sábado, 29 de maio de 2010

Saudade de Henrique Barrilaro Ruas (2)

Saudade de Henrique Barrilaro Ruas (2)

via BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA by João Távora on 5/18/10

O exemplo espanhol

Depois de todas as crises e perplexidades por que temos passado, não sei que exemplo mais claro poderia ilustrar a tese monárquica, do que o caso de Espanha. Não bastava já a lição de 1976, quando a presença do Rei à frente do Estado — por ser uma presença nacional, vinda do fundo da História para salvar a História — salvou a Espanha de uma nova guerra civil. Não bastava a continuada lição destes cinco anos de metapolítica em que a Realeza tem sido o grande factor de equilíbrio, de unidade e de justiça, no convulso panorama dos interesses, dos direitos e das próprias culturas em conflito. Veio agora a força da Monarquia revelar-se no seu mais claro rosto: apenas uma palavra, como imagem racional da Pátria comum; apenas uma vontade, definida na hora própria como expressão de um querer colectivo paralisado pela surpresa e pelos fantasmas.

Forma política, exactamente por se situar no plano transpolítico em que o Povo é cultura e espírito, a Monarquia pode acompanhar todas as experiências históricas e encaminhar para a liberdade as pessoas e as comunidades.

Quando se diz que D. Juan Carlos salvou a Democracia espanhola (e provavelmente o destino da Espanha) por ser o chefe supremo das forças armadas, é preciso acrescentar e esclarecer que de nada lhe valeria ser, na letra da Constituição, comandante supremo, se essa qualidade lhe não viesse do «ofício» de reinar. Nas horas em que o curso da História está suspenso e tudo é possível, não é bastante nenhuma formalidade — e o supremo comando, em República, não passa de formalidade. Em vão esbracejaria, numa Espanha republicana, o pobre detentor a prazo de uma ficção jurídica. Não é a fórmula que cria a realidade. No plano meramente legal, é a Constituição que faz do Rei comandante supremo das forças armanadas. Mas o que dá profundidade e dimensão histórica à Constituição é, neste ponto, a legitimidade institucional.

Saibamos nós recolher a lição deste exemplo.

Henrique Barrilaro Ruas in Amanhã!, órgão oficial do Partido Popular Monárquico, n.º 5, 1980, p. 1

contribuição de Vasco Rosa publicada também aqui

Saudade de Henrique Barrilaro Ruas (1)

Saudade de Henrique Barrilaro Ruas (1)

via BLOGUE REAL ASSOCIAÇÃO DE LISBOA by João Távora on 5/14/10

República — o fim de uma mentalidade

Durante a I República, os monárquicos queriam restaurar a Monarquia contra o Governo. Na II República, a maioria pretendia a Monarquia através do Governo. Nesta III República, a posição dos monárquicos, pelo menos a dos mais significativos, que são os que aparecem agrupados em instituições, em forças políticas, é completamentediferente: defendemos que a Monarquia deve ser restaurada, ou instaurada, quando e da forma que o Povo Português quiser.

Mas a partir de 1974 foi visível, creio que cada vez mais visível, a degenerescênciada República. Durante o consulado de Salazar ela mantivera-se com a estabilidade que todos conhecemos, e de certo modo lhe censurámos, que era uma estabilidade artificial, mas que lhe dava uma certa respeitabilidade. Depois do 25 de Abril voltou-se em grande parte à I República, à balbúrdia, não tão sanguinolenta, mas sem deixar de ter aspectos deviolência – não podemos fechar os olhos ao que se passou no Ultramar. Mesmo na Metrópole, a existência de formas larvadas de violência, de ódios de classe, é qualquer coisa de muito forte, e a própria intriga palaciana dentro e fora dos partidos, à volta dos Governos, em torno dos Presidentes, constituem outros tantos argumentos a favor da Monarquia. Quer dizer, a República está a afundar-se. É um espectáculo deprimente, degradante. É preciso encontrar uma forma de equilíbrio que só pode estar para além do próprio jogo dos interesses em presença, quer económicos quer outros.

Contudo, penso que o facto de as características desta III República serem muito diferentes não nos deve deixar esquecer que o principal para a Restauração da Monarquia é a reforma da mentalidade. Sem uma verdadeira e profunda reforma não faz sentido instaurar a Monarquia, pois as diversas reformas do Estado perdem-se, e hoje é muito fácil destruir num dia o que se construiu na véspera. Portanto, sem uma reforma profunda da atitude mental das populações é muito pouco valiosa qualquer reforma estrutural.


Henrique Barrilaro Ruas, Portugueses. Revista de Ideias, 6-7, Fevereiro-Março de 1989, pp. 39-40

Grato por esta pertinente contribuição de Vasco Rosa publicada também aqui

ENTREVISTA COM JÚLIO MENDES LOPES

ENTREVISTA COM JÚLIO MENDES LOPES



Júlio Mendes Lopes lecciona História de África no ISCED em Luanda.

"Elites africanas preservam processos da administração colonial"

A pré-história é um conceito que ainda faz sentido?

É ainda um conceito que faz sentido, sim. Porque é o período em que ocorreram, em África, os processos de hominização. É no continente africano que se encontram os estádios do desenvolvimento humano de maneira continuada, desde os australopitecos até ao homo sapiens, que se vai encontrar desde o corredor que vai de Manke Makdap, na África do Sul, até ao vale do rio Omo na Etiópia.
É neste vale onde investigadores franceses, britânicos e norteamericanos trabalharam e deram com muitos achados ósseos que dão uma ideia sobre a evolução da humanidade.
Os australopitecos, por exemplo, não foram encontrados em nenhum outro continente que não no africano.
Aliás, é também em África que se deram os primeiros sinais da escrita cursiva, nomeadamente no Egipto antigo, e é também em África onde muitos dos grandes sábios da Grécia antiga estudaram. Há até trabalhos publicados por um grego, Ptolomeu Cláudio, que chegava ao ponto de afirmar que um livro de mil páginas não chega para enumerar os sábios da Grécia que estudaram no Egipto antigo, nas mais diferentes áreas: medicina, agronomia, astronomia, filosofia, etc. Como o caso de Pitágoras, por exemplo, o sábio grego que criou a teoria dos catetos, estudou matemática durante 22 anos no Egipto. Isso é prova evidente de que África é o continente que deu os primeiros fundamentos do desenvolvimento da humanidade.

O País On Line http://www.opais.co.ao/pt/opais/home.asp

Pedro Mesquitela [28-05-2010]

Pedro Mesquitela [28-05-2010]

via Império, Nação, Revolução by Riccardo Marchi on 5/28/10
Recebo e publico algumas notas de Pedro Mesquitela, protagonista - ele e a sua família - de páginas importantes da luta integracionista pelo então Ultramar português.

[Na] reunião na Quinta das Lágrimas, em Coimbra em 1970, após incidentes no Teatro Gil Vicente, […] discursaram vários integrantes das chamadas "direitas" inclusive ex-ministros de Salazar (Franco Nogueira), de que resultaram realmente vários artigos contra o regime "liberald" do Marcelo Caetano. O Luís Fernandes deve ter ainda cópia do artigo que na altura escrevi no jornal que ambos patrocinávamos chamado "Acuso". Muita pretensão minha ...

Devemos ainda falar de gente que naquela altura foi realmente importante como o Jaime Nogueira Pinto, o Luís Fernandes e o Pedro Pinto (em Lisboa) e nos movimentos nas faculdades em Lisboa em 1970 (Jorge Braga de Macedo, Marcelo Rebello de Sousa, eu mesmo, e tantos outros, que já demonstrava o que seria o pré e o pós 25 de Abril.) E os movimentos dentro do próprio governo de Marcelo Caetano com gente como o Baltazar Rebello de Sousa, o Silva Cunha (antigo ministro do Ultramar), O João Rosa (ex-ministro das Finanças) cada qual com a sua agenda e propósito.

[…] meu Pai escreveu vários livros sobre a posição a respeito do Ultramar e fez várias intervenções na Assembleia onde era deputado por Moçambique , e até 7 volumes sobre a História de Portugal em Macau e Extremo-Oriente . Mas fazem parte de um quadro mais vasto, e só posso adiantar que as chamadas "direitas" não eram exactamente monolíticas, tendo várias vertentes, sobretudo no que respeita á política Ultramarina. Desde 1952, quando o Prof. Adriano Moreira foi Ministro das Colónias existiam vários movimentos e matizes quanto á auto-determinação, independência ou simples abandono do Ultramar. Expoentes eram o próprio Prof. Adriano Moreira (que criou o ICSPU), o meu Pai, o Jorge jardim, o Santos e Castro (governador em Angola), o Pimentel dos Santos (governador em Moçambique) entre outros.
Cada qual á sua maneira e com uma visão pessoal do futuro, embora pudessem diferir nos meios para se alcançarem os fins. E todos poderiam ser chamados de "direitas". Mas "direitas" em relação a quê? Onde estava o centro em 1970? Enfim, daria para conversarmos anos a fio.

O Ultramar era a grande questão em Portugal, talvez porque era filho de uma visão de ditadura ou de democracia. Sobretudo a partir de 1970 a questão fica mais aparente, com o Marcelo Caetano e sua indecisão íntima, a traição ao Integralismo Lusitano de que tinha sido artífice, a traição aos ideais "fascistas" como Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, e a enorme falta de capacidade de substituir o movimento aglutinador da antiga União Nacional pela amorfa ANP. Mas não quero ainda entrar nessa questão. É só um "aperitivo ".

