quarta-feira, 31 de março de 2010

LISBOA – PARIS no SUD-EXPRESS

via Sopas de Pedra by A. M. Galopim de Carvalho on 3/21/10
A MEIO DE UM ESTÁGIO CIENTÍFICO de três anos, em Paris, mais precisamente no verão de 1963, viemos, eu e a Isabel, gozar um mês de vacances com a família. O regresso à capital dos franceses, fizemo-lo, um mês depois, no Sud-express. Com saída de Santa Apolónia, cerca do meio-dia, chegava à Gare d'Austerlitz pelas dezoito horas do dia seguinte. Aguardavam-nos trinta intermináveis horas de "pouca-terra" e imensos silvos sonoros, durante a noite, ao longo do vasto planalto de Castela-a-Velha e dos profundos vales e escarpados dos Cantábricos.

Pouco comum para a época, o dia começara e ia manter-se chuvoso e ventoso, o que me impedia de cumprir o que tanto gostei desde criança – fazer quilómetros e quilómetros debruçado numa das janelas do corredor, sentir a velocidade e o vento e apreciar a extensão do comboio sempre que as curvas tinham a concavidade do meu lado.

Acomodados num compartimento de primeira classe, em outra companhia que não fossem um adequado farnel e uns livros para matar o tempo, tínhamos a confortar-nos o prazer de regressar ao trabalho que ali desenvolvíamos.

Num outro compartimento da mesma carruagem viajava – soubemo-lo porque ele próprio no-lo fez saber – um agente da Polícia Internacional de Defesa do Estado, mais conhecida pelo acrónimo PIDE. Nesse tempo era regra que o percurso ferroviário entre Lisboa, Vilar Formoso e vice-versa, fosse acompanhado por um funcionário desta odiada instituição que juntamente com a censura constituíam o suporte musculado de um poder ilegítimo que nos asfixiava e amesquinhava aos olhos do mundo esclarecido. Era sua função verificar passaportes e, certamente, proceder a outras acções de vigilância política dos passageiros.

Passados uns minutos da partida, o tempo suficiente para colocar as malas nos incómodos e altos alojamentos destinados ao arrumo da bagagem, o agente da Pide surgiu-nos à porta do compartimento ainda aberto. Depois de um respeitoso Boa tarde, e de mostrar a identificação, pediu-nos os passaportes. O meu era um documento oficial, de capa vermelha, que o distinguia do dos comuns dos passageiros, passado pela mesma polícia que o credenciava, e isso deve-lhe ter dado o ar cordial com que estabeleceu um primeiro e curto diálogo.

-Irei convosco até à fronteira. Até lá tenho de verificar a documentação dos passageiros. Há dias em que quase não tenho tempo de fazer todo o trabalho, tantos são os emigrantes. Amanhã regresso no Sud e faço trabalho semelhante com os que entram. Não se gasta tempo nem nas partidas nem nas chegadas. Estou no compartimento ao lado, se necessitarem de algo, façam favor de dizer – e retirou-se.

Com gabinete improvisado num dos compartimentos da primeira classe, o agente começava por percorrer todo o comboio, recolhendo os passaportes dos viajantes com destino ao estrangeiro. Instalava-se, depois, no seu compartimento e, um a um, verificava todos aqueles documentos, entre os quais não era raro aparecerem algumas contrafacções. Organizações à margem da lei arranjavam passaportes falsos para perseguidos políticos, emigrantes clandestinos ou para as famílias daqueles que já se haviam fixado nos locais onde trabalhavam.

A meio da tarde, estávamos nós no corredor da carruagem, olhando o temporal através dos vidros, o agente aproximou-se, trazendo consigo meio aberto, na mão, um passaporte e, num tom quase familiar comentou.

- Só uma extrema ignorância faz com que alguém pague uma fortuna por uma coisa desta que se vê logo que é falsa. É a capa, é o papel, são as letras. É tudo falso! Acabei de o receber das mãos de uma passageira. Carregada de cestos e sacos e ainda por cima doente, vai, assim, sozinha para França, onde tem o marido e o único filho. E dá-me isto para as mãos, ingenuamente, na ilusão de que tudo está em ordem.

Deu-nos, então, aquele passaporte a ver. De facto, não passava de um caderninho mal acabado, que não deixava dúvidas quanto à sua origem fraudulenta e de péssima qualidade. As únicas verdades ali presentes eram o nome da portadora e a sua fotografia.

- O que é que eu posso fazer com isto? Prendo-a? De prender gostava eu os criminosos sem escrúpulos que roubam estas desgraçadas. Se fecho os olhos e a deixo passar, corre o risco de ser presa na fronteira com a França e ser recambiada sabe Deus em que condições.

- Talvez não – ripostei, na intenção de o encorajar, acrescentando: - De todas as vezes que tenho entrado em França, saindo de Espanha, da Bélgica ou da Alemanha, eles nem olham para o passaporte.

- Pois é – respondeu com ar de manifesta preocupação. - Mas se der para o torto, também eu fico em maus lençóis.

Antes da Guarda começámos a sentir um desacelerar brusco e contínuo da marcha e, por fim, a travagem em pleno campo. Foi uma sorte. Podíamos ter descarrilado. A espera que se seguiu, mais de duas horas, até que o piquete de desobstrução da linha concluísse o trabalho, permitiu que falássemos um pouco mais com o agente. Um fortíssimo silvo atravessou a noite chuvosa. Seguiu-se-lhe o chiar das carruagens no arranque da marcha.

- Ainda tenho montes de papelada para arrumar e passaportes para entregar antes de chagarmos à fronteira – despediu-se, agradecendo a atenção que lhe havíamos dado.

Parados em Vilar Formoso e à janela sobre a gare, vimos o agente sair do comboio acompanhado de uma mulher de pequena estatura, magra, de aspecto cansado, aparentando uns cinquenta e muitos anos. Ele virou-se para nós e, com um jeito de cabeça, indicou-nos ser aquela a passageira do tal passaporte falsificado.

Não mais os vimos. O Sud entrou em Espanha onde o percurso se fez durante a noite. O céu limpara e a noite, de breu, permitia a visão de miríades de estrelas, tantas que, aqui e ali, mais pareciam partículas de uma poeira iluminada. Golpes de vento traziam até nós o matraquear da máquina, ainda a vapor, sobrepondo-se ao "pouca-terra", "pouca-terra" dos rodados da nossa carruagem sobre os carris.

Procurando recuperar o atraso, todo o percurso no planalto de Castela foi feito na máxima velocidade. Em Hendaia o Sud francês não esperaria por nós. Ao romper da manhã, numa curtíssima paragem numa gare perdida na imensidão desértica da paisagem, pudemos saborear os bocadillos de jamon acompanhados de café com leite a escaldar, servidos em grandes copos de vidro. Dois longos apitos do comboio e a voz do revisor, pondo termo a esta que foi a última paragem, retomámos os nossos lugares para vencer a etapa que nos levaria à Europa democrática.

À entrada em Hendaia ninguém se interessou pelos nossos passaportes, confirmando o que eu dissera ao agente. Depois seguiu-se uma viagem mais veloz, menos ruidosa. Reabrimos o farnel e esperámos pacientemente pela chegada a Paris, o que aconteceu à hora e ao minuto previstos, como já então era apanágio dos Caminhos-de-Ferro franceses. Aí, no meio da enorme confusão de gente que descia do comboio, de malas, cestos e sacos à portuguesa, e dos muitos familiares aguardando na gare, vimos a mulher do passaporte falsificado, tralha no chão, sorridente, abraçada aos seus homens.

(In: "Fora de Portas - Memórias e Reflexões", Âncora Editora, 2008)

terça-feira, 30 de março de 2010

própria e individual

via António Quadros by aquadrosferro@gmail.com (António Quadros Ferro) on 3/2/10
"[...] Em última análise penso, muitas vezes, caro Afonso Cautela, que todos nós, há 5000 anos ou nos dias de hoje, no Tibete ou em Lisboa, tivemos e temos em frente de nós o mesmo inevitável apocalipse: o da nossa própria morte individual. E é a nossa única certeza histórica...[...]"

