segunda-feira, 16 de março de 2009

Fernando Pessoa: Os factores determinantes da decadência portuguesa

via Q u i n t u s de Clavis Prophetarum em 25/02/09

No manifesto "O Interregno: defesa e justificação da Ditadura Militar em Portugal" (Lisboa, 1928), Fernando Pessoa enunciara os factores determinantes da decadência portuguesa:
1. A Nação está internamente muito dividida:
"Porque não temos uma ideia portuguesa, um ideal nacional, um conceito missional de nós mesmos"

Embora o poeta tenha aderido filosoficamente ao golpe de Estado que mais tarde haveria de levar Oliveira Salazar ao poder, mais tarde exprimiria varias posições que deixavam bem clara a sua oposição a esse regime. Esta adesão inicial resultava da constatação da existência de um confuso e degradado estado a que a primeira República havia levado o país. Os governos sucediam-se uns após os outros, durando por vezes apenas alguns meses. A situação financeira era terrível e o divórcio entre o interior rural, católico e subdesenvolvido e o litoral, laico e urbano cavava um fosse que o regime republicano se revelava incapaz de transpor.

Quando Pessoa criticava o regime republicano por não ter uma "ideia portuguesa", referia-se à importação cega e ao transplante forçado e antinatural das doutrinas liberais e republicanas de França, naquilo a que Teixeira de Pascoaes chamaria das influências perniciosas de "Paris". Victor Hugo diria até que os republicanos portugueses tinham feito em dez anos o que os republicanos franceses tinham demorado duas gerações a fazer. Toda esta pressa em levar Portugal a aproximar-se a passo de trote de uma Europa onde nunca pertencera de alma e coração haveria de criar um país ingovernável, debatendo-se com guerrilhas parlamentares permanentes, com grandes clivagens entre classes e meios urbanos e rurais. O radicalismo de um anticlericanismo que destruiu sem substituir, que centralizou em excesso - marchando contra a tradição municipalista que recuava à Idade Média - e que esqueceu os valores portugueses preferindo importar acriticamente os de Paris, deu no deu… As longas, de meio século, trevas salazaristas…

2. Portugal tornado num Estado de Transição:

"a condição de um país em que estão suspensas as actividades superiores da Nação como conjunto e elemento histórico (…), mas não está suspensa a própria Nação que tem que continuar a viver e, dentro dos limites que esse Estado lhe impõe, a orientar-se o melhor que pode. (…) os governantes de um país em um período destes, têm pois que limitar a sua ação ao mínimo, ao indispensável"

Se assim era no tempo de Pessoa, então que diremos dos dias de hoje? Portugal vive dormente entre as regiões de uma Europa onde o querem agregar e a elite europeia, muito eficiente em congregar uma fiel casta de seguidores nas poucas centenas de famílias que partilham entre si os Meios de Comunicação, a Política e o poder económico. À avidez normalizadora da eurocracia de Bruxelas interessa sumamente suprimir qualquer identidade nacional, recrutando seguidores com "programas Erasmo", generosos subsídios para abandonar a agricultura e financiando a pavimentação das estradas que levam até nós os produtos manufacturados no norte, deixando a Portugal - Nação esvaziada de gentes e de economia - a mera função periférica e acessória de "solarenga praia dos germanos". Este é o "Estado mínimo" onde hoje nos querem fazer viver e onde a Primeira República nos levou, no seu cego afã de introduzir "Paris" à viva força em Portugal, esvaziando sem hesitação a essência sóbria, rural e espartana do dito "Complexo Viriatino" de Miguel Real e substituindo por um liberalismo parlamentar confuso e impopular, cujos desmandos haveriam de redundar na longa noite salazarenta.

3. As elites da Nação encontram-se desnacionalizadas:


"Estamos hoje sem vida provincial definida, com a religião convertida em superstição e moda, com a família em plena dissolução . (…) Ora um país em que isto se dá, um país onde (…) não pode (…) haver opinião pública em que elas se fundem ou com que se regulem, nesse país todos os indivíduos e todas as correntes de consenso, apelam instintivamente ou para a fraude ou para a força, pois, onde não pode haver lei, tem a fraude, que é a substituição da lei, ou a força, que é a abolição dela, necessariamente que imperar."