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Rosa Mística (Conto)

Rosa Mística (Conto)

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/27/10
"Escrevo estas linhas porque não quero partir sem deixar algum sinal, mesmo imperceptível, da minha passagem. Quem vai lê-las? Interroguei-me longamente e agora prefiro deixar em branco esse aspecto da questão. É possível que seja um funcionário da justiça, um burocrata, um homenzinho de veste cinzenta, de cara cinzenta e de alma cinzenta. Não me admirava que, por malas-artes, este meu primeiro e último escrito fosse desembocar na secretária atulhada de algum jornalista profissional. [...] O eco, o eco mesmo pálido e vago, mesmo mínimo que as minhas palavras possam provocar em alguém, é o meu único testamento. Deixo mais do que dinheiro, creio bem. Deixo a minha frustração e a minha esperança em algumas páginas sujas de tinta. Deixo uma vida inteira em sua essência. [...] E se, impiedoso e cego até final o destino soprar as folhas que escrevi aos quatro ventos? Creiam, é neste momento a minha maior angústia. Tudo teria sido em vão e acaso poder-se-ia concluir que Deus não existe, nem qualquer outro poder semelhante, nem sequer uma força criadora, majestosa e absurda? Julgo, porém, que as coisas não sucedem sem motivo e, embora há muito tenha deixado de reverenciar esse Deus feito e concebido à imagem e semelhança dos homens (quando dizem ser o contrário), encontro em mim neste instante decisivo um grande amor por quem me conferiu uma existência tão frágil e desnecessária, mas me permitiu, no entanto, este assomo último de homem, este preito à vida que, sei-o bem, vai ser interpretado exactamente ao invés. [...]"
António Quadros
Anjo Branco, Anjo Negro, (1973)
Parceria A.M. Pereira pp. 59-60

10 Razões para votar na UNITA - Sousa jamba

10 Razões para votar na UNITA - Sousa jamba

via Angola eu te amo by José Sousa on 5/25/10
Para teres liberdade e o país ser dos Angolanos, vota UNITA

1. Alternância Política. O MPLA está no poder desde de 1975. Neste tempo, um país como os Estados Unidos, por exemplo, já viu administrações como a do Reagan, Bush pai e filho, e agora a de Obama.

A alternância política garante a reciclagem de ideias, formas de trabalho, encoraja a cultura da transparência, já que as instituições de governação não se tornam em meras redes de patrocínio da elite que retém o poder.

2. Alargamento do processo de governação. A UNITA tem fartamente demonstrado que está sempre pronta a cooperar com quadros angolanos mesmo com aqueles que têm um perfil sociológico não idêntico ao da maior parte dos seus dirigentes. Há centenas e centenas de quadros angolanos cujos talentos não estão a ser postos ao serviço da nação angolana o sistema governativo actual tornou-se cada vez mais enferrujado.

3. Credencias democráticas. A luta da maioria dos militantes da UNITA foi sempre pela democracia. Muitos membros da UNITA resistiram aos instintos centralistas da sua antiga liderança. É por isso mesmo que houve, naturalmente, dissidências no partido que agora já não existem. O presidente do partido, eleito por voto secreto, tem um mandato de quatro anos renovável uma única vez. Ele presta contas a vários órgãos do partido.

Em África são muito poucos os partidos que adoptaram este modelo. É exactamente esta cultura, da transparência e da renovação periódica dos mandatos, que deve ser implantada no nosso país.

4. Afirmação do angolano e sua cultura. A UNITA sempre zelou pela valorização da nossa identidade africana, um conceito que muitas vezes foi mal interpretado, sobretudo por aqueles que temem um debate sério sobre a nossa identidade. A afirmação da herança africana do angolano traduzir-se-á num programa sério de promoção da nossa cultura. A afirmação do angolano implicará que ele tome prioridade na gestão de vários aspectos da nação.

5. Promoção da cultura de transparência. Angola é hoje referida em todas as listas dos países mais corruptos do mundo. O mundo ri-se de nós: temos tantas riquezas, mas boa parte das receitas do país desaparecem. A UNITA sempre insistiu na cultura de transparência e prestação de contas. Estes são valores que o próprio presidente da UNITA, Isaías Samakuva, sempre valorizou. Nem mesmo os seus mais acérrimos adversários podem acusar Samakuva de não ser íntegro. Uma maioria parlamentar da UNITA daria um fortíssimo impulso a esta luta para assegurar que a herança de todos nós não se confine a um grupo que detenha o poder político no país.

6. A valorização da educação. A formação de quadros é algo que sempre foi muito valorizado na UNITA. Mesmo nos tempos mais difíceis, a UNITA desenvolveu várias iniciativas para a alfabetização dos camponeses.

O desenvolvimento da nação angolana só será possível com um investimento notável no seu sistema educacional. A formação de quadros angolanos, em todo o país, terá de ser uma prioridade estratégica do Estado. Isto só será possível quando a UNITA conquistar o poder para fazer com que as instituições estatais passem a implementar tais programas.

7. Valorização do interior e do campo. A Angola urbana está, neste momento, a sofrer o que certos economistas identificaram como a doença holandesa. Isto acontece quando uma nação altamente dependente de divisas provenientes de um só produto – neste caso o petróleo – gasta este dinheiro em importações. O problema é que tal cultura prejudica as outras áreas de produção, como a agricultura. O futuro de Angola reside não nas importações mas na agricultura.

O país tem se ser capaz de produzir comida sufi ciente para os cidadãos. Isto significa colocar à priora a produção do interior. Só a UNITA é que poderá enfrentar este problema com a abertura de espírito e flexibilidade necessárias.

8. Consolidação da Paz. Desde a assinatura dos Acordos de Paz, a UNITA e a sua liderança têm trabalhado afincadamente para a sua consolidação em todo território nacional. A liderança da UNITA tem encorajado os generais que fazem parte do exército unificado a reenfocarem o processo de reconciliação nacional. Em locais onde haja possibilidade, mesmo que remota, de choques entre militantes da UNITA e do MPLA a liderança do nosso partido sempre optou pela reconciliação e consenso. Um parlamento liderado pela UNITA consagraria esta cultura.

9. Maior envolvimento em projectos africanos. Em vários países africanos existe a noção de que Angola é um país que prefere manter-se à distância e valoriza mais as suas relações com Portugal e Brasil. Esta é, infelizmente, uma percepção que não reflecte os desejos da maioria do povo angolano, que gostaria, claro, de aprofundar os seus laços com o resto do continente africano.

O futuro da economia angolana está ligado à sorte das economias dos seus vizinhos. Por essa razão deveria promover-se relações de base com o resto do continente. Nos últimos tempos Isaías Samakuva tem viajado por várias partes do nosso continente onde tem sido recebido com muito entusiasmo.

10. Garantia dos direitos humanos. As liberdades do cidadão estarão sempre em causa. Alguns detentores de poder tentam, de várias formas, restringir os direitos do cidadão. Diariamente tomamos conhecimento de violações dos direitos do cidadão comum.

Seria desonesto dizer que na história da UNITA os direitos humanos foram sempre respeitados. Porém, houve sempre vozes, mesmo nos piores momentos, que criticaram os excessos de algumas figuras do partido. E, felizmente, as vozes que criticavam é que prevaleceram no partido.

Num parlamento com uma maioria da UNITA a questão do respeito dos direitos humanos dos cidadãos comuns passaria a ter muita importância. 10 Razões para votar na UNITA.