António Quadros, Diário Popular, 24-01-1974

sexta-feira, 26 de março de 2010

The End of Work

via Um Homem das Cidades by Diogo on 3/24/10

Introdução à edição de 2000 do livro «O FIM DO TRABALHO [The End of Work]»

Por Jeremy Rifkin


Durante os cinco anos que passaram desde que publiquei "O Fim do Trabalho", o desemprego estrutural manteve-se perigosamente elevado na Europa e noutros países do mundo, não obstante ganhos tanto na produtividade global como no produto interno bruto. Em 1995, 800 milhões de pessoas estavam desempregadas ou subempregadas. Hoje [2000], mais de mil milhões de pessoas encontram-se numa destas duas categorias.

Paradoxalmente, nos Estados Unidos, falando numa das maiores nações industriais, o desemprego baixou para um recorde de 4%, levantando a questão se o país teria sozinho encontrado a fórmula do sucesso na nova economia. Na realidade, os ganhos de emprego nos Estados Unidos têm menos a ver com razões económicas e mais com uma combinação de remendos a curto prazo que podem dar a aparência de uma economia robusta, mas que escondem uma negra realidade.

Para começar, os Estados Unidos contam os seus trabalhadores desempregados de uma forma muito limitada. Se os benefícios de um trabalhador desempregado acabam e ele ou ela desistem de procurar trabalho, são considerados como trabalhadores "desistentes" e não contam para os números oficiais do desemprego. Pode-se caminhar pelas ruas de qualquer cidade americana e encontrar um grande número de homens e mulheres desempregados. No entanto, poucos deles são considerados "desempregados" pelo ministério do trabalho norte-americano. Em segundo lugar, por incrível que possa parecer, 2% de toda a força de trabalho masculina nos Estados Unidos está actualmente na prisão, de longe a maior percentagem de trabalhadores encarcerados em qualquer país do mundo. Em terceiro lugar, a economia americana trouxe de volta ao trabalho um número recorde de desempregados americanos nos últimos oito anos, criando uma inédita força de trabalho "just in time". Hoje, milhões de trabalhadores americanos são alugados aos empregadores por organizações de trabalho temporário. Milhões deles que outrora tiveram trabalhos a tempo inteiro com os benefícios inerentes, estão agora a trabalhar com contratos a prazo como consultores ou freelancers. Enquanto os níveis de desempregados diminuíram, o número de trabalhadores subempregados aumentou significativamente.

Finalmente, o milagre americano tem, em larga medida, sido comprado a crédito. É impossível compreender a redução dramática do desemprego nos Estados Unidos nos anos mais recentes sem examinar a estreita relação entre a criação de emprego e o crescimento recorde do crédito ao consumo. Este tem vindo a crescer quase há uma década. Companhias de cartões de crédito estão a conceder crédito a níveis sem precedentes. Milhões de consumidores americanos estão a comprar a crédito – e, por isso, milhões de outros americanos regressaram ao trabalho para fabricar os bens e serviços que são comprados.

[...]

A substituição a curto prazo de crédito barato em vez de uma larga redistribuição dos frutos de novos ganhos de produtividade na forma de aumentos de rendimentos e benefícios é um assunto que tem recebido pouca, se alguma, atenção entre os economistas. Até agora, mantém-se o facto de grandes revoluções tecnológicas – como a substituição da máquina a vapor pela electricidade – se espalharem em regra rapidamente, logo que todos os factores críticos estejam presentes. (É bom lembrar que levou várias décadas até o electro-dínamo entrar em operação e obter êxito. Logo que, contudo, todas as condições necessárias se concretizaram, o novo paradigma tecnológico mudou em todas as indústrias em menos de uma década). O problema é que é necessária pelo menos uma geração ou mais até uma nova tecnologia ter começado a operar, para que os movimentos sociais ganhem a devida consistência e força para exigir uma parte justa nos vastos ganhos de produtividade proporcionados pela nova tecnologia. O mesmo fenómeno está a ocorrer hoje. Os ganhos de produtividade trazidos pelas revoluções nas tecnologias de informação e telecomunicações estão finalmente a ser sentidas e, no processo, virtualmente todas as grandes indústrias estão a sentir uma subutilização global da sua capacidade e procura insuficiente pelos consumidores.

[...]

Escondendo os números do desemprego, encarcerando um grande número de trabalhadores masculinos, criando uma força de trabalho "just in time", e aumentando o crédito ao consumo para lubrificar o motor económico, são tudo medidas débeis e temporárias que, no fim de contas, se mostrarão ineficazes a lidar com o desemprego estrutural a longo prazo causado pelo avanço tecnológico e o deslocamento organizacional dos trabalhadores na nova economia. O século XXI será crescentemente caracterizado por uma transição de um emprego de massas para um emprego de elites à medida que mais e mais trabalho na agricultura, indústria e serviços forem executados por tecnologia inteligente. O resultado será que os trabalhadores mais baratos do mundo – desde as linhas de produção da fábrica aos gabinetes profissionais – não serão tão baratos e eficientes como o software inteligente e o wet-ware [software com capacidade lógica humana] que estão aí a chegar para os substituir.

Em meados do século vinte e um, computadores, robotização, biotecnologias e nano-tecnologias serão capazes de produzir bens e serviços baratos e em abundância para a população humana mundial, empregando uma fracção desse trabalho humano mundial no processo. Baseados nas tendências actuais e futuras, na agricultura, na indústria e nos sectores de serviços, no ano 2050, será necessário menos de cinco por cento da população humana do planeta – trabalhando a par de tecnologia inteligente – para produzir todos os bens e serviços necessários à raça humana. Só uma pequena minoria dos CEO (diretores-executivos) com quem falei está convencida que serão necessárias grandes quantidades de trabalho humano para produzir os convencionais bens e serviços daqui a 50 anos. Praticamente todos os outros acreditam que a tecnologia inteligente será a força de trabalho do futuro.

A grande questão será redefinir o papel do ser humano num mundo que não necessitará de quase nenhum trabalho físico e mental humano. Temos ainda de criar uma nova visão social e um novo contrato social suficientemente forte para corresponder ao potencial das novas tecnologias que vão ser introduzidas nas nossas vidas. Até que ponto vamos ser capazes de o fazer, determinará em larga medida se iremos experimentar uma nova renascença ou um período de grande revolta social neste século que agora começou.

O Guerreiro Africano

O historial de guerra de Marcelino da Mata faria corar o Rambo e transformá-lo num menino de côro. Se não acreditas vai aqui ao Terraweb e lê a história mirabolante deste Comando, sem que com isto nos tornemos apologistas de tal filosofia.

http://ultramar.terraweb.biz/Imagens/Guine/TEN%20COR%20Marcelino%20da%20Mata/M_daMata.pdf

segunda-feira, 22 de março de 2010

Benjamim Disraeli - o mundo é governado por personagens muito diferentes daq...

via Um Homem das Cidades by Diogo on 3/17/10
O antigo Primeiro-Ministro Britânico, o Judeu Benjamim Disraeli

Lord Beaconsfield, aliás Benjamim Disraeli
(1804 – 1881)
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Eça de Queirós – Cartas de Inglaterra (1881)

"A esta causa de popularidade [de Benjamim Disraeli] deve juntar-se outra – a reclame. Nunca, um estadista teve uma reclame igual, tão contínua, em tão vastas proporções, tão hábil. Os maiores jornais de Inglaterra, de Alemanha, de Áustria, mesmo de França, estão (ninguém o ignora) nas mãos dos israelitas. Ora, o mundo judaico nunca cessou de considerar Lord Beaconsfield como um judeu - apesar das gotas de água cristã que lhe tinham molhado a cabeça. Este incidente insignificante nunca impediu Lord Beaconsfield de celebrar nas suas obras, de impor pela sua personalidade a superioridade da raça judaica - e por outro lado nunca obstou a que o judaísmo europeu lhe prestasse absolutamente o tremendo apoio do seu ouro, da sua intriga e da sua publicidade. Em novo, é o dinheiro judeu que lhe paga as suas dívidas; depois é a influência judaica que lhe dá a sua primeira cadeira no Parlamento; é a ascendência judaica que consagra o êxito do seu primeiro Ministério; é enfim a imprensa nas mãos dos judeus, é o telégrafo nas mãos dos judeus, que constantemente o celebraram, o glorificaram como estadista, como orador, como escritor, como herói, como génio!"

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Henry Ford (1863 – 1947) foi o americano fundador da Ford Motor Campany e pai das modernas linhas de montagem e da produção em massa. O seu automóvel, Modelo T, revolucionou o transporte e a indústria americana. Ford foi um inventor prolífico e registou 161 patentes. Na qualidade de dono da Companhia Ford tornou-se um dos homens mais ricos e mais conhecidos do mundo.

