sexta-feira, 28 de novembro de 2008

EXPLICANDO OS «JOGOS AFRICANOS» - PALAVRAS DE JNP

via O FUTURO PRESENTE de noreply@blogger.com (jaime nogueira pinto) em 26/11/08
Senhoras e Senhores, Queridos Amigos:
Quero começar por agradecer ao Francisco Seixas da Costa, as suas palavras sobre mim e sobre estes JOGOS AFRICANOS. Somos de facto muito amigos, apesar de itinerários ideológicos e políticos bem diferentes. E para além desse comum sentido de humor e de independência crítica, de pessoas livres, temos mesmo que pensado e vivido de modos diferentes, uma idêntica e indefectível lealdade a Portugal e aos seus interesses. E a sua amiga e generosa disponibilidade de atravessar o Atlântico num fim de semana para vir apresentar este livro.
Depois, como é da praxe, mas aqui também do fundo do coração, quero agradecer a todos que aqui estão e fazem parte do livro, porque entraram na história que ele conta: muito especialmente à Arminda, viúva e à Micaela filha do Alfredo Aparício, um amigo inesquecível e um grande português, a quem são dedicados estes Jogos Africanos; e ao Sr. António Luís Alves, o "Mister Banana", e ao Zé Penha Rodrigues, pelo seu apoio logístico na retirada estratégica para o Sul. E claro à Zézinha que fez essa e outras caminhadas complicadas comigo. E neles e através deles a essa legião de pessoas que nestes anos partilharam connosco estas histórias.
Isto quanto à história. Quanto ao livro quero agradecer primeiro ao José Calvin e à Sofia Monteiro e a toda a equipa da Esfera dos Livros que são uns editores disponíveis, sensíveis, com quem trabalhar é um gosto. E depois à Inês Pinto Basto que, desta vez, foi mais que uma colaboradora, uma verdadeira co-autora, com um trabalho marcado pela inteligência, arte e dedicação. E que conseguiu disciplinar e ordenar além da minha escrita, o meu modo de produção. E à Isabel Barata Feio que há muitos anos converte, pacientemente, os meus hieróglifos em letra de forma e passou e repassou este texto.

Estes JOGOS AFRICANOS têm origem, como outras coisas importantes da minha vida, mais no acaso que na predestinação.
A ESFERA DOS LIVROS – na pessoa do José Calvin e da Sofia Monteiro – satisfeitos com o meu "Salazar – O outro Retrato" convidaram-me, faz um ano, para escrever uma História da África Portuguesa.
Era uma proposta sedutora, para contar uma história de fôlego, uma história de 560 anos – que começava em 1415 naquela manhã alegre da conquista de Ceuta e seguia com as caravelas do Infante a passarem o Bojador e acabava com o trágico regresso dos Boeings com os retornados da Ponte Aérea em 1975.
Garanti a colaboração da Inês, e comecei a reler as viagens do Cadamosto e a Crónica da Guiné do Zurara. Para inspiração e para agarrar o espírito do tempo fui ao Museu das Janelas Verdes rever o Infante D. Henrique dos painéis de S. Vicente. E outra vez me intrigou aquele seu chapéu, único… Um amigo sábio – talvez o Martim de Albuquerque – disse-me que era um chapéu borgonhês! Nunca vira outro assim em Portugal.
Mas enquanto ia meditando nestes e noutros enigmas menos frívolos da Grande Aventura Portuguesa, fui escrevendo uma introdução, recriando e relembrando os meus encontros e experiências africanas. Desde imagens de infância, de exploradores e expedições coloniais, e da leitura das Minas de Salomão, à minha chegada à África real, em Angola, em 1974, nos meses do fim do Império. Um prefácio que foi crescendo até chegar às 60 páginas.
As pessoas que tiveram acesso a este esboço e os editores acharam que, apesar do enigma do chapéu do Infante e dos chapéus coloniais, apesar da história da ocupação, da fundação das cidades e dos caminhos de ferro no século XX, era talvez mais interessante – ou mais urgente – para aqui e para agora, contar a história mais próxima. E, para isso, desenvolver a tal introdução. Que era a história que aconteceu na África que tinha sido "portuguesa" depois de Portugal e dos portugueses, uma história de conflitos, de intriga, de guerra civil, de engenharias da paz. E o lugar dessa África lusófona, no Grande Jogo do mundo. O chapéu do Infante e as aventuras, venturas e desventuras da colonização e da descolonização podiam esperar.
Foi assim que apareceu este livro.
Baptizei-o à nascença, o que não é meu costume. Mas desta vez roubei o título – Jogos Africanos – a um escritor para mim muito importante – Ernst Jünger. Os seus Afrikanische Spiele são de 1936, e neles conta a fuga de casa, adolescente, para a Legião Estrangeira francesa. Eu fui, homem feito e pai de filhos, como voluntário, para o Exército Português – o que não é a mesma coisa. Mas roubei-lhe o título, conscientemente, como uma homenagem e um sinal cabalístico de identidade.
Agora o livro, a substância. Há dias ouvi o Marcello Mathias dizer que um autor não deve explicar ou falar do seu livro! Concordo. A partir do momento que o escreve, que o acaba o autor deve-o deixar ir à vida, como o Deus de Leibniz terá feito com o mundo. O livro vale o que vale: depois de escrito, é dos editores, dos leitores, dos críticos. De todos menos do autor.
Mas se não deve falar do texto, o autor pode – e deve – explicar o contexto. Quando pelo telefone dizia a alguém o que era o livro – e disse que eram as minhas memórias de África – a Zézinha, deu-me um ralhete. Que ninguém queria saber de memórias para nada! Que este livro era uma história da África lusófona e da África Austral dos últimos trinta anos, uma história em que eu tinha estado presente e participante.
É verdade. A minha memória e a minha história são só um fio condutor da memória e da história de Angola, de Moçambique, da África Austral entre a Descolonização portuguesa e o fim das guerras civis. Porque nas "memórias" passeamos o nosso olhar, de fora para dentro e de dentro para fora, e vamo-nos entregando a considerações históricas, psicológicas, literárias, humorísticas, sobre paisagens, pessoas, amigos, inimigos, coisas importantes ou que achamos importantes. Mas nós somos o centro da história.
Não é o caso de Jogos Africanos. Aqui eu não andei à procura do mundo nem o mundo à minha procura.
Escrevi primeiro para acertar contas com o meu e nosso passado e tentar percebê-lo. Descubro-me melhor – no duplo sentido de me encontrar e de me destapar – a escrever. A minha experiência é paralela à de muitos da minha geração, geração no sentido cronológico e ideológico: a dos portugueses nascidos no imediato pós-guerra, formados existencialmente e intelectualmente, nos anos 60, com guerras perdidas – Argélia, África, Vietname – escritores reencontrados ou descobertos – Nietzsche, Sorel, Péguy, Proust, Scott Fitzgerald, Hemingway, Huxley, Malraux, Jünger, Drieu de la Rochelle; mais os clássicos portugueses de Camilo a Eça e a Pessoa; e os autores franceses e italianos do meio do século XX, os filmes italianos e americanos de 60 e 70, a música do Brel, dos Beatles e dos Rolling Stones, as cidades - Paris, Londres, Roma, Madrid… quase só Europa.
Por cá, nesta nossa polis, foram as lutas académicas, as guerras da cultura e a guerra de África. Fui a todas! À de África, no fim. Como achávamos que lutávamos – já na Faculdade - em minoria e ainda por cima contra "o sentido da História", habituámo-nos a resistir e a preparar a guerrilha. Tive sempre a sensação de pertencer àqueles grupos especiais - ou menos especiais - que cobrem as retiradas: rebentam as pontes, minam os itinerários e fazem umas emboscadas às vanguardas inimigas para lhes retardar a marcha. Se ficarmos pelo caminho, ninguém quer saber de nós. Somos expendable. E como só retardámos, não impedimos o avanço, se temos sucesso ninguém dá por isso. Não nos condecoram nem nos agradecem. Habituámo-nos assim.
Esta é a primeira parte desta história – que acabou no exílio - na África do Sul, no Brasil, em Espanha. Depois fui para a história dos outros, para os lugares onde a História ia continuar a fazer-se. Nos anos 80 percebi que essa era a forma mais certa – e a única possível – de continuar este jogo, já que não não me curava dele e do tal "mal de l'Afrique" de que falava Psichari. E tinha questões a arrumar. Sobretudo comigo.
Fomos para a Guerra Fria com essa ideia de acertar contas. Era uma guerra de outros, mas em que podíamos fazer a diferença. Como combatentes "internacionais", internacionalistas. Como o Bin Laden foi combater os russos para o Afeganistão, os comunistas foram para Espanha em 1936 e os zuavos pontifícios defender o Papa, no século XIX. Foi assim que entrámos a ajudar os "nossos" freedom fighters na África Austral.
Depois, por um processo que espero ter conseguido escrever e descrever no livro – e foi a primeira vez que eu próprio comecei a entendê-lo bem – as coisas mudaram: e já não queríamos ganhar a guerra – ou que "os nossos" ganhassem – mas queríamos a paz. Para todos – os nossos e os outros. E a partir da curiosidade e da vontade de a conseguir, tive a experiência e o privilégio, que também aqui ficam contados, de fazer o vaivém amigos-inimigos, azuis e encarnados, entre trégua e guerra, tendo por rede e segurança os "factores humanos" de todos – de lealdade, honra - e de interesse claro! Para um pessimista antropológico, criado na desconfiança hobbesiana do outro, não estive mal.
Porque as ideologias e as convicções políticas não escolhem nem delimitam o bem e o mal. E – ao contrário da convicção adolescente – em que as bandeiras e os partidos dividem os "bons" dos "maus", a vida não é assim. E há um capítulo da ética – a "ética dos inimigos" – que é mais importante que muitas outras éticas faladas nelas glorificadas. Porque é o que nos une é só a nossa condição humana.
Acabámos por estar, assim, no centro de muitas coisas acontecidas no último quartel do século XX: o fim do Império português, o exílio e conspirações dos portugueses em três países e três continentes, África do Sul, Brasil, Espanha, África, América, Europa. E vimos nascer em Washington a revolução conservadora e assistimos ao final da Guerra Fria em Berlim, e às guerras civis de Angola, de Moçambique e da Guiné-Bissau.
De fascinados pelas ideias que éramos, passámos a estar mais atentos também às pessoas e às coisas. Há, nesta narrativa, uma evocação dessas pessoas –quase todas ainda vivas, mas outras mortas e violentamente – como Evo Fernandes, Ansumane Mané, Jonas Savimbi, Salupeto Pena, Jeremias Chitunda, Wilson Santos, tantos…
E também se fala da aprendizagem do exílio, que é sempre – mesmo quando as alternativas são a prisão, o silêncio e a humilhação dos vencidos não convencidos –uma humilhação e uma via-sacra. Foi aí que experimentámos outra forma de conhecer e amar a pátria, de fora para dentro, como lugar estranho e distante. E pensámos noutros, de outras bandeiras, que passaram pelo mesmo.
Depois nestas terras e nestas guerras, encontrámos e descobrimos gente extraordinária entre os nossos e os outros, entre amigos e inimigos. E eles descobriram-nos a nós.
E reaprendemos a ver as coisas e o mundo – a olhar a terra e a olhar para o céu aberto que é um privilégio da África: nas noites do Leste de Angola, nas luzes de Joanesburgo, na Ilha de Luanda – falando com comandantes guerrilheiros, soldados perdidos e generais governamentais; e voando nos Cessnas ou Dakotas por aquele céu azul pastel ou ferrete (não percebo muito de azuis), que me lembrava o céu dos poemas de Alberto Caeiro e vermos o sol nascer do Índico e desaparecer no Atlântico.
Para este livro, que levou um ano a escrever e finalizar, ouvi muita gente e entre outras, as pessoas que fazia sentido ouvir. Nem todas. Estas entrevistas, de que uma pequena parte foi utilizada ou transcrita directamente, foram também uma experiência humana e intelectual importante. Com grande confiança e generosidade, essas pessoas – uns velhos amigos, outros velhos inimigos, outros nem uma coisa nem outra - contaram-me as suas histórias nesta história, fizeram a narrativa com grande à vontade. Pela minha parte, usei os testemunhos com sobriedade e prudência. E nalguns casos, e com perda talvez para algum sensacionalismo, retirei o que sendo interessante poderia ser nocivo para os próprios ou terceiros.
Porque escrever sobre temas e factos que são sensíveis, de vida e de morte, é um exercício no fio da navalha ou do arame. Não podemos trair a confiança de pessoas que, quando trataram coisas connosco, não estavam a pensar que um dia, mesmo muito depois, contaríamos o que disseram ou fizeram então. Respeitei essa regra.
Finalmente – e sem pretensões – acho que devia este livro ao meu país, aos meus amigos, à minha Família, aos vivos e sobretudo aos mortos, que perderam tudo nestes Jogos Africanos. É também uma homenagem à memória deles. De todos.
Muito Obrigado.
Jaime Nogueira Pinto
24 de Novembro de 2008