kwacha Unita, kwacha Angola. Unidos venceremos

Posfácio ao Portugal, o Ultramar e o futuro por Manuel José Homem de Mello

Posfácio ao Portugal, o Ultramar e o futuro por Manuel José Homem de Mello

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MARIANJARDIM on 5/26/10

Estávamos em 1960.
(…) O ciclo colonial percorria os derradeiros passos. Portugal encontrava-se numa encruzilhada decisiva: ou procurava resistir a tudo e a todos no intuito de preservar e manter o Império, inclusivé pela força das armas, ou optava pela via das negociações diplomáticas, sigilosas e transparentes. (…). Poucos seriam os que, naquela altura, ousavam defender uma solução negociada designadamente no seio dos comandos militares que, surpreendentemente, encontraram no ministro da Defesa, Júlio Botelho Moniz, o intérprete das mutações políticas que se impunha levar a cabo.(…)
Sondado pelo ministro e pelo genro Manuel Cotta Dias para assumir os Negócios Estrangeiros, devo confessar que senti, aos 30 e poucos anos, um misto de orgulho e receio. (…)
Reconheça-se, ainda, que a opinião pública portuguesa não estava preparada para a «entrega» das colónias por nossa própria iniciativa. Era quase certa a formação de uma organização de extrema-direita, como aconteceu em França com a OAS.
(…) Inviabilizada a tentativa de golpe de Estado, o chefe do executivo português recusou seguir o exemplo do General De Gaulle não aceitando renunciar ao princípio da Argélia Francesa. Também deste lado da fronteira, se gritava "Angola é nossa". E era. Mas por pouco tempo mais (…).
Em 1954, Portugal perdia os primeiros territórios ultramarinos, Dadrá e Nagar-Aveli. Embora só em 61, antes da invasão de Goa, é que a Índia considerou como concluída a anexação (…).
O malogro do golpe de Botelho Moniz precipitou os acontecimentos embora a agonia do colonialismo português fosse prolongar-se por mais 13 anos. Acabaríamos por regressar ao rectângulo Europeu da pior maneira, sem rei nem roque, como autênticos cavaleiros de triste figura, quando possuíamos todas as condições para continuar - sem sair. (…). Daí à independência seria um ápice. (…) Salazar optou pela guerra para preservar o Império. Perdeu a guerra e Portugal ficou sem as colónias. (…)
Como foi possível que alguém tão inexperiente como eu tivesse visto o que um homem com inteligência, a perspicácia, a ponderação e os acontecimentos do então Presidente do Conselho, se revelou incapaz de prever? Só encontro duas respostas alternativas possíveis:
- Ou o Dr. Salazar, a partir, sobretudo, da perda de Goa, tinha deixado de estar precocemente na plena posse das suas excepcionais qualidades intelectuais e anímicas (…)
- Ou então optou por jogar Portugal na "roleta da sorte", preferindo continuar no poder, apesar de não ter ilusões quanto ao epílogo da tempestade que se acumulava no horizonte, nem sobre as trágicas consequências dela resultantes (…)
A irreprimível vocação para a independência, pelos territórios por nós descobertos (…), manifestou-se muito antes da febre colonialista que viria apossar-se do Estado Novo três séculos mais tarde para acabar por aderir ao integracionismo que viria a ser oficialmente adoptado pelo regime então vigente, através do célebre grito lançado pelo Presidente Carmona ao chegar a Moçambique: AQUI É PORTUGAL!. E sê-lo-ia, se dependesse apenas da vontade de alguns.
Na verdade, andámos em sentido contrário ao da História: Colonialistas quando não o deveríamos ser; imperialistas quando o colonialismo se definhava rápida e inexoravelmente.
Não se trata de uma simples teimosia ou casmurrice. Continuo a pensar que o nosso caminho não deveria ser o da persistência na colonização mas liderar precisamente o oposto ou seja proporcionar e até mesmo incentivar a descolonização. Se já em 1500 fôramos capazes de proporcionar novos mundos ao mundo no século XX bem poderíamos, e deveríamos, ter seguido idêntico caminho procurando forjar (…) novos "brasis".
Pois não é verdade que o sucesso de qualquer política se mede pelos resultados alcançados?
O que se afigura extraordinário é encontrar ainda bastante gente - não muita mas mesmo assim gente de qualidade e em número suficiente para nos perturbar – gente que continua convencida ou dizer-se convencida que a nossa missão era a da defesa da integridade territorial portuguesa do Minho a Timor (…)
Todos sabemos que errar é humano. E humano também é reconhecer que se errou, como aconteceu por exemplo, com Robert Macnamara considerado um dos homens mais inteligentes da sua geração, Ministro da Defesa da administração Kennedy que veio a terreiro confessar que se enganara ao articular e dirigir a invasão norte-americana no Vietname, intervenção essa que acabou por confessar ter sido um erro descomunal.
Quem entre nós teve a coragem de semelhante atitude? Ao que saiba até agora – ninguém (…)
Um erro pode ser pior do que um crime. Ao mandar assassinar o Duque de Enghein, Bonaparte teria cometido um erro que Talleyrand não teve dúvida em considerar mais grave que um crime.
Pois em termos políticos apetece entrar no portal da História à ilharga do príncipe de Perigord, reconhecendo e catalogando o ocaso do Império, de mãos dadas com a catástrofe de Álcacer-Quibir, como um dos mais trágicos, dolorosos, erráticos e irresponsáveis episódios do historial português.
Dá ideia de que nos consideramos tocados pela varinha mágica da infabilidade (…) mas enquanto os demais reconhecem os erros que cometem, nós nunca erramos, temos sempre razão.
Primeiros a chegar bem poderíamos não ter sido os últimos a partir. E sobretudo a partir como partimos, salpicando de opróbrio a memória daqueles que honraram a nossa Pátria morrendo por ela, glorificando Portugal (…)

Os Khoisan (2.ª Parte) - Campeões da Sobrevivência no Sul da África

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MARIANJARDIM on 5/16/10
















" (…) Os Bosquímanos, um dos ramos do grupo khoisan, fizeram frente a um destino
Assemelhando-se a mongóis de cabelo enca­rapinhado, eles palmilhavam, livres e infati­gáveis, no seu caminhar gracioso e saltitante, as extensões poeirentas do karroo. Deslocavam-se em grupos cujo efec­tivo rondava, em média, a dezena e meia de pessoas. Campeões da sobrevivência, predadores superdotados, extraíam proveito de tudo o que obtinham daquele meio agressivo e avaro - desde os tubér­culos aos cágados, passando pelos pássaros e o mel, as bagas e os ovos, as larvas e os gafa­nhotos, as toupeiras e as térmitas. Com o auxílio de caniços sorviam de solos queimados, aparentemente enxutos e estéreis, a água preciosa e vivificante, que re­colhiam em cabaças, bexigas de animais ou cascas de ovos de avestruz. Nas caça­das untavam as pontas das flechas com vene­nos violentos, tirados de ve­ge­tais, de cabeças de víboras ou de uma providencial larva de lagarta. Utilizavam cães para desentocar as rapidíssimas lebres saltadoras e capturavam os animais de maior porte em grandes fossas de fundo armadilhado com estacas aguçadas. À noite recolhiam-se a choças temporárias e saudavam, sempre que ocorria, o apa­recimento da lua cheia, onde pairavam os espíritos dos seus mortos.
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Na altura em que as caravanas bóeres principiaram a devassar-lhes o território, os Bosquímanos ripostaram tal como haviam feito os seus antepassados diante das invasões dos negros bantos. Não tardou que se decidissem por audaciosas incur­sões, durante as quais, recorrendo a estratagemas de caça, se acercavam à sorrelfa dos rebanhos dos invasores para lhes subtraírem algumas cabeças. Por ve­zes leva­vam mais longe as suas iniciativas, não hesitando em atacar os brancos que sur­pre­endiam isolados no mato. Mas os belicosos calvinistas, nada dispostos a re­nuncia­r ao que entendiam ser os caminhos da sua predestinação, constituíam de facto uma nova e temível espécie de inimigo para o povo san. Organizados em co­mandos de voluntários, eles devolviam com impiedosa crueza todos os golpes e ameaças. Certa ocasião, no derradeiro quartel do século XVIII, um comando de duzentos e cinquenta bóeres levou a cabo uma devastadora acção de represálias. Por trágica ironia, faziam-se acompanhar de muitos auxiliares hotentotes, incorporados nas su­as carava­nas como fiéis servidores. No termo da operação, tinham sido aniquilados mais de cinco mil bosquímanos. Sem possibili­dade de reac­ção eficaz diante daque­las vagas de intrusos que os acossavam por todo o lado, cuspindo um fogo mortí­fero do cimo dos cavalos, os minúsculos caçadores do mato viram-se banidos dos seus territórios. Varridos para leste e para norte, só lhes restou acolherem-se, como proscritos, às estremas adversas dos grandes deser­tos.
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À semelhança do que sucedera na época das lutas contra os Bantos, os Khoisan deixaram registo, nos rochedos do Cabo, do seu fatídico encontro com os brancos. Trata-se de desenhos toscos, de uma comovente expressividade, de cujo traço in­génuo parece soltar-se uma silenciosa mas pungente inquie­tação. Ou, então, o pul­sar de uma ameaça mortal. Num deles sobressai um vistoso galeão, porventura ob­ser­vado numa das baías de aguada. Exibe a proa er­guida, o esporão arrogante, os pavilhões orgulhosamente desfraldados no topo de quatro mastros nus. Noutras re­presentações divisam-se europeus de cabeças som­breadas por chapéus de aba larga, empoleirados em cavalos altivos, e as avantaja­das mulheres holandesas de grossas ancas realçadas por saias em balão. Aparece ainda, como que dotado de movimento, um dos característicos carros de bois das deambulações migratórias: transporta um animado grupo de homens, mu­lheres e crianças gesticulantes. São fi­gurações de intenso e incomodativo drama­tismo. Se forem olhadas longamente e com vontade de sentir, deixam adivinhar murmúrios, risos e clamores desprendidos do fundo dos tempos.(...)
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(José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - 1999)