Em 1918, Ford comprou um pouco conhecido semanário: «The Dearborn Independent». No princípio dos anos 20 este semanário publicou um conjunto de quatro volumes de artigos, cumulativamente intitulados «The International Jew» [O Judeu Internacional].

Segue-se um excerto do 37º artigo "Disraeli – O Primeiro-Ministro Britânico retrata os Judeus" do Jornal "The Dearborn Independent" de 18 de Dezembro de 1920:

[Tradução minha]

The International Jew

Disraeli - British Premier, Portrays the Jews
Disraeli – O Primeiro-Ministro Britânico retrata os Judeus

[...] Benjamin Disraeli, que foi conde de Beaconsfield e primeiro-ministro da Grã-Bretanha, era um judeu e tinha orgulho nisso. Escreveu muitos livros, nalguns dos quais dissertou acerca do seu povo numa tentativa de o apresentar sob uma perspectiva lisonjeira. O governo britânico não era na altura tão judeu como se tornou depois, e Disraeli foi uma das suas maiores figuras.

No seu livro, "Coningsby," há um personagem judeu chamado Sidonia, em cuja personalidade e através das suas palavras, Disraeli procurou descrever os judeus tal como ele gostaria que o mundo os visse.

Sidonia anuncia primeiro a sua raça ao jovem Coningsby dizendo, "Eu pertenço à fé que os apóstolos professavam antes de seguirem o seu Senhor," sendo esta a única vez em todo o livro onde a palavra "fé" é mencionada. Por quatro vezes, contudo, no breve prefácio da quinta edição, escrita em 1849, o termo "raça" é usado em referência aos judeus.

Na primeira conversa entre ambos, Sidonia revela-se como um grande amante do poder e fala agradavelmente dos homens poderosos da história, terminando desta maneira: "Aquaviva era líder dos jesuítas, mandava em cada ministério da Europa e colonizou a América antes de fazer trinta e sete anos. Que carreira!" exclamou o estrangeiro (Sidonia), levantando-se da sua cadeira e andando para trás e para diante na sala; "o poder secreto da Europa!"

O líder dos jesuítas - Rodolf Acquaviva

Fazendo um estudo do carácter do judeu Sidonia, o judeu Disraeli começa por se referir aos judeus como "Árabes que seguem a doutrina de Moisés." Se um escritor moderno fosse descrever os judeus desta forma, virtualmente como árabes seguidores de Moisés, seria denunciado como mais uma tentativa de "perseguição," mas Disraeli fê-lo diversas vezes, sendo o seu objectivo fornecer aos judeus o seu posicionamento original entre as nações. Ele refere-se novamente a eles como "Judeus Árabes." Ambos os termos podem ser encontrados na página 209.

Disraeli dá igualmente voz ao sentimento de que cada judeu tem de que quem quer que se oponha ao judeu está amaldiçoado. Este é um sentimento que também está profundamente entranhado nos cristãos, de que os judeus são o "povo escolhido" e que é perigoso opor-se-lhes no que quer que seja. "O medo dos judeus" é um sentimento muito real. É tão real entre os judeus como entre os não-judeus. O próprio judeu está ligado pelo medo ao seu povo, e exerce o medo da maldição através da esfera religiosa – "Eu amaldiçoarei os que te amaldiçoarem." Resta provar, contudo, se a oposição às tendências destrutivas das influências judaicas ao longo da vida é uma "maldição" dos judeus. Se os judeus fossem realmente o povo de Velho Testamento, se eles estivessem realmente cientes de uma "missão" para benefício de todas as nações, tudo aquilo que os ofende desapareceria automaticamente. Se o judeu está a ser "atacado," não é por ser judeu, mas porque é a origem e a aplicação de certas tendências e influências, as quais, se não forem controladas, significam a destruição de uma sociedade moral.

A perseguição ao judeu a que Disraeli se refere é a da Inquisição Espanhola, que se ficou por motivos religiosos. Investigando a família Sidonia através de um período conturbado da história europeia, o nosso autor judeu salienta:

"Durante os distúrbios da Guerra Peninsular *** o filho mais novo do ramo mais jovem desta família granjeou uma enorme fortuna com contratos militares e abastecendo os diferentes exércitos." (p. 212.) Certamente. É uma verdade inatacável, aplicável a qualquer período da Era Cristã, que "perseguidos" ou não, "as guerras têm sido o tempo das colheitas dos judeus." Foram os primeiros fornecedores militares. Se este jovem Sidonia ao fornecer "os diferentes exércitos" foi ao ponto de fornecer exércitos opostos, estaria simplesmente a seguir o método judeu tal como a história o regista.

"E na paz, presciente do grande futuro financeiro da Europa, confiante no seu próprio génio, nas suas perspectivas originais dos assuntos fiscais, e do seu conhecimento dos recursos naturais, este Sidonia *** resolveu emigrar para Inglaterra, país com o qual, ao longo dos anos, formou consideráveis parcerias comerciais. Ele chegou aqui depois da paz de Paris, com a sua grande fortuna. Apostou tudo o que pode no empréstimo de Waterloo; e este evento [a derrota de Napoleão] tornou-o num dos maiores capitalistas da Europa."

A Batalha de Waterloo

"Logo que se estabeleceu em Inglaterra começou a professar o judaísmo ***"

"Sidonia previu em Espanha que, depois da exaustão de uma guerra de vinte e cinco anos, a Europa precisava de capital para continuar em paz. Obteve a devida recompensa da sua sagacidade. A Europa precisava de dinheiro e Sidonia estava pronto para o emprestar à Europa. A França queria algum; a Áustria ainda mais; a Prússia um pouco; a Rússia alguns milhões. Sidonia podia abastecê-los a todos. O único país que ele evitou foi a Espanha ***" (p. 213.)

Aqui, [Disraeli] o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, da riqueza das suas tradições como judeu e do alto da seu posto como primeiro-ministro, descreve o método do judeu na paz e na guerra, exactamente como outros o tentaram descrever. Apresentou o mesmo conjunto de factos como outros o fizeram, mas ele fá-lo aparentemente para a glorificação dos judeus, enquanto outros o fazem para permitir às pessoas ver o que se passa nos bastidores da guerra e da paz. Sidonia estava pronto a emprestar dinheiro às nações. Mas onde é que ele o ia buscar, de forma a emprestá-lo? Foi buscá-lo às nações quando estas estavam ainda em guerra! Era o mesmo dinheiro; os financiadores da guerra e os financiadores da paz são os mesmos, e são os Judeus Internacionais, como o livro de Benjamin Disraeli para a glorificação dos judeus testemunha abundantemente. De facto, ele atesta na mesma página:

"Não é difícil conceber que, depois de ter seguido a careira que anunciámos durante dez anos, Sidonia se tenha tornado num dos maiores personagens da Europa. Colocou um irmão, ou um parente próximo, em quem confiasse, na maior parte das capitais. Era dono e senhor do mercado financeiro do mundo, e claro, virtualmente dono e senhor de quase tudo o resto."

Isto é o mais próximo possível de se ser o Judeu Internacional, mas os judeus orgulham-se da imagem. É apenas quando um escritor não-judeu sugere que talvez não seja bom para a sociedade que um grupo judaico seja "dono e senhor do mercado financeiro do mundo," e por consequência "dono e senhor de quase tudo o resto," que o clamor de "perseguição" assoma.

Estranhamente, é neste livro do primeiro-ministro britânico que vimos a ter conhecimento do facto de que os judeus infiltraram a ordem dos Jesuítas.

"O jovem Sidonia teve sorte com o tutor que o pai lhe arranjou, e que lhe devotou todos os recursos do seu desenvolvido intelecto e da sua vasta erudição. Um jesuíta antes da revolução; desde então um líder liberal; agora um membro das cortes espanholas; Rebello foi sempre um judeu. Rebello encontrou no seu aluno essa precocidade de desenvolvimento intelectual que é característico da organização árabe." (p. 214.)

Seguiu-se na carreira do jovem Sidonia uma aprendizagem intelectual do mundo. Viajou por todo o lado, ouviu os segredos de tudo, e regressou com o mundo no bolso, como se costuma dizer – um homem sem ilusões de qualquer espécie.