Pessoa reconhecia aqui o destrutivo centralista do regime da Primeira Republica. Na sua ânsia de "modernizar" o país, os republicanos confiavam apenas em Lisboa e nas suas elites urbanas e esvaziavam de competências os municípios. Paralelamente reconheciam no ensino jesuíta e na influência pró-monárquica da Igreja católico, o seu mais forte adversário, especialmente forte no interior rural português. A decorrente descristianização implicava também uma dessacralização da sociedade que anulava a alma portuguesa e que estaria na base de uma apatia moral e cívica que ainda hoje se sente na sociedade portuguesa e que radica nos primeiros anos do regime republicano em Portugal. Um excesso que haveria de criar uma contra-resposta igualmente excessiva de apelo aos valores tradicionais e católicos sob o regime do Estado Novo de Sidónio Pais, Carmona e Salazar.

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Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (XI)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (XI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 16/03/09

6. A queda de Malaca

Quando os holandeses chegaram às águas da Insulíndia, nos finais do século XVI, Malaca vivia um período de alguma tranquilidade, encontrando-se numa posição ascendente sobre os seus velhos rivais de Johor e Achém. Contudo, este panorama viria a alterar-se rapidamente. A competição anglo-holandesa ao Império Habsburgo encontrara no Índico um novo e proveitoso espaço de disputa. Inicialmente tímidas e algo desajeitadas, as expedições inglesas e holandesas viriam a crescer em número, agressividade e ousadia, passando de simples viagens de reconhecimento a iniciativas depredatórias à navegação portuguesa e, posteriormente, ao assalto das próprias fortalezas.

Enquanto os ingleses preferiram o Índico Ocidental, os holandeses elegeram a Insulíndia como alvo principal de fixação. A primeira viagem, realizada em 1596, a Java, foi um relativo fracasso, tal como a segunda, dois anos mais tarde, ao Achém. A perseverança dos armadores neerlandeses acabaria, contudo, por ser proveitosa. Em 1603, o ataque à nau Santa Catarina, carregada de mercadorias chinesas, no rio de Johor, foi o ponto de viragem: por um lado, mostrou que a fase de reconhecimento findara, e que doravante a navegação portuguesa corria sérios riscos; por outro, a venda do respectivo espólio rendeu nos Países Baixos uma verdadeira fortuna, desvanecendo as dúvidas dos armadores holandeses que hesitavam na viabilidade das viagens ao Oriente. Três anos mais tarde, a pujança do poderio holandês permitia-se um ataque directo a Malaca, cujo fracasso não deixou de constituir um amargo revés para os portugueses, pois saldou-se pela destruição, por obra da artilharia holandesa, da incompetência do vice-rei e da desorganização militar portuguesa, da mais formidável frota alguma vez formada no Índico.

Durante as décadas seguintes, Malaca não sofreu mais investidas por parte dos holandeses. Estes sentiram que o ataque frontal a uma cidade que lentamente se transformava num baluarte inexpugnável era um desperdício de recursos. Pelo contrário, o que lhes interessava era retirar a Malaca o seu papel de entreposto, esvaziando-a da sua antiga função de nó comercial. Inicialmente, limitaram-se a competir com os portugueses, navegando em direitura de Madagáscar para o Estreito de Sunda, evitando assim as armadas inimigas. Como noutros aspectos, isto foi apenas uma etapa inicial. Mediante uma rede de feitorias em diversos pontos do Arquipélago, nomeadamente em Samatra, Sunda, Java, Banda, Maluco e Bornéu, onde tinham acesso aos respectivos produtos, e uma base na costa do Coromandel (Pulicat), onde obtinham os tecidos necessários para os comprar, os holandeses acabaram por criar uma rede mercantil alternativa da portuguesa. Devidamente sustentada por uma marinha poderosa que foi gradualmente ganhando o domínio das principais rotas, esta rede mercantil relegava para segundo plano Malaca e as suas ligações comerciais. Em 1619, os holandeses fixavam-se em Batávia (Jakarta), não muito longe de Malaca, tornando irreversível a asfixia da cidade.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999