FONTE

Os Khoisan (1.ª Parte) - Campeões da Sobrevivência no Sul da África

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MARIANJARDIM on 5/16/10














"(...) Quando principiaram a assenhorear-se da região do Cabo, os Calvinistas de­pararam com bandos errantes de pequenos homens de epiderme castanho-amare­lada, olhos oblíquos, faces ossudas e precocemente enrugadas e cabelos dispersos em tufos encarapinhados. A cor e os traços fisionómicos dessa gente, que se ex­primia num dialecto pontuado de estalidos, não apresentavam semelhanças com os dos povos africanos encontrados a norte. Tratava-se dos Hotentotes, ou Khoi-Khoi, e dos Bosquímanos, ou San, modernamente agrupados sob a designação de Khoisan. Os Bosquímanos viviam em exclusivo da caça e da recolecção, ao passo que os Hotentotes acrescentavam a criação de gado a tais actividades.
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Estes seres constituíram, desde tempos sem memória, os primitivos habitantes de grande parte dos espaços africanos. Surpreendidos em épocas remotas pelas invasões de negros bantos oriundos do Norte, viram-se batidos e empurra­dos para sul e sudoeste do Con­tinente, inexoravelmente esbulhados das pastagens e dos territórios de caça. Para sobreviver, refugiaram-se nas periferias dos desertos ou procuraram as fran­jas costeiras de menor fertilidade. Gravaram para a posteridade, em cavernas e ro­chedos dispostos ao longo dos caminhos da fuga, dramáticas figurações dos seus recontros com aqueles negros enormes e robustos, de pele retinta e olhos salientes, que lhes iam subtraindo os domínios ancestrais. (…).
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Certos viajantes e exploradores europeus deixariam dos Khoisan algumas re­pugnantes descrições. Não hesitaram em apresentá-los, de pena ligeira e cheios de suficiência, como estúpidos, feios e horrendos, talvez mais próximos do irracional do que do ser humano. Estas desapiedadas impressões, caso fossem levadas ao co­nhecimento daqueles entes minúsculos e engenhosos, maravilhosamente adaptados ao seu meio, dotados de apurada sensibilidade e cultores de um refinado sentido de humor, suscitariam decerto entre eles a hilaridade ou um pasmo escandalizado. Com efeito, desde as deambulações do português Bartolomeu Dias pela região, os Khoisan jamais tinham deixado de emocionar-se com a terrífica aparência desses mareantes de tez leitosa e descomunais narizes afilados, os lábios finos e os olhos arregalados, as barbas hirsutas e as cabeleiras esvoaçantes, os enormes corpanzis semeados de pêlos como os dos macacos. Os forasteiros exibiam-se por ve­zes co­bertos de estranhas carapaças metálicas ou de trajos espessos que os faziam suar abundantemente. Possuíam a inquietante faculdade de mudar de cor sempre que se encolerizavam ou quando se entregavam a esforços intensos. Nessas ocasi­ões, em que as faces se lhes tingiam de um vermelho carregado, tornavam-se ver­dadeira­mente pavorosos. Como se não bastasse, dedicavam-se a manobras e ceri­mónias nebulosas, que incutiam o receio e a suspeita nas gentes do Cabo: arrasta­vam para bordo, em grandes recipientes, quantidades prodigiosas de água das nas­centes, dei­xavam nas praias, devorados pelas chamas, alguns dos navios em que se tinham feito transportar e, espanto dos espantos, enterravam no chão esquisitos ob­jectos de pedra ou madeira, em volta dos quais entoavam depois, de joelhos em terra, longas e graves lengalengas na sua fala incompreensível. Não admira que, mal os navega­dores lhes davam as costas e se sumiam de novo no mar, os Hotentotes caíssem com ligei­reza sobre essas ameaçadoras construções e procurassem reduzi-las a pe­daços, es­conjurando qualquer efeito maléfico que delas pudesse desprender-se. (...)
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(José Bento Duarte - Senhores do Sol e do Vento - Histórias Verídicas de Portugueses, Angolanos e Outros Africanos - Editorial Estampa - Lisboa - 1999)
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(Continua)
DAQUI

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A Língua Portuguesa como instrumento veiculador de identidade nacional em An...

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MARIANJARDIM on 5/19/10
Parte de um texto por Mónica Hilário

«.... No momento actual, para o governo angolano, a língua portuguesa serve dois propósitos. Primeiro, continua a servir de instrumento linguístico para a coesão administrativa do país. Segundo, fornece a língua para uma comunicação mais vasta (nacional e internacional). Ganhando um novo poder de base e um novo elitismo. Poderíamos, mesmo, afirmar que o português adquiriu um "status" institucionalizado.
O português tem uma vantagem clara, quer ao nível de atitude, quer ao nível linguístico, adquiriu neutralidade num contexto linguístico onde as linguagens nativas, dialectos, e estilos por vezes adquirem conotações políticas indesejáveis. Em tais contextos o poder de neutralização é associado com o português, o português fornece - com ou sem mistura das línguas bantas - um código adicional sem conotações ou desigualdades étnicas evidentes.
Neste ponto, queria salientar que a língua é um elemento essencial na construção da identidade cultural colectiva (1)de um Estado. A identidade cultural colectiva é constituída de elementos supra-étnicos de forma a preservar e proteger a unidade nacional. Consequentemente, a identidade cultural colectiva é uma garantia de sobrevivência do Estado. Os novos Estados africanos, nos quais se inclui Angola, contém dentro de si vários grupos étnicos - que, geralmente, não tem nada em comum exceptuando o facto de pertencerem ao mesmo Estado -, estes constituem identidades culturais que implicam a possibilidade do surgimento de rivalidades étnicas e, até mesmo, o perigo de uma etnia reivindicar, dentro das fronteiras do Estado, um determinado território como exclusivamente seu. Os riscos que estão subjacentes ao problema de os países africanos se encontrarem fragmentados em etnias diferentes, levam-nos a compreender como a criação de elementos supra-étnicos é indispensável, uma vez que é necessária a afirmação de uma identidade colectiva para a existência e sobrevivência política, económica e social destes territórios. E é, deste modo, que a língua portuguesa - como língua oficial e veicular - surge como um elemento supra-étnico extremamente importante em Angola.
Uma aparente contradicção parece surgir quando o Estado angolano toma a língua portuguesa como a língua oficial e, simultaneamente, revaloriza as línguas nacionais. Se a língua portuguesa é fundamental como elemento supra-étnico, na construção da identidade colectiva da nação, então como explicar a revalorização das línguas nacionais quando estas implicam a fragmentação de Angola por áreas linguísticas e são associadas a diversas identidades étnicas, (que aparecem como potenciais impedimentos à formação da identidade colectiva que se tenta construir)? Uma forma mais directa de pôr a questão é: Como explicar a revalorização das línguas nacionais quando estas estão associadas aos grandes medos do "regionalismo" e do "tribalismo", ou seja ao perigo destes poderem desmembrar o estado angolano? Uma possível resposta pode encontrar-se no estudo de Orvar Löfgren (Löfgren, Orvar. 1989.) sobre a nacionalização da cultura, que passo a transcrever,
"Many forms of regionalism may function not as a potential threat to national break-up but rather as a kind of tension which may keep the national project alive and vital.(...) In some ways the province or region has had the role of providing a micro-level model for patriotism. By learning to love your home region - one part of the national whole - you prepared yourself for national feelings on a higher level"(Löfgren, Orvar. 1989. pp.18-19)
A resposta pode, assim, residir na tentativa de o Estado angolano em transformar os potenciais inimigos da nação em potenciais pilares de suporte da nação. Deste modo, a revalorização e o reconhecimento, que se assiste, das diferenças regionais, culturais, étnicas ou linguísticas tem um interesse subjacente. Ou seja, primeiro tenta-se passar a ideia de que constituem partes importantes do todo nacional. Partes que não se repelem na diferença mas sim que se complementam na diferença, de forma a dar um carácter da nação como um todo integrado. Isto é feito com o interesse de que estas actuem a um nível primário como uma preparação ou formação de um sentimento patriótico. Segundo, pretende-se a extensão a partir deste nível inferior, do sentimento de "amor" à parte, para um nível superior, de "amor" ao todo, ou seja à Nação. No caso das línguas nacionais esta revalorização e reconhecimento é comprovada através da iniciativa da Presidência da República na criação do Instituto Nacional de Línguas, em 1978, por decreto lei nº62/78, de 6 de Abril. Este promoveu um estudo sobre as seis línguas nacionais de maior difusão e a criação de um alfabeto único que possibilitasse a expressão escrita das línguas nativas (Kukanda, Vatomene. 1986). A importância de todo este trabalho realizado em torno das línguas nativas enquadra-se na mesma lógica acima descrita. Em Angola existe uma grande percentagem de indivíduos angolanos em situação de analfabetismo. Estes dominam melhor a sua língua nativa - apresentando grandes dificuldades na fala e na compreensão do português. Dado isto, a transcrição das línguas nativas à expressão escrita, seria o primeiro passo que permitiria a estes indivíduos aprenderem a ler e a escrever mais facilmente (pois estariam a reconhecer a sua língua nativa oral na escrita, ao longo da sua alfabetização), o segundo passo seria então a aprendizagem do português. O bilinguismo português-língua nacional, que se pretende, não quer dizer que as duas línguas se encontram ao mesmo nível de importância prática. O português é sempre a língua preferencial no ensino pós-alfabetização, na informação, nos contactos formais ou exteriores. O que implicitamente significa que mesmo na revalorização das línguas nacionais que se proclama, na prática estas continuam, de longe, a ter um valor muito abaixo do da língua portuguesa.
....."