"Não havia um aventureiro na Europa que não lhe fosse familiar. Nenhum ministro de estado tinha tais comunicações com agentes secretos e espiões políticos como Sidonia. Mantinha relações com os mais espertos párias do mundo. O catálogo dos seus conhecidos na forma de gregos, arménios, mouros, judeus secretos, tártaros, ciganos, polacos vagabundos e carbonários, lançaria uma luz curiosa sobre essas agências subterrâneas das quais o mundo em geral sabe tão pouco, mas que exercem uma tão grande influência nos acontecimentos públicos *** A história secreta do mundo era o seu passatempo. O seu maior prazer era contrastar o motivo oculto com o pretexto público, das transacções." (pp. 218-219.)

Aqui está o Judeu Internacional, vestido a rigor; é também o homem dos Protocolos, coberto em mistério, um homem cujos dedos abarcavam todas as cordas das motivações humanas e que controla o senhor das forças brutais – o Dinheiro. Se um não-judeu descrevesse um Sidonia, mostrando tão honestamente a história racial e as características dos judeus, teria sido sujeito à pressão que os judeus aplicam a todos os que dizem a verdade sobre eles. Mas Disraeli podia fazê-lo, e perguntamo-nos às vezes se Disraeli não estava, no fim de contas, a escrever mais do que um romance, a enviar um aviso a todos os que sabem ler.

O trecho acima não é apenas a descrição de Sidonia; é também uma descrição de certos judeus americanos que, não obstante a elevada cultura que possuem, enquanto se mexem nos círculos mais elevados, mantêm negócios com "aventureiros" e com "os agentes secretos e espiões políticos," e com os "judeus secretos," e com essas "agências subterrâneas das quais o mundo em geral sabe tão pouco."

Esta é a força do judaísmo, este tráfico entre o superior e o inferior, porque o judeu não reconhece nada de infame dentro do círculo do judaísmo. Nenhum judeu se torna um pária, seja o que for que faça; um lugar e um trabalho esperam-no, qualquer que seja a sua natureza.

Há pessoas altamente situadas em Nova Iorque que prefeririam que não se soubesse que contribuíram para o "aventureiro" que deixou Nova Iorque para subverter a Rússia; existem outros judeus que prefeririam que não tivesse saído nos jornais o quanto eles sabem sobre "agentes secretos e espiões políticos." Disraeli fez mais do que descrever Sidonia; ele retratou o Judeu Internacional tal com ele é também encontrado na América.

Até aqui, Sidonia é descrito a partir de fora. Mas agora começa a falar por ele mesmo, e é em seu nome e enaltece os judeus. É a velha história. Em qualquer lugar, mesmo nos Estados Unidos, a mesma história. Clamando por piedade enquanto usurpam o poder! "Nós pobres judeus" choraminga um multi-milionário nova-iorquino a cujas mãos os legisladores se curvam e até o presidente dos Estados Unidos se torna respeitoso.

Leon Trótski
O "aventureiro" que deixou Nova Iorque para subverter a Rússia

A citação seguinte foi escrita em 1844: os bretões devem estar impressionados hoje com o misterioso concorrente aos seus negócios: é Sidonia a falar – " *** contudo, desde que a vossa sociedade se tornou turbulenta em Inglaterra e poderosas organizações ameaçam as vossas instituições, vão descobrir que o leal hebreu prefere invariavelmente adoptar o mesmo status do igualitário e do livre pensador, preparado para apoiar uma política que pode colocar em perigo a sua vida e os seus bens, do que continuar docilmente sob um sistema que pretende humilhá-lo."

Considerem o seguinte. O "Latitudinarianismo" [doutrina que promove a liberdade de pensamento] é a doutrina dos Protocolos numa palavra. É a desintegração por meio das assim chamadas ideias "liberais" que não constroem nada em si mesmas, mas têm o poder de destruir a ordem estabelecida.

Repare-se também na resposta de Disraeli à questão algumas vezes colocada, "se os judeus sofrem sob o bolchevismo, porque é que o apoiam?" Ou em termos judaicos – "Se somos tão poderosos, porque é que sofremos com a desordem do mundo?" A desordem é sempre um passo para um novo grau de poder judaico. Os judeus sofrem de bom grado por isso. Mas mesmo assim, não sofrem tanto como os não-judeus. Os soviéticos permitem que a ajuda chegue aos judeus que vivem na Rússia. Na Polónia, os que "sofrem com a fome devido à guerra" podem regalar-se em todos os navios disponíveis ao comprarem os bilhetes mais caros para a América. Não estão a sofrer como outras pessoas estão, mas tal como Disraeli vê as coisas, estão dispostos a sofrer porque percebem em cada colapso da sociedade não judia uma nova oportunidade para o poder judeu se aproximar da cadeira central do poder.

A forma como os judeus destroem a ordem estabelecida das coisas, por intermédio das ideias, como os Protocolos reivindicam, é apresentada na mesma conversa de Sidonia:

"Os Tories [partido conservador inglês] perdem uma eleição importante num momento crítico; os judeus avançam e votam contra eles. A igreja está alarmada com os planos de uma universidade Latitudinária, e, aliviada, recebe a notícia de que não haverá fundos para o seu estabelecimento; um judeu avança imediatamente com o dinheiro para isso."

Se estas palavras tivessem sido escritas por um não-judeu, o clamor de anti-semitismo ecoaria sobre a terra.

Elas são verdadeiras, nem mais nem menos verdadeiras apenas por terem sido escritas por um judeu. E Sidonia acrescenta: "E cada geração deve tornar-se mais poderosa e mais perigosa para a sociedade que a hostiliza." (p. 249.)

Bom, várias gerações passaram desde que estas palavras foram escritas. O judeu ainda olha para qualquer forma de sociedade não judia como hostil. Ele organiza-se fortemente contra a sociedade. E, se Disraeli for tomado como um profeta, as suas palavras manter-se-ão – "os judeus devem tornar-se mais poderosos e mais perigosos." Eles tornaram-se mais poderosos e mais perigosos. Quem quer que meça o perigo, olhe à sua volta.

Deixemos o fascinante Sidonia prosseguir com as suas revelações: "Eu disse-lhe já que iria para a cidade amanhã, porque tenho por regra interferir quando os assuntos de estado estão em discussão. De outro modo, nunca interferiria. Ouço falar de paz e de guerra nos jornais, mas nunca fico alarmado, excepto quando sou informado de que os soberanos querem dinheiro; nessa altura sei que os monarcas estão a falar a sério."

Será lembrado que Sidonia não tinha nenhum cargo governamental. Ainda não tinha chegado a altura para isso. O Poder era exercido nos bastidores muito antes do desejo pela celebridade ser apreciado. Mas se há judeus no governo ou não, o poder que exercem nos bastidores é sempre maior que o poder mostrado às claras. Portanto, quanto mais numerosos forem no governo, maior o seu poder secreto. Sidonia continua:

"Há alguns anos atrás dedicámo-nos à Rússia. Não existia amizade entre a Corte de São Petersburgo e a minha família. Esta tem ligações holandesas que geralmente a supriam; e as nossas representações a favor do hebreu polaco, uma raça numerosa, mas a mais sofrida e desprezada de todas as tribos, não tinham sido agradáveis ao czar. Contudo, as circunstâncias permitiram uma aproximação entre os Romanoff e os Sidónias. Decidi ir eu mesmo a São Petersburgo. Tinha, à minha chegada, uma entrevista com o ministro russo das finanças, o conde Cancrin; deparei-me com o filho de um judeu lituano."

"O empréstimo estava ligado com os assuntos de Espanha; decidi resolver a questão entre a Espanha e a Rússia. Viajei sem descanso. Tive uma audiência imediatamente a seguir à minha chegada com o ministro espanhol, Senor Mendizabel; deparei-me com um dos meus, o filho de um cristão-novo, um judeu de Aragão."

"Em consequência do que veio a público em Madrid, vim directo para Paris para consultar o presidente do conselho francês; deparei-me com o filho de um judeu francês, um herói, um marechal imperial ***"

Se Sidonia estivesse a viajar hoje, encontraria grupos completos de judeus onde nos seus tempos encontraria um, e encontrá-los-ia em lugares de relevo. Suponham que Disraeli era hoje vivo e que este senhor do dinheiro fizesse uma revisão do seu livro "Coningsby," incluindo os Estados Unidos na sua volta pelo mundo! Que grande quantidade de nomes judeus ele encontraria nos círculos oficiais de Washington e Nova Iorque – uma tal quantidade que faria o ocasional não-judeu parecer um estrangeiro a quem que os judeus permitiram simpaticamente entrar!

