domingo, 21 de março de 2010

Mocamedenses na Ponta de Pau do Sul ou Noronha: um miradouro sobre a cidade...

via GENTE DO MEU TEMPO (Album de recordações) by MariaNJardim on 3/20/10







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«Fica a bahia de Mossamedes (nome que lhe foi posto em 1785 pelo tenente-coronel de engenheiros L. C. C. P. Furtado, quando foi estudar toda essa costa), antiga Angra do Negro, e em lingua do gentio Mussungo Bittoto, entre as pontas do Girahúlo, (cabo Euspa) e a Grossa ou do Noronha.
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«Estende-se a ponta do Girahúlo, que e rasa, pouco saida e muito cortada a pique, em 15° 11' 30'' S. (1). e 21° 12' 30" E. Muito perto dessa ponta, e em linha que vae d'ella á fortaleza, se pruma em 30m,5, e se encontram depois, successivamente, 24, 82, 92, 99, 55, 238 e 293 metros.


«Segue d'alli a heira-mar, toda pedrada e negra, obra de 3 milhas para SE 4 1/4 S. até á ponta Redonda, a qual tira o nome do feitio que tem, e é tão alta e tão ingreme, que se acham 36 metros, fundo de pedra, nas suas visinhanças; cresce muito rapidamente o fundo para 84 SE. d'essa ponta, e tanto que se pruma em 261 metros a milha d'ella; mais para S., n'esse mesmo alinhamento, se acham 20 c 14 metros perto da costa meridional.

«Pouco para E. da ponta Redonda se abre o Saco do Girahúlo, enseada com praia de areia, e depois se vae arqueando a babia para S., e formando um reconcavo, todo guarnecido tambem de praia de areia, até á ponta Negra. Sobre esta, que é alta, pedregosa e escura, se levanta a fortaleza de S. Fernando, começada a construir em 1840, e que póde montar 8 peças.
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«Vae arenosa e de meã altura toda a costa desde a ponta Negra, e se encurva para formar o Saco do S., enseada que termina pela banda de 0. na ponta Grossa ou do Noronha. No recanto do Saco, onde começa a terra de subir, se levanta a chamada Torre do Tomho, morro argilloso, macio e talhado a pique para a banda do mar, onde se lêem os nomes de vários navios que tem aportado a Mossamedes, e os de muitas pessoas que visitaram aquelle sitio 2.
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«Segue-se a ponta do Noronha, que é alta, pedregosa, cortada a prumo, amarellada e sita a 2 milhas e tres decimos da ponta Grossa; sobre ella, e em 15° 13' 30", torreia uma guarita com o seu pau de bandeira.














«Passada a ponta do Noronha recurva-se muito a costa, e forma uma enseada, que termina da banda do S. na ponta da Annunciação, ou da Conceição, que é rasa, negra e so a custo se percebe do mar. Fica esta em 15° 16'.














«Milha e seis decimos para O1/2 NO. da ponta de Noronha fica o extremo septentrional do baixo da Amelia (nome que lhe foi posto por ter naufragado alli, em 1842, a escuna de guerra portugueza Amelia), muito perigoso por quebrar so de vez em quando, apesar de ter pelo geral uns tres metros de agua, e 0m,9 em alguns sitios, É todo de rocha e argila, tem na falda Occidental 2m,2, 3m,5, 4m,5 de agua, e 7m,9 e 11 na septentrional; perto d'elle e da banda do O. se encontram 22 metros e mais, e separa-o do continente um canal por onde so devem navegar lanchas. Ha, porém, quem aflirme ter visto navios de guerra inglezes passar por entre o baixo e a praia da Amelia, que lhe fica fronteira: julgámol-o, porém, muito arriscado, assim por poder acalmar alli o vento e encostarem as aguas para cima do baixo, como por haver sempre seu rolo de mar.
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Dilata-se o baixo da Amelia por entre 15° 14' e 15° 18' S., e vae até a umas tres milhas da costa.
«Afoitamente se póde navegar por aquellas paragens, em quanto estiver a ponta Negra descoberta da do Noronha, marca larga do extremo setentrional do baixo, e que passa uns oito decimos de milha para N. d'elle.
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«Indo do S. em demanda do ancoradoiro de Mossamedes, monte-se a ponta da Annunciação á distancia de 3 milhas e meia, e siga-se para N., sem chegar á terra, até descobrir a ponta Negra; deite-se depois para esta, ou um tanto para N. d'ella, a fim de ir pelos 24 metros de fundo nas visinhanças da do Noronha, e não por menos, porque póde acalmar o vento á sombra da ponta.
«Indo do N. deve-se dar resguardo á ponta do Girahúlo, por encostarem muito para lá as aguas e não se poder fundear.
