JOGOS AFRICANOS NO JN

via O FUTURO PRESENTE de noreply@blogger.com (jaime nogueira pinto) em 23/11/08

JORNAL DE NOTÌCIAS, 23 Novembro 2008 ," Jogos africanos"

Jaime Nogueira Pinto lança amanhã obra autobiográfica em que narra a África do seu imaginário até às experiências no terreno desde 1974 até agora.

"O meu primeiro encontro com a África e os africanos foi no sótão do n.º 28 da Rua João das Regras, no Porto. Estou quase certo disto porque nasci e vivi até aos oito anos nessa casa. O Miguel Bénis e eu tínhamos descoberto o sótão naqueles roteiros iniciáticos dos miúdos, feitos de explorações de quintais, jardins, becos, bosques, caves e outros lugares selectos de mistérios e aventuras.
E o sótão, por estar proibido às crianças, era um desses fascinantes longes de além porta que nos metemos a desvendar. E no meio de um característico cheiro a mofo e do pó dos tempos, à luz de uma clarabóia baixa, jazia um armário fechado a cadeado. Conseguimos abri-lo, e demos com uma enorme quantidade de papéis - livros, revistas, títulos de obrigações e acções de companhias falidas, pastas, dossiers, retratos.
Mas havia sobretudo livros, muitos livros, em estado desconjuntado mas ainda folheáveis. Foi aí, entre uma série de itinerários africanos de viajantes portugueses do século XIX, que nos apareceram o Capelo e o Ivens sentados numa sanzala, de chapéu colonial, carabina, pistolão e bota alta. Do mesmo armário saiu-nos o Serpa Pinto em forma de foto-desenho, de cabelo e barbas hirsutos, no seu Como eu atravessei África. E lá vinha outra vez o explorador, agora sob a legenda «Serpa Pinto e os seus moleques de confiança», sentado, armado e ladeado por dois negros com bom aspecto, também de carabinas. Pretos bons, concluíamos nós.
Esta África, descoberta com algum risco nas tardes de chuva em que a casa ficava por nossa conta, era completada por outras expedições africanas que vinham nas revistas aos quadradinhos como o Mosquito, o Mundo de Aventuras ou o Cavaleiro Andante. Nas minhas primeiras leituras de livros sem bonecos - ler livros sem bonecos era, na época, um rito de passagem - apanhei As Minas de Salomão, de Ridder Haggard, na versão do Eça de Queirós.
Vivi a fundo, com o Eça, este mundo das raças negras guerreiras, dos regimentos zulus ou impis, das danças rituais, das batalhas da colina e de Lu, onde as armas de fogo dos europeus fazem a diferença. E vivi também a morte, sempre tão presente nesta e noutras narrativas de África. A morte à espreita no campo aberto da savana com o leão, nos rios, com o crocodilo, na selva, com as cobras. Ou a que vem dos homens, das setas envenenadas, das emboscadas, dos recontros.
Era uma história paradigmática. Os brancos metidos em África sempre pelas razões mais nobres e mais sórdidas: para salvar almas e para o saque, para ajudar perseguidos, mas também para patrocinar protegidos, usando-os para controlar os outros. E naquela ficção, como na vida real, tudo quase sempre tão misturado, tão indistinto, tão próximo, apesar do aparente preto e branco. As Minas de Salomão foram, para o meu imaginário, um impressionante baptismo de fogo africano. Que iria revelar-se muito mais exacto e próximo da realidade do que eu, na altura, poderia supor."

As a go-between

"A partir de um certo momento, nestes jogos africanos, quando quis ser mediador num conflito pouco mediável, tive o risco e o privilégio de poder estar simultaneamente em dois campos. Foi uma tentativa que falhou no seu plano substancial e objectivo: a guerra continuou e a paz só veio quando houve um claro vencedor. Pelo meio, vivi com gente em risco moral e físico, gente dividida, gente animada de um pathos político verdadeiro, gente empenhada e séria, gente até ao fim.
Tinha acabado de entrar nos 50 e nunca passamos pelo tempo impunemente. Descobrimos que, se existem ideologias ou sistemas mais ou menos perversos - e alguns até intrinsecamente perversos, como Pio XII qualificava o comunismo -, os homens e a natureza humana obedecem a outras constantes e, nesse sentido, são iguais em todo o tempo e lugar. Também aqui, os quadros e o povo da UNITA e os quadros e o povo do MPLA não eram melhores ou piores uns que os outros pela sua ligação ou opção ideológica. Aliás, essa opção fora quase sempre determinada por factores étnicos, culturais, territoriais, familiares, de tempo e de circunstância. Uns tinham ido para a guerrilha contra a administração portuguesa - de Savimbi a Ndalu, de N'zau Puna a Samuel Chiwale ou a Pepetela -, enquanto outros, a maioria dos jovens quadros da UNITA do Planalto e uma parte dos quadros militares das FAA, tinham feito a tropa no exército português.
Num e noutro lado havia os corajosos, os coerentes, os decentes, os cultos, os sensíveis, os que viam os inimigos como seres humanos separados pela História e pelas conjunturas, e os oportunistas, os cínicos, os mal-formados, os facciosos, os brutos, os racistas, os pregadores do extermínio dos contrários, sempre sectários e guiados por um único fito - sobreviver, subir, enriquecer, estar no momento certo no lado da vitória. A todo o custo."

Com Chissano em Moçambique
O general João de Matos dera-me um contacto para um elemento da Inteligência militar moçambicana, o coronel Estanislau Fidelis de Sousa. Fidelis era de uma família de cristãos de Goa (Moçambique, na organização administrativa do império português, foi muitos anos governado a partir de Goa) e era um homem cortês, que se mexia bem na nomenklatura local, com fácil acesso bem acima. Através dele combinei um encontro com o Presidente da República Joaquim Chissano.
Eu sabia que Chissano sabia do meu envolvimento na política moçambicana e do meu papel junto de Dhlakama e da RENAMO, mas não estava bem certo se os relatos eram fidedignos e até que ponto. O coronel Fidelis preparou o encontro e, nas vésperas do regresso a Lisboa, num sábado ao meio-dia, enfiei o meu fato azul de riscas, próprio para chefes de Estado, ministros e presidentes de Bancos.
Chissano recebeu-me pontualissimamente, ao meio-dia e dois minutos, no jardim do seu gabinete da Presidência, na Julius Nyerere, ao lado do Polana. Foi uma conversa franca e descontraída. Detivemo-nos - é sempre uma conversa recorrente com moçambicanos - na comparação do processo de Moçambique com o processo angolano e eu, a este propósito, disse-lhe: "Presidente, o Senhor tem a sorte de ter um líder da oposição que leva a sério o seu papel e que gosta de ser líder da oposição. É uma sorte e deve tratá-lo bem, com respeito, sobretudo com respeito!"
Referia-me às queixas recebidas dos meus amigos da RENAMO e do próprio Dhlakama sobre as dificuldades financeiras do partido, e uma certa exclusão em que se encontravam os seus membros mais destacados em relação a benefícios económicos e a estatuto social. O Raul Domingos chegara a falar -me uma vez para saber se seria possível arranjar em Portugal uma linha de crédito para os deputados da RENAMO poderem comprar automóveis. Eu dissera-lhe que me parecia muito complicado, ou melhor, muito difícil.
"É que o Doutor Nogueira Pinto compreende, em Moçambique, sobretudo nas províncias, o povo vê os chefes e deputados da FRELIMO nos seus carros privados… e os deputados da RENAMO no machimbombo. E não nos levam a sério! Dizem: 'Você não é mesmo deputado! Deputado tem carro, não anda de machimbombo!'"
Assim, e embora subsistissem alguns problemas e também alguns rancores e desconfianças do tempo da guerra civil, a verdade é que, seis anos depois dos Acordos de Paz de Roma e quatro anos depois das primeiras eleições multipartidárias, a paz e a reconciliação nacional eram uma realidade. Isto alegrava-me especialmente, pois apesar de ter sido um processo em que despendera menos tempo, esforço e recursos do que em Angola, tivera nele uma maior autonomia e influência, já que os grandes deste mundo - e particularmente os do mundo paralelo dos "arranjos" e "canalizações" - tinham estado ausentes e o processo fora mais livre."