"O resultado das nossas consultas foi que alguma potência do norte interviesse amigavelmente e com capacidade de mediação. Fixámo-nos na Prússia; e o presidente do conselho fez um pedido ao ministro prussiano, que esteve presente uns dias depois da nossa conferência. O conde Arnim entrou no gabinete e eu deparei-me com um judeu prussiano."

O comentário de Sidonia sobre tudo isto é dirigido a todo o leitor deste artigo: "Portanto, como vê, meu caro Coningsby, o mundo é governado por personagens muito diferentes daquelas que são imaginadas por aqueles que não estão atrás dos bastidores." (pp. 251-252.)

É bem verdade! Porque não deixar o mundo dar uma pequena espreitadela aos bastidores?

E agora as mais ilustrativas linhas que Disraeli jamais escreveu – linhas que quase nos levam a pensar que talvez, no fim de contas, ele estava a escrever para avisar o mundo da ambição judaica pelo poder:

"Você não observará nenhum grande movimento intelectual na Europa no qual os judeus não participam significativamente. Os primeiros jesuítas eram judeus. Essa misteriosa diplomacia russa que tanto alarma a Europa Ocidental é organizada e principalmente levada a cabo por judeus. Essa poderosa revolução que se está a preparar neste momento na Alemanha, e que será de facto uma segunda grande Reforma, de que tão pouco ainda se sabe em Inglaterra, é totalmente desenvolvida sob os auspícios de judeus." (p. 250.)

Os judeus americanos dizem que os Protocolos são invenções. Será Benjamin Disraeli uma invenção? Terá este primeiro-ministro judeu da Grã-Bretanha apresentado de forma inapropriada o seu povo? Não são as suas descrições consideradas uma história verdadeira? E que diz ele?

Disraeli mostra que na Rússia, o país onde os judeus se queixavam de ser menos livres, eram os judeus que mandavam.

Ele mostra que os judeus conhecem a técnica da revolução, prognosticando no seu livro a revolução que mais tarde estalou na Alemanha. Como é que ele pôde ter conhecimento prévio? Porque a revolução estava a desenvolver-se sob os auspícios dos judeus, e, embora fosse verdade que "tão pouco ainda se sabe em Inglaterra," Disraeli, o judeu, sabia, e sabia que a revolução era judaica na origem, no desenvolvimento e no objectivo.


Uma coisa é certa: Disraeli disse a verdade. Apresentou o seu povo perante o mundo correctamente. Descreveu o poder judaico, o objectivo judaico, e o método judaico com um certo estilo que simboliza mais do que conhecimento - mostra empatia racial e compreensão. Disraeli expôs os factos que esta série está a expor. Porque é que o fez? Seria arrogância, esse estado de alma perigoso no qual o judeu prescinde dos seus segredos? Ou era a consciência, impelindo-o a contar ao mundo os desígnios judaicos?

Não importa; ele contou a verdade. Disraeli é um homem que disse a verdade sem ser acusado de "retratar injustamente" os judeus.

domingo, 21 de março de 2010

Mocamedenses na Ponta de Pau do Sul ou Noronha: um miradouro sobre a cidade...

via GENTE DO MEU TEMPO (Album de recordações) by MariaNJardim on 3/20/10







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«Fica a bahia de Mossamedes (nome que lhe foi posto em 1785 pelo tenente-coronel de engenheiros L. C. C. P. Furtado, quando foi estudar toda essa costa), antiga Angra do Negro, e em lingua do gentio Mussungo Bittoto, entre as pontas do Girahúlo, (cabo Euspa) e a Grossa ou do Noronha.
[AIA640.jpg]
[Praia+no+Namibe.JPG]
«Estende-se a ponta do Girahúlo, que e rasa, pouco saida e muito cortada a pique, em 15° 11' 30'' S. (1). e 21° 12' 30" E. Muito perto dessa ponta, e em linha que vae d'ella á fortaleza, se pruma em 30m,5, e se encontram depois, successivamente, 24, 82, 92, 99, 55, 238 e 293 metros.


«Segue d'alli a heira-mar, toda pedrada e negra, obra de 3 milhas para SE 4 1/4 S. até á ponta Redonda, a qual tira o nome do feitio que tem, e é tão alta e tão ingreme, que se acham 36 metros, fundo de pedra, nas suas visinhanças; cresce muito rapidamente o fundo para 84 SE. d'essa ponta, e tanto que se pruma em 261 metros a milha d'ella; mais para S., n'esse mesmo alinhamento, se acham 20 c 14 metros perto da costa meridional.

«Pouco para E. da ponta Redonda se abre o Saco do Girahúlo, enseada com praia de areia, e depois se vae arqueando a babia para S., e formando um reconcavo, todo guarnecido tambem de praia de areia, até á ponta Negra. Sobre esta, que é alta, pedregosa e escura, se levanta a fortaleza de S. Fernando, começada a construir em 1840, e que póde montar 8 peças.
[0021.bmp]

«Vae arenosa e de meã altura toda a costa desde a ponta Negra, e se encurva para formar o Saco do S., enseada que termina pela banda de 0. na ponta Grossa ou do Noronha. No recanto do Saco, onde começa a terra de subir, se levanta a chamada Torre do Tomho, morro argilloso, macio e talhado a pique para a banda do mar, onde se lêem os nomes de vários navios que tem aportado a Mossamedes, e os de muitas pessoas que visitaram aquelle sitio 2.
[mossamedesMOSSAMEDES.jpgEng+ntunes+Cunha+Lay.jpg]

«Segue-se a ponta do Noronha, que é alta, pedregosa, cortada a prumo, amarellada e sita a 2 milhas e tres decimos da ponta Grossa; sobre ella, e em 15° 13' 30", torreia uma guarita com o seu pau de bandeira.














«Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, e forma uma enseada, que termina da banda do S. na ponta da Annunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e so a custo se percebe do mar. Fica esta em 15° 16'.














«Milha e seis decimos para O1/2 NO. da ponta de Noronha fica o extremo septentrional do baixo da Amelia (nome que lhe foi posto por ter naufragado alli, em 1842, a escuna de guerra portugueza Amelia), muito perigoso por quebrar so de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns tres metros de agua, e 0m,9 em alguns sitios, É todo de rocha e argila, tem na falda Occidental 2m,2, 3m,5, 4m,5 de agua, e 7m,9 e 11 na septentrional; perto d'elle e da banda do O. se encontram 22 metros e mais, e separa-o do continente um canal por onde so devem navegar lanchas. Ha, porém, quem aflirme ter visto navios de guerra inglezes passar por entre o baixo e a praia da Amelia, que lhe fica fronteira: julgámol-o, porém, muito arriscado, assim por poder acalmar alli o vento e encostarem as aguas para cima do baixo, como por haver sempre seu rolo de mar.
http://2.bp.blogspot.com/_QN04x6AzKRw/SH4NX-Ta5vI/AAAAAAAAI1k/CbMhzIb5Txo/s400/Calemas%2BMo%C3%A7%C3%A2medes.jpg

Dilata-se o baixo da Amelia por entre 15° 14' e 15° 18' S., e vae até a umas tres milhas da costa.
«Afoitamente se póde navegar por aquellas paragens, em quanto estiver a ponta Negra descoberta da do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito decimos de milha para N. d'elle.
[Canjeque+e+P+Amelia.jpg]
«Indo do S. em demanda do ancoradoiro de Mossamedes, monte-se a ponta da Annunciação á distancia de 3 milhas e meia, e siga-se para N., sem chegar á terra, até descobrir a ponta Negra; deite-se depois para esta, ou um tanto para N. d'ella, a fim de ir pelos 24 metros de fundo nas visinhanças da do Noronha, e não por menos, porque póde acalmar o vento á sombra da ponta.
«Indo do N. deve-se dar resguardo á ponta do Girahúlo, por encostarem muito para lá as aguas e não se poder fundear.
