Texto completo: AQUI

terça-feira, 25 de maio de 2010

Da análise da crença cristã

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/25/10
"[...] Agora cumpre-nos tão somente declarar bem alto que o cristianismo é uma religião obsoleta, anacrónica, moribunda; uma religião que assenta sobre os cadáveres dos desgraçados, sobre as ossadas denegridas dos queimados vivos. Sim! Uma religião que, depois de mentir à razão e à consciência pelos seus dogmas estultos, pelos seus livres santos, pelas suas doutrinas canónicas, acende fogueiras e levanta forcas, queima em Espanha, trucida em França, delira satanicamente em Roma, uma religião, cujos textos servem assim os padres, uma religião que aspira à catolicidade, à suprema, ao despotismo, é uma religião toda humana, com os nossos vícios e paixões, com a nossa cólera e o nosso furor, é uma religião verdadeiramente infame. [...] Quando o povo pensar, compreenderá tão bem os seus deveres morais e eis que eu já não sou destruidor de todo o edifício social. [...] Querer que o cristianismo seja a religião do futuro seria querer que ontem fosse hoje. Seria um não senso e uma blasfémia. [...]"
Sampaio Bruno,
Analyse da Crença Christã, (1874)
Typ. de Arthur José de Sousa, Porto, pp.311-312

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Da Felicidade

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/19/10
"Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens, apesar do que possa combater, e é mais difícil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obediência ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida."

Agostinho da Silva
Aproximações
Guimarães Editores, (1960) p.51

terça-feira, 18 de maio de 2010

Mussolini visto por Winston Churchill em 1927

Mussolini visto por Winston Churchill em 1927

via nonas by nonas on 4/27/10
"O génio romano, personificado por Benito Mussolini, o maior legislador vivo, mostrou a diversas nações que se pode resistir ao comunismo; traçou o caminho que uma nação pode seguir quando é dirigida com coragem. Com o regime fascista, Mussolini estabeleceu uma orientação central que os países empenhados na luta contra o comunismo não deveriam já hesitar em tomar como exemplo. Se fosse italiano, tenho a certeza de que teria apoiado Mussolini do princípio ao fim. É uma palermice pensar que o regime italiano não assenta numa base popular ou que não se mantém no poder com o consentimento activo da grande maioria da população italiana. Fiquei fascinado, como muitos outros, pelo comportamento muito simples de Mussolini, pela calma e a serenidade que mantém apesar de tantas responsabilidades e tantos perigos. É evidente que não pensa senão no bem-estar duradouro do povo italiano, tal como o concebe, e não atribui a mínima importância a considerações de menor peso. Está a fazer do seu país uma potência aceite e respeitada no mundo. A Itália redescobre a grandeza imperial do passado."

Declaração à imprensa, em Janeiro de 1927,
por Winston Churchill, ministro das Finanças britânico.

In Dominique Venner, O Século de 1914 – Utopias, Guerras e Revoluções na Europa do Século XX, Civilização Editora, 2009, pág. 217.

Nota: Curioso é Mussolini ter sido assassinado por dois agentes secretos do MI6 a 28 de Maio de 1945, às ordens de Churchill como o prova Giorgio Pisanò no livro "Gli ultimi cinque secondi di Mussolini".

domingo, 16 de maio de 2010

Santo António de Caculo Caenda - Arlindo de Sousa

Santo António de Caculo Caenda - Arlindo de Sousa

via QUITEXE by Quimbanze on 5/15/10

Nos passados dias 2 e 3 do mês corrente, estive em Lamego para ver uma exposição de carros de tracção animal e calcorrear mais uma vez a parte mais antiga da cidade. Nestas andanças incluí por mero acaso o Bairro de Fafel, onde encontrei um pequeno monumento comemorativo com os seguintes dizeres:

"LARGO

de St. ANTONIO de

CACULO CAENDA

Dembos – 1909

Amigos de Fafel – 09/2008"

Como devem calcular, fiquei espantado. Quando cheguei a casa fui à Internet e sobre o assunto encontrei apenas a seguinte informação:

"Amigos de Fafel

Arquivo: Edição de 05-09-2008

6 SETEMBRO-Sábado

IV Encontro Convívio dos Amigos de Fafel, Ponte de Pau e Oliveiras;

11,00 Horas - Homenagem Pública ao Major David Magno com descerramento de uma placa toponímica;

13,00 Horas - Colocação da Placa LARGO STº ANTÓNIO DE CACÚLO CAENDA Dembos – 1909-Amigos de Fafel – 09/2008".

O meu passo seguinte consistiu em procurar o que pudesse sobre o Major David Magno. Todavia encontrei muito pouco. Apenas o seguinte:

"MAGNO, David José Gonçalves (1877-1957)

Oficial do Exército

Nasceu em Lamego a 17 de Agosto de 1877 e morreu em Lisboa a 30 de Setembro de 1957. Seguiu a carreira militar, sendo promovido a alferes em 22 de Dezembro de 1906. Começou por se distinguir em Angola, ao conseguir avançar para o interior e impor a presença portuguesa na região dos Dembos Orientais. Combateu depois em França, durante a Primeira Guerra Mundial, onde por feitos em combate recebeu a cruz de guerra e a cruz de Cristo com palma. A sua acção no CEP não foi, contudo, consensual e isenta de polémica, pelo que pediu para ser julgado pelas acusações de que foi vítima, tendo sido absolvido e visto confirmados os seus serviços como relevantes.
Mais tarde, na sequência da revolta de 3 de Fevereiro de 1927 foi deportado para o Sul de Angola, tendo antes passado pelos Açores e Guiné. Reabilitado foi promovido a major e em 14 de Março de 1932 optou por passar à situação de reserva.
Paralelamente à sua carreira militar exerceu intensa actividade literária, sendo autor de diversas obras, algumas das quais escritas com base na sua experiência de guerra, para além de ter sido membro da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia, da Revista Militar e da Comissão de História Militar".

E também o que se segue:

Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia

—Vol. I — Fases, II e III—Pôrto, 1920 e 1921. — Estes dois fascículos

dos Trabalhos da Sociedade de Antropologia conteem, entre outros

artigos cuja índole não interessa em especial à nossa revista, um estudo

do sr. major Leite de Maglahães sôbre etnologia timorense, outro do

sr. capitão David Magno sôbre os Dembos e ainda um do sr. Prof. J.

Pires de Lima sôbre o dente santo de Aboim da Nobrega e a lenda de

S. Frutuoso Abade.(...)

O trabalho do sr. David Magno sbôre a população angolense dos

Dembos é uma detalhada e interessante resenha dos caracteres etnográficos

daquela população, cujas origens o autor averiguou sobre curiosos

documentos dos povos de Caculo-Cahenda.

M. C.

[16983]
A sublevação dos Dembos de 1913 / David J. G. Magno. - Lisboa : Sociedade de Geografia de Lisboa, 1917 (Lisboa : Typographia Universal, 1917. - 71 p.

Título: Revoltas e Campanhas nos Dembos (1872-1919). 47 Anos de Independência às Portas de Luanda.

Autor: Marracho, António José Machado

Resumo: Em 1872 perante a escassez de meios no terreno, falta de força, falta da autoridade portuguesa, o dembo Caculo Cahenda, revoltou-se. A resposta militar portuguesa foi materializada através do envio de uma coluna comandada pelo Tenente-Coronel Gomes de Almeida. O aparente sucesso militar traz consigo uma paz negociada com a manutenção do Status Quo. Como consequência do fim do conflito, foi assinada uma portaria pelo Ministro dos Negócios da Marinha e Ultramar, na qual foi decretada, a abolição de dízimos dos concelhos, passagens dos rios e dízimos do pescado. No período de 1890 a 1907, os dembos, entraram em conflito com os portugueses três vezes: em Dezembro de 1890, de Janeiro a Março de 1891 e em Fevereiro de 1899. De 1907 a 1919, foram organizadas sete expedições militares: Setembro a Novembro de 1907, de Julho de 1908, de Fevereiro a Março de 1909, de Julho a Setembro de 1913, de Novembro a Dezembro de 1918, de Janeiro a Abril e de Maio a Dezembro de 1919, sem contar com incidentes menores. Os dembos, nunca tiveram o apoio dos seus irmãos do Golungo Alto ou de Ambaca. Abandonados, divididos, caíram em dominó. A impossibilidade de arranjar pólvora, a doença do sono, a abertura de estradas e a cultura do café iriam anular os últimos lutadores pela independência pelo menos até 1961. Na conferência de Berlim de 1884-85, foi decidida a partilha do continente Africano. Alterouse o paradigma de relacionamento entre Europeus e Africanos. Nasceu um direito novo, que validava a efectiva ocupação dos territórios Africanos. Quando Paiva Couceiro assume o Governo da província, decide terminar com a independência dos Dembos. Ordena a constituição da coluna de 1907. A coluna de 1907 fez 39 etapas superiores a 21 quilómetros, sendo a maior de 38, percorrendo enquadrada por graduados cerca de 840 quilómetros. Se adicionarmos as marchas extraordinárias, ela percorreu mais de 1500 quilómetros. Entre 1913 a 1917, a região dos Dembos mantém-se estável. Os poderes locais Africanos decidem o seu destino e toleram a autoridade portuguesa nos seus fortes. Na década de 1920, foi desenhado o mapa de Angola, fruto de uma intensa actividade militar. As campanhas na região dos Dembos enquadram-se neste cenário político-militar com vertentes étnicas e tribais.