The Portuguese Discoverers (XXV)

The Portuguese Discoverers (XXV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 28/11/08

Prince Henry's caravel was specially designed for these explorer's needs. He found some clues in the caravos, ships used by Arabs since ancient times off the Egyptian and Tunisian coasts, modeled on the still more ancient fishing vessels that the Greeks had made of rushes and hide. These dhows, rigged with "lateen", slanting ant triangular sails, carried Arab crews of as many as thirty, in addition to seventy horses. A similar smaller, even more maneuverable vessel, called the caravela (-ela = diminutive) was in use on the Douro River in northern Portugal. Prince Henry's shipbuilders produced the famous caravel, which combined some of the cargo-carrying features of the Arab caravos with the maneuverability of the Douro River caravelas.

These remarkable little vessels were large enough to hold an explorer's supplies for a small crew of about twenty, who usually slept on deck but in bad weather went below. The caravel displaced about fifty tons, was about seventy feet in length and about twenty-five feet in the beam, and carried two or three lateen sail. "The best ships that sailed the seas" was what Alvise da Cadamosto (1432?-1511), the experienced Venetian mariner, called the caravels in 1456 after his African voyage in a caravel organized by Prince Henry. The caravel became the discoverer's standard ship. Columbus' three ships – the Santa Maria, The Pinta, and the Niña – were all of caravel design, and the Santa Maria was only one-fifth as big as the large Venetian square-riggers of his day. The caravel proved that bigger was not always better. […]

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

FEIRA INTERNACIONAL DE MINERAIS, GEMAS E FÓSSEIS

FEIRA INTERNACIONAL DE MINERAIS, GEMAS E FÓSSEIS

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 27/11/08
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O GOSTO PELOS MINERAIS e pelos fósseis pode nascer na escola, no seio da família, num passeio pelo campo ou numa visita a um museu. Esse gosto resulta quase sempre da atracção despertada, quer pelas formas cristalinas dos minerais, suas cores e brilhos, quer pela grande beleza das muitas variedades de restos de seres vivos petrificados. Dessa atracção nasce, por vezes, o interesse em saber-se algo mais acerca deles: nome, composição, origem, utilidade.
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Como testemunhos da longa história da Terra e à semelhança de um qualquer documento, as rochas podem ser lidas. E entre as letras que permitem essa leitura estão os minerais e os fósseis. Decifrar a história do nosso planeta passa, pois, por conhecer os minerais e os fósseis. Mas estes objectos naturais valem também por si. Sobre os minerais assentou a vida económica de todos os tempos. Eles estiveram e estão no nosso quotidiano, dos utensílios de sílex dos nossos mais primitivos antepassados, aos minérios de cobre e de estanho da idade do bronze, aos de nióbio e de titânio das naves espaciais, ao quartzo do relógio que trazemos no pulso. Grande parte dos objectos que nos rodeiam tem nos minerais a principal matéria-prima. Da mais rudimentar ferramenta ao bisturi do cirurgião, da pulseira de pechisbeque à tiara de diamantes, dos tijolos secos ao sol, ao betão, alumínio e vidro dos arranha-céus da sociedade de consumo, toda a civilização assentou e assenta no conhecimento dos minerais. Por seu lado, os fósseis mostram-nos muitos dos elos da cadeia evolutiva dos nossos antepassados, desde os mais próximos primatas aos mais recuados vertebrados marinhos, passando pelos dinossáurios e por uma infinidade de invertebrados, de vegetais e até de bactérias.
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Muitos são hoje, entre nós, os profissionais e os amadores-coleccionadores atraídos pelas respectivas disciplinas, na sequência de uma visita a uma Feira de Minerais, como as que têm tido lugar, ininterruptamente, no Museu Nacional de História Natural da Universidade de Lisboa, desde 1989, ano do primeiro deste tipo de certames realizado em Portugal. Imediatamente aceite por um largo sector da população, esta importante manifestação cultural criou e desenvolveu uma clientela de onde saíram e continuam a sair coleccionadores e amadores, em número considerável, além de que despertou vocações para licenciaturas na área das Ciências da Terra. É reconfortante sentir o pulsar da grande sala repleta de crianças e adolescentes e, ainda mais, ver chegar-nos aqui um estudante universitário ou um jovem licenciado e dizer-nos, feliz: «Sabe, foi aqui que me decidi pela licenciatura em Geologia».
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A Feira Internacional de Minerais Gemas e Fósseis de Lisboa, este ano na sua 22ªedição, dedicada aos minerais fluorescentes, vai ter lugar entre 5 e 8 de Dezembro próximo, esperando-se um número de visitantes próximo da dezena de milhar, na confirmação da linha ascensional que tem caracterizado a sua história. O gosto pelos minerais e pelos fósseis instalou-se em Portugal e, tanto assim é, que este certame já se realiza, com regularidade anual, no Porto, em Coimbra e em Oeiras, tendo-se repetido, esporadicamente, em Aveiro, Angra do Heroísmo, Braga, Évora, Ponta Delgada, Vila Real e este ano, pela primeira vez, em Mangualde.
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Ao publicitar esta que vai ser mais uma festa da Mineralogia e da Paleontologia, na cidade de Lisboa, desejo evocar a memória de Luís Teixeira Leite, mineralogista amador e coleccionador, cuja excepcional competência e qualidades humanas foram decisivas para introduzir em Portugal este tipo de certames. Bem relacionado com profissionais, universidades e museus dos quatro cantos do mundo, o desaparecimento precoce deste nosso amigo e colaborador, ocorrido vai para treze anos, constitui, para nós, uma perda irreparável, particularmente sentida nesta época.

Há 95 milhões de anos, na região de Carenque

Há 95 milhões de anos, na região de Carenque

via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 24/11/08
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HÁ CERCA DE 95 MILHÕES DE ANOS, no Cretácico, esta região e, como ela, parte da actual Estremadura, era baixa, ribeirinha, plana e alagadiça, numa transição do meio continental para o marinho. O clima era quente e húmido e a vegetação abundante. O oceano Atlântico não tinha ainda, na sua progressão de abertura para norte, separado suficientemente os continentes norte-americano e euro-asiático, havendo, sim, no que é hoje a orla ocidental de Portugal, uma penetração do mar limitado, a Oeste, por terras actualmente do lado de lá do Atlântico, na Terra Nova e no Labrador, e a Leste, pelo bordo ocidental da Ibéria. É nesta espécie de estreito e extenso golfo que se passa grande parte da história geológica desta orla onde, 15 milhões de anos mais tarde, começou a formar-se a Serra de Sintra.
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Ao deslocarem-se nas margens dos rios, lagos ou lagunas litorais, os animais deixaram impressas as suas pegadas no chão húmido, ou mesmo na vasa do fundo de zonas pantanosas. Esses sedimentos, ao secarem, e sempre que o acaso permitiu a sua cobertura por novos depósitos, ficaram protegidos e, com eles, as pegadas. A evolução geológica da região conduziu a que estas ficassem sob grande espessura de sedimentos marinhos, testemunhos da invasão pelo mar durante mais alguns milhões de anos, sedimentos que se transformaram em calcário ao longo do tempo, através de processos lentos e complexos que nos permitem reconstituir essa evolução. As pegadas de Carenque foram deixadas sobre terrenos planos, horizontais e sub-horizontais e, se hoje as encontramos numa superfície inclinada é, tão-só e apenas, porque esses terrenos foram deslocados da sua posição inicial, aquando da elevação do maciço de Sintra. Estas marcas, postas a descoberto pelo trabalho de lavra da pedreira, têm o valor de fósseis com o maior interesse na pesquisa da referida história geológica, informando-nos ainda sobre o paleoambiente preferido pelos animais que as deixaram. É esta a história do nosso velho passado que se pode ler e contar na importante jazida de Pego Longo. Foi este capítulo da caminhada do "planeta azul" que esteve prestes a perder-se em nome do "progresso" e que, os media, a opinião pública e o bom senso acabaram por salvar. Falta, no entanto, colocar este património ao serviço do ensino, da cultura e, também, certamente, do turismo.
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O projecto do "Museu e Centro de Interpretação de Pego Longo" (Carenque), da autoria do Arquitecto Mário Moutinho, apresentado à Câmara Municipal de Sintra em 1997, aprovado por esta Autarquia em 2001, e ali esquecido, há já sete anos, numa qualquer gaveta, caracteriza-se por um conjunto de equipamentos do maior interesse.
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O pegarium é uma estrutura leve, transparente, de metal e vidro, cobrindo as pegadas a fim de as resguardar das intempéries.
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O edifício principal dispõe de um auditório, de salas de exposições temporárias e de outras dependências adequadas a este tipo de equipamentos.
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O poço, escavado na rocha, sob o edifício principal, é uma escadaria em espiral que permitirá a observação directa dos aspectos litológicos, paleontológicos e estruturais do substrato local. Ao descê-lo, o visitante vai observando camadas sedimentares sucessivamente mais antigas, ou seja, vai recuando no tempo até à época dos dinossáurios que aqui viveram.
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O jardim dos minerais e rochas é um espaço ao ar livre destinado a mostrar as rochas e os minerais da região, com relevo especial dado à Serra de Sintra, e explicar a evolução geológica desta parcela do território.
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O jardim do Cretácico constituirá um mostruário das espécies botânicas vindas desse tempo, complementado com réplicas de dinossáurios e de outros animais seus contemporâneos.
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Numa época em que o turismo de natureza cresce significativamente por todo o mundo, o potencial desta jazida, como pólo de atracção para este tipo de actividade económica, é grande e é maior, ainda, se tivermos em conta a sua situação privilegiada às portas de Lisboa, numa região tão procurada como é a do grande concelho de Sintra, representando para Portugal uma significativa mais valia. Assim o demonstram outros equipamentos congéneres existentes em países que já despertaram para o significado do património natural, num mundo tornado pequeno pelos progressos ao nível dos transportes e das comunicações.