domingo, 15 de março de 2009

Ainda os fuzilamentos dos nossos Comandos

Ainda os fuzilamentos dos nossos Comandos

via MANLIUS de José Carlos em 15/03/09
A propósito da morte de Nino, alguns Amigos insistiram comigo para eu publicar o relatório do CIDAC sobre os fuzilamentos dos nossos comandos africanos da Guiné, de que falei naquele postal.

O relatório é grande mas publico apenas uma pequena parte (muito significativa). Que belo ver as palavras de um padre (ou ex-padre, ou lá o que era) sobre a morte de pessoas. Para a antologia do pensamento "deles":

"da mesma maneira é insuficiente a condenação emocional dos fuzilamentos e da descoberta das valas comuns, omitindo a análise política acerca da natureza dos crimes praticados por traidores e das condições históricas em que foram eliminados. Se é iníqua a liquidação física dos opositores sem julgamento, em tempo de paz, não é isso que transforma em vítimas inocentes os pides e comandos que foram os maiores criminosos ao serviço da opressão da colónia e da luta armada contra o PAIGC ..."

Assinam ese documento o tal Luís Moita, actual Vice Reitor da Universidade Autónoma de Lisboa e Carolina Quina do Centro de Informação e Documentação Amilcar Cabral.

Mais honesto foi o comentário de Nino no jornal Nô Pintcha de 29/11/1980:

"O regime de Luís Cabral violou flagrantemente as normas dos direitos do homem e nenhum comando africano, nenhum dissidente foi levado a tribunal. Foram executados barbaramente no meio das florestas, contra os mais elementares princípios da justiça e contra os princípios do nosso glorioso Partido"

Ou seja estamos esclarecidos...

sexta-feira, 13 de março de 2009

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (X)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (X)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 13/03/09

Os casados formavam o núcleo mais importante da população, pelo menos do ponto de vista do domínio português. Inicialmente em número reduzido (não ultrapassando os 60 nos finais da década de 1539), vieram a aumentar consideravelmente, à medida que avançava a mestiçagem e a fusão do núcleo português no substrato da população local; nos finais do século XVI já seriam cerca de seis centenas. A isto podia-se somar um número crescente de escravos e dependentes, que inicialmente se limitara a cerca de 5% da população de Malaca (10).

As modificações sentidas no interior da sociedade malaquesa correspondem à evolução global do Estado da Índia. A política inicial, orientada no sentido de manter inalterada a estrutura do sultanato malaio, sofreu mutações substanciais. Ao mesmo tempo que aumentava o número de portugueses, mestiços e conversos, o que na prática correspondia ao surgimento de uma importante elite local, diminuía a política de favorecimento das comunidades não-cristãs, que passaram a pagar cerca do dobro dos direitos alfandegários que eram cobrados aos cristãos, invertendo-se a situação inicial. De uma cidade orgulhosamente cosmopolita, Malaca transformou-se gradualmente numa cidade portuguesa. Para tal, muito contribuiu uma alteração do ambiente ideológico, que a partir dos meados do século XVI passou a estar cada vez mais marcado pela Reforma Católica, pela progressiva intolerância religiosa e o favorecimento dos conversos, aumentando deste modo a pressão sobre os não-cristãos. O próprio bendahara, inicialmente um quelim, acabou por se converter ao Catolicismo, passando a integrar a elite dos casados.