Do destaque separativo ou da cisão primordial

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/14/10
o que a verdade do Ser em qualquer forma de existência institui, ou constitui, inalterado permanece na própria alteração
José Marinho

António Quadros no Marão em casa de Teixeira de Pascoaes

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 5/11/10
"Lá fora, vinhedos, abelhas zumbindo, a serra escalvada, o Marão. Um corpo vivo, o corpo da natureza, Marános, toda aquela terra áspera, rugosa e dura latejando em Deus e para Deus, procura lentíssima de um destino. Percebemos então, nesse momento, percebemos quase sensorialmente como o poeta pudera experimentar uma saudade do divino na energia que fazia pulsar as entranhas da terra, que rasgava as fontes, que fazia correr os riachos pelas faldas da serrania, que explodia as sementes e as conduzia à apoteose da árvore, da flor, do fruto. A mesma saudade que nos prendia à terra e às suas raízes, a mesma saudade que nos atraía para um oculto esplendor. [...] Ali sentado, absortos, esquecidos do nosso eu, foi então que erguemos os olhos e o vimos, aquele quadro assinado por um pintor que julgáramos apenas escritor: Raul Brandão. Era o retrato da natureza viva e mágica que o último romântico, Teixeira de Pascoaes, nos quisera ensinar a sua poesia. Natureza mágica, natureza com alma, natureza com espírito, natureza divina. Mas natureza, também, sofredora, carecente, portadora de um pathos... Na sala havia outros quadros do autor do Húmus. Retratos um pouco rudes, porventura imperfeitos sob o estrito ponto de vista plástico, mas muito próximos da intuição pascoalina de uma natureza saudosa, uma natureza teleonómica, em movimento para a sua própria essência através das formas e das cores que compõem a sua existência."

Um duelo entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão

Um duelo entre Antero de Quental e Ramalho Ortigão

via A Matéria do Tempo by Fernando Ribeiro on 5/11/10
Praça 9 de Abril, vulgo Jardim da Arca d'Água, na cidade do Porto. Quando o duelo ocorreu neste local, em 4 de fevereiro de 1866, o jardim ainda não existia (Foto: Nuno Carvalho)

«(...) Em 1865, depois de uma viagem a São Miguel, Antero [de Quental] regressa a Coimbra. Em Setembro desse ano, [António Feliciano de] Castilho escreve ao editor António Maria Pereira uma carta, que será publicada como posfácio do Poema da Mocidade, de Pinheiro Chagas. Nela, o velho poeta discute poemas de Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro, ironizando particularmente sobre as Odes Modernas e sobre dois poemas de Epopeia da Humanidade, de Teófilo Braga. Antero resolve descer à liça e contestar ao seu velho mestre o direito de se arvorar em árbitro das letras nacionais - faz publicar uma carta-aberta a Castilho, Bom-senso e Bom-gosto, onde, exaltadamente, se insurge contra o desdém de Castilho relativamente à nova geração de poetas. E desencadeia-se a que é talvez a mais famosa polémica literária portuguesa, conhecida por Questão Coimbrã ou Questão do Bom Senso e Bom Gosto (...)

No início de 1866, Ramalho Ortigão sai em defesa de Castilho com o folheto A Literatura de Hoje. Acusa Antero de cobardia, pois este invocara como argumentos a velhice e a cegueira do poeta: [Escreve Antero] O caso era cómico e não trágico. Ramalho Ortigão escreveu insolências bastante indignas a meu respeito num folheto a propósito da sempiterna questão Castilho. Eu vim ao Porto para lhe dar porrada. Encontrei, porém, o Camilo [Castelo Branco] o qual me disse que adivinhava o motivo da viagem e que antes das vias de facto, ele iria falar com o homem para ele dar satisfação. Aceitei. A explicação, porém, do dito homem pareceu-me insuficiente e dispunha-me a correr as eventualidades da bofetada quando me veio dizer o Camilo que o homem se louvava em C.J.Vieira e Antero Albano com plenos poderes de decidir a coisa e que fizesse eu o mesmo em dois amigos meus; na certeza de que uns e outros seriam considerados padrinhos de um duelo (!) no caso de se não entenderem a bem... Que can-can!

No duelo, em 4 de Fevereiro, logo no primeiro assalto, Antero fere Ramalho num braço. A luta termina, as honras estão lavadas. Os dois escritores reconciliam-se. Diz Camilo: Em 1866 na belicosa cidade do Porto, defrontaram-se de espada nua dois escritores portugueses de muitas excelências literárias e grande pundonor. Correu algum sangue. Deu-se por entretida a curiosidade pública e satisfeita a honra convencional dos combatentes. Alguns dias volvidos ia eu de passeio na estrada de Braga e levava comigo a honrosa companhia de um cavalheiro que lustra entre os mais grados das províncias do Norte. No sítio da Mãe-de-Água apontei a direcção de um plano encoberto pelos pinhais e disse ao meu companheiro: Foi ali que há dias a «Crítica Portuguesa» esgrimiu com o «Ideal Alemão»! (...)»

Carlos Loures, in Antero de Quental, Vidas Lusófonas

sábado, 15 de maio de 2010

Homilia de Sua Santidade Bento XVI em Lisboa

via Nacional-Cristianismo by NC on 5/12/10

HOMILIA DO SANTO PADRE NA MISSA DO TERREIRO DO PAÇO
LISBOA, 11 DE MAIO DE 2010


Queridos Irmãos e Irmãs, Jovens amigos!

«Ide fazer discípulos de todas as nações, […] ensinai-lhes a cumprir tudo quanto vos mandei. E Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Estas palavras de Cristo ressuscitado revestem-se de um significado particular nesta cidade de Lisboa, donde partiram em grande número gerações e gerações de cristãos – bispos, sacerdotes, consagrados e leigos, homens e mulheres, jovens e menos jovens –, obedecendo ao apelo do Senhor e armados simplesmente com esta certeza que lhes deixou: «Eu estou sempre convosco». Glorioso é o lugar conquistado por Portugal entre as nações pelo serviço prestado à dilatação da fé: nas cinco partes do mundo, há Igrejas locais que tiveram origem na missionação portuguesa.
Nos tempos passados, a vossa saída em demanda de outros povos não impediu nem destruiu os vínculos com o que éreis e acreditáveis, mas, com sabedoria cristã, pudestes transplantar experiências e particularidades abrindo-vos ao contributo dos outros para serdes vós próprios, em aparente debilidade que é força. Hoje, participando na edificação da Comunidade Europeia, levai o contributo da vossa identidade cultural e religiosa. De facto, Jesus Cristo, assim como Se uniu aos discípulos a caminho de Emaús, assim também caminha connosco segundo a sua promessa: «Estou sempre convosco, até ao fim dos tempos». Apesar de ser diferente da dos Apóstolos, temos também nós uma verdadeira e pessoal experiência da presença do Senhor ressuscitado. A distância dos séculos é superada e o Ressuscitado oferece-Se vivo e operante, por nós, no hoje da Igreja e do mundo. Esta é a nossa grande alegria. No rio vivo da Tradição eclesial, Cristo não está a dois mil anos de distância, mas está realmente presente entre nós e dá-nos a Verdade, dá-nos a luz que nos faz viver e encontrar a estrada para o futuro.