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«Jornal de Sintra», de 14 de Novembro de 2008
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NOTA: O autor também é 'contribuidor' do blogue Sorumbático

The Portuguese Discoverers (XXIV)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 27/11/08

At Sagres and at the nearby port of Lagos, experiments in shipbuilding produced a new type of ship without which Prince Henry's exploring expeditions and the great seafaring adventures of the next century would not have been possible. The caravel was a ship specially designed to bring explorers back. The familiar heavy, square-rigged barca or the still larger Venetian carrack was suited for sailing with the wind. These worked well enough within the Mediterranean, where the size of a trading vessel was a measure of its profit, and by 1450 there were Venetian square-riggers of six hundred tons or more. A larger ship meant a bigger profit from more cargo.

A discovery ship had its own special problems. It was not a cargo-vessel, it had to go long distances in unfamiliar waters and had to be able, if necessary, to sail into the wind. An exploring ship was no good unless it could get there and back. Its important cargo was news, which could be carried in a small parcel, even in the mind of one man, but which was definitely a return product, While discovery ships did not need to be big, they had to be maneuverable, and adept at the return. […]

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Raul Proença e Jaime Cortesão sobre o 19 de Outubro de 1921

Raul Proença e Jaime Cortesão sobre o 19 de Outubro de 1921

via Centenário da República de libnitz@hotmail.com (Rui Monteiro) em 26/11/08
Raul Proença e Jaime Cortesão sobre o 19 de Outubro de 1921

Estes dois textos a seguir apresentados são reveladores das contradições dos seareiros. Por um lado, simpatizavam com o movimento, «por melhores que sejam as intenções dos seus dirigentes», por outro lado ficaram estupefactos de horror perante o seu desfecho. Mas mesmo na descrição dos horrores, Cortesão, aliás então bastante próximo dos anarquistas, escreve: «Os crimes da noite de 19 de Outubro, que vitimaram desde um presidente de ministério a um operário». Um 1º Ministro, e os outros altos dirigentes, não eram vítimas suficientes para tamanha repulsa. Era importante acrescentar ... «um operário».

Simultaneamente o disparar em todas as direcções, meter no mesmo saco tudo e todos, só servia (e serve) para branquear as verdadeiras causas, cujo enunciado todos temiam, pois todos estavam, quer directa, quer indirectamente, implicados.

Os Últimos Acontecimentos

Mais uma vez a mais perigosa das utopias levou este país à epilepsia da desordem, já o tínhamos previsto. Nem foi surpresa para ninguém. Desta vez, porém, a impotência do movimento revolucionário revelou-se tão formidável, que eu julgo-o de incontestável beneficio educativo para o país. Ele lançou talvez o definitivo descrédito sobre o processo. Pôs a claro as ilusões que o determinaram, as mentiras em que se baseia, as consequências que traz consigo. E' um processo em franca liquidação Não cremos que ele possa tornar a arrastar grandes massas de homens; e aos que nos perguntavam no dia seguinte à revolução se ela tinha sido o triunfo da Seara Nova, nós poderíamos ter respondido que sim: pois que contribuirá, mais do que nenhuma outra, para demonstrar que só uma profunda acção educativa e social poderá trazer a este povo os benefícios que ela até agora tem esperado do motim e das revoluções improvisadas. A tese da Seara Nova recebeu mais uma confirmação. A gravidade dos factos compreendemo-la, mas não nos deixamos vencer por ela. Não cremos que seja este o último dia da nossa vida, e o dia de amanhã só tem— quem sabe?—que lucrar com as tristezas e as misérias do dia de ontem. Aprenderemos, fatalmente teremos que chegar a aprender à custa dos nossos desatinos e do nosso sangue. Experiência dolorosa, trágica, mas nem por isso menos salutar e necessária.
Não duvidamos das boas intenções dos organizadores do movimento revolucionário que acabou de se produzir. Simpatizamos com muitas das ideias do seu programa. Coincide em muitos pontos com a nossa a sua orientação política Não podemos deixar de reconhecer a nobre e dolorosa verdade que há na sua condenação de todo o passado da Republica. Mas já no primeiro numero da nossa revista afirmámos duma maneira categórica que «todos os processos de assalto revolucionário, em que o poder é tomado por surpresa, Sem o esclarecimento prévio do país sobre as intenções dos seus dirigentes, só poderão esperar da nossa parte, e sejam quais forem os princípios de que pretendam inspirar-se, a mais formal e indignada condenação »
Não temos de alterar uma só palavra ás afirmações que fizemos. Continuamos a acreditar que o país só poderá salvar-se depois duma profunda conversão das consciências, duma renovação da mentalidade, dum vasto movimento democrático em que todas as soluções sejam debatidas, esclarecidas e vulgarizadas; numa palavra, depois que se conquiste para um dado plano de reformação uma opinião publica perfeitamente consciente de si mesma, que permita a solução viável e segura de todos os problemas, sem receio de que, dum momento para o outro, falte aos «salvadores» a base da sua acção política. Continuamos a julgar que é um crime decidir da surte do país sem o país ser esclarecido e consultado Continuamos a rotular de «môsco» político o sistema que consiste em abrir as portas do Terreiro do Paço, na calada da noite, pela gazua das revoluções. Queremos fazer a revolução que pregamos à luz do dia, por processos enérgicos, mas pacíficos, em que toda a consciência nacional colabore, e não admitimos nela os criminais-natos que buscam nos movimentos revolucionários uma derivante aos seus instintos antisociais e a satisfação das suas perversas tendências destruidoras.
E a verdade é que, quando um movimento sedicional se produz nas circunstancias do actual, por melhores que sejam as intenções dos seus dirigentes, a baixa vasa humana dos sectários acha neles ocasião asada para exercer os seus instintos de morte e de rapina. Uma meia dúzia de homens caiu varada pelas balas dos assassinos. Prosternemo-nos perante os seus cadáveres. Choremos sobre todos eles as desditas da Pátria. Não perguntemos qual foi a sua política, quais os! seus erros, e os seus nomes Não nos atrevamos sequer a fazer distinções. Foram homens que caíram, vitimas dos erros e dos crimes de nós todos --dos deles próprios também. Vitimas de tudo o que fizemos e do que não fizemos; do que dissemos e do que calámos; do que praticámos e do que consentimos; do nosso egoísmo e do nosso silencio; da ignorância profunda em que deixámos o povo; da nossa falta de ideal, de espírito democrático e visão total das realidades. O sangue dos que caíram deve tingir as mãos de nós todos; e a sua ultima agonia devemos senti-la todos na garganta.
Nos lamentáveis sucessos cabe grande parte de responsabilidade aos dirigentes da Revolução. Porque o mais grave do caso é que podem não ter sido propriamente uns facínoras os homens que mataram António Granjo. Soldados broncos, sem nenhuma espécie de cultura, sem a menor noção das questões políticas e do grau de responsabilidade dos políticos nas desgraças nacionais, talvez julgassem que, se estavam empenhados, eles, soldados da Ordem, em fazer uma revolução contra o governo dum determinado homem, é porque esse homem era um criminoso culpado dos delitos mais graves. Exercendo esse selvagem morticínio, porventura eles teriam julgado praticar um acto de justiça sumaria. Dura e tremenda lição para os que, de aqui em diante, se lancem em movimentos revolucionários que podem armar, como este, os braços dos assassinos - dos que matam pelo prazer de matar ou pelo desejo de desforra, ou dos que assim praticam por considerarem tais actos perfeitamente justificados dentro da lógica e da moral revolucionarias.
O que vai sair de aqui? Quem é bastante estulto para esperar a salvação? Quem acredita ainda nas fraudes revolucionarias? Quem esperará ver nos ministérios que imediatamente se seguirem outra coisa que não sejam ministérios de simples expediente administrativo? E isto quando a força das coisas e a própria lógica das circunstancias nos não levarem para uma ditadura militar, com toda a opressão do sistema militar, e o predomínio dos interesses militares.
Nós, que fizemos o voto de dizer toda a verdade, e de conservar sempre acesa a sua chama luminosa, levantamos a nossa voz de protesto e acusação. Acusamos os de ontem e os de hoje. Os que já fizeram o mesmo e agora condenam nos outros, e os que, para corrigir os erros passados, começam por seguir os métodos do passado. Acusamos os partidos da oposição que conheciam o que se ia passar, e nada fizeram para evitar a catástrofe. Acusamos os que fomentaram todas as desordens, os que fizeram silencio sobre todos os desvarios demagógicos (Afonso, Sidónio e tantos outros), que não tiveram uma palavra de condenação e de proscrição para os miseráveis que, dizendo-se seus partidários, desmentiam todos os sentimentos da humanidade. Acusamos os potentados da finança, os últimos dos pervertidos morais (exploradores, especuladores, açambarcadores, falsificadores, inimigos do Povo, criminosos sacrílegos) que vivem de sugar todo o sangue da nação pelas ventosas da sua ambição desmedida. Acusamo-nos a nós próprios por só agora termos tido este grito, por só agora jogarmos a bem da nação o nosso próprio destino.
Desanimamos definitivamente? Não, cremos ainda. E sobretudo cremos na mocidade, que nós subtrairemos ás ilusões sub-humanas do snobismo, por ser ela aquela parte da nação que melhor pode compreender o nosso gesto e as nossas palavras, por não ter feito ainda do coração a lama asquerosa onde vegetam os baixos sentimentos do egoísmo e da rapina. Compete à mocidade portuguesa o destino mais belo do mundo: fazer duma nação vergonhosa, presa ao vilipêndio de todas as nações, uma nação humana e digna, capaz de se instituir em exemplo de virtude e de trabalho. Que a mocidade responda ao nosso apelo; siga o nosso exemplo; diga como nós: Basta! E como nós se lance na grande aventura de dar à Pátria a salvação. Só assim o sangue dos mortos fecundará a terra em que que nascemos!
20-Outubro-1921. R. P.