Ao longo dos 130 anos de domínio português, as questões ligadas à segurança de Malaca permaneceram uma das grandes preocupações das autoridades. A Famosa foi durante muito tempo a única estrutura fortificada da cidade, mantendo-se durante parte do século XVI sem muralhas, apenas com defesas perecíveis, feitas de taipa e paliçadas de madeira. O surgimento da conjuntura desfavorável aos interesses portugueses e os ataques repetidos do Achém obrigaram à fortificação da cidade, que se iniciou entre 1564 e 1568. A traça tomou a configuração definitiva de um pentágono, interrompido por baluartes e diversas portas. Havia ainda a considerar a existência de uma paliçada ou tranqueira em Upeh. Filipe I viria mesmo a criar um imposto extraordinário de 1% (chamado vulgarmente de consulado) para o reforço das fortalezas, destinando ocasionalmente os rendimentos de concessões de viagens para esse fim. Do mesmo modo, Malaca passou, pelo menos formalmente, a contar com uma guarnição permanente de soldados, embora a verdadeira força defensiva da cidade fosse formada pelos moradores, sobretudo os casados e os seus dependentes. (11)

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(10) Dados de população em Ian Macgregor, "Notes on the Portuguese in Malaya". Journal of the Malayan Branch of the Rotal Asiatic Society, XXVIII, 2, 1955, p. 12, nota 37; Paulo Jorge de Sousa Pinto, op. cit., p. 230, e Luís Filpe Thomaz, "A Escravatura em Malaca no Século XVI". Stvdia, 53, 1994, pp. 253-315.

(11) Cf. Paulo Jorge de Sousa Pinto, op. cit., pp. 214-228.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Este é o maior fracasso da democracia portuguesa por Clara Ferreira Alves

Magistral biografia sobre a vida de uma das piores personagens da nossa história de todos os tempos. Uma biografia de um homem "exemplar".
Rui Moio
via nonas de nonas em 09/03/09