Ha quatro ancoradoiros na bahia de Mossamedes: o dos navios de guerra e navios em franquia, em 26 metros, no alinhamento das pontas Grossa e do Noronha, a egual distancia das duas, e a meia milha da terra mais proxima: é bom sitio para velejar, pois se póde sair de bordada. Diminue muito gradualmente a fundura desde esse surgidoiro até a uns dois decimos de milha da terra, onde se encontram 5m,4.
«Embarcacões que tencionem demorar-se muito podem fundear a quarto de milha da praia, pouco para N. da Torre do Tomho, e.em 9 metros ou 6m,4.
«Acha-se terceiro ancoradoiro, bom para os navios mercantes que tiverem de carregar ou descarregar, em 16 ou 18 metros perto da praia onde se levanta a povoacão.
«Ha, finalmente, o fundeadouro das embarcações de pesca, e outras de pequeno lote, quasi no rolo da praia fronteira á villa.
«No recanto NE. despeja, em tempo de chuvas, o rio Béro ou das Mortes, cujo leito atravessa o sitio das Hortas. Correm com tal velocidade as aguas d'este rio, em algumas occasiões de grande cheia, que se levam para cima de 8 milhas por hora. Do extremo da margem esquerda do rio Bero parte para NO. um baixo com perto de milha de comprido. Tem o rio agua de beber, e sem custo a deixa tomar, quando calema: será, porém, necessario ir recehel-a de manhã cedo, antes de calar a viração, porque mais tarde açoita o mar aquellas paragens e é custoso de voltar ao surgidoiro: devem as embarcações que a empregarem na faina da aguada fundear perto da foz do Béro e da banda do N E. da restinga. Acha-se tambem optima agua abrindo cacimbas no terreno das Hortas.
«Nas alturas de Mossamedes se erguem as banquetas chamadas Mesas dos Cavalleiros ou dos Carpinteiros, parecidas com outras que se prolongam desde o parallelo de 14° 30' para S., mas distinctas por serem tres e eguaes. São boas marcas para navio que estiver amarrado.
«Por sobre a terra alta visinha da fortaleza, e pelo areial para E. da ponta Negra, se avista a villa de Mossamedes. Ja no areial é que fica a maior parte das casas, bem alinhadas, quasi todas de um andar so e em ruas espaçosas. Entre a fortaleza e a Torre do Tombo estão a egreja, um hospital militar, pequeno mas aceiado, e outros edificios.

«Rapido ha sido o desenvolvimento da villa, o que em grande parte se deve attribuir á bondade do clima, muito parecido com os mais sadios da Europa. Sente-se alli frio, anuvia-se o tempo e são humidas as noites em julho e agosto, mezes em que a altura média barometrica anda por 76O a 765 millimetros. De annos a annos desaba alli fortissimo terral de E., que traz grande copia de po muito incommodo e produz graves doenças.
«Nas suas visinhanças, e especialmente para o lado do NE., se levantam muitas libatas de negros, quasi todas mucubaes, cultivando especialmente o milho, e possuindo grandes manadas de gado vaccum.
«Ha bom desemhocadoiro no areial fronteiro á povoacão baixa, e ao abrigo da ponta Negra: deve-se, porém, fugir de uma lagoa que fica ao lume d'agua e pela parte de dentro d'aquella ponta.»
Brito Aranha.
Archivo pittoresco, Volume 10 ,0g 134

Fotos a preto e branco
Para alem de fotos dos primordios da colonizaçao aqui colocadas (4. foto), encontram-se algumas datadas de 1954, que nos mostram uma vista da cidade de Moçâmedes da Ponto do Noronha ou Ponta do Pau do Sul , que era linda, embora a foto por ser antiga e a preto e branco não o mostre, mas e possivel ver pela fotos actual a cores. Nós somos: Betinha Bagarrão, Nídia Almeida (eu) Gracietinha Bagarrão e Amilcar Almeida. Numa dessas fotos a Gracietinha aponta para um navio que estava aproximando-se da baia, na sua passagem junto do perigoso "banco" da Praia |Amelia. Noutra, observamos o mar de Moçâmedes e a Praia Amélia, a partir da falésia do Canjeque, a 4km da cidade. Recordo como estava ali sentada entre duas amiguinhas de infância, extasiada a olhar a bela «Princesa do Namibe», implantada entre o deserto e o mar... O mar azul de Moçâmedes entrou-me nas profundezas da alma, a tal ponto que ainda hoje, passados que foram 32 longos anos, é a olhar o mar que me sinto bem . O local é um autêntico miradouro para a cidade!

Uma curiosidade. Ja ninguém desconhecia que Moçâmedes estava destinada a ser o local de desenvolvimento futuro da industria pesada de Angola . O que eu desconhecia, e que só tive conhecimento ja nas vésperas de Abril de 1974 quando uma Companhia sul-africana interessada em montar uma dessas industrias no cimo do plateau da falésia da Torre do Tombo que termina na Ponta do Pau do Sul ou Noronha, foi aprofundar os registos de propriedade do privilegiado local, onde, entretanto, a Associação de Pesca, chegara a montar, inclusive, um Armazém, e que toda aquela extensão de terreno tinha sido comprada em tempos muito atrás pelo meu avo, João Nunes de Almeida. Que conclua quem quizer sobre o espirito desinteressado, ou melhor, pouco materalista, da nossa familia...

Fica mais esta recordacao.

NAMIBE

Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.

E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola 1968
Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»

domingo, 14 de março de 2010

PERDIDOS...

PERDIDOS...

via Caçadores 3441 by Pedro Cabrita on 3/13/10
N´riquinha, 1 de Abril de 1972.
Sábado da Ressurreição, um dia como qualquer outro, perdida que estava já a noção da diferença dos dias, ou o sentido da invocação de alguns deles, quando era a guerra e o isolamento escaldante das Terras do Fim do Mundo que nos marcavam as horas, os dias e os meses por riscar no calendário já meio sebento pregado na parede.
Meio-dia.
Vindo dos lados da Zâmbia, o ruído longínquo de um avião tipo Cessna quebrou por momentos a monotonia daquela manhã, obrigando a um breve esforço de localização e identificação de aproximação, ou não, da aeronave. As visitas eram raras e sempre pelo ar. Mas a expectativa do aparecimento de um qualquer comandante do Batalhão, Zona Militar, ou de Sector em pouso surpresa em "teatros de guerra", que averbasse mais um "acto de bravura" ao cadastro de um eventual candidato ao 10 de Junho, era uma possibilidade sempre presente.
Em breves segundos se percebeu que a aeronave passava a uns bons quilómetros de distância e não se dirigia à N´riquinha, onde também podia fazer escala para reabastecimento.

O Domingo de Páscoa foi transposto dissolvendo na boca as tradicionais amêndoas doces em forma de elaborados esquemas de imaginação, a que alguns juntavam o sabor distante dos folares da terra, mastigados num quase masoquismo de fantasia, cuja aliança com o sol inclemente que os fustigava de manhã à noite, permitia uma breve sensação de realidade. À noite o rancho haveria de desmontar o cenário, como quem desfaz a tenda de feira e retoma o carreiro insonso das agruras da vida.

9:30 de Segunda-feira.
Um ronco potente, que nos reportava por momentos a sons longínquos provindos dos tempos da 2ª Grande Guerra, avassalou repentinamente as cercanias do aquartelamento, desenhando no céu uma figura canhestra de um cinza baço devassado por décadas de um lustro puxado à mão pela eterna pobreza dos tempos.
Era um velhinho PV-2 Harpoon, troando os seus dois motores de 2.000 HP cada, desenhando figuras em volta do aquartelamento, antes de se enfiar à pista e rolar até à porta de armas, onde se quedava por momentos desaparecido numa nuvem de poeira ruiva e fina, da qual cada um de nós preserva ainda uma espécie de memória de estimação em alguns dos recantos menos perecíveis dos sentidos.
Motores parados, haveríamos de esperar alguns minutos até que a nuvem se dissipasse e tornasse possível a aproximação.
Um pouco inquieto apressei-me e nem esperei que a poeirada se acalmasse em definitivo.
Ainda o piloto finalizava as operações habituais de fim de voo, já eu me quedava junto à asa sorvendo o calor do motor ainda em estalidos metálicos de arrefecimento.
A presença inusitada de um avião daquele tipo na N´riquinha só podia trazer maus presságios, normalmente presentes envenenados para a tropa, para quem já chegavam todas as guerras nas quais nos haviam mergulhado.
Minutos volvidos e já descia o meu amigo Capitão Pêpe no seu impecável fato de macaco azul. A ansiedade era tal que nem entrei pelos habituais cumprimentos. Disparei de imediato na esperança meio rançosa de me enganar no prenúncio.
- Vais-me dizer que vou ser atacado e põem o que resta da Força Aérea à minha disposição…!
Logo após um abraço e alguns sorrisos pela graça, que, no fundo, pouco tinha de engraçada…
- Não. A guerra parece que é outra. É que no Sábado caiu um avião, presume-se que aqui na tua área.
- Caiu um avião? Mas que avião? Aqui só há avião a meio da semana com o correio e o Nord às Terças com os géneros.
- Parece que era um mono-motor de uma empresa de Serpa Pinto que faz transporte de passageiros. Uma espécie de táxi aéreo. As últimas informações dizem que saiu do Rivungo no Sábado para reabastecer aqui, mas desapareceu e não deu mais sinal de vida.
Dando voltas à memória recordei o tal sinal de avião de Sábado sinalizado entre a N´riquinha e a Zâmbia, que conferia com a eventual rota vinda do Rivungo.
- Vais ter que me disponibilizar cama, mesa e roupa lavada não sei por quanto tempo. Isto é coisa para demorar, acho eu. Dentro de algum tempo devem começar a chegar aviões da empresa e outros para ajudarem nas buscas. Será aconselhável que preparem combustível para os necessários reabastecimentos.
- Então vamos começar pela mesa? – alvitrei.
- Não. Olha, ainda é cedo; vou dar por aí uma volta. Tendo em conta a rota, pode ser que ele tenha caído aqui por perto por falta de combustível.
E assim foi.
Ronco poderoso assistido por uma fumarada branca a sair dos escapes dos motores e eis que o PV-2 se lança em nova correria pista afora, elevando-se pesado nos ares.
Pouco tempo depois chegam dois aviões ligeiros, conforme prenunciara o Cap. Pêpe. Aterram e solicitam reabastecimento para as buscas que haveriam de ter lugar a partir daquele momento. Trata-se do proprietário do Cessna desaparecido, que dirige ele próprio um dos aviões, e traz consigo um outro também pertença da sua empresa.
Abastecem mas não levantam, porque o comando da operação de busca estava já confiado à Força Aérea, na pessoa do Cap. Pêpe, entretanto no ar.