Em aditamento ao seu artigo «Crise Nacional» Jaime Cortesão escreveu:

Nota.—Tínhamos escrito estas palavras, antes dos últimos acontecimentos revolucionários. Não temos que alterar uma única. Ao contrario, aqueles factos vieram confirmar e agravar muitas das nossas afirmações. Cremos, ao invés dos dirigentes revolucionários, que a crise nacional se agravou temerosamente nestes dias. A boa vontade dos homens não pode modificar dum dia para o outro os vícios e defeitos, que representam a obra e a infiltração dos anos ou dos séculos.
Referimo-nos atrás ao desfecho que a crise nacional fatalmente há de ter, se a tempo não nos emendarmos:—«depois dalguns dias de desordem sanguinária, em que todos, todos temos a perder, a tutela estrangeira, clara ou disfarçada». Não estávamos, todavia, convencidos que os factos viessem confirmar tão completa mente essas palavras. Os crimes da noite de 19 de Outubro, que vitimaram desde um presidente de ministério a um operário, seguidos dos «desejos» do corpo diplomático devem bastar como sinal e amostra, para convencer os mais incrédulos da inadiável urgência de mudar inteiramente de caminho.
JAIME CORTEZÃO

A Seara Nova e o 19 de Outubro

via Centenário da República de libnitz@hotmail.com (Rui Monteiro) em 26/11/08
A Seara Nova e o 19 de Outubro

O nº2 da Seara Nova saiu a 5 de Novembro e trazia, sobre a noite sangrenta, um artigo de Raul Proença e uma adenda de Jaime Cortesão a um artigo seu (A Crise Nacional), que apresentamos noutro local .
A Seara Nova apresentou-se sempre como a opinião daqueles que queriam ter uma opinião que não fosse apenas um interesse camuflado. Para ela o país era um lamaçal de corrupção, a grande imprensa como o Diário de Notícias e O Século, apenas servia a oligarquia financeira e o resto dos jornais era um mero instrumento de partidos comprometidos na corrupção.
Os seareiros seriam a revolta dos intelectuais de esquerda contra o regime. Mas intelectuais de diversos quadrantes também desprezavam o regime republicano. Curiosamente, e apesar da polémica de Raul Proença contra o Integralismo Lusitano, em Dezembro de 1923 apareceu a Revista dos Homens Livres que congregava seareiros (António Sérgio, Raul Proença e Jaime Cortesão), integralistas (António Sardinha e Pequito Rebelo), o monárquico conservador Carlos Malheiro Dias, o ex-franquista Agostinho de Campos, o sebastianista Afonso Lopes Vieira (que pretendia «aportuguesar» Portugal) e muitos outros, numa miscelânea heteróclita, todos unidos contra «a finança e os partidos».
António Sérgio, ao escrever nessa revista, na nota de abertura, propunha a procura «duma ideia nacional, de uma finalidade portuguesa, anterior e superior às finalidades partidárias». Numa tentativa de justificar a união de todos aqueles intelectuais de tão diferentes e opostos quadrantes, acrescentava que «a grande linha divisória, nestes nossos dias, não é a que separa as direitas das esquerdas; é, sim, a que distingue [...] os homens do século XX dos homens do século XIX». A «nação», entidade que Sérgio define como um fim e não como uma realidade existente, deveria ser o quadro desta confluência de opiniões. Nenhuma destas opiniões diferencia António Sérgio de intelectuais de direita, ou mesmo fascistas, que emitiam então opiniões semelhantes.
Mais tarde, na revista Lusitânia (1924-1927), dirigida pela figura prestigiada e consensual de Carolina Michaëlis de Vasconcelos, seareiros e integralistas voltaram a colaborar nesse mesmo objectivo de «enquadrar-se no grande movimento de recriação do espírito da pátria».
Quando toda a elite cultural de um país, da direita à esquerda, se une contra um regime, que despreza, há certamente algo de muito errado e muito maléfico nesse regime.
É certo que um seareiro, António Sérgio, foi tentado pelo poder, e chefiou o Ministério da Instrução no governo de Álvaro de Castro, a partir de Dezembro de 1923, experiência que, aliás, só durou dois meses. A Seara Nova prometeu então manter no Governo «a nossa atitude da oposição». Ora esta é uma posição absurda. Não é possível, nem sério, estar num governo e ser simultaneamente opositor desse governo. Governar obriga a concessões, mas os seareiros que detinham, segundo eles, o monopólio da razão não eram adequados a quaisquer concessões. Na maioria dos casos estariam eventualmente certos, como a tentativa de António Sérgio em obrigar a que os funcionários do seu ministério cumprissem os horários, medida que foi altamente impopular e polémica (!?). Aliás o governo caiu sob a ameaça de greves do funcionalismo.
Depois da implantação do salazarismo, a Seara Nova, e os líderes republicanos, em Portugal e no exílio, dedicaram-se à piedosa tarefa de branquearem a 1ª República. Os motivos podem concitar muita simpatia. Lutava-se contra a Ditadura e os seus opositores sentiam-se na obrigação de defender o regime da 1ª República que era o que tinham de palpável, o único exemplo nacional que poderiam opor ao regime ditatorial. Mas o facto é que esse branqueamento era falso e era uma mistificação histórica. A 1ª República havia concitado contra ela todas as forças do país. Os últimos líderes republicanos, principalmente António Maria da Silva, eram unanimemente execrados pela sua baixa estatura ética, caciquismo eleitoral, corrupção, etc.. A 1ª República caiu e afundou-se no mar de lama que ela mesmo tinha produzido.
Condenada por todos, a 1ª República cairia sempre e em qualquer circunstância. Todos, desde a Seara Nova à Cruzada Nun'Álvares pediam a Ditadura. Não se referiam, certamente, ao mesmo tipo de Ditadura. Mas quando ela apareceu, começou por ser uma ditadura de republicanos moderados (Mendes Cabeçadas) para rapidamente passar para as mãos da direita e depois de Salazar.

Fonte : http://semiramis.weblog.com.pt/arquivo/historia_de_portugal/

«As origens de Portugal»

via Caminhos da Memória de Caminhos da Memória em 26/11/08
Um texto de Maria João M. Pires (*) Originalmente publicado em Jugular O dia 24 de Novembro é, em Portugal, o Dia Nacional da Cultura Cientifíca. A escolha da data é simples de explicar, foi nesse dia que nasceu Rómulo de Carvalho. Ao contrário de outros, de cada vez que ouço falar dele a primeira coisa em [...]

Não se avança amaldiçoando o passado!

via Folhas de História de História - Mestra da Vida em 26/11/08
É irresponsável e pouco digno de adultos lançar todas as culpas sobre o passado! Também não prestigia democracia contar os individuos somente na altura das eleições! É o que escreve Teotonio R. de Souza na sua coluna quinzenal no Heraldo de hoje. Este foi o primeiro diário publicado nas colónias portuguesas, e mantem o grafismo original [...]

Fonte: Herald - 26Nov2008

The Portuguese Discoverers (XXIII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 25/11/08

To Sagres came sailors, travelers, and savants from all over, each adding some new fragment of fact or some new avenue to facts. Besides Jews, there were Muslims and Arabs, Italians from Genoa and Venice, Germans and Scandinavians, and, as exploring advanced, tribesmen from the west coast of Africa. At Sagres, too, were manuscript records of the great travelers that Prince Henry's brother Pedro had collected during his grand tour (1419-1428) of the European courts. In Venice Pedro had received a copy of Marco Polo's travels along with a map "which had all the parts of the earth described, whereby Prince Henry was much furthered."

With these facts came the latest navigating instruments and newest navigating techniques. The mariner's compass was already well known, but its use was still haunted by superstitious fears of its occult power, believed to be akin to necromancy. Only a century before, tricks such as those performed with the lodestone had got Roger Bacon in trouble. At Sagres the compass, like other instruments, was tested only by whether it helped the mariner reach out farther and then find his way home. […]

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Hortas de Moçâmedes

Hortas de Moçâmedes

via GENTE DO MEU TEMPO. de princesadonamibe em 26/11/08









Grupo de jovens estudantes, nos finais da década de 60 divertindo-se numa tarde de domingo nas Hortas. Entre eles, reconheço, à esq. Cidália Calão (1ª à esq.) e Miguel (Miguelito, o 4º à esq.. falecido ainda jovem), irmão de Fernanda Barata (Porto Alexandre/Moçâmedes).

Como referi atrás, um passeio às Hortas de Moçâmedes era sempre uma diversão. Dançava-se, cantava-se , tocava-se, conversava-se, namorava-se, faziam-se piqueniques, almoçava-se, comiam-se saborosos frutos acabadinhos de retirar das árvores, mangas, goiabas, uvas, etc. etc. Não reconheço esta Horta, se era a do Torres, se a do Benfica ou a do Quipola, ambas do Venâncio Guimarães ou de outro proprietário, nem se era na margem de cá ou ma margem de lá do rio Bero. Ainda que na década de 60 já não fossem tão religiosamente cumpridos como eram dantes, estes passeios ainda se faziam de quando em quando, talvez por gente mais nova como é o caso deste grupo de estudantes que vemos aqui.
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Mas falar das «Hortas» de Moçâmedes é muito mais do que falar destes usos e costumes tão gratificantes para as gentes do Namibe. É falar da sua história, é falar, por ex. da sua flora...

Por tal, transcrevo aqui parte de um texto retirado do livro de um conterrâneo nosso, nessa matéria muito mais conhecedor que eu:

...«O distrito de Moçâmedes possuía uma rica flora nas terras humosas das margens do Bero e do Giraul: leguminosas, figos roxos, variadas árvores de fruto, videiras, oliveiras, tamarindeiros, goiabeiras, tangerineiras, mulembas ou figueiras, etc. Era contudo nas margens do rio São Nicolau, especiamente na margem esq., que se cultivaram as melhores àrvores de fruto de todo o sul do distrito. Na margem esq., eram os mamoeiros, os diospirios, as bananeiras ,as nespera-cereja-dendém, o palmeira de óleo palma., et., etc. A razão é que na margem esq., dada a inclinação do terreno e à presença de uma lage cerca 5 km , há curso de àgua permanente e à dt. apenas por infiltração.