Eis parte do enigma. Mário Soares, num dos momentos de lucidez que ainda vai tendo, veio chamar a atenção do Governo, na última semana, para a voz da rua.
A lucidez, uma das suas maiores qualidades durante uma longa carreira politica. A lucidez que lhe permitiu escapar à PIDE e passar um bom par de anos, num exílio dourado, em hotéis de luxo de Paris.
A lucidez que lhe permitiu conduzir da forma "brilhante" que se viu o processo de descolonização.
A lucidez que lhe permitiu conseguir que os Estados Unidos financiassem o PS durante os primeiros anos da Democracia.
A lucidez que o fez meter o socialismo na gaveta durante a sua experiència governativa.
A lucidez que lhe permitiu tratar da forma despudorada amigos como Jaime Serra, Salgado Zenha, Manuel Alegre e tantos outros.
A lucidez que lhe permitiu governar sem ler os "dossiers".
A lucidez que lhe permitiu não voltar a ser primeiro-ministro depois de tão fantástico desempenho no cargo.
A lucidez que lhe permitiu pôr-se a jeito para ser agredido na Marinha Grande e, dessa forma, vitimizar-se aos olhos da opinião pública e vencer as eleições presidenciais.
A lucidez que lhe permitiu, após a vitória nessas eleições, fundar um grupo empresarial, a Emaudio, com "testas de ferro" no comando e um conjunto de negócios obscuros que envolveram grandes magnatas internacionais.
A lucidez que lhe permitiu utilizar a Emaudio para financiar a sua segunda campanha presidencial.
A lucidez que lhe permitiu nomear para Governador de Macau Carlos Melancia, um dos homens da Emaudio.
A lucidez que lhe permitiu passar incólume ao caso Emaudio e ao caso Aeroporto de Macau e, ao mesmo tempo, dar os primeiros passos para uma Fundação na sua fase pós-presidencial.
A lucidez que lhe permitiu ler o livro de Rui Mateus, "Contos Proibidos", que contava tudo sobre a Emaudio, e ter a sorte de esse mesmo livro, depoisde esgotado, jamais voltar a ser publicado.
A lucidez que lhe permitiu passar incólume as "ligações perigosas" com Angola, ligações essas que quase lhe roubaram o filho no célebre acidente de avião na Jamba (avião esse carregado de diamantes, no dizer do Ministro da Comunicação Social de Angola).
A lucidez que lhe permitiu, durante a sua passagem por Belém, visitar 57 países ("record" absoluto para a Espanha - 24 vezes - e França - 21), num total equivalente a 22 voltas ao mundo (mais de 992 mil quilómetros).
A lucidez que lhe permitiu visitar as Seychelles, esse território de grande importância estratégica para Portugal.
A lucidez que lhe permitiu, no final destas viagens, levar para a Casa-Museu João Soares uma grande parte dos valiosos presentes oferecidos oficialmente ao Presidente da Republica Portuguesa.
A lucidez que lhe permitiu guardar esses presentes numa caixa-forte blindada daquela Casa, em vez de os guardar no Museu da Presidência da Republica.
A lucidez que lhe permite, ainda hoje, ter 24 horas por dia de vigilância paga pelo Estado nas suas casas de Nafarros, Vau e Campo Grande.
A lucidez que lhe permitiu, abandonada a Presidência da Republica, constituir a Fundação Mário Soares. Uma fundação de Direito privado, que, vivendo à custa de subsídios do Estado, tem apenas como única função visível ser depósito de documentos valiosos de Mário Soares. Os mesmos que, se são valiosos, deviam estar na Torre do Tombo.
A lucidez que lhe permitiu construir o edifício-sede da Fundação violando o PDM de Lisboa, segundo um relatório do IGAT, que decretou a nulidade dalicença de obras.
A lucidez que lhe permitiu conseguir que o processo das velhas construções que ali existiam e que se encontrava no Arquivo Municipal fosse requisitado pelo filho e que acabasse por desaparecer convenientemente num incêndio dos Paços do Concelho.
A lucidez que lhe permitiu receber do Estado, ao longo dos últimos anos, donativos e subsídios superiores a um milhão de contos.
A lucidez que lhe permitiu receber, entre os vários subsídios, um de quinhentos mil contos, do Governo Guterres, para a criação de um auditório, uma biblioteca e um arquivo num edifico cedido pela Câmara de Lisboa.
A lucidez que lhe permitiu receber, entre 1995 e 2005, uma subvenção anual da Câmara Municipal de Lisboa, na qual o seu filho era Vereador e Presidente.
A lucidez que lhe permitiu que o Estado lhe arrendasse e lhe pagasse um gabinete, a que tinha direito como ex-presidente da República, na... Fundação Mário Soares.
A lucidez que lhe permite que, ainda hoje, a Fundação Mário Soares receba quase 4 mil euros mensais da Câmara Municipal de Leiria.
A lucidez que lhe permitiu fazer obras no Colégio Moderno, propriedade da família, sem licença municipal, numa altura em que o Presidente era... João Soares.
A lucidez que lhe permitiu silenciar, através de pressões sobre o director do "Público", José Manuel Fernandes, a investigação jornalística que José António Cerejo começara a publicar sobre o tema.
A lucidez que lhe permitiu candidatar-se a Presidente do Parlamento Europeu e chamar dona de casa, durante a campanha, à vencedora Nicole Fontaine.
A lucidez que lhe permitiu considerar Jose Sócrates "o pior do guterrismo" e ignorar hoje em dia tal frase como se nada fosse.
A lucidez que lhe permitiu passar por cima de um amigo, Manuel Alegre, para concorrer às eleições presidenciais uma última vez.
A lucidez que lhe permitiu, então, fazer mais um frete ao Partido Socialista.
A lucidez que lhe permitiu ler os artigos "O Polvo" de Joaquim Vieira na "Grande Reportagem", baseados no livro de Rui Mateus, e assistir, logo aseguir, ao despedimento do jornalista e ao fim da revista.
A lucidez que lhe permitiu passar incólume depois de apelar ao voto no filho, em pleno dia de eleições, nas últimas Autárquicas.
No final de uma vida de lucidez, o que resta a Mário Soares? Resta um punhado de momentos em que a lucidez vem e vai. Vem e vai. Vem e vai. Vai... e não volta mais.
Clara Ferreira Alves
Expresso