Presente na sua Palavra, na assembleia do Povo de Deus com os seus Pastores e, de modo eminente, no sacramento do seu Corpo e do seu Sangue, Jesus está connosco aqui. Saúdo o Senhor Cardeal-Patriarca de Lisboa, a quem agradeço as calorosas palavras que me dirigiu, no início da celebração, em nome da sua comunidade que me acolhe e que abraço nos seus quase dois milhões de filhos e filhas; a todos vós aqui presentes – amados Irmãos no episcopado e no sacerdócio, prezadas mulheres e homens consagrados e leigos comprometidos, queridas famílias e jovens, baptizados e catecúmenos – dirijo a minha saudação fraterna e amiga, que estendo a quantos estão unidos connosco através da rádio e da televisão.
Sentidamente agradeço a presença do Senhor Presidente da República e demais Autoridades, com menção particular do Presidente da Câmara de Lisboa que teve a amabilidade de honrar-me com a entrega das chaves da cidade.
Lisboa amiga, porto e abrigo de tantas esperanças que te confiava quem partia e pretendia quem te visitava, gostava hoje de usar as chaves que me entregas para alicerçar as tuas esperanças humanas na Esperança divina. Na leitura há pouco proclamada da Epístola de São Pedro, ouvimos dizer: «Eu vou pôr em Sião uma pedra angular, escolhida e preciosa. E quem nela acreditar não será confundido». E o Apóstolo explica: «Aproximai-vos do Senhor. Ele é a pedra viva, rejeitada, é certo, pelos homens, mas aos olhos de Deus escolhida e preciosa» (1 Pd 2, 6.4).
Irmãos e irmãs, quem acreditar em Jesus não será confundido: é Palavra de Deus, que não Se engana
nem pode enganar. Palavra confirmada por uma «multidão que ninguém pode contar e provém de todas as nações, tribos, povos e línguas», e que o autor do Apocalipse viu vestida de «túnicas brancas e com palmas na mão» (Ap 7, 9). Nesta multidão incontável, não estão apenas os Santos Veríssimo, Máxima e Júlia, aqui martirizados na perseguição de Diocleciano, ou São Vicente, diácono e mártir, padroeiro principal do Patriarcado; Santo António e São João de Brito que daqui partiram para semear a boa semente de Deus noutras terras e gentes, ou São Nuno de Santa Maria que, há pouco mais de um ano, inscrevi no livro dos Santos. Mas é formada pelos «servos do nosso Deus» de todos os tempos e lugares, em cuja fronte foi traçado o sinal da cruz com «o sinete de marcar do Deus vivo» (Ap 7, 2): o Espírito Santo. Trata-se do rito inicial cumprido sobre cada um de nós no sacramento do Baptismo, pelo qual a Igreja dá à luz os «santos».
Sabemos que não lhe faltam filhos insubmissos e até rebeldes, mas é nos Santos que a Igreja reconhece os seus traços característicos e, precisamente neles, saboreia a sua alegria mais profunda. Irmana-os, a todos, a vontade de encarnar na sua existência o Evangelho, sob o impulso do eterno animador do Povo de Deus que é o Espírito Santo. Fixando os seus Santos, esta Igreja local concluiu justamente que a prioridade pastoral hoje é fazer de cada mulher e homem cristão uma presença irradiante da perspectiva evangélica no meio do mundo, na família, na cultura, na economia, na política. Muitas vezes preocupamo-nos afanosamente com as consequências sociais, culturais e políticas da fé, dando por suposto que a fé existe, o que é cada vez menos realista. Colocou-se uma confiança talvez excessiva nas estruturas e nos programas eclesiais, na distribuição de poderes e funções; mas que acontece se o sal se tornar insípido?
Para isso é preciso voltar a anunciar com vigor e alegria o acontecimento da morte e ressurreição de Cristo, coração do cristianismo, fulcro e sustentáculo da nossa fé, alavanca poderosa das nossas certezas, vento impetuoso que varre qualquer medo e indecisão, qualquer dúvida e cálculo humano. A ressurreição de Cristo assegura-nos que nenhuma força adversa poderá jamais destruir a Igreja. Portanto a nossa fé tem fundamento, mas é preciso que esta fé se torne vida em cada um de nós. Assim há um vasto esforço capilar a fazer para que cada cristão se transforme em testemunha capaz de dar conta a todos e sempre da esperança que o anima (cf. 1 Pd 3, 15): só Cristo pode satisfazer plenamente os anseios profundos de cada coração humano e responder às suas questões mais inquietantes acerca do sofrimento, da injustiça e do mal, sobre a morte e a vida do Além.
Queridos Irmãos e jovens amigos, Cristo está sempre connosco e caminha sempre com a sua Igreja, acompanha-a e guarda-a, como Ele nos disse: «Eu estou sempre convosco, até ao fim dos tempos» (Mt 28, 20). Nunca duvideis da sua presença! Procurai sempre o Senhor Jesus, crescei na amizade com Ele, comungai-O. Aprendei a ouvir e a conhecer a sua palavra e também a reconhecê-Lo nos pobres. Vivei a vossa vida com alegria e entusiasmo, certos da sua presença e da sua amizade gratuita, generosa, fiel até à morte de cruz. Testemunhai a alegria desta sua presença forte e suave a todos, a começar pelos da vossa idade. Dizei-lhes que é belo ser amigo de Jesus e que vale a pena segui-Lo. Com o vosso entusiasmo, mostrai que, entre tantos modos de viver que hoje o mundo parece oferecer-nos – todos aparentemente do mesmo nível –, só seguindo Jesus é que se encontra o verdadeiro sentido da vida e, consequentemente, a alegria verdadeira e duradoura.
Buscai diariamente a protecção de Maria, a Mãe do Senhor e espelho de toda a santidade. Ela, a Toda Santa, ajudar-vos-á a ser fiéis discípulos do seu Filho Jesus Cristo.

Fonte

quinta-feira, 13 de maio de 2010

DINOSSAURO versus DINOSSÁURIO


via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 5/9/10
"Aramosaurus", na Pedreira do Galinha, Fátima
(escultura do Arqº. Martins Barata)
.
SEM SER MEU PROPÓSITO, os dinossáurios entraram na minha vida, tarde, mas em força, potenciados por uma série de acasos ocorridos ao longo dos anos em que assumi a direcção do Museu Nacional de História Natural. As descobertas de importantes jazidas com pegadas de dinossáurios no território nacional e as lutas cívicas em que me envolvi pela sua salvaguarda e valorização foram as causas desta minha relação com os grandes bichos.

A partir dessa altura confrontei-me com duas expressões ou duas grafias para o mesmo tipo de animais, durante muito tempo tidos como seres do passado e hoje renascidos, na medida em que os zoológos e os palentólogos consideram as aves como a sua continuação no tempo presente. Os dinossáurios não desapareceram todos. A sua memória está hoje no nosso quotidiano, nos museus e no cinema, onde atraem multidões; estão na televisão, nos livros de divulgação e na banda desenhada; estão nos peluches e em muitos dos brinquedos; estão na nossa imaginação e, ainda, bem reais, voando no céu, cantando no galho de um jacarandá, correndo pelos campos ou vegetando aos milhões, prisioneiros dos desumanizados aviários da sociedade de consumo.

A utilização do seu nome é hoje, como nunca, uma presença no nosso dia a dia, umas vezes sob a forma dinossáurio, outras sob a forma dinossauro.

Têm razão os filólogos, como José Pedro Machado, no «Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa» ou Cândido de Figueiredo, no «Dicionário da Língua Portuguesa», quando usam a grafia dinossauro, retirando-a do grego deinos (terrível, medonho) e sauros (lagarto, réptil), pois que de filologia quem sabe são os estudiosos da dita. Têm igualmente razão os naturalistas, quando, na taxonomia e na nomenclatura zoológica e paleontológica dizem, e escrevem dinossáurio. Com efeito, quando em 1841, Richard Owen, professor de anatomia comparada e primeiro director do Museu de História Natural de Londres, criou o termo cientifico Dinosauria, pretendeu aludir ao facto de as grandes ossadas, então recém-descobertas, terem características reptilianas, como se de enormes e aterradores lagartos se tratassem e, daí, os elementos gregos de composição erudita, supracitados. Dinossáurio é a grafia usada na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e no Novo Dicionário Compacto da Língua Portuguesa do clássico António de Morais.

Insignes estudiosos na paleontologia destes animais nacionais e estrangeiros (escrevendo em português) usam desde sempre a grafia dinossáurio. Entre eles destacam-se Jacinto Pedro Gomes, em finais do século XIX, Georges Zbyszewski e Carlos Teixeira, a meados do século XX e, pelos seus continuadores. Dinossáurio é ainda a versão utilizada pelos nossos vizinhos espanhóis, tanto pelos cultores da ciência como pelos defensores da língua.

Se existem, como parecem existir, razões linguísticas para preferir o termo dinossauro, não é menos verdade que há regras da nomenclatura científica a respeitar e, então, prevalece o termo dinossáurio.

Entre muitos que dizem e escrevem dinossauro, são certamente muito poucos os que o fazem por razões de erudição filológica. A razão do uso desta versão está, sobretudo relacionada com a forma mais imediata da tradução do inglês ou do francês, em qualquer destas línguas dinosaur.

Além disso, quer escrevendo, quer falando, dinossáurio representa um esforço maior. A grafia que os naturalistas preferem tem mais um i e mais um acento agudo no a. A articulação da palavra exige um esforço maior ao colocarmos um i antes do o final. Não devemos esquecer que os dicionários não têm força de lei, até porque os delitos não constam do código penal, e quem faz a língua é quem a usa.

Atento a estas duas realidades, o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea da Academia das Ciências de Lisboa, editado em 2001, aceita as duas versões. Assim, que cada um diga e escreva como quiser, mas que fique sabendo que o termo defendido pelos filólogos não é mais legítimo do que aquele que usam os naturalistas.
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(In "FORA DE PORTAS - Memórias e Reflexões", Âncora Editora, Lisboa, 2008)

sábado, 8 de maio de 2010

Lá vai o português

Lá vai o português

via Caminhos da Memória by Maria Manuela Cruzeiro on 4/27/10
«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa. Lá vai o português… lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem [...]