Ha quatro ancoradoiros na bahia de Mossamedes: o dos navios de guerra e navios em franquia, em 26 metros, no alinhamento das pontas Grossa e do Noronha, a egual distancia das duas, e a meia milha da terra mais proxima: é bom sitio para velejar, pois se póde sair de bordada. Diminue muito gradualmente a fundura desde esse surgidoiro até a uns dois decimos de milha da terra, onde se encontram 5m,4.
«Embarcacões que tencionem demorar-se muito podem fundear a quarto de milha da praia, pouco para N. da Torre do Tomho, e.em 9 metros ou 6m,4.
«Acha-se terceiro ancoradoiro, bom para os navios mercantes que tiverem de carregar ou descarregar, em 16 ou 18 metros perto da praia onde se levanta a povoacão.
«Ha, finalmente, o fundeadouro das embarcações de pesca, e outras de pequeno lote, quasi no rolo da praia fronteira á villa.
«No recanto NE. despeja, em tempo de chuvas, o rio Béro ou das Mortes, cujo leito atravessa o sitio das Hortas. Correm com tal velocidade as aguas d'este rio, em algumas occasiões de grande cheia, que se levam para cima de 8 milhas por hora. Do extremo da margem esquerda do rio Bero parte para NO. um baixo com perto de milha de comprido. Tem o rio agua de beber, e sem custo a deixa tomar, quando calema: será, porém, necessario ir recehel-a de manhã cedo, antes de calar a viração, porque mais tarde açoita o mar aquellas paragens e é custoso de voltar ao surgidoiro: devem as embarcações que a empregarem na faina da aguada fundear perto da foz do Béro e da banda do N E. da restinga. Acha-se tambem optima agua abrindo cacimbas no terreno das Hortas.
«Nas alturas de Mossamedes se erguem as banquetas chamadas Mesas dos Cavalleiros ou dos Carpinteiros, parecidas com outras que se prolongam desde o parallelo de 14° 30' para S., mas distinctas por serem tres e eguaes. São boas marcas para navio que estiver amarrado.
«Por sobre a terra alta visinha da fortaleza, e pelo areial para E. da ponta Negra, se avista a villa de Mossamedes. Ja no areial é que fica a maior parte das casas, bem alinhadas, quasi todas de um andar so e em ruas espaçosas. Entre a fortaleza e a Torre do Tombo estão a egreja, um hospital militar, pequeno mas aceiado, e outros edificios.

«Rapido ha sido o desenvolvimento da villa, o que em grande parte se deve attribuir á bondade do clima, muito parecido com os mais sadios da Europa. Sente-se alli frio, anuvia-se o tempo e são humidas as noites em julho e agosto, mezes em que a altura média barometrica anda por 76O a 765 millimetros. De annos a annos desaba alli fortissimo terral de E., que traz grande copia de po muito incommodo e produz graves doenças.
«Nas suas visinhanças, e especialmente para o lado do NE., se levantam muitas libatas de negros, quasi todas mucubaes, cultivando especialmente o milho, e possuindo grandes manadas de gado vaccum.
«Ha bom desemhocadoiro no areial fronteiro á povoacão baixa, e ao abrigo da ponta Negra: deve-se, porém, fugir de uma lagoa que fica ao lume d'agua e pela parte de dentro d'aquella ponta.»
Brito Aranha.
Archivo pittoresco, Volume 10 ,0g 134

Fotos a preto e branco
Para alem de fotos dos primordios da colonizaçao aqui colocadas (4. foto), encontram-se algumas datadas de 1954, que nos mostram uma vista da cidade de Moçâmedes da Ponto do Noronha ou Ponta do Pau do Sul , que era linda, embora a foto por ser antiga e a preto e branco não o mostre, mas e possivel ver pela fotos actual a cores. Nós somos: Betinha Bagarrão, Nídia Almeida (eu) Gracietinha Bagarrão e Amilcar Almeida. Numa dessas fotos a Gracietinha aponta para um navio que estava aproximando-se da baia, na sua passagem junto do perigoso "banco" da Praia |Amelia. Noutra, observamos o mar de Moçâmedes e a Praia Amélia, a partir da falésia do Canjeque, a 4km da cidade. Recordo como estava ali sentada entre duas amiguinhas de infância, extasiada a olhar a bela «Princesa do Namibe», implantada entre o deserto e o mar... O mar azul de Moçâmedes entrou-me nas profundezas da alma, a tal ponto que ainda hoje, passados que foram 32 longos anos, é a olhar o mar que me sinto bem . O local é um autêntico miradouro para a cidade!

Uma curiosidade. Ja ninguém desconhecia que Moçâmedes estava destinada a ser o local de desenvolvimento futuro da industria pesada de Angola . O que eu desconhecia, e que só tive conhecimento ja nas vésperas de Abril de 1974 quando uma Companhia sul-africana interessada em montar uma dessas industrias no cimo do plateau da falésia da Torre do Tombo que termina na Ponta do Pau do Sul ou Noronha, foi aprofundar os registos de propriedade do privilegiado local, onde, entretanto, a Associação de Pesca, chegara a montar, inclusive, um Armazém, e que toda aquela extensão de terreno tinha sido comprada em tempos muito atrás pelo meu avo, João Nunes de Almeida. Que conclua quem quizer sobre o espirito desinteressado, ou melhor, pouco materalista, da nossa familia...

Fica mais esta recordacao.

NAMIBE

Por tê-lo assim tão perto,
A areia deste deserto
Enamorou-se do mar.

E viver ardente, corada
Por sentir-se desejada
Desejada sem se dar.

Angola 1968
Concha Pinhão (Do livro de poemas «Sabor Amargo»

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