Na margem esq., o 1º colono aí se instalou foi o bacharel em medicina J. Duarte de Almeida tendo bastado construir uma vala para apoveitamento água do rio ao longo do qual instalou comportas que forneciam água necessária ao regadio das suas culturas agrícolas. Na margem dt., foi necessário a Serafim Nunes de Figueiredo, accionista da Companhia de Moçãmedes, proprietária da fazenda, abrir uns quantos poços para obter água que entretanto desaparecia tendo que a aguardar de novo por infiltração que as águas voltassem a ter o nível estático dos poços. Também a terramargem dt. necessitava de mais qualidade de matéria orgânica e adubos químicos, e até os próprios animais diferenciavam o seu aspecto, porquanto nas margens esq. os corvos eram totalmente negros e menos brilhantes e os da dt. a plumagem era negra, luzidia e com uma gola branca no pescoço. Mesmo as rolas e piriquitos tinham aspecto diferente, côr e tamanho. Havia no distrito 8 exemplares de alfarrobeira cidade a dar fruto e decorar rua cidade entre Administração do Concelho Civil do Concelho e a Escola Portugal e também pitangueiras e tamareiras a embelezar as propriedades e os jardins. Também nas ruas, havia a jubea trazida pelos colonos de Pernambuco, a gravílea ,a acácia, o jacarandá, a ravenela ou árvore dos viajantes, a buganvília as euforbiáceas, os hibiscus e tantas outras. Havia a paleira de leque «Ravenala» (urânia-soberba), que crescem margens Cunene, Cuando e Bero, descoberta em Madagáscar no século xvi e trazida para os jardins de várias cidades mundo…Na província do Namibe espécies herbácias arbustivas e arbóreas começam com a consoante M (um…) Macenda, Mopane, muance, muanda, mubange, mucamba, mucibi, mucongo, mufufuta, muilo-labe, mungo, mungolo, mungondo , mulhambe , munhamde, munquia, mupaco, mupalaia, mupanda, muta, muquequete, murilaonde, mussemba, eram espécies arbóreas para construção civil e marcenaria. Mililampepo, muije, mijinque, mulambe, mulelame, mujongue, mulemba, muleu, mulucolo, mulumba, mumbula muriomuere, munguai, muncurio, mumo ou mumona, mumbula eram espécies arbóreas destinadas a contrução naval;
Mugongo, monpeque mucuma, muleia muquice, mutaku mutia e mutundo, eram espécies arbóreas tintureiras e também cosmética e para fins medicinais; Mucuio, mufufuta, muhi-hi, mupanda mutiati e mutungo eram espécies arbóreas destinadas obtenção carvão; Maboque mamoeiro manga, matambote m'noxa; Muchieia, muco, mucuri, mucuriungo, muemba, mugumbire, muamuia, muilo, mujinque, mujoroso, mulemba, mulolo, mulondo, mulungo, mubé, mumbimba, muno ou muambo, munguengue, munhande, musa, mutunda ou cangagulu, eram espécies arbóreas de fruto comestível;In Memórias de Angra do Negro- Moçâmedes, de António A. M. Cristão
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Nota: O Mu que antecipa sempreDi as palavras significa neste dialecto: «um»
Frutos de Angola, clicar AQUI
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Sobre a cultura do algodão e da cana de açucar levadas para os vales do Giraúl, do Bero e do Curoca pelos primeiros colonos idos do Brasil, diz-nos um trecho do livro «O Distrito de Moçâmedes» da autoria do moçamedense Dr.Manuel Júlio de Mendonça Torres o seguinte: ...«a cultura da preciosa malvácea, iniciada pelos colonos de 49 e 50 assumira no sul de Angola um tão acentuado desenovimento que o porto de Moçâmedes chegou a ser, de todos os portos da província, aquele por onde se vazia maior exportação de algodão. E a cultura da cana, tentada siultaneamente no distrito, merecera, de igual modo, po suas vantagens económicas, vigilantes cuidados aos antigos colonos, que vieram medrar, com natural pujança,Giraúl, do nos vales do Bero e do Curoca, a conhecida gramínea.»

O último quartel do século XIX foi pois um periodo florescente da agricultura distrital, agricultura que em determinada época atingiu um determinado grau de prosperidade, e que foi, a par da industria piscatória levada pelos algavios, o motor de arranque da economia do distrito.

Diz-nos ainda o Dr.Manuel Júlio de Mendonça Torres: «...a quebrar a monotonia do deserto, estadeavam-se, então, luxuriantes, pitorescos, os deliciosos oásis, cheios de sombra e de frescura, formados nas margens dos rios e nas abas da Chela, riquíssimos em húmus, onde os antigos colonos ensaiaram, com sucesso, além das culturas do algodão a cultura de açucar postos em aspa; ...»

Aliás, os dois emblemas expressivos do Brazão de Armas do Município de Moçâmedes, concedido à Câmara Mnicipalde Moçâmedes por Decreto de 29 de Mao de 1891 eram um ramo de algodoeiro e uma cana de açúçar. A cultura da preciosa malvácea, iniciada, e da cana, as das plantas hortenses e as das árvores frutíferas.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XXII)

The Portuguese Discoverers (XXII)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 25/11/08

Prince Henry, for all these reasons, made Sagres a center for cartography, for navigation, and for shipbuilding. He knew that the unknown could be discovered only by clearly marking the boundaries of the known. This meant, of course, junking the caricatures drawn by Christian geographers and replacing them with cautious, piecemeal maps. And this required an incremental approach.

In the spirit of the portolanos, the coast pilots, he accumulated the bits of many mariner's experiences to fill out an unknown coast. The Jews, wherever they were, had long since become powerful cultural ambassadors and cosmopolitanizers. The Catalan Jew from Majorca, Jehuda Cresques, son of the cartographer Abraham Cesques, whom we have already met, was brought to Sagres, where he supervised the piecing together of the geographic facts brought back by Prince Henry's seafaring explorers. […]

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XXI)

The Portuguese Discoverers (XXI)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 24/11/08

The visitor to Portugal today can see a lighthouse on the ruins of the fortress that Prince Henry made his headquarters for forty years. There Prince Henry initiated, organized, and commanded expeditions, on the frontier of mystery. In the first modern enterprise of exploring, from that spot he sent out an unbroken series of voyages into the unknown. Today's visitor to the harsh inhospitable cliffs of Sagres senses the appeal that place must have had for an ascetic prince who wanted to separate himself from the formalities of an effete court.

At Sagres Prince Henry became the Navigator. There he applied the zeal and energy of the crusader to the modern exploring enterprise. Prince Henry's court was a primitive Research and Development Laboratory. In the crusader's world the known was dogma ant the unknown was unknowable. But in the explorer's world the unknown was simply the not-yet discovered. And all the trivia of everyday experience could become signposts. […]

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XX)

The Portuguese Discoverers (XX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 20/11/08

But still the crusader, he organized a Portuguese fleet and declared his intention to capture Gibraltar from the infidels. When King John forbade that expedition after it was already underway, Prince Henry returned home sulking. Instead of joining the court in Lisbon where he would have shared the burdens of royal government, he went far southward through the Algarve to Portugal's Land's End, Cape Saint Vincent, the southwestern tip of Europe.

Ancient geographers had given a mystic significance to that extremity of land, the borderland of the watery unknown. "Sacred Promontory" (Promentorium Sacrum) was what Marinus and Ptolemy had christened it. The Portuguese, translating this into Sagres, made it the name of the nearby village.

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

The Portuguese Discoverers (XIX)

The Portuguese Discoverers (XIX)

via Carreira da Índia de Leonel Vicente em 20/11/08

Prince Henry gathered information about the interior lands from which the treasures of Ceuta had come. He heard tales of a curious trade, "the silent trade", designed for peoples who did not know each other's language. The Muslim caravans that went southward from Morocco across the Atlas Mountains arrived after twenty days at the shores of the Senegal River. There the Moroccan traders laid out separate piles of salt, of beads from Ceutan coral, and cheap manufactured goods. Then they retreated out of sight. The local tribesmen, who lived in the strip mines where they dug their gold, came to the shore and put a heap of gold beside each pile of Moroccan goods. Then they, in turn, went out of view, leaving the Moroccan traders either to take the gold offered for a particular pile or to reduce the pile of their merchandise to suit the offered price in gold. Once again the Moroccan traders withdrew, and the process went on. By this system of commercial etiquette the Moroccans collected their gold. Tales of the bizarre process fired Prince Henry's hopes.

"The Portuguese Discoverers", from "The Discoverers", Daniel J. Boorstin, The National Board for the Celebration of Portuguese Discoveries, Lisbon, 1987

Daniel J. Boorstin - antigo director da Biblioteca do Congresso

(título desconhecido)

via Estado Novo de Abrantes em 13/11/08

PONTE 25 DE ABRIL OU PONTE SALAZAR ?
Leiam e meditem sobre o que o próprio Salazar, na época, pensava sobre o assunto


Já tenho lido algures que existe um número de pessoas a tentar criar uma espécie de petição para que a actual Ponte 25 de Abril volte a chamar-se ponte Salazar.
Não querendo ser "desmancha prazeres", até porque não concordo com a acção nem discordo, apresento aqui o que Salazar pensava sobre o assunto:

O texto é retirado de uma das obras de Franco Nogueira (Expressões de Salazar de Fevereiro a Agosto de 1966)

Na época o estadista disse:

O "essencial, em todo o caso é ter pronta a Ponte".
E o nome?
"Vi num estudo que a Ponte tinha o meu nome. E, isso, não poderá ser, como expliquei ao senhor ministro das Finanças.
Se não há melhor, podemos chamar-lhe Ponte de Lisboa."
A titulo privado, acompanhado por Arantes de Oliveira, Salazar faz uma visita prévia à Ponte. Vê o seu nome escrito em letras de bronze e pergunta: " As letras estão fundidas no bronze ou simplesmente aparafusadas ?". Porque ? " É que se estão fundidas no bloco de bronze vão dar depois muito trabalha a arrancar…"

Afinal, pela própria declaração do Chefe de Estado e nas lápides dos padrões, sempre a Ponte ficou a designada por Ponte Salazar.
"Teimosia do Presidente e do Ministro" , comenta Salazar, "mas é um erro" e explica:
" Acreditem: os nomes de políticos só devem ser dados a monumentos e obras públicas cem ou duzentos anos depois da sua morte. Salvo casos de Chefes de Estado, sobretudo se estes forem reis, porque então se consagra um símbolo da Nação. Mas se se trata de figuras politicas, como é o meu caso, então há que esperar, há que deixar sedimentar, e se ao fim de duzentos anos ainda houver na memória dos homens algum traço do seu nome ou da sua obra, estão até é justo que se lhe preste tal homenagem."
Depois, Salazar aponta o indicador num gesto de quem avisa. "… O meu nome ainda há-de ser retirado da ponte e por causa do que agora se fez, os senhores vão ter problemas". Repete: "os senhores vão ter problemas".