quinta-feira, 6 de maio de 2010

António Guerra - 15 de Março de 1961

via ANTÓNIO GUERRA - INFÂNCIA NO QUITEXE by Quimbanze on 4/10/10
Chamo-me António Manuel Pereira Guerra, filho de Abílio Augusto Guerra e de Maria Helena Borges Pereira Guerra, nasci no Quitexe a 20 de Junho de 1950, em casa de Celestino Guerra, e estas são algumas das minhas memórias, na altura do ataque com 10 anos.
Neste pequeno relato, irei contar a minha vivência sobre o 15 de Março de 1961, sem juízo de valores ou ideologias políticas. Sobre isso já se escreveu demais e, com o passar do tempo, infelizmente foram-se perdendo muitas das pessoas que viveram na pele essa data, e poderiam testemunhar a sua vivência trágica.
Este pequeno contributo, não tem de forma nenhuma a pretensão de ser mais um relato dos acontecimentos de 15 de Março de 1961, mas deverá apenas ser entendido como uma pequena participação, para que este blog sobre a nossa terra não caia no esquecimento e possa assim crescer com o contributo de todos os que um dia passaram pelo Quitexe.
No final de 1960, tinha eu 10 anos, já qualquer coisa de anormal se fazia sentir, pois as festas familiares (Natal e passagem de ano) não foram como nos anos anteriores. As reuniões de família decorriam sempre com as armas em presença.
Por relato dos meus pais, o chefe de posto do Quitexe, na altura (Nascimento Rodrigues), procurou no dia 14 de Março de 1961 o meu pai e o sr. Jaime Rei, pedindo-lhes que o acompanhassem no dia seguinte para os lados do Zalala, pois tinham fazenda para aqueles lados e iriam efectuar contactos com os trabalhadores das diversas fazendas dessa região pedindo-lhes que, caso aparecessem elementos estranhos ou suspeitos, os prendessem e mandassem recado ao posto do Quitexe. A minha mãe bem pediu ao meu pai que não fosse, mas de nada lhe valeu (pressentimentos de mulheres).
No dia 15 de Março, o meu pai tinha saído cedo com o administrador, o Sr. Jaime Rei e dois cipaios do posto. No Quitexe estavam a passar férias a minha irmã (que estudava em Luanda no Colégio das Freiras), e em casa do meu tio Augusto, onde também viviam os meus avós (António Inocêncio Pereira e Joaquina Pereira), estavam as minhas primas Milu e Juju, filhas do meu tio Celestino e tia Maria (que na altura estavam em Luanda).
Eu levantei-me cedo, como era hábito, e fui a casa do tio Augusto encontrar-me com a Milu e Juju, para as desafiar para irmos brincar. Como elas ainda estavam a matabichar, esperei por lá um pouco.
A minha mãe encontrava-se em frente da nossa casa, a curta distância da casa do tio Augusto, a podar umas roseiras de um canteiro de flores. A minha irmã ainda dormia.
Contou depois a minha mãe, que quando soaram as badaladas das oito horas, no sino da administração, que era o sinal para os comerciantes abrirem as portas das lojas, se gerou um certo burburinho na rua de cima. Era, afinal, também o sinal para começar o ataque ao Quitexe. Uns dias antes tinham fugido uns presos da prisão do posto e na perseguição que se seguiu, houve bastante algazarra, pelo que a minha mãe não deu importância ao barulho que ouviu, pensando tratar-se outra vez de uma fuga da prisão. Foi nesse instante que um elemento que estava na esquina da nossa casa, empunhou uma catana dirigindo-se a ela de arma no ar com a intenção de a matar. Ela começou a fugir em direcção a casa do seu irmão Augusto, aos gritos de socorro.
Foi nesse instante que nós ouvimos os gritos da minha mãe e nos apercebemos da gravidade da situação. De imediato o tio Augusto agarrou a espingarda .22 long, ordenou-nos que nos escondêssemos e que só poderíamos sair quando ele nos fosse buscar. Desatou a correr em direcção à irmã que, entretanto, já tinha tombado junto ao cruzamento para a rua da Igreja (esta cena marcante, foi vista por nós, da porta de casa do tio Augusto). Os meus avós que também tinham saído em socorro da minha mãe, tombaram também. A minha avó tombou na varanda da casa dos meus pais e já a vi morta quando acabou o ataque. O meu avô foi ferido com uma catanada na nuca, foi connosco para o Uíge, e veio a falecer 5 dias depois no hospital de Luanda.
Algum tempo depois chegou o tio Augusto que nos veio buscar, já com outra arma uma caçadeira, que ele tinha ido buscar à arrecadação do posto, onde estavam algumas armas apreendidas, pois a .22 long tinha encravado ao primeiro disparo (salvou-se graças a uma pequena pistola 6,35 que andava sempre com ele no bolso das calças).
Em frente da minha casa, estavam o Sr. José Coelho Guerreiro e a esposa (D. Felismina), com a filha bebé a Maria Helena, a minha mãe com 11 catanadas (8 nas costas, 2 nos braços e uma no rosto, tendo o nariz ficado preso pelo lábio superior), a minha irmã e o meu avô que foi colocado num colchão na carroçaria da carrinha do Sr. José Guerreiro, e com o tio Augusto de pé na carroçaria a fazer protecção, seguimos para o Uíge. O filho mais velho do sr. José Guerreiro (José Cebola Guerreiro de sete anos), tinha ficado degolado à entrada da loja dos pais na rua de cima. Na cabine da carrinha de apenas 3 lugares, seguia o Sr. José a conduzir (ferido), a esposa (ferida) e filha, a minha mãe, a minha irmã, as minhas duas primas e eu.
Fotografia da minha Mãe Helena Guerra, sendo visível a cicratiz que lhe atravessava o rosto. A catanada fragilizou-lhe, também o osso do maxilar
A minha mãe segurava o nariz, que apenas estava preso pelo lábio superior, com um roupão turco que ficou ensopado em sangue, bem assim como todos nós, pois iam na cabine três pessoas feridas.
A viagem até ao Uíge decorreu sem incidentes e ao chegarmos ao Hospital, já lá estava o Dr. Almeida Santos (Dr. Talambanza como era conhecido) à espera, tendo sido a primeira pessoa a socorrer a minha mãe, aplicando-lhe logo uma injecção à entrada do Hospital.
Quando o meu pai chegou ao Quitexe, já se tinha dado o ataque e já nós tínhamos seguido para o Uíge. Como houve mobilização geral, nenhum homem mais foi autorizado a abandonar o Quitexe. Ficou 15 dias sem saber de nós, e nós sem sabermos dele.
Entretanto, no Uíge, o tio Augusto levou-nos para uma sala no hospital e deixou-me de guarda às espingardas encostadas a um canto da sala, enquanto ele procurava saber dos feridos. Ao hospital chegavam cada vez mais pessoas, quer feridos, quer pessoas que iam saber de amigos e de notícias.
Uma senhora que morava próximo do hospital, levou a minha irmã e as minhas primas para casa dela, onde puderam trocar de roupa que entretanto lhes arranjaram, pois nós saímos do Quitexe só com a roupa que trazíamos vestida. Próximo do meio dia, o tio Augusto levou-me a casa dessa senhora, onde troquei de roupa (as nossas estavam todas cheias de sangue) e almoçámos.
Logo a seguir ao almoço, o tio Augusto foi-nos buscar e levou-nos para o aeroporto do Uíge, onde aguardámos a chegada de um avião (Dakota) da DTA, vindo de Luanda para levar os feridos e ao qual foram retirados alguns bancos para receber as macas. Aguardámos a chegada do avião, sózinhos e sem qualquer protecção militar. Quando o avião aterrou, foram embarcados os feridos do Quitexe e lembro-me de ter visto a D. Felismina, Sr. José Guerreiro e filha, a minha mãe, o meu avô, a Geninha e a prima Beatriz, o Tio Augusto, a minha irmã, e as minhas primas. Mais pessoas embarcaram, pois o avião ia cheio, mas não me recordo de quem eram.
Ao chegarmos a Luanda, não fomos desembarcados para o terminal do aeroporto como seria normal, mas fomos metidos todos em ambulâncias que nos levaram para o hospital Maria Pia, onde ficaram internados os feridos. O tio Augusto, as minhas primas, a minha irmã e eu, podemos juntar-nos ao tio Celestino, que estava em Luanda e tinha seguido as ambulâncias desde o aeroporto e aguardava por nós.
O tio Celestino levou-nos para o hotel Europa, onde ele se encontrava hospedado e fomos mandados subir imediatamente para os quartos, não tendo sido permitido a ninguém falar fosse com quem fosse.
À porta do hotel encontravam-se bastantes pessoas, mas só o meu tio Celestino ficou para trás, e creio ter sido nessa altura que ele falou com o autor do livro Sangue no Capim (Horácio Caio), que faz uma alusão muito rápida sobre as pessoas com que o meu tio estaria preocupado (Tio Jaime e família, família Rocha, etc.). Ao tio Augusto que infelizmente viveu na primeira pessoa o ataque ao Quitexe e que para mim foi o nosso salvador, não foi permitido que falasse com ninguém (não entendemos porquê). Mais tarde, e à medida que se ia falando mais sobre estes acontecimentos, começámos a perceber uma certa manipulação por parte do poder que tentara encobrir os ataques.
Entretanto, uma senhora amiga, esposa de um caixeiro viajante, que aparecia pelo Quitexe e por vezes ficava em nossa casa, viu o nome da minha mãe, num jornal diário na lista dos feridos, foi visitá-la ao hospital e mandou um telegrama para o meu pai, dando-lhe conta que a família se encontrava viva em Luanda.
Na primeira oportunidade que o meu pai teve de pedir uma licença ao exército para ir a Luanda ver a família, fê-lo e nunca mais regressou ao Quitexe.
As nossas casas foram entretanto alugadas ao exército, tendo permanecido assim até ao 25 de Abril.
António Manuel Guerra
comentário:
De A. Jorge Santos a 26 de Março de 2009 às 20:10
Gostaria aqui de cumprimentar o amigo António Guerra, por nos trazer este testemunho por ele vivido, na 1ª pessoa, e que a mim particularmente, me emocionou. É-me dificil imaginar, o que se passará na cabeça de uma criança de 10 anos, perante os acontecimentos que aqui nos relata.
Um abraço tambem ao amigo João Garcia, por juntar neste blogue, todos estes valiosos testemunhos, de conterrâneos nossos.
A. Jorge Santos