via Sopas de Pedra de A. M. Galopim de Carvalho em 13/09/09
– Quieres un helado, hijo mio? No le digas nada, que te dé um regalo.
Nesse tempo os homens saíam sempre depois de jantar. O meu pai reunia-se com os amigos na Sociedade e aí passava o serão, as mais das vezes, em torno do bilhar. Vê-lo jogar era uma festa, sempre animada por assistência numerosa e atenta. Vê-lo ganhar enchia-me de uma vaidade gostosa. Ouvir os elogios do outro jogador, acompanhados das convencionais pancadinhas com o taco no soalho, em sinal de aplauso, faziam-me transbordar de satisfação. Tantas vezes que, nas séries de duzentas carambolas, ele as fazia de seguida, sem que o companheiro tivesse tido oportunidade de pegar no taco. As bolas, a puxar e a seguir, com massés, tabelas secas ou outras habilidades, acabavam sempre por se juntar num canto. Aí, o meu pai iniciava a "série americana", algo monótona, diga-se, mas de uma precisão extrema. Sempre juntas, as três bolas, tacada a tacada, iam dando a volta à mesa. E se alguma se afastava demasiado, era de imediato recolocada no devido lugar com uma tacada aberta que a enviava e trazia de volta, a morrer, como se dizia. Havia sempre um voluntário que, no final, contava em voz alta as derradeiras carambolas.
–... cento e noventa e sete, cento e noventa e oito, cento e noventa e nove... duzentas!
– Boa tacada! - Gritava alguém, excitado pela qualidade da última carambola, espectacular, de amplo desenho geométrico, alargado às várias tabelas.
Seguiam-se os aplausos, ruidosos, as felicitações e os comentários, só então se quebrando o silêncio em que decorriam as partidas.
– E tu, já sabes jogar? – Perguntou-me, um dia, o senhor Firmino, colega de emprego do meu pai, acrescentando – Filho de peixe sabe nadar.
Eu apenas sorria, vaidoso, encolhendo os ombros e olhando para o pai como que esperando que respondesse por mim.
– Lá irá, lá irá – dizia ele, rematando com uma frase que só mais tarde entendi. – Os chaparros crescem e as azinheiras minguam.
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