A operação de busca e localização desenvolve-se por três dias utilizando o PV-2 e os dois aviões ligeiros da empresa, que se foram revezando com outros, sendo que o proprietário se manteve sempre presente no envolvimento das buscas. Presente e sempre muito nervoso. Viríamos a saber mais tarde que esta débil paz de espírito se relacionava com problemas de seguro de vida do piloto desaparecido, desenhando-se o pior dos cenários, caso não fosse encontrado com vida.

Quinta-feira, quarto, e último, dia de buscas, por decisão do Cap. Pêpe, partindo do princípio de que já não seria possível encontrar sobreviventes.
Delineada uma esquadria de busca a distribuir por quatro aviões agrupados num derradeiro esforço para encontrar o avião desaparecido, cada piloto tomou lugar na sua aeronave e levantou. Pêpe foi o último. Antes de subir ao PV-2, lançou-me um desafio:
- Anda daí porque tenho a sensação que nos vais dar sorte. Além disso conheces a zona e podes dar-nos uma ou outra pista.
Eu, que nunca me dei bem com os pés fora de chão firme, fosse em mar ou ar, ainda esbocei alguns argumentos enfeitando a minha relutância.
- Levantas e daqui a meia hora vais ter que me trazer de volta, com o "gregório" em primeiro plano…
- Não. Vamos levar aqui a banheira muito direitinha e sem ondas.
Convenci-me.

Naquele ponto das buscas havia uma única perspectiva; encontrar eventuais sobreviventes. O avião era na altura secundário. No Leste de Angola era frequente a queda de aeronaves sem grandes consequências para os ocupantes, tendo em conta a planura da savana. Logo, se tivessem sobrevivido, haveriam de se movimentar em busca de socorro. Nessa perspectiva, e tendo em conta alguma experiência de sobrevivência no mato que já possuíamos, havíamos sugerido, nos briefings de fim de dia, a busca em chanas abertas com água, porque a sede de cinco dias haveria de os prender num local com água e melhor visibilidade para quem os procurasse.

Tínhamos pouco mais de cinco minutos de voo. Sentava-me num banco solitário plantado a meio do avião, que na verdade voava direitinho, como havia prometido o Pêpe. Sem que nada o fizesse prever, o avião faz uma subida abrupta, para logo de seguida cair sobre a asa esquerda apontando o bico ao chão. Pensei: pregou-me uma partida, o Pêpe. Mas que raio de altura escolhida para brincadeiras.
- Pêpeeeeeeee…! Pára lá com essa m…. – gritei cá bem de trás onde me sentava agarrado a uma pega da fuselagem do avião.
Não obtive resposta no imediato, porque o PV-2 continuava meio louco como se lhe tivesse dado um ataque de nervos. As cabriolas continuavam e eu segurava-me como podia.
Na verdade era quase um verdadeiro ataque de nervos, mas de alegria.
- OS GAJOS ESTÃO ALI…!!! – grita o Pêpe meio embriagado de exultação, abrindo a porta do cockpit e apontando-me para baixo.
Olhei pela pequena janela quando o PV-2 fez um voo rasante ao solo e apenas vislumbrei três pessoas em perfeita loucura no chão: cambalhotas, saltos, abraços, braços no ar.
O Sargento de apoio à tripulação apareceu com um bidão de água preparando-se para o atirar pela porta do avião, entretanto aberta.
- Onde é que você vai com isso? – indaguei.
- Vou atirar aos gajos. Devem estar a morrer de sede. Já passaram cinco dias.
- De sede? Os gajos estão num rio… Estão é a morrer de fome…
O Sargento olhou-me, abanou a cabeça e balbuciou:
- Está a ver, capitão. É o que dá andarmos sempre aqui no ar. Nem nos apercebemos da realidade no chão.

Comunicada a posição dos sobreviventes, o PV-2 regressou de novo sereno e pousou perfeito.
- Como vês, viemos direitinhos como prometi – disse o Pêpe da porta do cockpit entretanto aberta, com uma euforia quase menina estampada no rosto, quando o avião já rolava em movimento lento para parar.
- Pois, mas lá no sítio perdeste a cabeça.
- Encontrar sobreviventes de quedas de aeronaves é a maior alegria que um piloto pode ter. Mas deixa-me contar-te; aquele braço de rio onde os encontrámos estava fora da quadrícula de buscas. Quando cheguei à bifurcação deu-me uma pancada e enfiei o avião naquele pequeno afluente do rio. Foi a sorte deles. Estavam mesmo ali à entrada.

Por volta das 17:00 um helicóptero da F.A. haveria de resgatar os três ocupantes do avião, depois de estes já terem devorado oito rações de combate entretanto lançadas dos aviões.
A história daqueles cinco dias confrontava a simplicidade das circunstâncias com o sofrimento dos três ocupantes do Cessna.
Haviam, na verdade, saído do Rivungo com muito pouco combustível, dirigindo-se à N´riquinha para reabastecer. Um procedimento normal. O piloto, um jovem pouco experiente e desconhecedor daquela área, orientou-se pela carta – antiga e obsoleta, como todas as daquela região – e dirigiu-se à antiga N´riquinha Velha, a dezoito km de distância da actual N´riquinha, sendo aquela a única que figurava na carta.
Desconhecedor da verdadeira localização da pista, ainda não assinalada nos mapas, procurou durante perto de uma hora sem a encontrar, vindo a cair a cerca de 70 km para sul.
As peripécias dariam um pequeno livro.
Num breve resumo.
Eram três os ocupantes: o piloto, um jovem africano com cerca de 23 anos (funcionário da General Electric), que se deslocava a um determinado local para reparar uma avaria, e um outro jovem cabo-verdiano que havia pedido uma boleia no Rivungo.
O jovem africano era a terceira vez que caía de avião…, mas afirmava: "… não será por isto que vou agora começar a andar a pé…".
Nos momentos que antecederam a queda, quando o combustível faltou, enquanto o alvoroço se instalava dentro da aeronave, especialmente por parte do jovem cabo-verdiano gritando que iam morrer todos, o experimentado técnico da G.E. tomava conta dos acontecimentos: "… Calma! Ainda não morremos. Senta e reza. Se não souber rezar, senta só e acalma…".
O piloto tendo apontado para uma chana com mais de 1 km de largura e chão plano onde poderia ter aterrado sem grande dificuldade, entendeu que mais "suave" seria pousar no pequeno curso de água que ali corria. O avião capotou de imediato resultando um ferimento no sobrolho do piloto e a destruição parcial da aeronave.
A deslocação que decidiram empreender a partir do local, procurando encontrar uma picada ou sinais de vida, foi uma epopeia que lhes perdurará pela vida fora.
Sem reservatórios onde pudessem transportar alguma água, deitaram mão das mais incríveis opções. A namorada de um deles acabou sonegada de um perfeito perfume e água-de-colónia refrescante para as tardes de calor ardente; os frascos foram esvaziados e neles acomodados alguns decilitros da preciosa água.
A fome devassou a perspectiva de morte na queda do avião e intricou mirabolantes esquemas de sobrevivência; horas foram passadas em emboscada a um rato que se enfiara num buraco e se recusou obstinadamente a participar naquela história, que, afinal, não era a sua.
Caça em abundância à distância de um tiro de flecha – mas sobranceira a um corta-unhas perdido no fundo do bolso que jamais encontrou préstimo naqueles dias – "… pareciam rir-se de nós...", percebendo-os desarmados e vulneráveis ao fragor de um único rugido de leão a bocejar o términos de uma sesta dormitada à sombra de um embondeiro".
A noite e o medo montaram sentinelas que incendiaram todos os minutos que o cansaço rogava por um breve repouso de corpo e alma.
As horas, depois os dias, faziam bramir um âmago com 500 anos de submissão e a suspeita de uma eterna e vil escravidão: "… os portugueses, onde estão os portugueses que não nos vêm sequer procurar. Que é feito dos portugueses? Onde estão a porra dos portugueses…?", recalcitrava estridente o desespero do jovem africano especialista em inopinados mergulhos na selva africana.

