era já o fim da tarde de uma terça-feira, 5 de Agosto. Aguardara aquela altura do dia, em que as solicitações exteriores já eram menos frequentes, para me debruçar sobre um determinado dossier. Mas um ruído estranho, anormal, começou a fazer-se ouvir no corredor, aumentando progressivamente. Levantei-me, abri a porta, olhei para o lado da entrada e, de imediato, atónito, assisti, é o termo, a um desfile que nunca pensaria ver naquele preciso local. Uma autêntica turbamulta de gente exaltada, suada, vociferadora, muitos com os botões da camisa abertos até à cintura, engolfava-se num espaço apertado e sem saída. À procura de quê ou de quem? E disse, assisti, porque me mantive impávido à porta do gabinete, sem que alguém me dirigisse a palavra ou forçasse a entrada. Ao contrário do que aconteceu no gabinete imediatamente a seguir, onde entraram e, pelo ruído provocado, terão derrubado cadeiras e materiais diversos existentes sobre as secretárias. Subitamente, algo lhes terá chamado a atenção. O sentido do movimento alterou-se no imediato para convergir, sob pressão dos que atrás se encontravam, num outro gabinete sensivelmente na frente do meu. E lá dentro os berros aumentavam numa monumental cacofonia. Fui ver. Afastando um a um os que se encontravam no corredor, consegui, embora com dificuldade, penetrar naquele gabinete, deparando-se-me um espectáculo inolvidável. Sobre o tampo de uma secretária, o Almirante Rosa Coutinho, à paisana, perorava, tentando fazer-se ouvir e, sobretudo, ganhar ascendente, sobre uma assembleia descontrolada, ululante que lhe fazia queixas e exigia protecção e segurança.
A oportuna chegada de uma força de fuzileiros contribuiu decisivamente para acalmar os ânimos e, sem recurso a qualquer tipo de violência, lá conseguiu pôr toda aquela gente na rua." (p. 98)

Senhor general, esta é uma boa versão para Hollywood!
Na realidade, muito resumidamente o que se passou foi isto:

"Centenas de pessoas dirigiram-se ao Palácio do Governador para pedir protecção e ajuda da tropa fandanga portuguesa face aos acontecimentos que se estavam a viver na capital angolana. Foram recebidos pela guarda que lhes impediu a entrada. Então, a "turbamulta de gente exaltada, suada, vociferadora" protestou contra a "recepção de boa vindas" que de armas apontadas e a tiritarem de coragem, acabou por provocar uma reacção das centenas de pessoas que começou por arrancar o gradeamento do jardim do Palácio, invadindo o edifício pelas janelas e arrombando a porta da entrada vindo a encontrar, numa das várias e grandes salas do Palácio, Rosa Coutinho que - inicialmente - os afrontou -. Um dos invasores, uma mulher avança para o almirante vermelho, chegando a deitar-lhe a mão ao pescoço.
Que fez o
heróico marinheiro? Tremendo de medo e quase em pânico, saltou para cima de uma mesa e exigiu protecção da sua guarda pretoriana que já tinha pedido reforços de uma força de fuzileiros, logo que se deu a concentração em frente ao Palácio e, então, a rápida e "oportuna chegada de uma força de fuzileiros que cercou e contribuiu decisivamente para" a fuga de Rosa Coutinho por uma das janelas traseiras do edifício. As centenas de pessoas que invadiram o edifício viram-se ameaçadas de morte e com ordem para abandonar rapidamente o Palácio, o que fizeram relutantemente.
A partir deste momento, o super-herói Rosa Coutinho passou a viver num navio da marinha "portuguesa" e só pisava terra angolana escoltado por uma guarda pretoriana.
Esta é a versão autêntica. Esta é a Verdade.

Mais um....É fartar vilanagem!! [Um povo imbecilizado e resignado]

via O Saudosista de Saudosista em 04/07/08
Marques Mendes - Novo Pensionista !
Aos 50 anos de idade e com 20 anos de descontos como Deputado,Marques Mendes acaba de requerer a Pensão "a que tem direito", no valor mensal vitalício de 2.905,00 euros mensais.
Contudo, um trabalhador normal tem de trabalhar até aos 65 anos e ter uma carreira contributiva completa durante 40 anos para obter uma reforma de 80% da remuneração média da sua carreira contributiva.
" Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas..."
Guerra Junqueiro,1886