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (IX)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (IX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 12/03/09

5. A sociedade

A conquista de Malaca pelos portugueses não provocou grandes alterações na estrutura da cidade. A mudança mais visível foi, talvez, a construção de uma torre de menagem fortificada (baptizada de A Famosa), à moda europeia. No que toca à sociedade local, esta foi, no seu essencial, deixada sem modificações de maior, se exceptuarmos o ocaso da comunidade guzerate, que acompanhou o sultão deposto e que mais tarde se fixou no Achém. Malaca permaneceu uma cidade cosmopolita, com movimentos sazonais de população, que acompanhavam o ritmo dos fluxos mercantis. Os cálculos da população total, nos primeiros anos de domínio português, oscilam entre as 120 e as 200 mil almas (7), mas este número reduziu-se substancialmente ao longo dos séculos XVI e XVII.

Os portugueses aperceberam-se da necessidade de se preservar as características essenciais do empório, que perdurou como uma cidade totalmente virada para o mar, dependendo completamente dos abastecimentos que lhe vinham do exterior, na boa tradição dos sultanatos malaios (8). Os grandes centros produtores de arroz, nomeadamente o Pegu e Java, mas também o Sião, o Bengala ou mesmo o Coromandel, eram os locais de onde seguiam as cargas que alimentavam a cidade. Esta dependência causava uma permanente carestia de vida, colocando igualmente a cidade em risco em caso de guerra, como veio a ocorrer por diversas vezes.

Malaca estava dividida em três partes principais: a cidade propriamente dita, que veio a ser delimitada por um perímetro fortificado, e os bairros de Hilir e Upeh, na margem esquerda e direita do rio de Malaca, respectivamente. Nos arredores, existiam quintas e hortas pertencentes aos casados, mas subindo o rio era possível encontrar aldeias malaias, a mais importante das quais era Naning, habitada por gente originária do Minangkabau, no interior de Samatra.

Upeh era o coração económico de Malaca, onde residia o grosso dos mercadores asiáticos, nomeadamente quelins, chineses e javaneses, estabelecidos em bairros próprios (kampung keling, kampung cina), mas também os casados portugueses. Parte dos javaneses residia igualmente em Hilir. Havia igualmente a registar, à semelhança do que ocorria nos tempos do sultanato malaio, a presença de gente de outras origens, nomeadamente malaios, pegus, bengalis, achéns, siameses ou léquios (japoneses do arquipélago de Ryu-Kyu). O número de mercadores asiáticos decresceu ao longo do tempo, mas o número de quelins e javaneses era ainda substancial nas últimas décadas do século XVI, tendo decaído posteriormente (9).

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(7) Luis Filipe Thomaz, "Malaca e as suas comunidades mercantis na viragem do século CVI", op. cit., p. 513.

(8) Denys Lombard, "Le Sultanat Malais comme Modèle Socio-économique" In D. Lombard e J. Aubin (eds.), Marchands et Hommes d'Affaires Asiatiques dans l'Océan Indien et la Mer de Chine. Paris, 1988, p. 118.

(9) Paulo Jorge de Sousa Pinto, op. cit., pp. 45 e 188-189.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (VIII)

Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas (VIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 11/03/09

A própria evolução das estruturas portuguesas levou a alterações no papel que Malaca desempenhava no contexto asiático. Nos meados do século XVI, assistiu-se à retirada da exploração directa das linhas de comércio pela Coroa, tendência já anunciada e ensaiada anteriormente, mas que agora se afirmava como uma clara opção. A venda das viagens, que se passou a vulgarizar, foi uma resposta da Coroa ao agravamento das dificuldades financeiras do Estado da Índia, preferindo auferir rendimentos certos a arriscar, num contexto de aumento da insegurança das rotas e de desgaste do aparelho administrativo, a realização das principais viagens de longo curso por conta própria. Como factor complementar, o reforço da política alfandegária, mediante a imposição de novos direitos ou mesmo o arrendamento da alfândega, visava igualmente a retirada de proventos do volume de tráfico. Contudo, a corrupção da máquina burocrática frustrava frequentemente estes intentos. Malaca pouco rendia aos cofres de Goa, já que os fundos, tal como as presas de guerra, perdiam-se invariavelmente na administração, na burocracia e na corrupção locais.