Quinto dia de uma desesperança já assumida e aceite.
Pouco além das 9 horas da manhã.
Um ruído de avião… uma alucinação entre tantas outras… um sonho acordado fermentando um desejo.
Possante e inequivocamente vivo o PV-2 rompe os céus num ronco abrupto e desesperadamente amigo. Cabriola como criança na areia da praia; rasa-lhes as cabeças num afago terno e acolhedor. Agita as asas como que acenando uma alegria que desejava comungar desesperadamente.
Por entre as mais destemperadas manifestações de regozijo, uma voz meio submersa numa emoção de novo escravizada, refunde uma confiança perdida:

"… afinal há portugueses… Olha só os portugueses que estão chegando…! Portugueses! Portugueses…!"

quinta-feira, 11 de março de 2010

COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE BENGUELLA Á ...

COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE BENGUELLA Á CONTRA-COSTA. A-TRAVÈS REGIÕES DESCONHECIDAS

via ANGOLA DO OUTRO LADO DO TEMPO... by MariaNJardim on 2/26/10

Mappa 2.--De Benguella ao Bihé

COMO EU ATRAVESSEI ÀFRICA DO ATLANTICO AO MAR INDICO, VIAGEM DE

BENGUELLA Á CONTRA-COSTA. A-TRAVÉS REGIÕES DESCONHECIDAS;

DETERMINAÇÕES GEOGRAPHICAS E ESTUDOS ETHNOGRAPHICOS.

Por SERPA PINTO.

O LIVRO.

Não tem pretenções a obra de literatura este livro.

Escrito sem preoccupação da forma, é a fiel reproducção do meu diario de viagem.

Cortei n'elle muitos episòdios de caçadas, e outros, que um dia no descanso, produzirám um volume de caracter especial. Busquei sôbre tudo fazer realçar o que mais interessante se tornava para os estudos geogràphicos e ethnogràphicos, e se não me pude eximir a narrar um ou outro dos muitos episòdios dramàticos que abundáram na minha fadigosa empresa, foi quando a êsses episòdios se ligavam factos consequentes, de importancia, ja para alterar o itinerario projectado, já determinando demoras, ou marchas precipitadas, que seriam incomprehensiveis sem a exposição das causas determinantes.

Á Europa, e em geral ao homem que nunca viajou nos sertões do interior d'Àfrica, não é dado comprehender o que se soffre ali, quaes as difficuldades a vencer a cada instante, qual o trabalho de ferro não interrompido para o explorador.

As narrações de Livingstone, Cameron, Stanley, Burton, Grant, Savorgnan de Brazza, d'Abbadie, Ed. Mohr e muitos outros, estam longe de pintar os soffrimentos do viajante Africano. Difficil é comprehendel-o a quem o não o experimentou; áquelle que o experimentou difficil é descrevel-o.

Não tento mesmo pintar o que soffri, não procuro mostrar o quanto trabalhei, que me façam ou não a justiça de que me julgo merecedor aquelles que examinarem os meus trabalhos, hôje é isso para mim indifferente; porque me convenci, de que só posso ser bem comprehendido pêlos que como eu pisáram os longìnquos sertões do continente nêgro, e passáram os maos tratos que eu por lá passei.

Assim como só o homem que, sendo pai, pode comprehender a dôr pungente da pêrda de um filho, assim tambem só o homem que foi explorador pode comprehender as atribulações de um explorador. Ha sentimentos que se não podem avaliar sem se haverem experimentado.

Os factos narrados n'este livro sam a expressão da verdade.

Verdade triste muitas vêzes, mas que seria um crime occultar.

Procurei apresentar nêlle os resultados de um trabalho aturado de muitos mêzes, e garanto o que digo sôbre geographia Africana, porque só eu sou autoridade para falar n'ella na parte respectiva á minha viagem, em quanto outro não houvér seguido os meus passos atravéz d'Àfrica, e não me convencer do contrario.

As minhas opiniões genèricas sôbre um ou outro problema podem ser erròneas, sam sujeitas á crìtica, podem cahir por terra com uma demonstração pràtica das futuras viagens, como tem acontecido a asserções de muitos dos meus antecessores os mais illustres; mas o que não tem nem pode ter contestação, sam os factos que eu vi, sam aquelles que se referem aos paizes que percorri, e que descrêvo n'este livro com a consciencia que deve sempre dictar as acções do explorador.

Não fui á Àfrica ganhar dinheiro. Tive a mesquinha paga de official do exèrcito e não quiz outra.

Abandonei uma familia extremosamente querida; deixei a pàtria e tudo para trabalhar, e só para trabalhar, em cooperação com os outros paizes, na grande obra do estudo do continente desconhecido, e tenho a consciencia de que fiz tanto quanto podia fazer.

Deixo aos homens de sciencia e áquelles que sam autoridades em tal materia o avalial-o.

Ponho ponto n'este assumpto que parecerá filho de um orgulho que não tenho, mas factos insòlitos apparecidos no decurso dos primeiros mêzes da minha residencia na Europa, depois de ter completado a fadigosa jornada d'Àfrica, dictáram as palavras que escrevi.

Ha um anno que principiei a coordenar em livro os resultados dos meus trabalhos Africanos, mas uma pertinaz doença por vêzes interrompeu a vontade que nutria de dar á estampa esses trabalhos.

Principiado em Londres em Setembro de 1879, o meu livro foi quasi tôdo escrito nos mêzes de Setembro e Outubro, de 1880, na Figueira da Foz, em Portugal.

A pressa com que foi terminado contribuirá de certo muito para a incorrecção da forma.

A publicação d'elle é feita em Londres, onde encontrei na grande casa editora Sampson Low, Marston, Searle and Rivington, todas as facilidades que não pude obter fora d'ella.

Estes cavalheiros não recuáram ante a enorme despesa a fazer com uma tão difficil e custosa publicação, e leváram a sua condescendencia a fazer imprimir em Inglaterra a edição Portugueza; trabalho difficilimo, porque a differença das lìnguas dos dois paizes obrigou até á fundição de typo, por causa dos signaes e accentos privativos do nossa idioma.

Devo-lhes a maior gratidão pêlo interesse que t[~e]m dedicado a esta publicação, para o mèrito da qual, se é que ella tivér algum mèrito, elles de certo concorrêram muito.

O S^{nr.} Antonio Ribeiro Saraiva, que, a pesar dos seus trabalhos e da sua avançada idade, me quiz fazer o favor especial de rever as provas do livro; o S^{nr.} E. Weller, o cartògrapho, que se encarregou da gravura das minhas cartas geogràphicas; o S^{nr.} Cooper, que interpretou magnìficamente os meus esbocêtos de viagem nas gravuras que illustram a obra, concorrêram tambem de certo muito para o valor d'ella.

Ahi vai, pois, o livro, e só desejo que elle corresponda e sirva á curiosidade de uns e ao estudo de outros; e venha dar novos incitamentos á grande e sublime cruzada do sèculo XIX., a cruzada da civilisação do Continente Nêgro.

Londres, 61 Gower Street,
5 de Dezembro de 1880.

CONTINUA...