Bem! Isto só de um visionário como foi o Professor Doutor António de Oliveira Salazar.
A simplicidade de um homem na grandeza da obra.
Manuel Abrantes

pimenta na língua

pimenta na língua

via portugal contemporâneo de noreply@blogger.com (Pedro Arroja) em 19/11/08

A censura sempre existiu em Portugal, com excepção de breves períodos que normalmente foram maus para a sociedade portuguesa. Foi o Marquês de Pombal que criou a censura na sua versão moderna e laica, substituindo a Inquisição.

O Estado Novo restaurou a censura depois da desordem cívica e política da I República. Tem-se afirmado que a censura institucional, tal como praticada no regime de Salazar, era dirigida especialmente contra o comunismo. Trata-se apenas de meia verdade. Primeiro, porque a censura estava dirigida a todas as expressões do pensamento político que, na opinião dos governantes, atentassem contra a coesão da sociedade portuguesa, e não exclusivamente contra o comunismo.

Segunda, porque a censura tinha como um dos seus objectivos prioritários, senão mesmo o principal, defender os portugueses contra as agressões praticadas sobre eles pelos próprios portugueses. Salazar tinha vivido o período de "liberdade de expressão" da I República e tinha-se apercebido que, na nossa cultura, a "liberdade de expressão" resultava invariavelmente na opressão da expressão: as pessoas acabavam por se coibir de exprimir em público as suas ideias para evitar os insultos, as calúnias, os boatos e as difamações que são uma marca distintiva e permanente da nossa vida pública sob o regime de "liberdade de expressão". Trata-se de uma versão da chamada Lei de Gresham ("a moeda má expulsa a moeda boa").

Salazar não tinha ilusões a este respeito:

"...Temos agora o aspecto moralizador da censura, a sua intervenção necessária nos ataques pessoais e nos desmandos da linguagem. A nossa Imprensa, que tem melhorado consideravelmente, oferecia-nos, por vezes, nalguns dos seus órgãos, a triste imagem de um saguão: intrigas, insultos, insinuações, pessoalismos, provicianismos, baixa intelectualidade..." (1)

Noutra altura,

"Falando do caso concreto da imprensa portuguesa, acha que o nível desta se não elevou [com a censura] e que não ganhou em correcção e compostura? O que perdeu a essa Imprensa [a da I República]? Os insultos e as baixas expressões? Mas vale a pena verter lágrimas sobre tal prejuízo?". (2)

Na opinião de Salazar - a minha é hoje idêntica - os portugueses tendiam por norma a ser malcriados e soezes uns com os outros em público. A censura visava conter-lhes a má-criação e, em última instância, pôr-lhes pimenta na língua, que é aquilo que ainda hoje muitos portugueses precisam.

(1) António Ferro, Entrevistas a Salazar, Lisboa: Parceria A.M. Pereira, 2007, p. 33.
(2) ibid., p. 159

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Os Diários de N. White-Castle

via Estado Sentido de Samuel de Paiva Pires em 06/10/08

Perdoe-me o Nuno pela ousadia mas a sua modéstia não lhe permite o que a minha admiração e amizade permite naturalmente, ou seja, deixar aqui aos caros amigos bloggers e leitores os links para os 5 posts da série Diários de N. White-Castle que, digo eu, se fossem alargados a um livro em jeito de romance histórico como anda tão em voga, esse constituíria sem dúvida um sucesso de vendas.

Diários de N. White Castle:

2 de Outubro

3 de Outubro

4 de Outubro

5 de Outubro

6 de Outubro

Diário de N. White Castle: 6 de Outubro de 1910, adeus Lisboa

via Estado Sentido de Nuno Castelo-Branco em 07/10/08


Os acontecimentos dos últimos dias forçaram-me a tomar a drástica decisão de anular os restantes compromissos aprazados muito antes do início desta viagem. Era suposto visitar o Porto e as suas adegas, assim como Leixões e uma parte do Minho, onde tenho alguns amigos. Desisto. Tudo o que vi nestas últimas horas é damasiadamente angustiante e digo-o sem pestanejar, fez com que perdesse o respeito por este velho e fiel aliado que tantos serviços prestou à nossa pátria, sem que muitas vezes nós, ingleses, o reconhecêssemos. Agora é tarde, não ajudámos a quem muito devíamos e que neste momento de desgraça, ruma em direcção a Inglaterra, onde esperam encontrar abrigo. Estou certo de que saberemos acolhê-los com a merecida dignidade e que por fim estejam a salvo destes energúmenos que agora em Portugal ditam a sua lei.

Um pouco por todo o lado surgem grupos perfeitamente identificados com o prp e as suas ramificações carbonárias - ou será exactamente o inverso? - que procedem a depredações e violências de todo o tipo, encarniçando-se especialmente contra os edifícios religiosos e a propriedade de alguns destacados responsáveis do regime deposto. Os padres continuam a ser humilhantemente despidos das suas vestes em plena rua, são tosquiados como se fossem gado e sovados a murro, estalo ou bastonada, sob o olhar indiferente de uma Guarda Municipal ainda ontem derrotada. Ardem conventos e claro está, os senhores do momento aproveitam para fazer mão baixa nos valiosos bens que encontram portas adentro. Missais preciosos, iluminuras, inconábulos, tudo é roubado ou destruído. Na calçada estão já em cinzas, telas de mestres portugueses dos séculos XV ao XVIII e figuras religiosas de santos em talha são despedaçadas sem olhar pelo menos, ao seu valor patrimonial. Outra nota absolutamente iníqua e revoltante, é o facto do surgimento de bandos armados que confiscam as bandeiras nacionais, que após ardem em crepitosos autos-da-fé nos Restauradores e Rossio e tudo isto sem que o pusilânime exército tome uma atitude. É a selvajaria mais infrene que campeia em toda a sua violência primitiva, no meio de dichotes e cantorias com as estrofes mais reles que se possa imaginar. As freiras são tratadas como se prostitutas fossem e são despojadas dos seus bens, postas na rua sem apelo. É este o novo Portugal. Um pouco por todo o lado, meliantes armados de martelos, destroem as coroas que encimavam os escudos nacionais dos edifícios públicos e isto, segundo alguns decentes transeuntes me disseram, para o costumeiro fingimento de obra feita. Assim, dentro de algumas décadas, um povo estupidificado por uma pretensiosa elite de escroques, pensará que tudo aquilo que existe, tem a autoria dos santarrões adoradores da estrangeira Marianne. Simultaneamente, grupos de caceteiros invadem as residências de conhecidas figuras da sociedade lisboeta, forçando os atemorizados proprietários a tapar com panos negros, os brasões que durante séculos adornaram as fachadas. Parece aos olhos do mundo, que o país morreu ou está de luto e sem disso ter a consciência, são os próprios cangalheiros que fazem a festa e se ufanam com o funeral das suas próprias vidas de homens livres. Vou partir, nada mais tenho para fazer aqui, num país que se rebaixou à condição de tugúrio mal frequentado. Até os cabecilhas do novo regime já assumiram sem pejo a sua herança de mau agouro, pois organizam-se procissões comandadas pelo directório republicano, que ao cemitério do Alto de S. João, situado nos arrabaldes da cidade, vão prestar homenagem aos regicidas de 1908. E nem é preciso procurar muito para encontrar a perfeita sintonia que impera naquelas hostes, uma vez que os retratos dos assassinos surgem nas pagelas profusamente distribuídas pelo partido, ao lado dos mais conhecidos dirigentes, como o Costa, o Almeidaou o Bernardino. Estranhamente, fazem-me de imediato recordar uma certa espécie de gente que tive a ingrata oportunidade de observar na Sicília, quando da minha visita aos monumentos mais importantes da antiga Magna Graecia. O mesmo olhar turvo e reservado, semblante raivoso e arrogante aspereza nas atitudes. São estes os grandes homens que querem governar o país e para confirmá-lo, já fizeram içar por todo o lado o miserável trapo do partido que pretendem ver consagrado como nova bandeira nacional. Chegarão a tanto?

A caminho do cais, continuam as mesmas cenas acima descritas e pasme-se, uma reedição tardia do Carnaval, desta vez em Outubro. Surgem por todo o lado crianças com aspecto de sopeirinhas vestidas de ... república! Incrível mas absolutamente verdadeiro, mais parecendo viciosos duendes mascarados de carrascos de boné vermelho, tal o grotesco das figuras. Tudo isto é bastante ordinário e descoroçoante e passa-se já em pleno século XX.! Atrasados, atrasados, o rei Carlos tinha razão quando afirmava que há males que de longe vêm.

Agora, uma das primeiras atitudes das autoridades é rastejar perante o nosso país, de quem tripudiaram durante décadas. Suprema hipocrisia, protestam a sua fidelidade aos ingleses, fazem por esquecer quarenta anos de agravos e de suicida loucura que nos obrigou a um indesejado Ultimatum. Suspeito que cairão em todo o tipo de torpezas para conseguir o reconhecimento internacional que ninguém no seu perfeito juízo parece, por agora, disposto a conceder-lhes, tal a má reputação desta autêntica cambada de néscios.