Em Malaca, como noutras posições periféricas do Estado da Índia, a consequência directa desta evolução foi o aumento do poder dos capitães - quem detinha o poder de facto - sobre os tráficos da cidade. Aparentemente reticentes, de início, em se imiscuir directamente no trato, considerado algo baixo e, até certo ponto, vergonhoso para a fidalguia, os capitães rapidamente se envolveram no comércio, passando a dispor de uma rede de agentes e feitores, tanto na cidade como nos pontos terminais das viagens, que exercia pressão sobre mercadores, preços e trocas, tomando duas formas principais: a reserva para si das mais importantes viagens disponíveis, que explorava ou revendia a terceiros, auferindo assim grandes rendimentos sem investimento. Porém, mais grave era a permanente coacção que exercia sobre o comércio privado, forçando as transacções comerciais consoante os seus interesses. As especiarias orientais, canalizadas pelos javaneses, eram o seu alvo preferido, mas também os portugueses da cidade, designados genericamente por casados, sofreram a sua interferência permanente. Malaca perdeu assim uma boa parte do seu capital de atracção sobre as comunidades de mercadores, que se precaviam dos abusos e extorsões de que eram vítimas, agravando deste modo a tendência para a dispersão dos tráficos para outros portos alternativos (6).

Apesar de todos os abusos, Malaca permaneceu uma cidade próspera. O movimento de mercadores asiáticos, sobretudo jaus e quelins manteve-se intenso, tanto pela excepcional localização geográfica da cidade, pela capacidade das estruturas portuguesas em cobrir todos os circuitos comerciais do Índico, desde o Japão a Moçambique e, finalmente, porque o poderio naval português, mau-grado o desafio lançado por vários poderes asiáticos rivais, permanecia temível, o que permitia uma relativa segurança na navegação dos Estreitos e a facilidade do acesso a Malaca.

A chegada dos norte-europeus às águas da Insulíndia agravou o processo de desgaste das estruturas comerciais portuguesas e alterou radicalmente as condições que permitiam a Malaca manter uma boa parte do seu capital intacto. Inicialmente tímidos, os holandeses ganharam rapidamente vantagem, graças ao seu poderio naval e à maior maleabilidade das suas estruturas administrativas e financeiras. Navegando em direitura para o Estreito de Sunda, após a passagem do Cabo da Boa Esperança, os holandeses criaram uma via alternativa ao Estreito de Malaca, que lhes permitiu imiscuir-se no comércio local, antes de passarem, numa fase posterior, a uma política de declarada hostilidade para com os portugueses, que viria a ser fatal para Malaca e, de um modo geral, para a presença portuguesa em toda a Insulíndia.

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(6) Idem, Ibid., pp. 162-176.

Paulo Jorge de Sousa Pinto. "Malaca: Uma encruzilhada de rotas e culturas" In Os Espaços de um Império – Estudos. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1999.

Ética republicana

Ética republicana

via Centenário da República de noreply@blogger.com (Nuno Pombo) em 10/03/09
"À noite fomos todos ao Theatro do Gymnasio onde havia uma festa de caridade (...). Às 11h. de repente ouviram-se gritos de viva a republica e morras aos Thalassas, havendo um grupo que tentou á força entrar no Theatro.
Foi esse grupo repelido por todos nós homens que estavamos no Theatro, chegando a haver tiros.
Baldomero Sagastume (ministro da Argentina) em nome de todos os diplomatas ali presentes mandou um bilhete ao Governo Civil e só então vieram policias e a guarda republicana!!. Foi uma cousa mandada fazer pelo Governo".
Prof. Thomaz de Mello Breyner, in Diário 1911-1913, pág. 226.