Tendo finalmente embarcado para Portsmouth, fico a pensar como será este país dentro, digamos, de cem anos? Terá conseguido esquecer toda esta violência, desperdício de energia e falta de respeito por si próprio e por uma história sem igual? Terá concedido de forma pacífica e ordeira a independência ao seu imenso império colonial que logicamente um dia se emancipará tal como a monarquia o soube fazer relativamente ao Brasil? Terá finalmente atingido o nível de desenvolvimento dos seus parceiros europeus de quem lenta mas inexoravelmente se ia aproximando? Consolidará uma democracia, ou passará por uma ininterrupta e mortífera série de revoluções, golpes de Estado, assassinatos de homens públicos, ruína financeira, corrupção e generalizada miséria? Não acabará tudo isto pela instauração de uma ditadura que se eternizará no tempo e nos espíritos?

Já a caminho da barra, olhei em direcção à popa e pela última vez vi Lisboa. Pareceu-me estranha. Já não era a mesma cidade refulgente de luz branca que tinha encontrado há apenas alguns dias. O sol poente tingia-a de uma luz avermelhada, como se um imenso incêndio a abrasasse.

Diário de N. White Castle: Lisboa, 4 de Outubro de 1910

via Estado Sentido de Nuno Castelo-Branco em 05/10/08

Durante a madrugada de hoje, não consegui adormecer devido ao tiroteio perfeitamente audível na Baixa. Subitamente, o pessoal do hotel decidiu fechar as portadas, evitando tiros perdidos. Sentimos o passo apressado dos militares da Guarda Municipal que ocupavam posições na Praça dos Restauradores, enquanto corriam boatos contraditórios acerca da adesão ou passividade dos regimentos aquartelados na capital. Tínhamos a perfeita consciência de que por muitas bombas artesanais que pudessem arremessar, os chamados anarquistas e carbonários - eufemismo pelos quais os republicanos se faziam tratar -, jamais poderiam conseguir qualquer resultado positivo face ás tropas de linha, bem armadas, organizadas e municiadas. O factor vital consistia na capacidade de decisão dos comandantes e pelo que ouvira da boca do coronel Cunha, a obediência à hierarquia era um facto. Desta forma, continuei seguro de uma rápida extinção do movimento subversivo que politicamente, teria de ter consequências na ordem interna. Julgava muito candidamente, ter agora o governo a oportunidade única de decretar a imediata expulsão da camarilha do directório do PRP que já há quase três décadas impedia o normal funcionamento das instituições. Muito a propósito, entabulei então conversa com um francês que há muito residia neste hotel e que para meu espanto, está plenamente convencido da inevitabilidade da derrota monárquica. Procurando retorquir com o evidente carácter minoritário e local dos republicanos, respondeu-me exactamente aquilo que todos os estrangeiros consideravam um sinal evidente: no dia 1 de Fevereiro de 1908, sendo demitido João Franco das suas funções de presidente do Conselho de Ministros, assinara-se assim a queda do regime. Condescendera-se com os criminosos, permitira-se o enxovalho público do rei, da sua família e da própria ordem constitucional. E voltando-se subitamente para mim declarou:

"Olhe que esta situação não é nova! Vivo neste país há quinze anos e o que tenho assistido durante todo este tempo, prova sobejamente tudo aquilo que lhe disse!" Dito isto, pediu-me para o acompanhar ao seu quarto, onde me mostrou alguns volumes com recortes de imprensa, cópias de actas de sessões parlamentares e uns quantos livrinhos mal amanhados que me informou serem propaganda paga pelo PRP.

" - Está a ver esta colecção? Desde já lhe digo, cher ami, que é um autêntico libelo de acusação do criminoso processo de sabotagem do Estado constitucional. Consiste num aterrador dilúvio de todo o tipo de infâmias inimagináveis além-fronteiras! Olhe e leia com atenção! Por exemplo, aqui estão excertos de alguns discursos do António José de Almeida no parlamento. Acha isto possível em qualquer país civilizado? Já viu em que termos esta gente se refere à rainha e ao resto da família? E o Costa, sabe quem é?"

Dito isto, acrescentou: - "é uma das mais desprezíveis, cobardes e turvas criaturas que conheci em toda a minha vida. Homem capaz de todas as vilanias, de um egoísmo à prova de qualquer análise de foro psicológico. Acredito no que lhe digo. Esta gente não presta, é má, incompetente e tornará a vida deste país num inferno! Por exemplo, já ouviu falar deste exemplar de literatura de cordel? É o famoso Marquês da Bacalhoa que arrastou até ao precipício a reputação da rainha e da sua entourage. Coisa mais infame é difícil de conceber e claro está, tem a chancela do directório do PRP, disso não existe hoje qualquer dúvida! Questiono-me quotidianamente acerca da atitude que as potências tomarão perante a quase certa vitória final destes bandidos e sempre lhe vou garantindo - rivalidades históricas à parte - que muito mal faz o governo de Londres em não intervir decididamente, pois o que está em causa, é também a segurança do flanco peninsular da nossa Entente Cordiale que no rei Carlos tinha um firme esteio. Com esta gentinha no poder, não poderemos contar com um exército português capaz sequer de garantir a inviolabilidade das fronteiras das suas extensas colónias africanas. Veja bem o enorme perigo que isso representa para o Império Britânico. Terão enlouquecido em Westminster?!"

Questionei-o então, cerca da verdadeira situação que o país vive, pedindo para se abstrair um pouco da guerrilha da propaganda. Respondendo, foi dizendo ..."pede-me o impossível, pois aqui é impensável tomarem-se medidas sejam elas de que carácter forem. Vigora a política da terra queimada e na verdade, só a instauração de um novo modelo constitucional que exima o soberano do jogo partidário - à semelhança daquilo que acontece na Inglaterra - poderá tranquilizar os espíritos. No entanto, os partidos nada mudarão, pois a garantia do seu sustento são os rendosos lugares proporcionados pelo exercício do poder político. O que pensa você pretenderem os ditos republicanos que aliás têm sido muito beneficiados pelos partidos rotativos? Até hoje têm sido uma arma de arremesso de ambos, na feroz disputa pelo governo e nada mais que isso! No plano social, Portugal, sendo um país de escassos recursos materiais, não está assim tão atrasado como parece à primeira vista. Possui institutos e infraestruturas. Se você quiser, pode escolher hoje ir à Ópera, ao teatro de variedades ou tão só deleitar-se com uma representação clássica. Existem boas livrarias com todas as novidades que do estrangeiro chegam. A imprensa é livre e se existe censura, esta é sempre a posteriori, quando o mal já está dito e feito. Sempre quero ver o que os ditos republicanos farão com a liberdades de imprensa de que o país ainda beneficia... tenho sérias e razoáveis dúvidas quanto a tudo isto, para nem sequer mencionar a questão eleitoral"...

Esmagado pelas inesperadas revelações, decidi perguntar a sua opinião sobre a reacção possível das forças armadas:

- "Olhe, essas também estão em dúvida, porque desde o assassinato do rei, a impunidade da propaganda nos quartéis granjeou-lhe a progressiva deterioração do respeito á hierarquia. Aqui também nada de bom parece podermos esperar. Não se trata de uma questão de cobardia, mas sim de puro e simples laissez-faire, oportunismo, falta de sentido daquilo que verdadeiramente interessa e consequentemente, talvez aceitarão a nova situação sem se manifestar... enfim, mais uma vergonhosa ignomínia!"

Soubemos então do motim a bordo de alguns dos cruzadores da armada, pelo que considerámos tornar-se de hora a hora, mais crítica a situação das forças leais ao regime. Apanhadas entre dois fogos, a única solução seria tomar de assalto a posição dos revoltosos na Rotunda, ao cimo da Avenida da Liberdade. Do directório do PRP nada se sabia, sendo muito provável uma fuga ou esconderijo enquanto espera o desenlace dos acontecimentos. A posição das unidades militares da área de Lisboa é totalmente desconhecida e suspeitámos que o silêncio indiciava a pura abstenção. Contudo, o resultado da luta ainda parecia incerto, dada a resistência oferecida pelas tropas realistas que acabaram por confinar os revoltosos à Rotunda. Tudo parecia possível ou provável e claro está, a situação residia única e simplesmente na decisão dos militares em intervir, esmagando a sedição. O porteiro do hotel acabou finalmente por nos informar que um dos caudilhos republicanos, o almirante Reis, se tinha suicidado, ao que parece por julgar perdida a causa.

Os períodos de intensa fuzilaria - quase sem baixas de parte a parte, há que afirmá-lo - alternavam com outros de aparente calma. Surpreendentemente, soubemos que ambos os lados recebiam visitas de populares, como se de uma festa ou romaria se tratasse. Aquele que vencesse, contaria com a imediata adesão das massas citadinas, sempre prontas a festejar o herói do momento, o que dava a esta situação, uma nota de ópera bufa.

Tentei durante algumas horas, telefonar para a nossa Legação, sem que tal fosse possível e assim, já a altas horas da noite, decidi ir uma vez mais a casa do coronel Cunha, procurando obter o máximo de informações credíveis. Tocando a sineta, mal pude acreditar quando o próprio me veio abrir a porta, em roupão. Da forma mais amistosa que lhe foi possível, convidou-me a entrar e pelo caminho até ao salão foi dizendo que nada sabia do que se estava a passar.

- "E a sua unidade"?, perguntei-lhe incrédulo.

- "Lá deve estar, de portões fechados e aguardando os acontecimentos"...

- "Aguardando os acontecimentos?! Mas não era suposto V. Exa. encontrar-se neste preciso momento à frente do seu regimento, honrando o juramento que fez questão em reafirmar há apenas 48 horas?!"

Empalidecendo, o coronel Cunha balbuciou algumas palavras incompreensíveis e depois, de forma mais decidida, concluiu a nossa rápida entrevista, apontando-me o caminho da saída:

- "Sabe, o meu compromisso é para com o país e não com este ou aquele regime. Os juramentos são feitos a uma determinada situação de um momento preciso. Se amanhã tivermos de proferir um outro, paciência"...

e encolhendo os ombros, deixou cair mãos, dizendo ..."é a vida"...